3 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
3.3 Universos Reificado e Consensual
Nesse subitem discorre-se sobre os dois universos nos quais os indivíduos transitam cotidianamente e que, embora pareçam distintos e separados um do outro, encontram-se interconectados. É justamente nessa a interface entre esses dois universos que Moscovici (2012) propõe ao desenvolver a sua Teoria das Representações Sociais, demonstrando a transformação mutua que ocorre nesses dois universos, quando eles se interconectam.
Essa interconexão ocorre como um meio de proporcionar a apreensão, a organização e a compreensão do meio social em que o indivíduo se encontra. Nas situações corriqueiras do dia a dia o indivíduo confronta-se com inúmeras situações, as quais lhe exigem tomadas de decisões, ou que de posicionamentos sobre determinado assunto, objeto, fenômeno ou pessoa. Essas decisões ou posicionamentos que toma no percurso da sua vida diária, são baseados nos seus conhecimentos do senso comum. São esses os conhecimentos pelos quais Moscovici (2010) se interessou e os denominou de “matéria prima” da psicologia social, estando eles localizados no universo que denomina de “consensual”.
Anteriormente ao estudo de Moscovici, que proporcionou o resgate dos conhecimentos desenvolvidos no cotidiano, ou seja, dos conhecimentos do senso comum, havia um enorme “fosso” que separava os dois universos de conhecimento. O primeiro possuía uma origem social, objetiva e material e o outro tinha sua gênese individual, psicológica, subjetiva e imaterial. No primeiro deles habitavam os elementos sagrados, objetos, e que eram dignos de respeito, veneração e crédito, mantendo-se longe das atividades consideradas intencionais e humanas. No outro extremo se encontrava o mundo profano, no qual as atividades consideradas triviais e utilitaristas eram executadas. As ciências do universo objetivo eram consideradas sagradas, não possuindo nada em comum com aquelas ciências consideradas profanas, do universo subjetivo. Somente havia a transposição de um universo, ou de um tipo de ciência, para o outro, caso os conteúdos fossem considerados obscuros (MOSCOVICI, 2010, p.49).
A essa distinção polarizante, entre a ciência e o senso comum, é proposta uma substituição, uma mudança por outra mais fundamental. Foi dessa forma que Moscovici postulou a existência de duas categorias de universos que seriam “[...] próprios de nossa cultura [...]”, nomeando-os de universos consensual e reificado. Referindo-se ainda à esses dois universos, afirma que:
No universo consensual, a sociedade é uma criação visível, contínua, permeada com sentido e finalidade, possuindo uma voz humana, de acordo com a existência humana e agindo tanto como reagindo, como um ser humano [...] o ser humano é aqui, a medida de todas as coisas. [...] No universo reificado, a sociedade é transformada em um sistema de entidades sólidas, básicas, invariáveis, que são indiferentes à individualidade e não possuem identidade (MOSCOVICI, 2010, p. 49-50).
Considerando os métodos utilizados para a produção dos conhecimentos, assim como os tipos de conhecimentos produzidos socialmente, Moscovici (2010, p. 323) distingue dois tipos de universos. Os conhecimentos produzidos pelo universo reificado se caracterizam pela imparcialidade e pela independência das pessoas, utilizando métodos sistematizados baseados nos fatos. Os conhecimentos do universo consensual são produzidos por meio da negociação e da aceitação mútua, não se baseando em métodos especificamente sistematizados, mas sim no consenso entre os indivíduos.
No universo reificado o indivíduo não possui margem de liberdade, devido às características que lhe dão solidez invariável, demonstrando o seu caráter estático. Neste universo a realidade física e os seus acontecimentos estão fora dos sujeitos, sendo-lhes estranhos e independentes. O indivíduo acaba por assumir um papel de subordinação em relação à realidade que está à sua volta, ou seja, o social passa a moldar o psicológico e não deixa espaço deste influenciar naquele (MOSCOVICI, 2010).
Como a realidade neste universo é externa ao indivíduo e, dessa forma, independente da influência de tudo que é humano, os conhecimentos nele produzidos estariam revestidos de “[...] precisão intelectual e evidência empírica [...]”, sendo que “[...] as ciências são os meios pelos quais nós compreendemos o universo reificado [...]” (MOSCOVICI, 2010, p.52). Esta ideia de mundo seria contestável, tendo em vista que esta compreensão somente poderia ser aplicada “[...] a casos puros, a fenômenos isolados num meio muito purificado e estilizado” (MOSCOVICI, 2012, p.72).
O universo consensual, em contrapartida, é dinâmico e possui uma dupla abertura que permite trocas entre os indivíduos e a sociedade, contudo, não está isolado do universo reificado. É justamente sobre essa abertura entre os dois universos que Moscovici pontua que “[...] a passagem de uma teoria científica para a representação social correspondente satisfaz a necessidade de provocar comportamentos ou visões socialmente adaptados ao estado dos conhecimentos sobre o real” (MOSCOVICI, 2012, p.72). É nessa transposição de conhecimentos que “[...] a sociedade é vista como um grupo de pessoas que são iguais e livres, cada um com possibilidade de falar em nome do grupo e sob seus auspícios”
(MOSCOVICI, 2010, p.50-51). Quanto aos discursos proferidos nesse ambiente social por cada um destes indivíduos, ratifica ainda que eles – os discursos – criam “[...] nós de estabilidade e recorrência, uma base comum de significância entre seus praticantes” que possuem a função de capacitar “[...] as pessoas a compartilharem um estoque implícito de imagens e de ideias que são consideradas certas e mutuamente aceitas” (MOSCOVICI, 2010, p.52). Contribuindo com a perspectiva de dialetizar estes dois universos, Jodelet (2005) complementa as ideias de Moscovici, ao sustentar que:
Mantendo-se afastada do saber erudito e opondo a este uma modalidade de conhecimento prático e eficaz, nossa comunidade nos permite observar como se produzem e funcionam representações num espaço social e mental delimitado. Esse afastamento de todo saber científico estabelecido e reconhecido favorece a construção original de um pensamento destinado a controlar os dados da experiência objetiva e do vivido íntimo, mas que, em certos pontos, estará em defasagem ou em contradição com os conhecimentos de sua contemporaneidade (JODELET, 2005, p.354).
Ao confrontar esses dois universos, para então realocar a teoria das representações sociais dentro do universo consensual, Moscovici busca um distanciamento tanto da perspectiva sociologizante quanto do ponto de vista psicologizante, para posteriormente aproximá-las novamente e demonstrar que as duas estão interconectadas e que são interdependentes (ALVES- MAZZOTTI, 2008).
Para tanto, Moscovici afirma que as representações sociais diferem das noções sociológicas e psicológicas com as quais são comparadas e dos fenômenos que lhes correspondem, por não haver separação entre os universos interno e externo (MOSCOVICI, 2012, p. 48). Ao iniciar seu estudo, Moscovici faz algumas distinções entre as representações sociais e os conceitos de natureza sociológica e os seus correspondentes de natureza psicológica. Para cada um desses conceitos de origem sociológica: mito, ideologia e ciência; havia outro que lhe correspondia psicologicamente: opinião, atitude e imagem.
Esses conceitos eram tratados de uma maneira estática e mecanicista, combinando-se um estímulo à sua resposta correspondente. Assim, as opiniões, as atitudes e as imagens eram tratadas como se fossem simples respostas psicológicas produzidas pelos indivíduos, aos estímulos exteriores impostos pela sociedade, por meio dos conhecimentos mitológicos, ideológicos ou científicos. É nesse sentido que Moscovici (2012, p. 52) afirma que “[...] os indivíduos no dia a dia, não são unicamente máquinas passivas que obedecem a máquinas, registrando mensagens e reagindo aos estímulos externos, no que uma psicologia sumária, reduzida às opiniões e imagens, tende a transformá-la”.
Este destaque ocorre por entender que esses conceitos (tal como eram tipicamente tratados à época) pressupunham a existência de um estímulo externo, dado ao qual o indivíduo responde, contrariando a premissa básica de que os universos interno e externo do indivíduo não estão separados. Os conceitos de mito, ciência e ideologia não consideram que as informações são criadas dentro de grupos sociais e, sendo esse o local em que se obtém a sua circulação, por meio das interações e das relações entre os indivíduos que os compõem (ALVES-MAZZOTTI, 2008, p. 22).
Por conseguinte, Moscovici (2012) considera que, da forma como eram estudados os conceitos de imagem, opinião e atitude, não apreciavam a sua abertura para o mundo, pois os grupos nos quais esses conceitos se produziam e reproduziam, eram contemplados de uma maneira estática. Numa perspectiva moscoviciana, os grupos são considerados na sua forma dinâmica, possibilitando a criação, por parte dos indivíduos que o compõem, mediada pelos processos comunicacionais, que permitem a seleção, adaptação e utilização das informações que circulam no meio social. Nessa perspectiva, as representações sociais são consideradas como:
[...] conjuntos dinâmicos, seu status é o de uma produção de comportamentos e de relações com o meio ambiente, de uma ação que modifica aqueles e estas, e não uma reprodução desses comportamentos ou dessas relações, de uma reação a um dado estímulo exterior (MOSCOVICI, 2012, p.47)
É nessa mesma perspectiva que Alves-Mazzotti (2008) reconhece o sujeito enquanto um ser ativo no processo representacional, uma vez que ele não apenas reproduz passivamente o objeto da representação. Ao representar o objeto, o sujeito o reconstrói ao mesmo tempo em que se constrói enquanto sujeito, situando-se no universo social e material que o rodeia. Dessa maneira, semelhante às opiniões e atitudes, as representações sociais são, de acordo com Moscovici (2012), uma preparação para a ação. A principal diferença entre esta (as RS) e aquela (opiniões e atitudes) é o fato de que as representações sociais não apenas orientam os comportamentos dos sujeitos, como se poderia admitir a partir de uma perspectiva funcionalista, sobretudo, porém, porque elas (as RS) reconstituem o universo social e material a partir do qual os comportamentos terão lugar, integrando esse mesmo universo numa rede de relações em que o objeto está vinculado (MAZZOTTI, 2008).
Contribuindo com essa perspectiva Chamon e Chamon (2007, p.111 e 114), afirmam que ocorre uma mudança na visão de estudo da psicologia social, uma vez que o foco da análise se desloca do indivíduo para o grupo, ou seja, “[...] o indivíduo deixa de ser a unidade essencial da análise”, uma vez que as representações sociais “[...] são conhecimentos do senso
comum e, dessa forma, são construídas em outro nível – o nível coletivo”. Acrescentam ainda que “é o senso comum, seus princípios e orientações práticas de todos os dias, que – válidos ou não, não importa – orientam o comportamento social de um indivíduo”. A importante contribuição no resgate da validade social dos conhecimentos cotidianos, ocorre, segundo Minayo (2011, p. 84), com a retirada da “[...] ideia de que o ‘senso comum’ seja inerente à ignorância das massas, mostrando como cada grupo social tem seu próprio conformismo e ilusão”.
Não basta, porém que, um objeto social faça parte do senso comum de um grupo para que se possa considerá-lo como representação social. A condição inicial para a formação das RS é justamente a ausência deste objeto na sua forma concreta, pois:
[...] a representação segue os passos do pensamento conceitual já que a condição de seu surgimento é o apagamento do objeto ou da entidade concreta; mas por outro lado esse apagamento não permanece como total e, a exemplo da atividade perceptiva, ela deve recuperar esse objeto ou essa entidade e os torna tangíveis (MOSCOVICI, 2012, p. 53).
Embora sejam diferentes quanto ao tipo de pensamento e aos métodos utilizados para a produção dos conhecimentos, tanto os conhecimentos científicos, quanto aqueles derivados do senso comum estão baseados na razão. Esse é o principal motivo que Moscovici se interessa especificamente pelo senso comum, pois considera que “[...] quando se estuda o senso comum, o conhecimento popular, nós estamos estudando algo que liga a sociedade, ou os indivíduos, a sua cultura, sua linguagem, seu mundo familiar” (MOSCOVICI, 2010, p. 322).
Os conhecimentos sobre os objetos sociais que interessam ao estudo das RS fazem parte, então, do universo consensual, o qual recebe essa nomenclatura pelo fato desses conhecimentos serem compartilhados pelos membros de um determinado grupo social e, até mesmo, entre diferentes grupos. A partir dos conhecimentos do senso comum os sujeitos, inseridos nos grupos sociais, dão sentido aos objetos (físicos, sociais e simbólicos) do universo à sua volta, transformando o desconhecido e ameaçador de forma a encaixá-lo nos esquemas mentais anteriormente construídos.
Nessa dinâmica em que o sujeito ao mesmo tempo em que transforma o universo reificado, para encaixá-lo junto aos conhecimentos preexistentes no seu senso comum, transforma-se também enquanto sujeito, integrando o novo, estranho e, por vezes, ameaçador ao seu universo conceitual (psicológico). É nesse mesmo sentido que os sujeitos da presente pesquisa, participantes de um processo de formação profissional, defrontam-se com novos
conhecimentos, valores, vivências e interações sociais, os quais necessitam ser transformados para que se integrarem aos seus universos consensuais de conhecimentos previamente estabelecidos. Essa transformação, por sua vez, ocorre bilateralmente, pois ao mesmo tempo em que os novos conhecimentos são transformados para serem apreendidos pelos sujeitos, seus universos consensuais são também transformados para que o novo se acomode.
Esse processo transformador, no qual tanto o novo como o antigo se metamorfoseam, é o que permite a formação das representações sociais. Para que as RS sejam construídas e manifestadas, depende que algumas condições psicossociais se estabeleçam e determinem a sua emergência. Tais condições são tratadas no tópico seguinte.