“Sonho que se sonha só;
É só um sonho que se sonha só;
Mas sonho que se sonha junto, É realidade” (R. Seixas) Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá-Quá
Quá-Quá-Quá-Quá-Quá (Patazia)
“Ah, Patonho! Que saudades eu tenho da fazenda, a doce terra onde nascemos. Vivo sonhando com o nosso retorno”.
“Também sinto saudades de lá, Patazia. São tantas lembranças boas. Quando você se lembra de lá, o que te dá mais saudades, meu irmão?”
“O rio, as lagoas, as cachoeiras… Eu sinto uma saudade imensa de tomar banho naquelas águas tão límpidas e cristalinas. Você se lembra de nossas aventuras? Ah, a gente fazia a maior farra”. “A mamãe ficava toda preocupada conosco”. “Toma cuidado, Taz e cuida direito de seus irmãos”, ela dizia.
“Sim, eu me lembro, Mano Taz. Nós éramos muito felizes. Por que tudo tinha que acabar desse jeito? Agora, a gente vive aqui nessa cidade, preso dentro desse galinheiro, esperando a morte chegar” - disse Patonho.
“É Mano Tonho. Como pode a vida da gente mudar desse jeito?
Quando o papai disse que nós íamos mudar para a cidade, eu fiquei todo eufórico pensando que ia ser fantástico. Como eu estava enganado!”
“Pois é, mano! Na verdade, todos nós estávamos enganados com a cidade. Até o papai. Afinal, nenhum de nós jamais vira uma cidade.
Nós, nossos pais, nossos avós… Todo mundo nasceu e morreu lá na fazenda. Ninguém da família já tinha vindo na cidade para dizer como era”.
“Isso mesmo, Patonho. Essa é uma das práticas mais absurdas de nossos tempos. As criaturas tomam decisões sem conhecimento de causa, de consequências, sem saber de nada”. “Já ouviu falar na Quaternet, Tonho?”
“Sim! Ela é a internet dos patos. Já ouvi muito quá-quá-quá sobre isso. Dizem que nela tem um lugar onde as pessoas convivem com bastante liberdade. Sem segredos. Todo mundo sabe tudo sobre todo mundo. Eu tinha até vontade de conhecer. Parece que é tão bom!”.
“Parece, Tonho. Mas só parece. Nem queira ir lá, meu irmão. A Quaternet é um verdadeiro ti-ti-ti. É verdade que lá, muitas pessoas falam de coisas boas, mas a maioria só quer ver mesmo é o circo pegar fogo. E aí saem inventando coisas e falando mentiras sobre os outros, principalmente coisas más. Quem é santo vira demônio da noite para o dia. O bandido faz pose de mocinho, o pobre se faz passar por rico, o feio diz que é bonito. É tudo enganação, Tonho! Se prestasse mesmo, não seria de graça”.
“Meu Deus, mano! Bem que dizia Vovó Pataca, Taz, que quando a esmola é demais, o santo desconfia!”.
“Devia, Tonho, devia! Mas não desconfiam. Elas vêem as armadilhas, vêem as pessoas caindo nelas, mas fazem de conta que não viram nada e continuam lá, doidas para verem o funeral de alguém. A Quaternet mata mais do que as guerras e todo dia faz a sua carnificina”.
“Ouvi dizer que lá tem muitos lugares em que as pessoas conversam sem se olharem nos olhos, como se fossem cegas”.
“Também ouvi isso, mano! Vem um e oferece a sua amizade.
Inventa um nome falso e um monte de informações falsas sobre ele. Tudo falso! Tudo falso! Aí o outro fica encantado com aquele perfil maravilhoso e aceita o tal como amigo. Pronto! Foi conquistado. Aí a vaca vai para o brejo!”
“Sim, Taz! E encantado do jeito que ficou, começa contar tudo para o seu príncipe ou sua princesa. E abre a vida. E conta detalhes que nem os da família sabem”.
“Isso mesmo! E dessa maneira, o falso amigo consegue entrar na rede do seu novo amigo. E todos começam a tratá-lo como se fosse da turma. E assim vai até o dia em que o cara dá o golpe final.
“Como assim?”
“Tonho, esses caras que se infiltram na rede de amigos dos outros só querem uma coisa”.
“Prata?”
“Claro! Primeiro, ele busca coletar o máximo de informações sobre seu “amigo”. Depois, procura saber o que puder sobre os amigos do seu “amigo”, de quem também se tornou amigo. E assim, depois de conhecer a todos, ele começa a divulgar o seu golpe. E as pessoas, confiantes no “amigo”, se deixam levar e só conseguem descobrir o golpe quando é tarde demais”.
“Que tristeza, né, Mano!”
“Sim, Tonho! E o pior é que, se duvidar, essa praga já chegou lá na fazenda também. Eu tenho até medo de pensar nos nossos parentes de lá. Gente boa, pura, inocente. Vai ser difícil eles conseguirem escapar dessa lábia da cidade”.
“E se nós fôssemos para lá e avisasse todo mundo do perigo!”
“Ir como, Tonho? Você está se esquecendo que nós estamos presos aqui; que a gente só consegue ver dessa cidade o brilho dela, que a noite é refletido no céu!”
“E se a gente voasse?”
“Você já viu pato voar, Tonho? A gente não voa, Tonho, a gente anda, a gente nada, mas voar não!”
“Então para que essas asas? Eu acho que a gente não voa, porque a gente não tenta! Até para voar, a gente precisa de treinamento”.
“É, nisso eu concordo com você. Talvez você esteja certo e estamos fazendo papel de bobo aqui nesse galinheiro”.
“E talvez seja por isso que nos sejamos patos, não é Taz!”
“Tudo bem! Tudo bem! Vamos planejar nossa fuga desse galinheiro. Vamos treinar, treinar e treinar até aprendermos a voar. E quando isso acontecer, a gente vai embora. E voamos direto lá para a fazenda!”
“Aí eu vou nadar na lagoa, vou contemplar a cachoeira, esquiar nas corredeiras do rio, vou….”
“Chega, Tonho! Deixa de sonhar acordado. Não adianta ficar sonhando se você não faz nada para que seu sonho se torne realidade.
Vamos sonhar esse sonho juntos, mas enquanto sonhamos, vamos nos dedicar à nossa preparação para essa grande aventura pelos céus”.
“Beleza! Então vamos dormir que já está tarde e sonhar com o que nós vamos fazer amanhã para que o nosso sonho se realize. Boa noite, mano!”
“Boa noite, Patonho!”
* * *