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3 À IMPOSIÇÃO AOS TERRITÓRIOS.

FOTO 04 – Cana de açúcar e Eucalipto na zona rural de Lagoa de Itaenga (PE) (2)

4.2 RECONSTRUÇÃO DO PROCESSO DA EXPERIÊNCIA DA ASSIM

4.2.1 Um maior enfoque a partir dos colaboradores externos

Como já falamos anteriormente, na ASSIM,

Todas as famílias envolvidas no trabalho tem histórico de relação de dependência com a cana-de-açúcar até o final da década de 90, quando algumas famílias receberam um curso de formação em agricultura orgânica por uma OSCIP, [o] Serviço de Tecnologias Alternativas – SERTA (...). (SILVA et al., 2018, p.3)

Uma OSCIP é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, e o SERTA foi de fato o colaborador externo que teve um papel importante no pontapé inicial junto à ASSIM. Aqui já cabe uma primeira reflexão. O SERTA é uma OSCIP, e autodeclara sua intenção de

Formar jovens, educadores/as e produtores/as familiares, para atuarem na transformação das circunstâncias econômicas, sociais, ambientais, culturais e políticas, na promoção do desenvolvimento sustentável, com foco no campo. A organização foi fundada em 1989 a partir de um grupo de agricultores, técnicos e educadores que desenvolviam em comunidades rurais uma metodologia própria para a promoção do meio ambiente, a melhoria da propriedade e da renda e o uso de tecnologias apropriadas. Desde sua origem, teve como foco o desenvolvimento e reconhecimento da importância da agricultura familiar. (SERTA, 2018)

Assim, em entrevista, o representante escolhido por nós do SERTA colocou que

O SERTA, desde cedo, a bandeira do SERTA, acho que o mote do SERTA maior é educação, né? Educação e agroecologia, num é? Então, assim, desde cedo uma das, um dos marcos que o SERTA tem feito foi formação com os jovens, os agricultores, e a gestão da associação da ASSIM. E aí essas atividades de formação foi desdobrado em várias iniciativas, assim... No início foi a formação dos agricultores, acho que [um agricultor] até dizia, em outra ocasião, que foi uma das primeiras, ou foi a primeira, formação sobre agricultura que os agricultores da comunidade receberam, acho que por volta de 2000... Onde a ASSIM ela existia, a base de comunidade existia, os agricultores tinham a sua dinâmica de formação, mas essa visão de emergir no campo da agricultura orgânica, da agricultura agroecológica, no uso de algumas tecnologias que pudessem ajudar no dia a dia, eles faziam, mas faziam do seu jeito, da sua forma, dentro das suas possibilidades, dentro de seus limites. E essa capacitação, que foi uma das primeiras, veio pra, primeiro pra despertar, quem tem interesse... (...) Quando a mãe de [uma agricultora] dizia que, várias vezes eu tive a oportunidade de perceber isso nela, esse abraço de alegria, de dizer que naquela ocasião ela passou a enxergar coisas que ajudou eles a manterem, se manterem na propriedade, né? E aí teve algumas atividades mais de gestão, teve mais de formação, e mais de gestão, que a gente, naquela ocasião, a gente não tinha ainda as expertises, como hoje, mas a gente tinha um processo de formação muito voltado pra formação de comitês gestores locais, né? A gente teve a oportunidade de ter um projeto, onde a gente construiu algumas iniciativas de formação da gestão da associação, pra gerir alguns fundos que pudessem apoiar na produção e na estruturação das propriedades familiares.

O SERTA então, em seus valores, busca auxiliar uma melhor estruturação da agricultura familiar sustentável. Para isso, realiza capacitações, formações, assessoria técnica,

construção de tecnologias para os contextos territoriais, facilitação da autonomia de agricultores e agricultoras, assessorias em questões produtivas, mas também de gestão. Enfim, em suas ações e reflexões possui essa identidade e a ela busca fortalecer na disputa social pela construção dos territórios.

Se faz importante compreender os valores do SERTA pois estes valores estarão em suas atividades e com isso adentrarão os territórios onde estas acontecem. Isso se repete entre os demais colaboradores externos que atuam junto à ASSIM e foram analisados durante a sistematização. Ou seja, eles não chegam aos territórios passivamente questionando se querem alguma ajuda. Ao contrário, possuem projetos políticos de construção da vida, e é a partir destes projetos, e no intuito de os fortalecer, que buscarão construir parcerias nos diversos territórios. Existe, entre estes colaboradores externos, uma clara intencionalidade política de construção de outras territorialidades, diferentes das hegemônicas do capitalismo e do agronegócio da cana. Desta forma, o diálogo de saberes se concretiza no sentido de fortalecer a organização coletiva por questões que envolvam os “dois lados” do diálogo, ou seja, o diálogo de saberes é visto como importante para agricultoras/es e também para as/os colaboradores externas/os.

Dento da abrangência maior da ASSIM, que não se resume a seus sócios, o atual presidente da associação acredita que 90 famílias das comunidades envolvidas são beneficiadas pela experiência da associação. No entanto, hoje 41agricultoras e agricultores das comunidades envolvidas são sócios formalizados da ASSIM, divididos em cerca de 30 famílias. Em sua maioria não tinham histórico de uso de veneno e adubo químico em suas propriedades, apesar de terem o das queimadas. No entanto, como falado pelo representante, é com a construção da parceria com o SERTA que algumas e alguns primeiros agricultores associados vão fazer uma formação em agricultura orgânica, e com isso iniciar o processo de fortalecimento de uma nova identidade territorial para si, a partir de novos conhecimentos teóricos, práticos, novas ferramentas disponibilizadas, formações, capacitações. A parceria com o SERTA, além de trocar conhecimentos e experiências, desenha novas possibilidades de vida no horizonte para comunidades de uma zona rural secularmente vista apenas pelos olhos colonizados de uma única suposta “vocação natural”. É o que nos mostra o seguinte trecho de entrevista junto a uma agricultora associada da ASSIM.

[Um agricultor] começou a estudar lá no SERTA, num curso que teve lá, de agroecologia, aí foi aonde a gente começou a se envolver, trazer pra dentro da associação... Por que na época, a associação existia, tinha alguns sócio, mas não tinha jovem... Não tinha... As mulher que tinha só era pouca... (...) E aí depois já

começou, [um agricultor] começou no SERTA, aí trouxe pra cá, e os pessoal começaram a criticar, que não ia dar certo... E a gente começou prantando... Prantando, prantando, chamando a gente de doido, de louco, e aí começou, né? Os pessoal começou olhando, começou vendo, num é que as coisa parece que tá dando certo? Aí os pessoal de [outra família agricultora] começou a entrar, isso no ano acho que de 2001, 2002... Aí os pessoal começou se envolvendo também, aí a associação já era parada, aí já começou a levantar, caminhar um pouquinho. Aí começou a caminhar um pouquinho, entrou [outro agricultor], depois entrou [outro agricultor], e a associação foi caminhando. Porque, quando eu cheguei aqui, não tinha envolvimento nenhum não, o único envolvimento que tinha só era a igreja. Terço de meio de maio, terço de quaresma, São João, e natal, e algumas missa, assim, que acontecia durante o ano. Aí depois que foi se envolvendo com o SERTA, aí começou a ir pra feira, os menino saía aqui de madrugada e ia pra feira... Aí depois veio a universidade fazer a pesquisa, aqui na comunidade. E aí eu vendo como o território hoje, a nossa comunidade caminhou muito, o antes e o depois.

Os trabalhos iniciais junto ao SERTA foram para uma transição pessoal e comunitária entre as agricultoras e os agricultores, para que esses construíssem a possibilidade de viver como tais. No começo, as formações não eram pensadas a fins comerciais, de mercado, como se percebe com a colocação deste jovem agricultor associado:

Eu comecei a fazer a formação do SERTA, né, de penetra, porque eu ainda era criança, aí pra não ficar em casa eu ia com a minha mãe... Aí eu escutava muito isso lá, que a base de tudo, o começo, foi pra gente produzir pra se alimentar, aí hoje a gente tá vendendo o excedente.

Facilitando à ASSIM adentrar numa rede da agricultura sustentável, no ano de 2001 o SERTA conectou a associação à primeira feira da qual ela participou, a feira orgânica de Boa Viagem, um bairro do Recife (PE). Segundo o representante do SERTA não se conseguiu comercializar em Lagoa de Itaenga, e foi então preciso escoar os excedentes para fora do município, para a capital, como mostra trecho de sua entrevista.

As primeiras feiras que a ASSIM saiu, né, a gente, teve várias, que teve iniciativa... Mas foram iniciativas que antes o município não acatava, e até hoje tem dificuldade de acatar, mas quando se falou em fortalecer iniciativas fora do município, foi dando certo.

No entanto, a feira não foi o único local de escoamento para os excedentes das produções dos e das associadas. Por um tempo fizeram parte também de uma cooperativa de produtores orgânicos, a Ecoorgânica, da qual tiraram várias lições, inclusive a da importância da construção de mercados com uma identidade construída a partir dos ideais desta agricultura que então era chamada de orgânica. Os supermercados, mercados convencionais de cunho capitalista, não são espaços de trocas flexíveis. Ao contrário, têm em sua essência um objetivo único e de lógica calculista: racionalizar ao máximo a gestão pelo olhar de minimizar os gastos e maximizar os lucros. Não existe um ideal social, uma intenção de promoção da solidariedade, ou da saúde humana e ambiental. Assim, discorrendo sobre a experiência da cooperativa da qual a ASSIM participou, o representante do SERTA nos exemplifica que,

Por exemplo: a cooperativa tinha uma ambição, uma meta, de comercializar em torno de quatro toneladas de produtos. E tinha um veículo que coletava os produtos, tinha a estrutura que agregava valor, fazia a higienização, e tal, e que encaminhava pra rede Carrefour, pra rede do Bompreço, e tantos outros. Um dos primeiros desafios, assim, que eu acho que serviu pra, acho que foi pra todo mundo, foi o padrão de classificação dessas redes de supermercado. Quando você colhe do agricultor, da propriedade, pra chegar na Ecoorgânica, chegava um produto... Da Ecoorgânica, pra chegar no supermercado, na rede de supermercado, tinha um padrão, tinha um setor lá de classificação, que só aceitava os produtos que era os melhores, e que tava dentro dos parâmetros deles. Então não aceitava qualquer copa de alface, não aceitava qualquer tamanho de cenoura, ou qualquer tamanho de banana, isso era um padrão mercadológico. E o que acontecia? Os agricultores forneciam pra Ecoorgânica, a Ecoorgânica tinha uma promessa de pagar com 30 dias, só recebia da rede de supermercado com 45 dias, entre 30 e 45 dias... O que acontecia? Os produtos que chegava na Ecoorgânica, e ia pro mercado... Os mesmos que iam pro supermercado não eram os mesmo que chegavam, porque tinha uma perda grande. O padrão de classificação lá não aceitava os tamanhos. E esse foi o primeiro embate. Esse setor, esse maldito setor de classificação, foi que já começou a dar os entraves. Porque isso tinha repercussão no pagamento com os agricultores... Isso tinha repercussão com a entrega, porque eles, quando ia entregar, tinha pedido cancelado, tinha pedido em atraso... Quando chegava lá, a verdura chegava atrasada, o caminhão entrava, não tinha privilégio, entrava na logística de vários outros caminhões, tinham 5, 6 caminhões lá, esperando pra descarregar. Esse foi um primeiro entrave, assim, que acho que foi um aprendizado pra todo mundo. Acho que qualquer agricultor, associação, que entrar pra atender o mercado, tentando se adequar às exigências do mercado, a certeza é que vai ter problema. Porque é mais fácil o mercado se adequar ao perfil do agricultor familiar. Porque o mesmo alface que é produzido na ASSIM não era o mesmo que era produzido em Vitória [PE], que não era o mesmo produzido em Pombos [PE], que não era o mesmo produzido em Feira Nova [PE], e nem o mesmo produzido em Glória [PE]. Mas, pra o mercado lá, pra rede de supermercados, eles só queriam os produtos tudo igual, e toda a filosofia debatida [na cooperativa] era que os produtos não tinha tamanho, mas tinha qualidade. Ou que não tinha a estética esperada, a escala esperada, mas tinha o padrão de qualidade, que era uma alimentação saudável e que vinha dos agricultores familiares. Esse foi um principal aprendizado, que isso desdobrou vários conflitos, né?

Com a fala se percebe então que não basta a transformação na produção. Se a busca é pela saída da realidade da canaé preciso ir mais além, pensar essa transformação a partir da economia da ASSIM, em seu sentido mais amplo debatido no segundo capítulo. No entanto, os agricultores e as agricultoras associadas na ASSIM haviam há tempos in- corporado uma série de territorialidades da plantation da cana. Disso se fortifica a importância da inserção em uma redede atores que concretizem experiências e aprendizados de uma outra forma, política em si, de construir a vida, que não a do agronegócio capitalista, e assim contribuam para a construção de novas territorialidades. Uma rede que coletivamente construa junto à ASSIM experiências que territorializem essas outras territorialidades. Com isso, além do SERTA, um importante colaborador externo da ASSIM foi a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares, a INCUBACOOP, sediada na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que junto à ASSIM atuava a partir de três diretrizes: a) agricultura agroecológica; b) beneficiamento de alimentos; e c) associativismo e cultura.

A INCUBACOOP é uma ITCP (Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares), que são estruturas existentes no seio de universidades buscando atuar a partir do tripé ensino-pesquisa-extensão para estabelecer trocas de mão dupla entre a universidade e a sociedade a partir da economia solidária. Estas incubadoras são experiências já presentes na literatura sobre economia solidária, e o professor Guilherme Soares (2007), em livro publicado a mais de dez anos, apontava três fases principais para a atuação de uma incubadora junto a um empreendimento solidário: uma fase de implantação, uma fase de desenvolvimento, e uma fase de desincubação. Na literatura se fala bastante sobre essa fase de desincubação, como uma necessidade para que os empreendimentos solidários consigam continuar com as próprias pernas. No entanto, ao entrevistarmos o mesmo professor Guilherme, no decorrer da sistematização, enquanto escolhido por nós para representar a INCUBACOOP, este nos colocou que, a partir da experiência da ASSIM, ele tem repensado a questão da desincubação. Assim, discorrendo sobre o papel da INCUBACOOP junto à ASSIM, colocou que

(...) a ação nossa, basicamente, era essa, formação e assessoria, que eu acho que a ASSIM, ao longo do tempo, e uma discussão que a gente tinha muito na incubadora, era o momento da desincubação. Como a incubadora sair? Que momento ela sair? Isso foi um vazio que sempre existiu, eu digo um vazio teórico, de discussão. Porque a gente tinha muito claro, a ASSIM ela foi subindo de nível. Então a desincubação pra gente era um nível tal que ela, vamos dizer assim, ia ter outras demandas de assessoria e de formação diferentes de quem começasse daqui agora, entendeu? Mas isso não quer dizer que a gente ia ter que abandonar. E aí uma das coisas que eu avalio hoje, talvez tenha a ver com a primeira pergunta, é que a ASSIM, como qualquer associação ou cooperativa, não é só um privilégio ou uma necessidade de lá, é que ela sempre vai requerer assessorias... Aí, você veja, as empresas, empresas normais, não contratam consultores? Quando tão numa pendenga aí que não conseguem resolver, ou um processo, outra coisa, tem sempre uma assessoria, um consultor lá. Porque que as organizações coletivas elas também não vão requerer isso? Talvez esteja, aliás, talvez, não! Está dentro de um escopo das funções das organizações como a rural, o SERTA, a diaconia, o Sabiá, esse papel fundamental, que é de assessoramento. E esse é um papel que não pode faltar nessas organizações. Se faltar, na medida em que elas vão subindo o degrau, elas vão parar, ou vão retroagir, porque vão se expor a situações que vão requerer olhares diferentes, vão requerer habilidades diferentes, e, aí, quem tá fora, talvez possa ajudar mais, entendeu? Então a incubadora... Eu, eu tinha muito claro o nosso papel lá. E a ASSIM ajudou demais a rural [UFRPE]... Eu acho que tem o outro lado, sabe? Que é o quanto a ASSIM, a experiência lá, da comunidade, ajudou na formação dos alunos da rural [UFRPE].

Se faz interessante então olhar para essas parcerias junto aos colaboradores externos enquanto parcerias, e não enquanto dependência. Isso pode fazer toda a diferença, e se constroi a partir da intencionalidade dos colaboradores e da autonomia dos empreendimentos em organização coletiva. É preciso ativamente construir parcerias que não gerem dependências, mas trocas, sempre vistas enquanto trocas de mão dupla. Isso, quem vai

acabar delimitando, vão ser as e os associados e os próprios colaboradores externos. As vivências de cada grupo, e seus ideais, seus desejos, suas vontades, vão dar força, ou não, à experiência construída. Mas se os colaboradores externos são importantes, os diretamente envolvidos na experiência são ainda mais, por serem eles os também diretamente afetados pelas consequências das ações. São eles que vão continuar vivendo o mesmo território, ou um território transformado, e assim são eles que, mais fortemente e para fortalecer a organização coletiva, precisam se apropriar do processo de construção e de sua importância, como bem colocou um dos agricultores em entrevista.

Olha, eu achei muito importante essas parceria, né? Cada um a gente poderia tá definindo aqui de qual a participação. Mas eu acho que eu destaco, aqui, de todos importantes, mas eu destaco o primeiro o SERTA, que deu o pontapé, e a INCUBACOOP, através da universidade, que fizeram um trabalho, assim, mesmo de... Assim, de a gente mesmo voar, tá entendendo? De a gente voar, de a gente conhecer, de a gente se destacar, né? Dando oportunidade de a gente se representar, de a gente apresentar a instituição. Mas, eu também trago, assim, outros parceiros que também contribuíram com a gente, né? [Agora], mesmo todos esses parceiro participando, tando com a gente, mas se a comunidade não tivesse essa força de vontade, de libertação, né? De libertação, de outra, de aceitar outras oportunidades... Porque muitas vezes, por exemplo, eu vou dar o exemplo aqui da INCUBACOOP. Na mesma hora que a INCUBACOOP nos assessorou, também assessorava Chico Mendes [um assentamento do MST], lá em Pombos [PE]. Todas as ações aqui se desenvolvia, e lá em Chico Mendes não se desenvolvia. Aí terminou abandonando Chico Mendes e ficando só com a gente. Quer dizer, é muito querer da comunidade, tá entendendo? E muito também é daquela questão de quem tá, também, dos atores que tão envolvidos... Dos atores que tão envolvidos querer. Eu acho que a nossa história, por ser uma história de ter vindo da cana de açúcar, de um serviço árduo, né? De um serviço que ninguém... Faz, porque é o jeito, Hugo, mas ninguém gosta. E eu, hoje, como representante do sindicato, eu defino que é um trabalho escravo, não acabou-se. Assim, hoje o cara num tá com uma corrente, hoje o cara num tá com um chicote, feito era de primeiro, mas eu ainda defino o trabalho do corte da cana como trabalho escravo. Tá entendendo? Porque as pessoa ainda descumpre muito a legislação dentro da cana de açúcar. Esse histórico de cana teve influência sim dentro da comunidade, porque o pessoal começava a perceber que é muito mais importante se trabalhar pra si só, trabalhar pra você, no que é seu, né? De que você tá prestando serviço a outra pessoa. E o rendimento mostrou isso, a liberdade mostrou isso, né? A capacidade de você se valorizar mostrou isso. (...) E eu acho que foi isso, eu acho que o resgate, a situação que a gente passou na cana, eu acho que nos ajudou muito, nos ajudou muito a gente trabalhar esse processo. Precisa melhorar, precisa melhorar, precisa mais, assim, sei lá, mais entendimento... Porque alguns entende mais ainda do que é um processo coletivo, outros entende menos. Mas eu acho, acho que a gente tem muito resultado, tá entendendo? Tem muito resultado positivo dentro desse processo.

É então essa mistura de ações, reflexões, e disposições da própria associação, somada à mistura dos colaboradores externos, que vai ter forte influência sobre a experiência construída. A comunidade precisou encontrar em si a vontade de querer construir sua experiência em organização coletiva. Na ASSIM, como colocou o agricultor no trecho que acabei de citar, o histórico opressivo no trabalho da cana tem influência em fortalecer nas e

nos agricultores essa vontade, ou até mesmo necessidade, de estabelecer uma experiência que construa novas possibilidades de vida.

No entanto, nada foi assim tão fácil e claro. A colonização por umasuposta“vocação natural” para o trabalho na cana é forte, como mostrei ter sido influente na cooperativa de Tiriri que citei no capítulo anterior. Muitos agricultores não acreditavam que novas experiências poderiam engendrar de fato um outro tipo de vida. Muitos desacreditaram os poucos primeiros que fizeram a formação no SERTA, e estes últimos, frequentemente, eram vistos como loucos, buscando inovar em algo que jamais daria certo. No sentido do eixo central que direcionou esta pesquisa (como a nossa caminhada ajudou a

fortalecer a organização coletiva para viver bem no território?), aqui já se percebe que para