3 REFLEXÃO TEÓRICO METODOLÓGICA
3.4 Os usos e significados do objeto: rompendo com o evolucionismo
Quando Franz Boas (1858-1942), ainda em 1896, formulou uma crítica poderosa às teorias antropológicas vigentes extensiva aos modelos de museus europeus, sua principal argumentação foi a de que os objetos eram pensados de acordo com seus esquemas de evolução e difusão, deixando-se de lado suas funções e significados no contexto específico de cada sociedade na qual foram feitos e usados. Ao sustentar que cada sociedade continha em si sua própria história e seus próprios valores, frutos de seu passado histórico único, Boas propõe uma concepção antropológica identificada como particularismo histórico.
As críticas ao evolucionismo apoiaram-se na defesa de um método de pesquisa baseado no trabalho de campo, em que, para Boas, tudo deveria ser
observado e registrado pelos próprios pesquisadores. O particularismo histórico vem assim contestar o determinismo geográfico e o método histórico (comparativo) e, não menos importante, vem colocar as pesquisas empíricas, atentas às diferenças culturais, como contraposição ao método dedutivo, por semelhança. Através de sua postura crítica ao evolucionismo, Boas trouxe para as ciências sociais os conceitos de etnocentrismo e relativismo cultural: diante de uma máscara melanésia e uma máscara africana, não era suficiente descrever o material com que eram feitas, nem a tecnologia mais ou menos evoluída com que eram produzidas; era necessário entender o uso dessas máscaras e, conseqüentemente, o seu significado para as pessoas que as empregavam em diversos rituais e contextos sociais. (GONÇALVES, 2007)
A descrição e análise dos objetos centradas em suas formas, materiais e métodos de fabricação deixa de fazer sentido diante destas críticas, passando- se a enfatizar seus usos e significados dentro das relações sociais nas quais os sujeitos estão envolvidos. A análise comparativa dessas relações nos mostraria as funções e significados dos objetos e dos traços culturais em diferentes culturas, segundo Boas.
Logo, superam-se estas idéias evolucionistas tanto no âmbito da Antropologia quanto da Arqueologia. Quando o etnoarqueólogo realiza uma etnografia com olhar arqueológico em um contexto específico, gera uma infinidade de descrições particulares do comportamento humano, propiciando um aprofundamento no entendimento da relação expressa através da cultura material. Essa abordagem deixa de voltar-se, exclusivamente, à compreensão dos povos do passado: a etnoarqueologia transforma-se, assim, em “arqueologia do presente”. O objetivo da observação é entender a relação dos homens com o mundo material no tempo presente e contribuir para o debate antropológico sobre a relação dos homens com a materialidade. (SILVA, 2009).
Da mesma forma que o movimento processual enriqueceu extraordinariamente a disciplina arqueológica do ponto de vista metodológico, é
inegável que o pós-processualismo trouxe importantes avanços teóricos, inserindo a arqueologia nos grandes debates contemporâneos acerca da oposição às grandes divisões na construção do conhecimento – como “natureza versus cultura” e “sujeito versus objeto”. Os arqueólogos passaram a perceber além da oposição radical entre essas categorias, que objeto e sujeito fazem parte da mesma relação dialética, como partes constitutivas uma da outra.
O movimento pós-processualista também demonstra a necessidade da incorporação dos aspectos simbólicos e cognitivos ao estudo da cultura material para expandir as possibilidades analíticas, abrindo caminho para a observação e análise de um campo até então praticamente inexplorado pela arqueologia: a dimensão sensorial das coisas materiais. Essa perspectiva, fundada na fenomenologia19e na teoria social, começou a despontar na arqueologia com maior intensidade a partir de meados da década de 1990 e, embora a presente pesquisa não tenha um caráter arqueológico, ela se beneficia das contribuições desta area do conhecimento. Considerando que as pessoas se comunicam o tempo todo com o mundo ao seu redor por intermédio dos sentidos, este é um aspecto que não pode ser suprimido do entendimento sobre a materialidade, eixo desta investigação antropológica. (LIMA, 2011)
Assim, essa dimensão sensorial das coisas materiais é essencial na análise das trajetórias de resíduos oriundos do Polo Naval de Rio Grande e, para descrevê-los, incorporei à etnografia recursos visuais, o que não se restringe a uma questão de método. A imagem aqui é mais do que técnica ou objeto que se esgote enquanto documentação empírica. Ela concerne a uma experiência relacional e epistemológica, atingindo percepções inatingíveis pela palavra, o que envolve questões éticas, estéticas e opções teóricas visando
delinear um campo de relações, tensões, continuidades e descontinuidades entre as práticas discursivas. A imagem também amplia as possibilidades para a análise dos dados, elaboração e divulgação dos resultados da pesquisa, sempre
19 A fenomenologia é o estudo de um conjunto de fenômenos e como eles se manifestam,
seja através do tempo ou do espaço. É uma disciplina que consiste em estudar a essência das coisas e como estas são percebidas no mundo.
articulando-se com a experiência de campo e a etnografia textual, mas sem submeter-se ao texto, com o objetivo de levar a um adensamento da reflexão ao conhecimento antropológico. Deste modo, o recurso imagético vem ao encontro dos fundamentos teórico-metodológicos eleitos para a compreensão dos materiais em questão, desde sua observação e descrição, passando pela sua percepção compartilhada, de modo a que possam “falar por si”, através da potência e eloquência das imagens a eles associados.
As teorias que embasam o objetivo de seguir a trajetória social das coisas são parte determinante da metodologia desta pesquisa, como procuro demonstrar neste estado da arte da literatura sobre o tema. Os estudos que abordam o papel das coisas no campo social compõem, atualmente, um domínio bem mais amplo, de natureza interdisciplinar, que pesquisa a produção material da humanidade, passada e contemporânea. Além disso, um aspecto pode ser considerado superado no estudo da cultura material: o seu entendimento como um reflexo passivo de sistemas socioculturais. Estudos de diversos arqueólogos e antropólogos (LAW, 1992; OLSEN, 2007; WEBMOOR, 2007; MILLER, 2007, 2013; INGOLD, 2012, 2013) vem demonstrando o caráter ativo e transformador dos artefatos nas estratégias de negociação social. Entretanto, antes de passar a eles, vale ainda resgatar a contribuição de obras paradigmáticas da história da antropologia que colocaram em evidência a relevância dos objetos para alicerçar as relações sociais.