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B) ABORDAGEM DE REDES

2.4. TECENDO OS NÓS DA REDE

2.4.2. UMA NOVA RELAÇÃO COM O ESTADO

Herbert de Souza (1992, p. 141) ao comentar a atuação das ONGs na década de 90, salienta que ""as ONGs brasileiras (...) nascem contra o estado e de costas p ara o mercado, ou à margem dele (leia-se grande capital), que ha\’ia se apropriado do estado e passava a reprimir a sociedade a partir dele". Todavia, as mudanças políticas ocorridas durante a transição democrática e as novas dinâmicas presentes no âmbito da sociedade civil, redefinem este quadro.

Em relação às transformações ocorridas no âmbito do estado, cabe salientar que a progressiva erosão do regime militar e as mudanças operadas durante o período da transição democrática, abriram espaço para experiências de administrações municipais conduzidas por governos democrático-progressistas'°, especialmente em âmbito local". Conduzidos por governos identificados especialmente com os atores da sociedade civil, estas novas administrações passaram a criar mecanismos de interlocução destes setores com as administrações locais.

Nesse sentido, a formação de fóruns de elaboração das políticas municipais com garantia de assento para representantes da sociedade civil, têm exigido dos próprios setores organizados a criação de mecanismos de articulação e organização adequados aos novos tempos. Começa-se a falar , na linguagem destes atores, da necessidade de avançar de uma postura de “oposição” para uma cultura “propositiva” em relação ao estado.

'"Os princípios gerais do projeto dem ocrático-popular do Partido dos Trabalhadores, encontram -se em BlTT.AJl. Jorge (org). O modo petista de governar. C adem o especial de Teoria e debates. São Paulo: Teoria e debate. 1992. Para m na análise com parativa dos estilos de gestão municipal no Brasil, veja-se FREY. Klaus. Crise do estado e estilos de gestão municipal. Lua Nova. São Paulo. n.37. p. 107-138. 1996 '' Para unia apreciação teórica em torno da rele\ância teórica do io c a l". ver a interessante obra de DOW'BOR. Ladislau. O que é poder local. São Paulo: Brasiliense. 1994 e ainda Rexista TEM PO E PRESENÇA. Poder local: espaço para cidadania. São Paulo: Koinonia. n. 287. 1996.

No entanto, não é apenas no âmbito do estado que ocorrem transformações. A mudança de postura da sociedade civil em relação à esfera político-institucional não pode ser pensada apenas como “reativa” aos estimulos do estado. Vários fatores também impulsionaram os próprios atores da sociedade civil a travar novas relações em relação aos aparelhos governamentais. Neste sentido, Paoli (1995, p. 42-47) destaca que, especialmente durante o período da “Nova República” (1985-1989) dois acontecimentos contribuíram para disseminar uma nova experiência de relação com o estado no âmbito da sociedade civil. De um lado, a mobilização em torno de propostas para a Assembléia Nacional Constituinte (1986-1988) e de outro, a perspectiva de vitóría da frente popular (coligação de partidos de esquerda liderada por Luis Inácio Lula da Silva) nas eleições presidenciais de 1989, já que os partidos de esquerda (especialmente o PT) possuiam fortes vinculos com os movimentos sociais.

Portanto, no periodo da transição democrática, não só o estado vai se tom ando mais permeável ás demandas sociais, como os própríos atores da sociedade civil passam a redefinir sua postura diante dos aparelhos governamentais.

Analisando algumas das pesquisas que têm acompanhado este processo, pode-se observar como este começa especialmente no nível do poder local e progressivamente vai se disseminando também nas outras esferas da administração pública (níveis estadual e federal). Neste processo, as ONGs contríbuem decisivamente na capacitação dos atores sociais em interagir com a esfera estatal.

Em relação ao nível local. M oura (1995), por exemplo, ao analisar as ONGs nordestinas, demonstra que as entidades têm se destacado especialmente no sentido de influênciar as agendas das políticas públicas, no sentido de dar-lhes um cunho mais social ou voltado para as populações carentes.

Para a análise das formas de ação das ONGs em relação ao poder público local, importante elucidação nos é trazida pelos vários estudos de caso de Teixeira (1991,

1993, 1994a, 1994b e 1995), em relação ao nordeste. Em um destes estudos (1995), Teixeira, ao analisar em detalhes o movimento “cidadania em ação” (da região de Feira de Santana, na Bahia) demonstra como o movimento passa da discussão da participação da população no orçamento municipal e do questionamento de sua execução e do controle das contas públicas até a discussão das políticas públicas necessárias para o conjunto da região. Neste processo, Teixeira destaca cinco eixos básicos pelos quais as entidades da sociedade civil (e as ONGs) buscam atuar diante das prefeituras;

a) efetivação de direitos; trata-se de lutar pela implentação concreta dos direitos previstos nos textos legais (constituição, leis, lei orgânica, etc.);

b) fiscalização e controle do poder municipal; examinam-se as contas públicas, questionando não só sua legalidade (apontando fraudes e desvios), mas também sua legitimidade e necessidade diante de cada realidade local (gastos desnecessários ou visando interesses privados);

c) ação sobre o poder legislativo; acompanhamento e participação nas sessões da câmara de vereadores de cada município, visando entender seu fiancionamento e implementar os mecanismos de participação dos cidadãos (pedido de informações, audiências públicas, etc.);

d) participacão nos conselhos municipais; como normalmente só possuem uma estrutura formal (fixados por lei), mas controlados pelas prefeituras e pouco efetivos em suas práticas, as entidades da sociedade civil buscam dinamizar sua ação.

e) parcerias com o poder público; planos de ação conjunta onde os atores da sociedade civil e agentes do estado participam conjuntamente na resolução de problemas e temáticas comuns (projetos de saúde, educação, moradia, etc.).

Nestas múltiplas iniciativas de interlocução com o poder local, Teixeira destaca que as ONGs têm cumprido especialmente dois papéis; integrar as organizações civis e populares para uma participação conjugada nas adminstrações populares, bem como procurar oferecer subsídios, suporte técnico e ajuda especializada nos referidos processos.

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Porém, não é apenas no nível do poder local que as ONGs tem articulado uma nova relação com os aparelhos do estado. Mesmo ao nível estadual pode-se destacar iniciativas das ONGs, Silva (1993), por exemplo, destaca o esforço das ONGs paulistas em unificar os movimentos de moradia de São Paulo (com a criação da “União dos Movimentos de M oradores de São Paulo”) o que levou o movimento a propor a criação do Fundo Nacional de Moradia Popular, Outro exemplo relatado pela autora, é o surgimento do Fórum da Reforma Urbana, coordenado por 12 entidades, e que teve uma repercussão nacional de seus trabalhos,

À medida que este processo vai se ampliando entre as ONGs, o tema passa a ser objeto de reflexão entre as entidades, consolidando novos valores e atitudes em relação à esfera político-administrativa.

Em 1991, por exemplo, o tema era alvo de discussões em seminário realizado pela ETAPAS (Equipe Técnica de Assessoria, Pesquisa e Ação Social), no Nordeste, em que diversas experiências de ONGs foram compartilhas, A iniciativa ali mais destacada foi justamente a atuação em prefeituras de corte progressista , seja na “ elaboração de políticas públicas, seja na assessoria direta a setores destas prefeituras, sob a form a de cursos, racionalização administrativa, politicas de transporte, etc. " ( Etapas, 1993, p,

2 2),

A mesma preocupação pode ser sentida nas publicações mais recentes da .ABONG, órgão que busca articular as ONGs em nível nacional. Assim, apesar de reconhecer a importância desta nova realidade para as ONGs, esta entidade levanta a questão de "envidarmos esforços na perspectiva de empreendermos uma política visando maior qualificação capacitação nos temas trabalhados” (Said, 1995, p. 09).

Com esta perspectiva, em julho de 1996, um número especial da revista da entidade (ABONG, 1996) é dedicado á participação popular nos conselhos de gestão. Finalmente, em encarte especial de agosto de 1996, (ABONG, 1996) são apresentadas propostas das

ONGs para as futuras administrações municipais (cujas eleições ocorreriam em outubro daquele ano) em 20 áreas temáticas chaves.

Todavia, este processo também envolve seus riscos. Em várias declarações, o risco de que as ONGs passem a substituir o estado, tomando para si as preocupações sociais que são de responsabilidade estatal, sempre está presente. O próprio Herbert de Souza (idem, p. 142), por exemplo, procura sublinhar que as ONGs “ não aderem nem a ótica ou a ética do mercado, p or isso têm uma visão e uma crítica do estado radicalmente diferente daquela realizada pelo neoliheralismo. Isso não significa dizer que elas não tenham, em algumas circunstâncias e lugares, tentado ou sido tentadas a substituir o estado

O interessante desta declaração, é que ela revela o quanto as ONGs, de fato, redefiniram sua postura diante do estado. Ora, se não se deve substituí-lo (ou negá-lo), implícita está a afirmação da necessidade do estado e do imperativo de preservar suas fianções. Longe de estar de costas para o estado, as ONGs hoje se encontram na linha de frente da defesa de suas legítimas fianções e da necessidade de se atuar nos aparelhos administrativos, seja em prol da cidadania, seja em prol de políticas com prioridade social. Para Herbert de Souza (idem, p. 142), enfim:

As ONGs sabem que nem o mercado, nem o estado são capazes de produzir o máximo de bem estar para todos, na medida em que se organizam e atuam segundo a ótica da excludència e da perpetuação das desigualdades. As ONGs querem democratizar o mercado (o que significa erradicar a onipotência do capital e submetê-lo ao controle democrático da sociedade) e o estado (o que significa desprivatizar o estado e restabelecer seu caráter público).

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