E então eu cheguei à Escola Juracy Macêdo para trabalhar no Laboratório de Aprendizagem. Como meus alunos ainda não haviam chegado eu fiquei de prosa com o professor Adomiram. E ele começou a falar-me de um livro de Clarice Lispector. O nome do livro era “O Mistério do Coelho Pensante”.
Eu me interessei pela conversa, mas também fiquei pensando:
Uai, coelho pensa? Eu pensava que só a gente pensava. Nunca pensei que coelho também pensasse. Qual é o nível de pensamento de um coelho?
Qual é o seu QI, se é que tem algum? - perguntei, antes de tudo, a mim, em pensamento, para não revelar a minha ignorância.
A verdade é que não tenho experiências com coelhos, salvo com os meus irmãos de criação, filhos da segunda união conjugal de meu pai. Eles são da Família Coelho. Mas, coelhos de verdade eu nunca criei, nunca comi e nem me recordo de havê-los visto pessoalmente.
Lembro-me do Pernalonga, do coelho de Alice no País das Maravilhas, dos coelhos que os mágicos tiram das cartolas, do pé de coelho para dar sorte. Lembro, ainda, da corrida entre a Lebre e a Tartaruga.
Coelho e Lebre são os mesmos animais? Seriam macho e fêmea? - continuei me perguntando para deslanchar minha pesquisa. E a verdade que veio à tona mostrou-me que não. São animais distintos.
Os coelhos têm orelhas curtas; as lembres, orelhas longas. Os coelhos são menores do que as lebres. Estas são mais ágeis, devido às suas grandes patas traseiras. Coelhos nascem com os olhos fechados e pelados;
as lebres nascem com os olhos abertos e peludas. Os coelhos têm até 15 filhotes por parto; as lebres somente até quatro. As lebres vivem na superfície, enquanto os coelhos preferem a vida subterrânea.
Os coelhos ficam felizes, entediados, gostam de carinho, brincam, veem em quase 360 graus, são dóceis, interativos e inteligentes.
Mas são menos inteligentes do que os cães e gatos.
Mas… Chega de correr atrás dos coelhos digitais, Vamos ao encontro do coelho pensante de Clarice Lispector,
Trata-se de uma história incompleta. Os leitores e contadores são encarregados de completá-la com suas explicações orais. A história é para ser uma conversa.
Hum! Mas o que a gente pode conversar sobre coelhos? Eu não sabia quase nada a respeito deles. Aliás, creio que continuo sem saber.
Minha pesquisa foi um tanto superficial, porque tinha que ser rápida para poder me preparar à leitura significativa do livro de Clarice: “O mistério do coelho pensante”. Foram apenas três dias de reflexão. Não fui apenas na internet. Também conversei com o Lurdes, Zé do Rio e Adomiram, meus interlocutores mais próximos. Talvez, em dezembro, converse com Davi, meu neto de 7 anos, sobre esse assunto.
Em resumo, a história fala do coelho Joãozinho que vivia em uma casinhola de ferro e que teve algumas ideias bem boas, sendo que a primeira, que se parecia com ideia de menino, consistia em fugir da casinhola toda vez que não houvesse comida lá. E a segunda, que melhor que ideia de menino foi descobrir uma maneira de fugir de lá. E então ele implementou suas ideias. E fugiu da casinhola. O mistério consiste em descobrir como é que isso aconteceu.
O coelho Joãozinho vivia numa gaiola de ferro; Por que ele era posto numa gaiola? Ele era perigoso? Ele não gostava de ficar naquela casa e era preso para que não fugisse? Será que um animal que não quer ficar numa casa ou que está preso nela seja um animal de estimação?
Nas ilustrações de Marina Massarani, Joãozinho aparece vestido como gente. Quando eu visto um coelho da forma como me visto, eu quero que meu coelho se pareça comigo ou que eu se pareça com ele? Será que ele fica à vontade com minhas roupas?
Hum! Hum!
Em outra ilustração, o coelho está no gramado. Acho que isso está certo, porque os coelhos são herbívoros e gostam de grama. Mas, se está preso na casinhola de ferro, de que adianta estar no gramado? Seria apenas para que estivesse ao ar livre? E se chover? Coelho não gosta de se molhar.
Joãozinho não falava. Não acho que isso seja verdade. É claro que ele não falava português, mas certamente falava coelhês, a língua dos coelhos. Na minha opinião tudo fala.
Olho para frente e vejo uma mesinha cheia de livros. À frente dela, uma cadeira azul faz a vigilância. E sobre minha mesa de trabalho, eu vejo minha garrafinha d’água. O que será que esses objetos estão querendo me dizer? Devem estar querendo me dizer alguma coisa, porque não param de olhar para mim. Toda vez que olho para eles, lá estão eles também de
olho em mim. Isso é um mistério! O que as coisas que não falam a nossa Língua Portuguesa diriam se pudessem falar? Ah, se minha cama falasse!
Se essas paredes falassem! Se minha garrafinha d’água falasse! O que diriam?
A Clarice disse que Joãozinho não era diferente dos outros coelhos. Todo coelho é igual? Então, por que eles não correm todos para o mesmo lado quando são perseguidos por cachorros?
Acho que estou com ideias de coelho na cabeça. Qual é? O coelho de Clarice podia ter algumas ideias. Mas é possível que isso seja apenas um disfarce e que as ideias de Joãozinho podem ser, na verdade, as ideias de Clarice. Ela disse que a história estava incompleta. Talvez seja porque ela só tivesse ideias de coelho na cabeça na hora de escrever a história.
Qual é? Qual é? Não vamos ofender os coelhos com essa comparação!
Tomo um gole de água de minha garrafinha. Ela deve ter me dito: “está vendo! É para isso que eu sirvo. Guardo água para molhar sua garganta seca por ler essas ideias de coelho” de Clarice.
Volto ao livro.
O coelho pensava com o nariz. O cérebro do coelho fica no nariz? Puxa! Disso eu não sabia mesmo. Ou talvez soubesse. Aprendi na pesquisa que o coelho tem um ponto cego que fica bem à frente de seu rosto. Ele consegue ver até quase 360 graus. Só não vê o que está na frente de seu rosto. Daí ele percebe o que está frente pelo tato com os bigodes e pelo cheiro. Não é que o cérebro está no nariz, mas sim que manda um comando ao nariz para que sinta e diga o que é, o que é?
Hum! Pelo visto já estou ficando cheio de ideias de coelho na cabeça de novo.
O coelho Joãozinho ficou bobo um dia. Ora, se ficou bobo é porque não era bobo antes. E então era inteligente! É a lógica que diz. Se fosse bobo não ficaria bobo, porque já era bobo. Só se pode ser o que não se é ainda.
Joãozinho teve uma boa ideia. Não! Não era pinga 51. Era ideia mesmo! Uma ideia igual à de menino. Será que é inteligente aquele que pensa que ideia de menino é boa? Os adultos costumam criticar as ideias uns dos outros dizendo que tais e tais ideias se parecem com ideias de menino. Se as ideias de menino são boas, então quando os grandes se
criticam dizendo isso que eu disse que eles dizem, na verdade eles estão é elogiando e dizendo que tais ideias são boas. Que legal a lógica!
Interessante!
Coelhos gostam de cenouras frescas? Sim! E não só de cenouras, mas de outros legumes, verduras e frutas. Nós nos parecemos muito com os coelhos no que diz respeito à comida.
Voltando à boa ideia de Joãozinho. Tão boa que se parecia com as ideias de menino. Hum!
Clarice disse que os coelhos não gostam de pensar e se conformam em ser burrinhos, conquanto que sejam amados. Eu também, sou coelho nesse sentido. Faço cada pergunta boba para Lurdes, só para obter a atenção dela. A verdade é que ninguém gosta de ser deixado de lado.
Nem Joãozinho e nem eu também. Você gosta de estar sozinho, de solidão?
Eu não acho que alguém goste. Ninguém é uma ilha. Todos necessitamos de um cafuné de vez em quando.
Querer carinho não é algo típico da natureza dos coelhos. É da natureza dos vivos e acho que até dos não vivos. Eu tinha uma garrafinha d’água que se ressecou toda porque eu deixei de usá-la. A garrafa seca se estraga, mas enquanto a garrafa é usada, cheia e esvaziada ela dura, dura, dura. Nós também precisamos ser cheios e esvaziados muitas vezes para que possamos durar bastante. Quanto mais isso acontece, mais a gente cresce, cresce e cresce.
Clarice acha que é da natureza coelha ter muitos filhos e da natureza humana não ter. Mas a Terra não está se enchendo de coelhos, mas de gente. Ou está? E os coelhos burrinhos não estão morrendo de fome como muita gente, principalmente porque eles são muito espertos e usam sua inteligência para serem alimentados e acariciados. Eu acho que ser inteligente e esperto é da natureza coelha.
O coelho de Clarice parece ser mais sábio do que ela, pois sabe até de coisas que ninguém lhe disse. Mas há controvérsias, pois as crianças também parecem já terem nascido sabendo que se não chorarem, não mamam. Hum! Vejo que vivo num mundo muito inteligente., cheio de muitos homens com poucos filhos e poucos coelhos com muitos filhos. Será mesmo!?
Quantos coelhos existem no mundo? Das pessoas eu sei que em outubro de 2017 já se aproximavam da casa dos oito bilhões de vivos.
Mas também há muitos coelhos. Registra-se que, apenas na Austrália havia
em 1920 uma população de dez bilhões de coelhos. E eles têm um parto a cada três meses, com ninhadas de até 15 filhotes.
Lembro-me de uma explicação sobre a sequência de Fibonacci, que era associada ao processo reprodutivo dos coelhos. A verdade é que os coelhos somente não enchem o mundo, porque o homem não deixa. O homem até aprendeu a criar coelhos em grande escala, para serem utilizados em sua alimentação.
O Frigorífico Coelho Real que fica no interior de São Paulo registrou um abate de 700 coelhos por dia, em 2016. E deve ter aumentado de lá para cá. As estimativas apontam que o consumo de carne de coelho no Brasil ainda é muito baixo, sendo de apenas 8 gramas por pessoa. Na China eles consomem um milhão de toneladas de carne de coelho por ano. É que lá a carne de coelho é mais barata. Um pouco mais cara do que a carne de frango e bem abaixo da carne bovina. Aqui no Brasil, o quilo de carne de coelho chega a quase R$ 30,00, porque ainda é considerada uma carne exótica.
Voltando ao Joãozinho, já não sei dizer se ele é burro ou inteligente, porque não percebe que o carinho humano pode ser um carinho de grego.
A boa ideia de Joãozinho era fugir da casinhola sempre que não houvesse comida lá. Será que é legal viver preso por causa de comida?
E os coelhos livres, morrem de fome?
A Bíblia diz que Deus cuida dos animais da natureza.
Clarice disse que coelho só é esperto para farejar ideias que lhe sejam úteis. E nós também não somos assim? Quase tudo o que fazemos não é buscando tirar algum proveito?
Como fugir da casinhola de ferro? Se a casinhola permitia a fuga, então não era uma prisão de verdade. Só de faz de conta. Se havia essa possibilidade, então a ideia dele não era tão ruim assim,
Os noticiários da TV mostram que presidiários encontram meios de saírem das prisões para cometerem crimes e que depois voltam para suas celas. Assim formam álibis perfeitos. Como poderiam cometer crimes se estavam presos? Seria o mesmo caso com Joãozinho? Mas como ele fugiria?
Passei a tarde pensando nisso. Em casa, Lurdes me disse que talvez ele escavasse e saísse por baixo. Até poderia ser. Muitos criminosos saem das prisões fazendo túneis. E eles permanecem nas celas até que os
túneis ficam prontos. Eles disfarçam a entrada para o túnel. Pode ser que o Joãozinho fizesse o mesmo. Mas acho que não passaria muito tempo para que esse túnel viesse a ser descoberto, porque seria feita uma investigação para saber como se dera a fuga do coelho, como a polícia faz nas fugas das prisões.
Zé do Rio também sugeriu a ideia do túnel. À noite conversei com Adomiram. E achei sua ideia interessante. Ele sugeriu que a casinhola fosse uma prisão psicológica e que a válvula de escape dele era a namorada. Ele fugia por amor à sua coelha.
Acho que é por aí mesmo. É possível que seja assim. Na verdade, diante da inconclusiva narração só temos mesmo possibilidades.
Não há certezas.
A prisão psicológica é algo bastante real no mundo atual.
Principalmente, no que se refere ao relacionamento entre humanos e animais. É de ver que muitos animais permanecem junto dos humanos, mesmo quando têm possibilidades de irem embora. As galinhas d'angola, por exemplo... Elas podem voar e ir para longe. E fazem isso, mas não vão para tão longe, embora pudessem. Elas estão sempre por perto das casas de seus donos. O mesmo se dá com os cães e gatos, principalmente na zona rural. É possível que os coelhos também possam ter esse mesmo
"apegamento" aos humanos. E embora eles sejam animais extremamente sensíveis, que gostem de carinho e de comida, eles também são curiosos e querem conhecer o mundo.
Não creio que o mundo investigativo de Joãozinho fosse grande. A grandeza deve ser proporcional ao seu tamanho. Lembro-me dos meus tempos de criança em Pouso Alto e na Fazenda da Mata, locais onde nasci e vivi. Em minhas lembranças, durante anos, esses lugares eram enormes. A casa da fazenda era grande; a vila de Pouso alto tinha um grande perímetro; a cachoeira do córrego Marruais era alta... No entanto, quando retornei a esses lugares, depois de anos, fiquei surpreso com suas dimensões, pois eram bem pequenos. Mal entrei em Pouso Alto e já estava saindo. A cachoeira tinha pouco mais de um metro de altura. E a escada da casa grande da fazenda, que ligava a sala à cozinha tinha apenas quatro ou cinco degraus. O meu grande mundo de criança se transformou em um pequeno mundo quando cresci. Daí que as fugas de Joãozinho poderiam ser apenas até a casa da namorada. E para um pequeno coelho já seria uma
vastidão a ser explorada. Quantos buracos desconhecidos! Quantas moitas!
Quantas coisas!
Agora, Clarice fala que a casinhola era de ferro. O que será que ela queria dizer com isso? O ferro pode significar apenas que o relacionamento entre Joãozinho e os meninos da casa fosse muito sólido, ao ponto de Joãozinho, em princípio, não conseguir se distanciar muito da casa.
O condicionamento realizado pelos humanos pode garantir determinados comportamentos no animal. Li a declaração de alguém em certo depoimento que seu coelho não fazia necessidades em qualquer lugar da casa, mas somente no sanitário. E isso acontece mesmo. Eu tive um cachorrinho chamado Sheik. Eu saía e o deixava dentro de casa. Quando eu retornava, depois de muitas horas e abria a porta da casa, ele saía correndo para fazer as suas necessidades longe de casa. Não me lembro de ter pisado alguma vez sobre as fezes do Sheik. Ele era muito disciplinado. Além disso, naquele tempo, minha casa não tinha muros. E ele ficava do lado de fora, mas nunca foi embora, ainda que desse suas escapadelas. Creio que sua casinhola psicológica também fosse de ferro. Ele gostava muito de mim.
No final de minha conversa com Adomiram, eu lhe disse:
Muito bem! Eu estava com umas ideias mirabolantes para explicar as fugas de Joãozinho. Aí veio você com essa prisão psicológica e deu uma boa direção para a história.
E continuei: Se fosse o Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-pau Amarelo a história seria diferente. Ele criou o pó de pir-lim-pim-pim e o faz de conta. Sabe, meu amigo... Não tenho o pó, mas eu viajo... Como viajo!
Se fosse uma história de Gene Roddenberry, criador de Star Trek - disse-lhe -, a fuga poderia se dar através do teletransporte da casinhola para qualquer lugar; poderia ser também o caso de haver uma passagem dimensional entre o mundo dos coelhos e o mundo dos humanos, como se cada um vivesse em uma dimensão. Eu sonho com o dia em que vou me teletransportar para onde quiser apenas pelo pensamento, sem a tecnologia externa, somente pelo pensamento.
“A minha casa fica lá detrás do mundo, onde vou em um segundo quando começo a pensar”. “O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa, quando começa a pensar”. É o que diz a canção “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues.
É muito fácil fugir das prisões. Só fica preso quem não consegue se libertar. Eu não vivo o tempo todo na Terra. Quantas vezes eu me encontro no mundo da Lua, como agora, por exemplo. Mas temos que aterrissar.
E então Adomiram me disse: Vale a pena sonhar. Deixa-te guiar pelos seus sonhos. Fenomenal. O pensamento é a arma mais poderosa do mundo. Nós a temos. Dela faremos uso. Enquanto vida tivermos. É por meio dela que alavancaremos.
Esticando mais um pouco nossa conversa, respondi-lhe: É de ver que podemos pensar, nem que seja através do nariz de um coelho. O mistério do coelho pensante pode ser exatamente a revelação dessa possibilidade. Nós somos limitados por tantas coisas, mas podemos pensar algumas saídas, algumas fugas pelo mundo. Até amanhã.
E Adomiram concluiu: Por meio de nossas fugas podemos ver um descortinar diferente cada um à sua maneira. Até amanhã.
* * *
E essa foi a nossa história da história de “O Mistério do Coelho Pensante”, de Clarice Lispector.
Agradeço às participações de minha esposa Lurdes, de meu primo Zé do Rio e de Professor Adomiram, meu amigo e motivador. Eu gostei muito dessa história. E você, o que achou? Que tal me contar a sua história dessa minha história da história de Clarice!
E esvaziei minha garrafinha d’água!
* * *