Após o impeachment, PO evitava a imprensa e o assunto, buscando se dedicar ao que lhe restava do seu primeiro mandato e a algumas das bandeiras que defendeu na campanha. Na sua primeira proposição, tentava criar a Guarda Costeira, que teria a atribuição de ser uma espécie de polícia naval, cuidando das fronteiras marítimas do país; o projeto foi arquivado. No seu segundo projeto de lei, ele inicia a luta que marcou a sua história parlamentar e pessoal: a defesa de Brasília como sede dos órgãos federais, o que lhe rendeu desafetos da classe política do Rio de Janeiro, local onde a maioria das instituições públicas estava sediada.
À época, em 1993, sem cacife político e desgastado por fazer parte de um governo imerso em escândalos, seu projeto foi arquivado sob o argumento de que se tratava de matéria exclusiva do presidente. Em 1992, ainda no meio da turbulência política, PO inicia uma campanha para que os Jogos Olímpicos fossem realizados no Brasil no ano de 2000, tendo Brasília como sede. Essa era outra de suas bandeiras: a de atribuir à Brasília a vocação de receber grandes eventos esportivos, especialmente as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
Isso advém de seu perfil bastante voltado aos esportes: já foi faixa preta de judô, campeão de automobilismo, de peteca, e pratica tênis e ciclismo. Ademais, nutre uma relação absurdamente intensa com a cidade: coloca-se como o seu maior advogado, promove a comemoração dos seus aniversários, exalta a saga da sua construção e dedica a ela uma enorme parcela da sua atuação na política. Em 1994, tentou impedir o restabelecimento, no Rio de Janeiro, da sede do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), mas também não obteve sucesso. Observe-se, na tabela abaixo, os temas que dominaram o seu primeiro mandato:
Tabela 1:Principais temas das proposições de Paulo Octávio na Câmara dos Deputados durante o seu primeiro mandato no período de 1991 a 1995
Temas Freqüência
Transferência de órgãos para Brasília 3 vezes Criação de uma Guarda Costeira 2
Questões imobiliárias 1
Transporte 1
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Fonte: Congresso Nacional
Em sua única proposta de alterar a Constituição (PEC 193/1995), PO tentou instituir o sistema majoritário para a eleição da Câmara dos Deputados, pondo fim ao sistema proporcional. O projeto foi arquivado em 1995, com o fim da legislatura (Art. 105 do Regimento Interno). Com esse projeto, no entanto, PO não desejava contribuir para uma reforma política, mas, sim, evitar um vexame nas próximas eleições. Era sua intenção voltar à Câmara para um novo mandato, mas, embora ele figurasse nas pesquisas como um dos mais votados do DF, algumas forças estavam trabalhando contra ele.
PO acusou o velho amigo Luiz Estevão de infiltrar no PRN funcionários do Grupo OK, empresa de Estevão do ramo imobiliário, com o objetivo de tirar de PO a maioria no partido e prejudicá-lo na campanha. Com o controle da legenda, Estevão, segundo PO, impediu que o PRN fizesse coligações, o que tornava inviável a candidatura de PO. A discussão entre os dois continuou, até o rompimento das relações políticas e pessoais. Tornaram-se inimigos declarados, após muitas acusações de corrupção e ameaças de processo. Ao final, Estevão elegeu-se deputado distrital pelo Partido Progressista (PP).
Já PO acumulou duas derrotas. Não conseguiu aprovar o sistema majoritário para a eleição de deputados federais, situação que o permitiria contar apenas com os seus votos, sem depender da votação total do PRN. Depois, uma manobra do então amigo tornava impossível a sua reeleição. Sozinho no pequeno PRN, não obteve coeficiente eleitoral para se eleger, mesmo tendo recebido 29.369 votos, 10 mil a mais do que alguns deputados eleitos. Seu tempo de televisão era tão exíguo que os seus anúncios nos jornais convidavam o eleitor a conhecer ali o candidato que não podiam ver na TV.
Depois de 1995, ficou quatro anos sem mandato. Foi nesta época que conseguiu dar um impulso às suas empresas. Inaugurou o Brasília Shopping, em 1997; entrou no mercado de concessionárias de veículos; fez lançamentos como o Blue Tree Towers Alvorada, o Brasil 21 Business Convention Hotel & Flats, o Terraço shopping, o Taguatinga Shopping, a Quadra Parque, e muitos outros empreendimentos imobiliários. Nesta mesma época, em 1997, retornou ao PFL, e o antigo projeto de governar o DF começava a renascer.
Nas eleições de 1998 no DF, consolidou-se rapidamente uma polarização entre Joaquim Roriz e Cristóvam Buarque (PT). PO e José Roberto Arruda iniciaram uma disputa interna para decidir quem lideraria a chapa que se apresentaria nas eleições como uma “terceira via” às candidaturas de esquerda e direita. O PT e os partidos de esquerda apoiavam
97 Cristóvam; o PMDB e alguns partidos nanicos apoiavam Roriz; PSDB e PFL faziam a sustentação de Arruda, o candidato preferencial da coligação. PO, com menor apoio político, precisou se contentar com uma nova candidatura à Câmara dos Deputados.
Ele se elegeu para um novo mandato de deputado federal (1999-2003), com expressivos 73 mil votos pela coligação PFL/PSDB/PPS. Ingressou, novamente, na Câmara no momento em que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) assumia o seu segundo mandato, reeleito depois de vencer Lula no primeiro turno. Embora pertencesse a um partido da coalizão que reelegeu FHC, PO não tinha muito trânsito político com o presidente e com os seus principais correligionários, boa parte formada por políticos de São Paulo. A sua oportunidade de ouro havia, sem dúvida, sido interrompida com Collor.
O segundo mandato foi pouco afetado com crises políticas envolvendo PO, que ia tateando novamente a Câmara, para evitar novos deslizes. E aos poucos, buscava novamente as suas principais bandeiras e os temas pelos quais tinha interesse de atuar. O mais recorrente em suas proposições deles possui relação direta com a sua atividade empresarial: as questões fundiárias e imobiliárias. Ele tenta regular procedimentos, como a venda de imóveis funcionais da União; e promove audiências públicas para debater a questão da terra no DF. Veja-se, abaixo, todos os temas:
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Tabela 2: Principais temas das proposições de Paulo Octávio no seu segundo mandato na Câmara dos Deputados, de 1999 a 2003
Temas Freqüência
Transferência dos órgãos federais para Brasília 7 vezes Questões de moradia, imobiliárias e de construção civil 7
Juscelino Kubitschek 4
Recursos para Brasília 2
Mudanças no sistema político e eleitoral 2
Turismo 2
Combate e restrições ao consumo de álcool e drogas 2
Aniversário de Brasília 1
Recursos indiretos para as suas atividades empresariais 1
Homenagens a setores importantes 1
Lei de defesa do usuário de serviços públicos 1
Educação 1
Regulação da profissão de detetive particular 1
Meio ambiente de Brasília 1
Criação da carreira de auditor federal 1
Religião e ensino da Bíblia nas escolas 1
Mudança da nomenclatura de um cargo da Polícia Civil do DF 1
TV Câmara e TV Senado 1
Questões trabalhistas 1
Pavilhão para o presidente da Câmara 1
Fonte: Congresso Nacional
PO estava preocupado com o crescimento desordenado de Brasília, resultado da política do governador Joaquim Roriz, de grande incentivo à migração. Embora mantivesse estreitas relações com administrador da capital federal, PO começava a elevar o tom, revelando a sua insatisfação com as doações populistas de lotes de terra. Em abril de 2000, criticou contundentemente Roriz pela criação do Park Way, uma área residencial em que as construtoras de edifícios não entrariam. Em 2000, passou a defender o Fundo Constitucional do DF, alegando especialmente o crescimento desordenado do entorno.
Outra das suas maiores bandeiras foi a defesa de Brasília como local-sede obrigatório dos órgãos federais, interesse que já havia demonstrado em sua primeira campanha como candidato a deputado federal, quando propôs a “Operação Arrastão”. Convicto da importância dessa mudança para a capital federal, sete das suas proposições buscam modificar a realidade de órgãos ainda sediados no Rio de Janeiro, como o Tribunal de
99 Justiça Desportiva (TJD) e a Agência Nacional de Petróleo. Sem apoio político, PO não conseguiu concretizar a grande parte de suas intenções.
Em 1999 e 2000, teve embates com o então ministro da Saúde de FHC, José Serra, atualmente candidato a presidente do país, a respeito da pretendida instalação da sede da Agência Reguladora do Setor de Planos de Saúde no estado do Rio de Janeiro. Da tribuna da Câmara, repudiou as declarações de Serra ao jornal O Globo que argumentava que a agência deveria ser instalada no Rio de Janeiro para evitar interferências políticas. Como argumento, fazia referência ao fato de o presidente da República ter sediado em Brasília a Agência Nacional de Saúde (ANS) no texto de uma medida provisória.
Brasília tinha o maior de seus defensores e entusiastas dentro do Congresso. A cidade se transformava em objeto de luta política, pela qual PO dedicava uma significativa parcela de sua atuação parlamentar. Ele se apressou até para contestar uma afirmação do apresentador de TV, Jô Soares, na qual defendia o retorno da capital federal ao Rio de Janeiro e, em tom tradicionalmente espirituoso, sugeria que o melhor a fazer com a Esplanada dos Ministérios seria transformá-la em um grande cassino. Isso era demais para o bairrismo declarado de PO.
O discurso de reverência à Brasília levou naturalmente ao discurso de veneração ao fundador da cidade, JK. A partir deste segundo mandato, PO inseriu efetivamente o ex- presidente entre os seus principais temas no Legislativo. Colocou-se como guardião da sua memória e principal difusor de seu legado para a política brasileira e para o país como um todo. De certo modo, já procurava se posicionar como uma espécie de herdeiro político de JK – assim como faz Geraldo Alckmin (PSDB) em relação a Mário Covas e Aécio Neves (PSDB) em relação a Tancredo Neves.
Essa relação marcante com Brasília atingiu o seu ápice quando PO se casou com a neta de JK, Anna Christina Kubitschek Barbará, e teve com ela dois filhos, Felipe e André. Uniu-se à família do fundador da cidade, e este encontro resultou na procriação dos dois últimos herdeiros de JK, os derradeiros a carregar o forte sobrenome Kubitschek. Uma das suas primeiras ações agora como representante político de JK foi buscar respostas a uma polêmica muito mal resolvida na história do país: as causas da morte do ex-presidente.
JK faleceu em 1976, em um desastre automobilístico no quilômetro 165 da Rodovia Presidente Dutra, próximo à cidade fluminense de Resende. A sua morte sempre foi um ponto rodeado de polêmicas, como muitos outros na história política brasileira – é caso também do acidente aéreo que matou o ex-presidente Castelo Branco em 18 de julho de 1967,
100 quando um caça T-33 da FAB atingiu a cauda do Piper Aztec PA 23 no qual Castelo Branco viajava. A tese de morte acidental de JK divide espaço com aquela que afirma que ele foi vítima de um assassinato planejado pelos militares, para os quais JK era visto como uma ameaça desestabilizadora para o país. A maior suspeita era que o ex-presidente teria sido um dos alvos da Operação Condor.
Acordo entre coronéis, majores e capitães de seis países sul-americanos governados por ditaduras militares – Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai –, a Operação Condor estabelecia uma colaboração para lutar contra o que se chamava de “terrorismo internacional”. Na verdade, guerrilheiros comunistas, militantes de esquerda ou simplesmente pessoas que faziam oposição à ditadura. Em 2000, PO decidiu trazer o caso à tona e foi o idealizador da criação de uma comissão especial, da qual se tornou presidente, que teria o objetivo de esclarecer as circunstâncias do acidente.
Tomando a Operação Condor como o principal norte das apurações, a comissão especial participou de audiências com autoridades chilenas e de diligências na cidade de Assunção, Paraguai, no ano de 2000; e na cidade de Washington, EUA, em 2001. Diversos peritos ouvidos pela comissão especial presidida por PO concluíram, contudo, que JK foi vítima de uma fatalidade e não de qualquer atentado provocado por conspirações militares, e os trabalhos foram dados como encerrados.
Outra forma que PO utiliza para perpetuar o nome de JK é realizar sessões solenes na data de nascimento do ex-presidente – 12 de setembro. Em seu único projeto como deputado federal que virou legislação (PL-4574/2001), ele conseguiu criar o selo comemorativo do centenário do nascimento de JK – transformado na Lei 10330/01. É tanta relação com a cidade e seu fundador, que chegou a tentar conceder uma pensão especial ao cozinheiro de JK, Rosental Ramos da Silva, mas o projeto acabou sendo arquivado. Faltou a ele o apoio político e a devida consciência sobre os gastos públicos.
Além de JK e Brasília, PO também teve o mandato marcado pelas tentativas de se aproximar e manter boas relações com setores estratégicos da sociedade brasiliense, especialmente empresários, a imprensa, políticos, associações importantes etc. Dedicou a eles a grande maioria dos seus pronunciamentos. Homenageou João Havelange, então presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA); a Associação Brasileira dos Bancos Estaduais e Regionais (ASBACE); os 40 anos da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (ABERT) etc. Observe-se, abaixo, os temas mais recorrentes dos seus discursos, nos dois mandatos como deputado federal.
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Tabela 3: Principais temas dos pronunciamentos de Paulo Octávio na Câmara dos Deputados, no período de 1991 a 1995 e 1999 a 2003
Temas Freqüência
Relacionamento com setores relevantes da sociedade 49 vezes Defesa de Brasília como capital Federal e luta pela transferência dos órgãos
públicos ao DF
22
Aniversário de Brasília 12
Relacionamento com jornais e meios de comunicação em geral 12
Juscelino Kubitschek 9
Defesa contra acusações sofridas 9
Questões fundiárias e imobiliárias 7
Collor de Mello 7
Questões cristãs (especialmente protestantes) 7
Reforma política 7
Turismo 5
Olimpíadas 3
Questões empresariais 1
Segurança pública 1
Fonte: Congresso Nacional
Em alguns momentos, essas homenagens atravessavam de tal maneira a barreira do privado que, em abril de 1999, convidou a sua própria mulher, Anna Kubitschek, neta de JK, para participação de uma mesa diretora que fazia homenagens pelo transcurso do trigésimo nono aniversário de Brasília. Em agosto de 2000, quando faleceu sua sogra, a ex- deputada federal Márcia Kubitschek, PO apresentou requerimento para a realização de uma sessão solene em homenagem a ela. As homenagens não tinham hora para terminar: foram 49 pronunciamentos só para este fim.
Também sobrou espaço para PO se dedicar aos seus eleitores protestantes, religião para a qual se converteu. Chegou a tentar aprovar uma lei que alçasse Jesus Cristo à condição de padroeiro do país. Homenageou, em pronunciamentos e na forma de solicitações de audiências, outros tantos setores da comunidade protestante: a Igreja Pentecostal O Brasil
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para Cristo e seu fundador, Missionário Manoel de Mello; a Convenção Batista Nacional, a
Igreja Batista da Floresta, a Igreja Batista Central de Brasília e as Igrejas Batista Getsêmani, Sara Nossa Terra e Casa da Bênção.