• Nenhum resultado encontrado

Uma Breve Hist´ oria do Eletrosc´opio e do Eletrˆometro

A maneira mais antiga para saber se um corpo estava ou n˜ao carregado ele-tricamente era aproxim´a-lo de substˆancias leves, como na experiˆencia do efeito ˆambar. Depois foram criados instrumentos mais sens´ıveis para detectar esta propriedade dos corpos: o perpend´ıculo de Fracastoro, o vers´orio de Gilbert e a linha pendular de Gray. Em todos estes casos, era necess´ario aproximar o corpo atritado destes instrumentos para ver se os instrumentos reagiam `a presen¸ca do corpo. Este corpo atritado poderia ser um peda¸co de ˆambar, de vidro, de resina ou, atualmente, um peda¸co de pl´astico.

Usualmente n˜ao se observa nenhuma mudan¸ca aparente em um corpo ao carreg´a-lo eletricamente. Por exemplo, um ˆambar ou um canudo de pl´astico n˜ao mudam de cor nem se deformam macroscopicamente ao serem atritados e ficarem carregados eletricamente. Em geral, s´o se detecta se eles est˜ao ou n˜ao eletrizados pelos efeitos que eles causam em substˆancias pr´oximas (como atrair papeizinhos) ou em algum instrumento sens´ıvel colocado em suas proximidades (como orientar um vers´orio). Se um pˆendulo el´etrico estiver afastado de outros corpos, ele vai permanecer na vertical, estando ou n˜ao carregado eletricamente.

Apenas ao aproximarmos outros corpos do pˆendulo ´e que iremos descobrir, pela inclina¸c˜ao de seu fio em rela¸c˜ao `a vertical, se ele est´a ou n˜ao carregado.

Neste livro estamos chamando de eletrosc´opio ao instrumento que, estando ligado a um corpo, indica automaticamente se este corpo est´a ou n˜ao carregado eletricamente, sem que tenhamos que mexer no instrumento ou no corpo, e sem que hajam outras substˆancias pr´oximas ao corpo para indicar sua carga.

Mesmo se este instrumento n˜ao estiver ligado a nenhum corpo, ´e poss´ıvel saber se o pr´oprio eletrosc´opio est´a ou n˜ao eletrizado sem que tenhamos que mexer nele e sem que hajam outras substˆancias em suas proximidades. Neste sentido, um eletrosc´opio ´e diferente do vers´orio ou do pˆendulo el´etrico.

11[Hei99, p´ags. 327-333].

Um instrumento precisa possuir duas caracter´ısticas principais para ser ca-racterizado como um eletrosc´opio. (I) A primeira ´e que o pr´oprio eletrosc´opio precisa estar isolado eletricamente da Terra. Uma outra alternativa ´e que o corpo ao qual o eletrosc´opio est´a ligado ´e que precisa estar isolado eletricamente da Terra. Estes isolamentos s˜ao cruciais para que o eletrosc´opio possa armazenar uma carga el´etrica. No caso dos eletrosc´opios usados neste livro, este isolamento el´etrico ´e garantido pelo canudo pl´astico neutro que suporta a cartolina. (II) A segunda caracter´ıstica ´e que o pr´oprio eletrosc´opio precisa ter alguma proprie-dade vis´ıvel que possua estados diferentes quando o eletrosc´opio est´a neutro ou quando est´a carregado eletricamente. Nos eletrosc´opios usados neste livro esta propriedade ´e o ˆangulo de afastamento entre a tirinha e a cartolina na qual est´a presa. Nos eletrosc´opios cl´assicos esta propriedade ´e indicada pela inclina¸c˜ao entre duas tirinhas.

Talvez o primeiro eletrosc´opio da hist´oria tenha sido constru´ıdo por Du Fay em 1737.12 Gray, antes de Du Fay, j´a usava um fio de algod˜ao ou de linho preso em uma vareta para indicar se um corpo estava ou n˜ao carregado. Mas para isto era necess´ario aproximar a vareta do corpo e ver se o fio era ou n˜ao atra´ıdo pelo corpo. Du Fay, por outro lado, passou a dependurar fios dobrados em duas partes iguais sobre o corpo. Ao carregar o corpo, estas duas partes se afastavam, com o fio ficando na forma da letra𝑉 invertida. Quanto maior fosse o ˆangulo de abertura, mais carga continha o corpo. Na primeira experiˆencia que descreveu,13 Du Fay tinha uma barra de ferro suspensa horizontalmente por cord˜oes de seda. Estes cord˜oes garantiam o isolamento el´etrico do conjunto, evitando que ele se descarregasse para a Terra. Ent˜ao colocou sobre a barra comprimentos iguais de fios de diversos tipos: linho, algod˜ao, seda e l˜a. Cada fio era dobrado ao meio, com suas partes centrais apoiadas sobre a barra. Ao eletrizar a barra, observou que se afastavam mais os fios de linho, depois os de algod˜ao, em seguida os de seda e, por ´ultimo, os de l˜a, que eram os que menos se afastavam entre si. Atribuiu isto a uma capacidade maior do linho de acumular a mat´eria el´etrica, quando comparado com as outras substˆancias.

Em seguida apresentou a seguinte descri¸c˜ao, extremamente interessante:14 Um fio [de linho ou de algod˜ao] colocado sobre uma barra de ferro suspensa por cord˜oes de seda apresenta a ideia da experiˆencia mais simples de todas, embora ela possa fornecer o assunto de medita¸c˜oes profundas, e ela serve para confirmar a maior parte dos princ´ıpios que estabeleci nos trabalhos precedentes, tanto sobre a comunica¸c˜ao da eletricidade e de seus efeitos de atra¸c˜ao e de repuls˜ao, quanto sobre a realidade dos dois tipos de eletricidade, a saber, a v´ıtrea e a resinosa. Ela tamb´em serve para que se saiba se a for¸ca da eletrici-dade ´e maior ou menor, o que ´e muito cˆomodo na pr´atica de todas as experiˆencias. Como j´a dissemos, para isto basta colocar sobre a barra um peda¸co de fio e se ver´a as duas extremidades que pendem

12[DF37b, p´ags. 94-98].

13[DF37b, p´ags. 95-96].

14[DF37b, p´ag. 98].

livremente de um lado e do outro da barra se afastarem entre si com uma for¸ca maior ou menor, formando um ˆangulo maior ou menor, dependendo se a barra recebeu do tubo [de vidro atritado] uma vir-tude el´etrica maior ou menor. [Uma ilustra¸c˜ao de uma experiˆencia deste tipo aparece na Figura 6.34.] E isto tornar´a conhecido de uma maneira bem exata o grau da for¸ca da eletricidade, de maneira que poderemos escolher o momento e as circunstˆancias mais favor´aveis para as experiˆencias que necessitam da eletricidade mais forte, tais como s˜ao as experiˆencias relacionadas `a luz, ou `a comunica¸c˜ao ao longo de uma corda ou ao longo de um outro corpo cont´ınuo.

(b)

F F F

(a)

fios de seda

(c).

ferro

linha de algodão

Figura 6.34: Eletrosc´opio de Du Fay. (a) Barra de ferro suspensa por linhas de seda. Uma linha de algod˜ao est´a pendurada na barra. (b) Um tubo de vidro eletrizado ´e raspado na barra. (c) Ao afastar o tubo, as duas metades da linha de algod˜ao ficam afastadas entre si.

Esta experiˆencia de Du Fay ´e an´aloga `a Experiˆencia 6.9, representada pela Figura 6.12. Quanto mais carregado estiver o eletrosc´opio, mais as duas tirinhas estar˜ao afastadas entre si.

Du Fay tamb´em usou seu eletrosc´opio, entre outras coisas, para descobrir quais s˜ao os melhores isolantes. Para isto dependurou uma barra de ferro por cord˜oes de diferentes materiais, ou a apoiou sobre corpos s´olidos compostos de materiais diferentes. Depois carregou a barra com o tubo de vidro previamente atritado. Em seguida observou, atrav´es do ˆangulo de afastamento do seu ele-trosc´opio preso `a barra, qual substˆancia permitia que a barra ficasse carregada por mais tempo. Esta substˆancia (o cord˜ao dependurando a barra ou o corpo s´olido a apoiando) seria ent˜ao o melhor isolante.15

Jean Antoine Nollet (1700-1770), Figura 6.35, foi aprendiz de Du Fay durante alguns anos, de 1731 ou 1732 at´e ao redor de 1735.16

Em 1747 Nollet apresentou um aperfei¸coamento do eletrosc´opio de Du Fay.

Os fios abertos na forma de um V invertido estavam ligados diretamente ao corpo carregado. Uma lˆampada iluminava os fios e projetava suas sombras

15[DF37b, p´ag. 99].

16[Hei81e] e [Hei99, p´ags. 279-289].

Figura 6.35: Jean Antoine Nollet (1700-1770).

sobre uma tela graduada na qual se podia ler o ˆangulo de abertura dos fios. Isto permitiu uma grande precis˜ao na determina¸c˜ao destes ˆangulos, j´a que a tela e o observador poderiam ficar distantes do eletrosc´opio, sem afet´a-lo durante a leitura, Figura 6.36.17

Figura 6.36: Eletrˆometro de Nollet.

Nollet criou um nome para este instrumento,eletrˆometro:18

Utilizei em v´arias ocasi˜oes de um meio bem simples para conhecer a progress˜ao da eletricidade, o qual mereceria o nome deeletrˆometro, caso fosse geralmente aplic´avel, e se pudesse servir para medir por quantidades bem conhecidas e que n˜ao pud´essemos duvidar, os au-mentos ou diminui¸c˜oes que ele indica.

Este ´e um nome apropriado, j´a que este instrumento permite a medida quan-titativa de um ˆangulo cuja abertura est´a relacionada com a eletricidade do corpo

17[Nol47, p´ag. 129] e [Hei99, p´ag. 353].

18[Nol47, p. 129].

ao qual est´a ligado. Um eletrˆometro ´e um eletrosc´opio que permite uma me-dida quantitativa precisa de alguma propriedade, como um ˆangulo neste caso, associada `a eletricidade.

Um outro exemplo de um de seus eletrˆometro aparece na Figura 6.37.19

Figura 6.37: Outro eletrˆometro de Nollet.

Para evitar as perdas el´etricas que ocorriam nas pontas dos fios do ele-trosc´opio, passou-se a prender mais tarde nas pontas destes fios bolinhas da medula envelhecida de plantas como o sabugueiro, ou bolinhas de corti¸ca. Um dos cientistas respons´aveis por isto foi John Canton em 1752-4.20 A Figura 6.38 apresenta o eletrosc´opio de Canton.

Figura 6.38: Eletrosc´opio de Canton.

Depois as linhas de linho ou de algod˜ao foram substitu´ıdas por palhas r´ıgidas ou por lˆaminas met´alicas. Estas lˆaminas eram mais dur´aveis do que as linhas de algod˜ao. Al´em disso, elas permitiam uma leitura mais precisa do ˆangulo de afastamento entre as lˆaminas, do que no caso do ˆangulo de afastamento entre duas linhas flex´ıveis. Entre os cientistas importantes que contribu´ıram com estes desenvolvimentos est˜ao Abraham Bennet (1750-1799) e Alessandro Volta (1745-1827). O eletrˆometro de Bennet com suas duas lˆaminas de ouro est´a representado na Figura 6.39.21

Georg Wilhelm Richmann (1711-1753) criou entre 1744 e 1753 um eletrˆometro no qual uma das lˆaminas ´e fixa em rela¸c˜ao `a Terra e no qual apenas uma lˆamina ou tira se afasta da vertical quando o eletrosc´opio est´a carregado, Figura 6.40.22

19[Nol67, Gravura 4, Figura 15].

20[Can53], [Can54] e [Wal36].

21[Ben86] e [Hei99, p´ag. 450].

22[Hei99, p´ag. 392].

Figura 6.39: Eletrˆometro de Bennet.

De certa forma ele ´e an´alogo ao eletrosc´opio da Figura 6.1 que estamos usando na maioria das experiˆencias deste livro.

Figura 6.40: Dois eletrˆometro de Richmann. Cada um deles possui apenas uma lˆamina m´ovel.

Este tipo de eletrˆometro foi depois desenvolvido por William Henley (data de nascimento desconhecida, falecido em 1779) em 1772, Figura 6.41.23 Ele possui uma ´unica haste m´ovel e leve, representada pela letra𝐴na Figura 6.41.

Esta haste m´ovel 𝐴 pode girar ao redor de 𝐵. Na extremidade desta haste m´ovel existe uma pequena rolha. Quando o eletrˆometro est´a carregado, h´a uma repuls˜ao entre a haste m´ovel 𝐴 e a haste fixa 𝐶, fazendo com que a haste 𝐴 fique afastada da haste𝐶. O ˆangulo de abertura pode ser lido precisamente no transferidor preso ao instrumento.

Para maiores detalhes sobre a hist´oria do eletrosc´opio e do eletrˆometro, ver os artigos de Medeiros e Walker, assim como o livro de Heilbron.24

23[Pri72].

24[Wal36], [Hei99, p´ags. xvi, xx, 82, 259, 327, 331, 353, 367, 373-376, 390-392, 418, 421-422,

Figura 6.41: Eletrˆometro de Henley.

447-456, 462 e 491-494] e [Med02].

Cap´ıtulo 7

Diferen¸ cas entre

Condutores e Isolantes

J´a vimos que a propriedade fundamental que caracteriza um isolante como o pl´astico ´e a de n˜ao permitir a passagem das cargas el´etricas atrav´es dele. Por-tanto, o canudo pl´astico ligando a cartolina ao solo n˜ao descarrega um ele-trosc´opio carregado. Por outro lado, a propriedade fundamental que caracteriza um condutor ´e a de permitir a passagem das cargas el´etricas por eles. Exemplos de condutores s˜ao o corpo humano, o solo, os metais, o papel e a cartolina de um eletrosc´opio. Portanto, quando a cartolina de um eletrosc´opio carregado ´e ligada ao solo atrav´es de um condutor, o eletrosc´opio ´e descarregado. Vamos agora ver outras propriedades que distinguem condutores e isolantes.

7.1 Mobilidade de Cargas em Condutores e Iso-lantes

Experiˆencia 7.1

Recorta-se uma tira de cartolina com 30 cm de comprimento e 2 cm de largura. O plano desta tira vai ficar na vertical, com seu lado mais longo na horizontal. Ela vai ficar presa no centro por um canudo pl´astico na vertical, formando a letra𝑇. Prende-se a parte inferior do canudo em um suporte apro-priado, como uma massa de modelar ou um copo de caf´e cheio com gesso e com um colchete virado para cima, como o suporte do pˆendulo el´etrico, ver a Se¸c˜ao 4.4. Em seguida, colocam-se quatro tirinhas finas de papel de “seda” com 10 cm de comprimento dobradas ao meio ao longo da cartolina. Deve-se apertar as metades das tirinhas uma contra a outra para que fiquem bem pr´oximas ao serem soltas, ou at´e mesmo se tocando. Ap´os esta prepara¸c˜ao, carrega-se um canudo pl´astico por atrito. Raspa-se o canudo atritado em um ´unico ponto da cartolina. Repete-se este procedimento algumas vezes e se afasta o canudo.

Observa-se que todas as tirinhas se abrem, com as metades ficando afastadas entre si.

A mesma experiˆencia pode ser repetida com uma cartolina maior, de 60 cm por exemplo. Para isto podem ser prendidos dois canudos verticais, um a 20 cm de uma extremidade, e outro a 40 cm da mesma extremidade. Espalham-se tirinhas de papel de “Espalham-seda” ao longo de Espalham-seu comprimento. ObEspalham-serva-Espalham-se que todas elas se abrem quando um canudo atritado ´e raspado em uma das pontas da cartolina. Em vez da cartolina, pode-se utilizar tamb´em um fio de cobre encapado ao longo de todo o seu comprimento, exceto em uma pequena regi˜ao (que n˜ao precisa ser sua extremidade) na qual ser´a raspado o canudo atritado.

Todas as tirinhas espalhadas ao longo do fio se abrir˜ao quando se carrega o fio.

Constru´ımos agora um𝑇com as partes horizontal e vertical sendo de pl´astico.

A borda superior horizontal pode ser uma r´egua pl´astica (com seu plano na ver-tical), ou uma sequˆencia de canudos pl´asticos presos pelas extremidades. Na parte horizontal do𝑇 se penduram as tirinhas de papel de “seda.” Carrega-se um canudo pl´astico por atrito. Ele ´e ent˜ao raspado em uma pequena regi˜ao da parte horizontal do 𝑇 de pl´astico. Observa-se que as tirinhas n˜ao se abrem, a n˜ao ser aquelas bem pr´oximas da regi˜ao raspada.

Experiˆencia 7.2

Recorta-se um c´ırculo de papel com 20 cm de diˆametro. O plano do c´ırculo vai ficar na horizontal, suportado por alguns canudos pl´asticos verticais debaixo dele. Faz-se com uma tesoura ou com uma furadeira de papel pares de furos lado a lado, ao longo do diˆametro do c´ırculo. Entre cada par de furos dependura-se uma tirinha de papel de “seda” dobrada ao meio. Outra possibilidade ´e n˜ao furar o disco, mas colocar v´arias tirinhas lado a lado, cada uma no formato da letra𝐿 invertida, colada pelo lado menor. Duas tirinhas lado a lado v˜ao ficar como a letra𝑇, com a parte comprida da letra𝑇 sendo composta por 2 tirinhas lado a lado, penduradas verticalmente. Carrega-se um outro canudo pl´astico por atrito e ele ´e raspado em alguma borda do c´ırculo. Observa-se que todas as tirinhas se abrem, mesmo as que est˜ao afastadas do ponto onde o canudo atritado raspou no c´ırculo.

O mesmo efeito j´a n˜ao ocorre com um disco pl´astico ou de isopor. Neste caso s´o se abrem as tirinhas pr´oximas `a regi˜ao da raspagem. As tirinhas distantes desta regi˜ao n˜ao se abrem.

Estas experiˆencias mostram que quando se carrega um condutor, as cargas tendem a se espalhar por toda sua superf´ıcie, n˜ao ficando presas ao local onde houve o contato do condutor com o corpo carregado. J´a em um isolante as cargas n˜ao se deslocam livremente por ele. Elas ficam presas ao local onde foram geradas ou transferidas para o isolante. O mesmo havia sido observado na Experiˆencia 6.25.