CAPÍTULO II – DESCONSTRUINDO O CONCEITO DE HOMOSSEXUALIDADE
2.3 Uma nova perspectiva sobre as sexualidades
Sabemos que é uma tarefa complicada transcender a barreira da imutabilidade e da fixidez presente na percepção das ciências da natureza sobre a sexualidade. No entanto, haja vista a violência que cercam aqueles que vivenciam práticas homossexuais, é providencial abandonar as perspectivas essencialistas, as quais designam o par normal e anormal para definir, respectivamente, a heterossexualidade e a homossexualidade. Para reinventar as perspectivas sobre a sexualidade, vamos nos ancorar nos estudos do construcionismo social, como vínhamos trabalhando desde o início do capítulo, e nos estudos críticos de gênero e sexualidade.
Desse modo, dessencializar o sexo é um ponto de partida fundamental para refletir sobre o gênero e a sexualidade. Isso porque as definições dadas como naturais para os sexos biológicos conduzem aos papeis sociais distintos para homens e mulheres e, consequentementente, induzem a vivenciar a heterossexualidade como única forma legítima de sexualidade.
Todos os machos e fêmeas biológicos devem ser submetidos a um processo de socialização sexual no qual noções culturalmente específicas de masculinidade e feminilidade são modeladas ao longo da vida. É através desse processo de socialização sexual que os indivíduos aprendem os desejos, sentimentos, papeis e práticas sexuais típicas de seus grupos de idade ou de status dentro da sociedade, bem como as alternativas sexuais que suas culturas lhes possibilitam (PARKER, 2001, p. 135).
Neste sentido, aqueles que não cumprem com esse “processo de socialização sexual” definido de acordo com os sexos biológicos, são tidos como anormais. Retirar o manto que cobre a homossexualidade sob o prisma da diferença e da anormalidade é imprescindível. Por isso, a importância de rejeitarmos o caráter essencialista e pensarmos essas categorias sob o ponto de vista de que são construídas, desse modo, são passíveis de mudança, admitem outros modos de ser.
Ao trazermos uma perspectiva fluida sobre essas categorias, admitimos outras formas de vivenciar as sexualidades, sem estarmos presos às definições naturalizantes sobre norma e anormalidade. E, além disso, sem estarmos também vinculados às determinações que relacionam o gênero a heterossexualidade. Por isso, trazemos a abordagem queer para problematizar a criação dessas distinções. Conforme Louro,
[...] a polarização heterossexual/homossexual seria questionada. Analisada a mútua dependência dos pólos, estariam colocadas em xeque a naturalização e a superioridade da heterossexualidade. [...] Para uma pedagogia e um currículo queer,
52 não seria suficiente denunciar a negação e o submetimento dos/as homossexuais, e sim desconstruir o processo pelo qual alguns sujeitos se tornam normalizados e outros marginalizados (2016, p. 50).
Desnaturalizar os sexos biológicos para compreender que nos fazemos sujeitos por meio da cultura em que estamos inseridos e, sendo assim, não há um dado estável e imutável. Junto a essa perspectiva, vamos pensar a sexualidade como uma expressão sexual no sentido de ser “a pulsão sexual, sobre a qual se estrutura o desejo” (SOUSA, 2009b, p. 114). Nesse caso, homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade seriam expressões sexuais.
Como no inconsciente não existe uma demarcação simbólica e temporal, não há uma sexualidade natural e muito menos normal, mas sim moções pulsionais que se deslocam, manifestando uma pluralidade de expressões da sexualidade. Portanto, não existe uma única maneira certa de vivenciar a sexualidade (CECCARELLI e FRANCO, 2010, p. 128).
A sexualidade é uma prática social no qual o desejo, o erotismo e a sensualidade são os fundamentos desta expressão sexual. Nesse sentido, o desejo é construído socialmente e criam-se padrões específicos mais ou menos desejáveis. Nesse sentido, diante das possibilidades de sexualidades, o exercício dos prazeres é uma escolha subjetiva marcada por influências sim, mas nunca deveria ser necessariamente uma imposição para os gêneros.
Neste momento abrimos espaço para falar de duas expressões utilizadas para definir as sexualidades: orientação sexual e opção sexual. Hoje, há uma disputa no que se refere aos usos desses dois termos. Posto isto, para compreender como se chegou a esse conflito é necessário localizar na história a emergência da utilização da expressão “Orientação sexual”.
Este último termo já era empregado mundialmente, mas chegou ao Brasil e foi apropriado pelo grupo homossexual Triângulo Rosa, na década de 1980, de acordo com Cristina Câmara (2002). O surgimento da expressão orientação sexual está inserido no contexto de lutas dos movimentos e grupos homossexuais brasileiros contra a discriminação. Segundo Câmara (2002), o uso desta expressão objetivava fugir à imagem de criminalização dada à homossexualidade e às determinações médicas e psicologizantes que tratavam esta sexualidade como um transtorno, desvio ou doença. Neste sentido, destaca-se a atuação do grupo Triângulo Rosa que alerta aos preconceitos disseminados contra os homossexuais por meio de jornais e revistas conseguiu incluir este termo no Código de Ética do Jornalista, após dois anos de luta. Ao longo desse período, houve um intenso debate dentro do grupo acerca da definição para a expressão orientação sexual, pois
53 O Triângulo Rosa precisava demonstrar que a expressão orientação sexual seria a possibilidade de garantia da expressa proibição da discriminação por orientação sexual, não contemplada nas reivindicações pela não discriminação em razão de sexo. Por outro lado, precisava ter clareza do emprego da expressão orientação sexual como mais adequada que quaisquer outras expressões (CÂMARA, 2002, p. 95).
As “outras expressões” de que fala a autora são, especialmente, Opção sexual e Preferência sexual. Conforme Câmara (2002), a recusa dos movimentos homossexuais por “Opção sexual” deu-se em virtude de este termo sugerir que a sexualidade seria uma escolha. Neste instante, nota-se que o conflito entre as duas expressões está assentado no pressuposto de que “Opção” seria uma escolha objetiva. Sendo assim, o movimento homossexual definiu que a expressão “Orientação sexual” designa o “conjunto homo/hetero/bissexualidade” e “busca a valorização e expressão do desejo próprio, que é construído socialmente e não do objeto do desejo”, apresentando-se, portanto, como a melhor alternativa. (CÂMARA, 2002, p. 103).
Desse modo, com base na definição acima corroboramos com a ideia do termo “Orientação sexual”. Contudo, essa expressão adquiriu uma concepção que nada tem a ver com a noção dada no seu surgimento. Hoje, este termo está sendo relacionado à ideia de uma substância da sexualidade.
No âmbito da discussão sobre gênero e sexualidade, a biologização ou a substancialização da orientação sexual não são assimiladas, tampouco produzidas, apenas pelo discurso cientificista. A aceitação de muitos LGBT (incluindo importantes lideranças do movimento) da ideia segundo a qual a homossexualidade, travestilidade e transexualidade são “orientações sexuais” fixas, fincadas em cada um antes do nascimento, correspondendo a realidades biológicas, ou que seriam substâncias psicológicas absolutas e estáveis, não deixa dúvida do quanto o essencialismo tem sido abraçado (SOUSA, 2009a, p. 64).
Neste sentido, a perspectiva da orientação sexual enquanto uma substância, determinada por componentes biológicos, retira o sentido da sexualidade enquanto de liberdade de escolhermos como vivenciar os prazeres, como argumenta Sousa Filho (2009a). Sendo assim, optamos pelo termo opção sexual para nos referirmos às demais expressões de sexualidade, seja heterossexualidade, homossexualidade ou bissexualidade. Caso o significado para orientação sexual mantenha a mesma perspectiva que estamos defendendo, não há problema em considerar as sexualidades como orientações sexuais.
Queremos deixar claro que estamos compreendendo a noção de opção sexual e, nesse sentido, a ideia de optar ou escolher não como algo que surge espontaneamente, sem influências externas coercitivas, mas como uma possibilidade, diante de várias, que nos é
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dada de escolhermos livremente como nos relacionarmos. O desejo, como falamos, é mesmo construído. Nesse sentido, as escolhas ou opções sexuais são influenciadas para mais ou para menos. As influências são importantes para construirmos as escolhas, no entanto, tais influências não devem ser enxergadas como determinantes imutáveis. Sobre isso, corroboramos com a ideia de Costa ao citar a concepção de Weeks sobre o termo escolha.
O próprio Weeks, apesar de usar o termo “escolha”, mostra que a palavra, aqui, não é empregada no sentido de opção livre de coerções, mas apenas no sentido de apropriação de modelos de identidade disponíveis, que são culturalmente arbitrários e não biologicamente necessários (1992, p. 133).
Diante das considerações sobre a desconstrução do conceito de homossexualidade, adentraremos ao campo no capítulo seguinte para compreender de que forma os estudantes internos de medicina da UFRN estão pensando a ideia de homossexualidade. Além disso, questionaremos sobre as influências que estes internos obtiveram para construir esses discursos.
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CAPÍTULO III – O CONCEITO DOS ESTUDANTES INTERNOS DE MEDICINA