TÓPICO 1 – LÓGICA
3.1 UTILITARISMO
O utilitarismo é uma teoria baseada em um único princípio: o princípio da utilidade. "O princípio diz que devemos sempre produzir o equilíbrio máximo do valor positivo sobre o desvalor (ou o menor desvalor possível, caso só se possam obter resultados indesejáveis)" (BEAUCHAMP; CHILDRESS, 2013, p. 63).
A teoria consiste em uma ética normativa que apresenta a ação útil como a melhor ação, a ação correta. As origens clássicas do utilitarismo são encontradas nos escritos de Jeremy Bentahm (1748-1832) e de John Stuart Mill (1806-1873).
O termo utilitarismo foi usado pela primeira vez na carta do filósofo Jeremy Bentham para George Wilson, em 1781, e depois entrou em uso corrente na filosofia por John Stuart Mill, na obra Utilitarismo, publicada em 1861.
Em 1958, Elizabeth Anscombe criou o termo "consequencialismo", pois até então o termo "utilitarismo" era utilizado para se referir às teorias que buscavam sua justificação nas consequências das ações, em contraponto àquelas que buscam sua justificação em máximas absolutas.
Assim, o termo consequencialismo foi adotado como uma categoria e o termo "utilitarismo" passou a designar apenas a teoria mais próxima daquela defendida por Bentham e Mill, a maximização da promoção da felicidade.
Observe a figura a seguir e reflita sobre a seguinte questão: o trem, em seu curso normal, mataria cinco pessoas, mas você pode puxar a alavanca e desviar o trem para matar apenas uma. O que você faria? Para refletir um pouco mais sobre a questão, você encontrará, ao fim deste tópico, uma leitura complementar que possibilitará uma reflexão profunda sobre os dilemas éticos da atualidade.
FIGURA 11 – DILEMA DO BONDE
FONTE: <https://verdadenapratica.wordpress.com/2015/05/29/utilitarismo-e-seus-impactos/>. Acesso em: 23 jun. 2018.
Na concepção utilitarista, as ações devem produzir o melhor resultado para o maior número de pessoas. A regra, portanto, é o maior prazer possível para o maior número de pessoas possíveis. Apesar da teoria ser atraente, é possível levantar algumas objeções, dentre elas, o fato de que Bentham “não atribui o devido valor à dignidade humana e aos direitos individuais e reduz equivocadamente tudo que tem importância moral para uma única escala de prazer e dor” (SANDEL, 2015, p. 63).
A concepção de Bentham é extremamente calculista e quantitativa, pois uma ação moral é avaliada apenas se as consequências produzirão maior felicidade ou maior sofrimento para o maior número de pessoas.
Assim, diante de um prédio em chamas, se eu tiver que escolher entre salvar um parente próximo ou cinco estranhos, o certo é salvar os cinco estranhos, pois maximiza a felicidade para um maior número de pessoas. Ao exigir decisões dessa natureza, o utilitarismo se tronou uma teoria criticada profundamente.
Diante das severas críticas feitas ao utilitarismo de Bentham, o filósofo John S. Mill procurou ir um pouco além, apontando para uma concepção de utilitarismo menos calculista e mais qualitativa. Em sua obra Utilitarismo, publicada em 1861:
Mill defende, em cinco capítulos, uma versão mais sofisticada de utilitarismo, que se baseia no hedonismo qualitativo. Durante a avaliação de uma ação, além da intensidade e duração dos prazeres, devemos levar em conta a qualidade dos prazeres gerados por ela. Mill os distingue como superiores ou inferiores, de acordo com a sua natureza intrínseca. São superiores os prazeres do intelecto, das emoções, da imaginação e dos sentimentos morais e são inferiores os prazeres corporais. Confrontados por indivíduos que tenham experiência de ambos, os do tipo superior sobressaem-se como preferíveis, sendo então considerados melhores (superiores) do que os outros (GONTIJO, 2010, p. 1).
É importante ressaltar que existem diferentes versões do utilitarismo, contudo, cinco princípios fundamentais são comuns a todas as versões, a saber: princípio do bem-estar; consequencialismo; princípio da agregação; princípio de otimização e a imparcialidade e universalismo.
O princípio do bem-estar estabelece que o objetivo da ação moral deve ser o bem-estar em todos os níveis: físico, moral e intelectual. No princípio do consequencialismo, o valor moral das ações é julgado frente às consequências por elas geradas.
O princípio da agregação considera sempre a maioria dos indivíduos, destacando o sacrifício da minoria, pois o que conta é a quantidade global de bem-estar produzida, ou seja, o saldo líquido da felicidade e do bem. O princípio de otimização é a maximização do bem-estar interpretada como um dever.
Vale ressaltar que há dois importantes tipos de utilitarismo, o de ato e o de norma, que Frankena (1981, p. 50) denomina de “atoutilitarismo e normoutilitarismo”. O utilitarismo de ato consiste na ideia de que uma ação é correta se, e somente se, promover a maior felicidade para o maior número. O utilitarismo de regra concorda com o de ato, mas acrescenta que precisamos de regras práticas, pois caso contrário não podemos estar o tempo todo a fazer tais cálculos.
Apesar das duras críticas que os utilitaristas receberam e o fato de existirem pessoas que não os aceitam, o princípio básico utilitarista é hoje central nas disputas morais. Se lembrarmos do passado, quando as ideias foram sistematizadas, vamos perceber que foi uma ideia revolucionária. Pela primeira vez na história, filósofos defendiam que a moralidade não dependia de Deus nem tão pouco de regras abstratas.
Ao desenvolverem uma teoria assentada na ideia de que a felicidade do maior número é tudo o que se deve perseguir com a ajuda da experiência, as ações livres e individuais passaram a ter um grande peso no espaço de deliberações morais. Os utilitaristas foram reformadores sociais empenhados em mudanças, tais como a abolição da escravatura, a igualdade entre homens e mulheres, o sufrágio universal, independentemente de deterem ou não alguma propriedade.