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Uma proposta de ensino em constante transformação

4 Substâncias componentes do programa de oficinas de vídeo experimental no

4.1 Uma proposta de ensino em constante transformação

Para levar adiante a proposta das oficinas de vídeo experimental, recorro às palavras de Fernando Hernández (2006), uma vez que o autor busca refletir sobre a educação como uma conjectura amparada sob as bases da equidade em um ambiente em que todos, sem exclusão, tenham a oportunidade de produzir e compartilhar saberes. Nessa perspectiva, entende-se que a inventividade e a criação, colocadas em cheque junto da construção de relações e de uma consciência social ativa, integram uma orientação educacional em constante transformação. Para tanto, deve ser instigada a “criação de experiências de aprendizagem com sentido e, ao tê-la, o estudante, os professores e os membros da comunidade se envolvem apaixonadamente no processo de aprender” (HERNÁNDEZ, p. 43).

A fim de gerar um engajamento inclinado na direção de uma proposta dessa natureza, o autor adverte sobre a necessidade de afastar-se das artimanhas reformistas que consolidam uma visão modernista que, por sua vez, intensifica as engrenagens de dominação e segregação nos organismos sociais globalizados.

Esta pesquisa procura distanciar-se dos processos pedagógicos que estão a serviço da promessa de um progresso a ser conquistado através da submissão às leis mercantis do consumo, com uma formação que se edifica sob a noção da repetição, da transmissão e da absorção mecanizada de habilidades produtivas ao engrossamento da maquinaria econômica. Acredito que esse distanciamento aconteça porque tais fatores negligenciam uma educação provida de sentido e da essência da vontade de aprender compartilhando saberes.

Para tentar alcançar este propósito, abdica-se da disseminação de conteúdos não significados no contexto do meio em que vivemos ou discutidos como fórmulas exatas e fechadas ao acaso e a novas transmutações. Nessa confluência, são vislumbradas experiências que combinam a produção audiovisual experimental e o questionamento dos dispositivos de controle subjetivo imbricados na contemporaneidade, a exemplo dos mass media e das corporações capitalistas. Assim, a proposta é elaborada com inspiração nas palavras de Hernández, especialmente em um dado momento, quando o autor fala de um ensino no qual:

69 [...] os alunos aprendam os procedimentos que lhes permitam seguir aprendendo durante a vida, para que o conhecimento escolar seja atualizado e responda à necessidade de que a escola ofereça um suporte básico para explorar as diferentes parcelas da realidade e da experiência dos próprios alunos (como parte de uma coletividade que se divide entre o particular e o global). O meio para favorecer este tipo de conhecimento seria ensinar a relacionar, a estabelecer sentidos, ou seja, a compreender. (2006, p. 47)

O autor instiga um processo de ensino-aprendizagem nos moldes da dinâmica de uma troca entre os sujeitos que compõem os ambientes educacionais. Para a nutrição de um projeto no qual os sentidos possam ser explorados profundamente em sintonia com a realidade dos indivíduos, é importante que a construção das propostas esteja aberta para possíveis incisões e transformações realizadas pelos participantes.

Falando sobre a preciosidade de conectar a experiência em arte com as vivências latentes daqueles que com ela interagem, Tania Queiroz (2016) aponta que esta relação representa uma das maiores forças potenciais de atração da interação das pessoas com a arte. A autora explica que para um engajamento mais complexo e prolífero entre os sujeitos e a arte, acredita substancialmente na intrínseca vinculação entre vida e arte e também na necessidade de explorar a maneira como os artistas e sua obra podem levantar discussões de importantes assuntos e inquietações comuns a grande maioria das pessoas. Ela acrescenta:

A forma como a arte se coloca ou é colocada no mundo, por metáforas, analogias, impactando ou tocando o espectador pelos caminhos mais diversos, é o instrumento de trabalho mais precioso que um mediador pode ter. O que pode ser mais "sedutor", capaz de induzir, convencer, despertar simpatia ou interesse, do que encontrar, na arte, questões que se refiram à própria vida? (2016, p. 281)

A autora fala que a exploração das configurações singulares pelas quais o espectro da arte impacta o espectador é umas das ferramentas de trabalho mais eficientes que um mediador pode ter para auxiliar no despertar do interesse dos sujeitos em relação à arte. Ouso aqui dizer que, com a mesma finalidade, este é também um dos mais potentes instrumentos que educadores que trabalham com a arte podem dispor.

Nesse sentido, Queiroz observa que o portfólio de um artista é composto pelas suas obras, aquilo que é relevante em seu processo de trabalho e ao

70 apresentar sua produção, deixa transparecer também sua trajetória, sua história. Nessa profusão de pistas sobre o trabalho do artista, é possível explorar e perceber qual é o objeto de pesquisa que propulsiona sua obra, o que lhe interessa e lhe afeta.

Traçando um paralelo entre o portfólio do artista e o repertório trazido pelas pessoas que estarão experimentando e descobrindo novas significações através da arte, propõe-se que a vida desses sujeitos, composta de recortes, imagens, lembranças e sons se entrelacem com sua forma de aventurar-se ao conhecer a arte dos outros e ao produzir sua própria prática poética. É por essa razão que, como veremos mais adiante, na realização das oficinas de vídeo experimental, buscou-se acionar os interesses, desejos e questionamentos dos alunos com as dinâmicas propostas e com os artistas e obras analisados em aula.

A bagagem dos alunos do programa Videografias Experimentais foi levada em conta como uma espécie de portfólio de experiências (QUEIROZ, 2016). Esse portfólio agrupa memórias de imagens, recortes e fatos da vida despertados durante a realização da proposta, e serve como uma espécie de via de entrada para a exploração da linguagem artística que permeia o projeto - a audiovisual. Queiroz (p. 283) fala em um poder de conexão e convite que a arte desperta ao ser explorada, e é por meio desse elemento, "que todos temos internamente e de alguma forma, que é comum a todos e tem o poder de desestabilizar, de provocar, de fazer pensar, essa potência, que é da arte", que as dinâmicas das oficinas foram delineadas.

Deixemos claro que o programa das oficinas que será descrito neste capítulo é uma espécie de esboço de orientações que foram utilizadas como pontos de partida para o desenvolvimento da prática. Ocorreram algumas modificações, já que os desdobramentos ocorridos durante a ação ainda se deixaram transpassar e remodelar pelos “toques” que foram realizados pelos participantes. Nesse sentido, a performance das oficinas se assemelha à lógica ecosófica (GUATTARI, 2001, p. 36), que, por sua vez, dialoga com a dinâmica do artista, o qual se deixa aberto “a remanejar sua obra a partir da intrusão de um detalhe acidental, de um acontecimento-incidente que repentinamente faz bifurcar seu projeto inicial, para fazê-lo derivar longe das perspectivas anteriores mais seguras”.

O eixo nuclear da proposta tecida nos contornos da produção de vídeo experimental gira em torno de algo que Hernández (2006, p. 55) define como um

71 “desafio que significa a possibilidade de construir projetos de emancipação em um mundo repleto de contradições”. Um mergulho apaixonado nas profundezas do oceano no qual se agitam as possibilidades para encarar tal desafio não precisa ser regido pela certeza, mas sim pela vontade de construir, junto do outro, coordenadas que nos ajudem a descobrir e desenvolver relações e práticas marcadas pela igualdade e solidariedade. Se houve alguma certeza permeando este trabalho, é a da possibilidade de construir sentidos através da interação com o outro e da busca por autoconhecimento através da arte.

Nesses ambientes (ou territórios de existência), os desvios e elevações nos níveis de entropia podem representar portas de entrada para processos de transformação. Nessa perspectiva, os conglomerados de incertezas não deveriam ser vistos como fraqueza ou incompetência, mas sim como um meio para seguir buscando novos meios para a produção de significação para nossas experiências de vida.