3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.5 Estratégias de compreensão idiomática
3.5.10 Usar de conhecimento de mundo para compreender a EI
A décima estratégia da qual iremos agora tratar, e relembrando que é um mecanismo de compreensão por nós inclusa no escopo das ECI, engloba os conhecimentos que se configuram como uma ferramenta que compõe o nosso entendimento de contexto, que pode ser chamada de enciclopédico ou de mundo. Koch (2016, p. 32) o define como
[...] aquele que se encontra armazenado na memória de cada indivíduo, quer se trate de conhecimento do tipo declarativo (proposições a respeito dos fatos do mundo),
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quer do tipo episódico (os “modelos cognitivos” socioculturalmente determinados e adquiridos através da experiência).
Esse tipo de conhecimento permite que o leitor crie hipóteses acerca do conteúdo veiculado no texto e preencha as lacunas dispostas na superfície textual. Essa habilidade que temos em criar inferências provém de certos modelos cognitivos, construídos a partir de nossas experiências, como os frames e os scripts. Observemos o exemplo 21 (IGOR, 2009), extraído do site https://bit.ly/2Ox6tRf.
(21) À meia noite, o sol raiava no horizonte, um velho com sua linda cabeleira loura, contemplava com os olhos fechados a beleza da natureza, enquanto que um velho mudo calado dizia Os quatro profetas do mundo são três. Moisés e Elias.
Com base no nosso conhecimento de mundo podemos identificar uma série de incoerências e contradições no texto acima, como o fato de o sol raiar no horizonte à meia noite e o de um velho mudo conseguir falar algo. Uma análise de cunho unicamente gramatical jamais seria capaz de apontar tais inconsistências.
Munidos desse entendimento, durante o ato de compreensão de qualquer EI, principalmente aquelas mais opacas, é o nosso conhecimento de mundo que irá permitir que o leitor perceba que tais itens lexicais criam diferentes associações de sentido com o resto do texto, não equivalendo necessariamente a uma interpretação literal. Vide a história abaixo, acessível a partir do link https://bit.ly/2Nj8NyK.
Figura 8 – O vei bateu as botas
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A história acima, na qual a EI bater as botas se inscreve, é apresentada em quatro quadros na tirinha. Nos dois primeiros, com base no conhecimento de mundo, e com respaldo na cara de tristeza de um dos personagens, o referente da EI em destaque é construído. Ou seja, em contextos nos quais um familiar de um amigo morre, convenciona-se utilizar expressões como “meus pêsames”. Até então, o direcionamento do texto sugere que a EI bater as botas seja entendida idiomaticamente. Entretanto, o referente é descontruído e ressignificado quando percebemos que, na verdade, bater as botas fora expressa em seu sentido literal, com base nos dois últimos quadros. Criamos associações referenciais entre a expressão as botas, em sua acepção literal, com outras expressões referenciais, como aquelas merdas, além da imagem escolhida pelo cartunista de um senhor de idade batendo suas botas. Novamente, para que possamos recuperar o referente, ativamos nosso conhecimento enciclopédico, igualmente apoiando-nos nas imagens, sobre o que é o ato de bater as botas, com o fito de deixá-las limpas.
Queremos mostrar, com o exemplo acima, que a compreensão idiomática mediada por um contexto também articula conhecimentos de mundo. Caso um dos personagens não conhecesse o sentido de bater as botas, que é convencionado, dificilmente teria dito “meus pêsames”. A julgar pela esfera convencional apontada por Tagnin (2013), na figura 1, em seu sentido mais pragmático do termo, podemos dizer que o script encontrado na história acima diz respeito à forma de agir em face ao falecimento de alguém, que é amparado por conhecimentos de mundo.
No que tange o conhecimento compartilhado, consoante Koch e Travaglia (2015, p. 77), este decorre do fato de
[...] como cada um de nós vai armazenando os conhecimentos na memória a partir de suas experiências pessoais, é impossível que duas partilhem exatamente o mesmo conhecimento de mundo. É preciso, no entanto, que o produtor e receptor de um texto possuam, ao menos, uma boa parcela de conhecimentos comuns.
Isto é, partindo do pressuposto de que cada indivíduo, ao curso de sua vida, ativa diferentes conhecimentos de mundo a partir de suas experiências, que são únicas, nada mais razoável a argumentar que, no ato de interação, ambos os sujeitos, produtor e receptor, necessitam negociar sentido para que consigam se entender. Assim, essa negociação é mediada pelos conhecimentos compartilhados, ou em comum, que possuem.
Dessa forma, acreditamos que a construção de qualquer referente é realizada ao longo de todo o texto, a partir das pistas dadas no cotexto e do balanceamento entre informações novas e velhas. Ao revisitarmos os exemplos (1) e (2) sobre os ambulantes do
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Porto de Galinhas, perceberemos que há um embate de pontos de vista, embasados pelas experiências empíricas que ambos os interlocutores tiveram no referido local. Assim, para que o referente fosse construído e negociado ao longo do texto, o mínimo necessário foi satisfeito, que era de os interlocutores compartilharem de alguns conhecimentos sobre Porto de Galinhas.
Em uma perspectiva mais idiomática, a construção do referente também é inclusa nesse processo de negociação de sentidos, como quando na tirinha sobre bater as botas, na qual houve negociação de sentido para a passagem de um entendimento idiomático para o literal. Ou seja, só houve a construção do referente da expressão literal bater as botas porque ambos os interlocutores, em sua memória, partilhavam da mesma compreensão gerando, assim, um texto coerente.