IZAIAS RESPLANDES DE SOUSA
FORA DA REALIDADE
POXORÉU, MT – 2019
Dedico essa obra à minha esposa Maria de Lourdes, aos meus filhos Fernando, Mariza e Ricardo, aos meus netos Davi, Arthur e Paulo Ricardo, às minhas noras Mariana e Laís, bem como aos meus pais e irmãos.
SUMÁRIO
Prefácio, 5
I – A importância do passado, 9
II – O Caminho do Rio das Mortes, 11 III – Além das Esmeraldas, 25
IV – Os diamantes do Kurugugwári, 47 V – O Coelho de Clarice, 52
VI – Aziram, a formiga de chuva, 60 VII – Viagem ao Reino dos Tubarões, 73 VIII – Os patos da Quaternet, 76
IX – A lendária mina dos Bororos, 80 O autor, 81
PREFÁCIO
Esse livro reflete o meu espírito aventureiro e a minha eterna busca por tornar conhecido o que ainda jaz em oculto, seja neste mundo em que vivemos, sejam visíveis ou invisíveis, estejam neste ou além deste e de qualquer outro universo. Eu creio que há muito mais coisas e conhecimentos além de nossa capacidade limitada de ver, ouvir, sentir e absorver do que sempre supomos enquanto humanidade. Creio, também, que ao escrever e registrar nossas impressões sensoriais e extrassensoriais, nós abrimos determinados portais que poderão nos mostrar paisagens e vivências que jamais seriam vislumbraríamos de outra forma.
Este livro aborda alguns dos sentimentos mais profundos do ser humano, tais como o amor, a fé, a esperança, a amizade e a união.
Discute os eternos conflitos familiares entre namorados, cônjuges, irmãos pais e filhos. Discute as virtudes que marcam um ser humano, como por exemplo, a verdade e a mentira, a lealdade e a sinceridade, entre outros.
O título do livro surgiu a partir de uma expressão cunhada pela minha esposa ao me ouvir falar e pedir o que ela achava a respeito de meu enésimo projeto de vida. Assim me disse ela: “Meu bem, não temos dinheiro!
Eu vivo com os pés no chão. Você vive fora da realidade!” Achei isso muito interessante e fiz essa seleção de textos, com as situações mais estranhas que já vivenciei, concretamente ou apenas em minha imaginação de escritor.
Acredito que minha esposa Lourdes está muito certa em sua avaliação sobre mim, pois, de fato, sou um sonhador e passo grande parte de minha vida sonhando acordado, em grandes devaneios, imaginando possibilidades de nos reacomodarmos neste mundo fantástico que Deus criou e colocou em nossas mãos.
Na minha primeira mensagem abordo a importância de cada tempo para a construção da realidade. Não existe um tempo certo para cada coisa. O ontem, o hoje e o amanhã sempre conviveram e haverão de conviver enquanto o mundo existir. Algumas comunidades ainda vivem na Idade da Pedra, outras já estão bastante desenvolvidas e, entre elas está o grosso da tropa, vivendo um presente misto e fazendo um elo entre o passado e o futuro.
“O Caminho do Rio das Mortes” narra a aventura que os irmãos José e Daniel Pardal realizaram à procura de sua mãe pelos sertões de Mato Grosso. Eles passaram por maus pedaços, mas, perguntando aqui, perguntando ali, finalmente chegaram ao seu destino, um lugar que eles não sabiam onde ficava, mas mesmo assim não desistiram de procurar.
“Além das Esmeraldas” está no capítulo III. Trata-se da história de Daniel Pardal e Esmeralda, na sua trajetória em busca de um casamento feliz. Eles passaram por anos de dificuldades, mas, finalmente chegaram ao seu pedaço de paraíso. Ao escrever essa história, cheia de conflitos, fiquei imaginando o que seria de nossa vida se o mundo fosse de uma única cor. Se todos pensássemos e agíssemos do mesmo jeito, se tudo fosse igual, onde estaria a graça da vida? Eu concluí que as diferenças, os conflitos e os males são necessários para que, em face deles, nós possamos buscar e lutar pelo equilíbrio que só tem sabor se for conquistado.
Também fiz questão de incluir nesse livro, “Os diamantes do Kurugugwári”, onde narro uma aventura de dois índios bororos que viveram em Poxoréu antes que a cidade existisse, antes que fosse uma realidade. E é até possível que Poxoréu tenha nascido assim.
“O Coelho de Clarice”, uma discussão literária sobre a obra de Clarice Lispector, feita através de uma nova história. É a história da história.
Eu gosto muito de fazer isso, de considerar que o mundo fictício narrado por alguém é uma realidade na qual também podemos penetrar com nossas impressões e sensibilidades.
“Aziram, a formiga de chuva” poderia ser um documentário sobre as formigas, pois, enquanto narro a aventura de uma rainha, que partiu da cidade de Formiga, em Minas Gerais, onde nasceu e percorreu os sertões mineiros e goianos até as minas de Pilar de Goiás, onde veio a falecer, eu vou contando a história de sobrevivência dessa espécie recomendada ao homem pelo sábio Salomão, como um modelo de sabedoria a ser seguido.
“Viagem ao Reino dos Tubarões” é uma história invadindo a história e acrescentando novos elementos. É uma reinvenção, aproveitando a imaginação dos leitores. Ao escrevê-la eu valorizei todos os elementos que meus alunos foram introduzindo na história original que envolveu os personagens do inesquecível Monteiro Lobato. Eu também estive no Sítio do
Pica-pau Amarelo e brinquei com Visconde, Emília, Pedrinho e Narizinho.
Nos meus tempos de adolescente, eu até cheguei a ser chamado de Visconde de Sabugosa. E eu tinha muita satisfação desse apelido, tamanha era a minha admiração pela sabedoria do sabugo de milho de Lobato.
“Os patos da Quaternet” é um texto de alerta sobre o uso da rede mundial de comunicação, que é maravilhosa, mas suas possibilidades devem ser exploradas com sabedoria. Os patos fazem um alerta para os ingênuos que entram nesse imenso mundo de informação compartilhada.
“A lendária mina dos Bororos”. Todos andaram à procura dessa mina. Foram anos e anos de exploração à sua procura, mas finalmente o tesouro dos bororos foi revelado como algo extraordinário e impossível de se conceber em nossa realidade.
A ilustração da capa mostra-nos uma cena fora da realidade vivida hoje em dia, mesmo na zona rural. Antigamente, a água chegava até as casas rurais através de bicas feitas em aroeira ou outra madeira de lei.
Atualmente, a água chega através de canos, o que garante uma melhor qualidade. Mas, as bicas d’águas ainda me encantam e o meu sonho é ter uma dessas bicas trazendo a água até a cozinha de minha casa. Na foto, o meu neto Davi toma um delicioso banho de bica na Fazenda 14 de maio, propriedade de meu primo Valmir Pereira de Sousa, no município de Torixoréu, MT.
Espero que o meu leitor aprecie a obra e faça a crítica sem nenhum receio de desagradar-me. Eu tenho consciência de que poderei não agradar a todos, mas, mesmo assim, escrevo, com a certeza de que estou contribuindo para a formação do pensamento criativo e imaginativo de meus leitores.
Trata-se de uma obra literária, obra de ficção, sendo que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Os fatos, mesmo quando parecerem verdadeiros, deverão ser apreciados apenas como peças da arte literária imaginativa do autor. Para se obter a verdade real, recomendamos a leitura dos compêndios e enciclopédias de história.
Um outro detalhe que caracteriza a minha produção é o fato de escrever temas de aparente interesse das menores faixas etárias, mas, na verdade, eu escrevo numa linguagem adulta, esperando que estes mais
velhos possam contribuir comigo, interpretando e fazendo a releitura de meus textos para os seus menores.
Ah, sim! Eu não faço distinção entre as histórias verdadeiras e as histórias fictícias. Para mim, todas são versões históricas e cabe ao leitor investigar e discutir se cada história e pura ficção ou não. Mas, repito, a minha preocupação é apenas a de produzir literatura prazerosa e agradável.
Desejo uma boa leitura para todos. E aguardo a crítica.
Poxoréu, MT, 20 de novembro de 2019.
Izaias Resplandes de Sousa Autor
I – A IMPORTÂNCIA DO PASSADO
É maravilhoso quando descobrimos o valor daqueles que vieram antes de nós, que fizeram o seu melhor em seu tempo e deram condições para que hoje nós possamos fazer o nosso melhor para esses tempos. Cada um de nós é importante em seu tempo para garantir que aqueles que viverem depois tenham êxito. Quem não aprende a dar valor no passado para construir o seu presente deverá ter um presente pior do que o passado, ainda que este seja chamado de presente e aquele de passado. Se os de ontem não tivessem feito o que fizeram, hoje nós teríamos que fazer aquilo primeiro para depois fazermos o que nos convinha. Mas enquanto estivéssemos fazendo aquilo, o nosso tempo se esvairia e não poderíamos também fazer o que nos caberia fazer.
Sem o que eu era e o que eu fiz no meu tempo, que ficou no passado, esse presente poderia ser até mais atrasado do que a minha era.
Não é porque o que eu era já não é mais que deixou de ser necessário. E mais. Há um tempo em que o velho convive com o novo. Que possamos aproveitar até o último segundo todos os benefícios dessa convivência. Mas, quando aprendemos a nos apoiar em todos os esteios e estímulos daqueles que viveram antes de nós, nossas possibilidades se multiplicam em progressão geométrica.
Esse velho professor ainda está aqui e ainda tem muito por dizer a essa geração sobre questões muito importantes que vivemos ontem e que ainda estamos vivendo hoje com grandes resultados. Mas tudo poderá se perder se não conseguirem estabelecer uma conexão. E a conexão não será fácil, porque embora vocês já estejam se comunicando pelo wi-fi, nós, os de ontem, talvez, somente possamos ser alcançados pela conexão discada. Mesmo assim, talvez valesse a pena conhecer o que trazemos.
Nossa bagagem pode ser útil para vocês, os de hoje os de amanhã se forem abertas em tempo. Somos muito lentos, mas sem nossa velocidade vocês poderão perder a conexão do teletransporte e permanecerem no tempo do Wi-Fi até o fim de seus dias.
Eu ainda estou aqui. Será que alguém pode me ouvir?
Eu sou Izaias Resplandes e venho do século passado com muitas novidades que esse século não tem mais e não pode mais apreciar. Alô! Alguém na escuta?
Creio que não existe nada fora da realidade, porque o ontem, o hoje e o amanhã são etapas de um mesmo tempo, sendo que cada uma delas é o pré-requisito para se alcançar a outra.
* * *
II - O CAMINHO DO RIO DAS MORTES
O dia já estava quase amanhecendo. A cidade de Rondonópolis surgira na janelinha do ônibus. Doze horas atrás nós havíamos partido de Goiânia, meu irmão José Pardal e eu. O nosso objetivo era passar uns tempos na casa de nossa mãe.
Quando saímos de Goiânia para fazermos aquela viagem, eu havia mentido para o meu pai. Tinha medo que se dissesse a verdade para ele, não conseguisse sua permissão para voltar à casa de minha mãe.
Depois da separação deles, eu só fora na casa dela uma vez, após completar 18 anos, no ano anterior, em julho de 1976. Naquela ocasião eu só disse ao meu pai que passaria as férias com minha mãe e ele não falou nada. E aí eu fui.
Minha mãe morava com seu Paulo Taveira e os meus irmãos Jânio e Maurício. Eles trabalhavam perto de Rondonópolis, numa fazenda chamada Fazenda do Avião. Quando estive ali, fiquei com vontade de não voltar para Goiânia, mas voltei, depois que recebi uma carta de Esmeralda, minha namorada e outra de José Pardal, meu irmão.
E então eu estava de volta a Rondonópolis e trazia meu irmão José Pardal junto comigo. Ele completaria 18 anos no mês de setembro e chegara a hora dele se alistar. Ele pretendia fazer isso na Aeronáutica, a qual tinha uma base em Anápolis. Então eu disse ao meu pai que iria com ele até a base para ele se alistar. E para que ele não se sentisse sozinho durante o período em que estivesse ali, eu tentaria arrumar um serviço por lá para ficar mais perto dele. E aí meu pai concordou. Foi assim saímos de casa nessa aventura.
Ao chegarmos na rodoviária de Goiânia eu decidi abrir o jogo com José Pardal.
“Mano, eu não vou ficar em Anápolis com você. Vou levá-lo até lá e depois eu vou para Rondonópolis passar uns tempos com a nossa mãe”.
O Zé ficou eufórico e não aprovou a ideia de ficar sozinho em Anápolis.
“Eu também quero ir com você para o Mato Grosso ficar com a mamãe”.
“Mas, mano, o papai vai brigar com nós. Nós não falamos com ele que a gente iria para Mato Grosso”, disse-lhe.
“Não! Se você vai eu também vou”.
Concordei com ele. Após conferir o pouco dinheiro que tínhamos, vimos que daria para comprar as nossas passagens até Rondonópolis e ainda sobrariam uns trocados. Então saímos de Goiânia.
* * *
A rodoviária de Rondonópolis ficava no centro da cidade, bem pertinho da Igreja Neotestamentária da qual minha mãe fazia parte. Como eu fizera em julho de 1976, fomos até a Igreja. O dia estava amanhecendo. Ali fomos recebidos pela irmã Miranda dos Santos, filha do irmão Saulo dos Santos, pastor da igreja. Ela já me conhecia de minha última visita. Expliquei- lhe porque estávamos em Rondonópolis. Ela ouviu e me respondeu:
“A irmã Mariana se mudou para o Rio das Mortes, lá para as bandas de Poxoréu”.
A notícia nos abalou. Foi como uma bomba, porque não estávamos preparados para prosseguir viagem para outra localidade. O nosso dinheiro mal dera para chegarmos até Rondonópolis.
“Meu pai está viajando para lá, já faz uma semana. Ele foi visitar os irmãos que moram lá”, disse Miranda.
“Como se faz para chegar ao Rio das Mortes”, perguntei-lhe.
“Eu não sei”, ela disse. “Só sei que meu pai vai até Poxoréu e de lá ele segue com o Tião Poxoréu, um caminhoneiro que constantemente viaja entre Poxoréu e aquela região. Então acho que só com ele para chegar lá” - completou.
“Como podemos encontrar esse Tião Poxoréu? Você sabe?” - perguntei-lhe.
“Ele mora em Poxoréu. Parece que ele fica parado em lá em frente ao bar Pinga no Coco. Isso é tudo que eu sei”, disse ela. Agradecemos e partimos.
* * *
Perguntando para um e para outro chegamos a saída para Poxoréu. Antes de deixar a cidade, passamos em uma panificadora e
compramos alguns pães para a viagem. Decidimos que iríamos a pé até conseguirmos uma carona. A estrada era de chão batido e fevereiro era época de muitas chuvas. A carona não veio tão cedo. Somente uns cinco quilômetros, depois de passarmos pela Vila de Mata Grande, após duas pontes próximas foi que conseguimos nossa primeira carona. Era um caminhão gaiola e o homem nos levou até o restaurante do Simão. Ali havia um outro caminhão parado, pertencente à Fazenda Iberê. Nós pedimos carona até Poxoréu e o motorista nos levou, deixando-nos em frente ao bar Pinga no Coco.
O bar Pinga no Coco ficava em frente à praça da Liberdade no centro da cidade de Poxoréu. Entramos e perguntamos a uma senhora que atendia no balcão - dona Valdy - se podia nos informar como encontrar o seu Tião Poxoréu.
“Ele mora lá na Cohab”, disse ela.
“E onde fica a Cohab?”, perguntei.
“É só seguir essa rua aí para cima, a rua Mato Grosso e quando chegar lá no alto, olhem ainda mais para o alto e avistarão a Cohab.
Não tem como errar”, informou.
Agradecemos e saímos. A cidade de Poxoréu, em 1977 era bem pequena. A gente chegava nela através da Vila Santa Terezinha, onde me recordo que havia um posto de gasolina. A rua Mato Grosso, por onde subimos continha o maior movimento da cidade. No “alto” referenciado por dona Valdy, ficava o cemitério. Dali, olhamos mais para o alto que ficava depois do rio Areia e vimos a Cohab. Fomos até lá.
Atravessamos a ponte do rio Areia, subimos o morro e chegamos à Cohab. Logo encontramos a casa de seu Tião Poxoréu, onde fomos recebidos por dona Santana, sua esposa. No primeiro instante ela nos disse que seu marido estava para a fazenda e que somente voltaria no final de semana. Depois, olhando, melhor para nós, perguntou:
“Vocês são filhos da Mariana?”
“Sim”, respondi.
“Ah, eu conheço muito a mãe de vocês. Eu também já morei lá no Rio São José, onde ela está morando. Ela vai ficar muito feliz com a chegada de vocês. O Tião deve vir na sexta-feira e volta para lá na segunda”, - disse ela, cheia de sorrisos.
Dona Santana, com seu forte sotaque espanhol, nos deu algumas orientações sobre como chegar à fazenda onde nossa mãe morava, no Rio São José.
“Vocês devem pegar a estrada para Paranatinga e ir até a Sapeca, perto do Rio das Mortes. Ali fica a entrada para a Fazenda Volta Grande, onde o Tião trabalha. Então, vocês vão até a fazenda e procurem pelo Luís, marido da Deusina, irmã da Mariana, a mãe de vocês, que também trabalha lá” - disse ela..
Agradecemos.
“Nós vamos procurar uma pensão para passarmos a noite e amanhã vamos tentar encontrar uma carona para chegarmos lá. Obrigado.”.
Na verdade, só dissemos que íamos para a pensão, para disfarçar, porque não tínhamos dinheiro para pagar. E então voltamos ao centro da cidade. Fomos até a agência de passagens que ficava na Rua Minas Gerais, logo abaixo da praça da Liberdade, onde ficava a Igreja Católica São João Batista e a Igreja Presbiteriana do Brasil. Na agência, perguntamos o preço da passagem para Paranatinga. Vimos que nosso dinheiro não era suficiente para comprar as passagens e que nem ônibus havia naquele dia.
Naquela época, o ônibus para Paranatinga ia em um dia para lá e voltava no outro, quando não ficava atolado no meio do caminho. Era tempo de chuva e o que se via eram carros e carros atolados nas estradas da região.
Ficamos sabendo que a estrada para Paranatinga cortava a cidade na direção de Alto Coité. E tomamos o rumo. Ao chegarmos novamente à ponte do rio Areia, descemos à margem do rio e examinamos a possibilidade de passarmos a noite embaixo da ponte. Era bem alta, mas ficamos com medo do rio encher e morrermos afogados enquanto dormíamos. Subimos o morro e pegamos a estrada do Coité.
No caminho íamos colhendo frutas silvestres como maracujás, araticuns, cajuzinho do campo, entre outros. O que víamos nós comíamos.
Já era mais ou menos cinco da tarde quando chegamos na entrada da Fazenda Limeira, próximo da Ponte dos Santos. Dali, avistamos a casa da família Nascimento, que ficava lá na baixada, perto do rio Poxoreuzinho.
Pensamos em descer até lá e pedirmos pouso, mas achamos que poderíamos não ser bem recebidos e que poderiam pensar que fôssemos bandidos. Então decidimos passar a noite no cerrado.
Pegamos uma estradinha que saía da estrada principal pela margem direita e, após caminharmos uns vinte metros chegamos em uma pequena ponte sobre um rego d’água. E vimos ser ali o local ideal para passarmos a noite. Quebramos vários galhos de árvores e forramos a ponte.
Depois, pegamos nossas roupas e forramos a cama sobre as folhas.
Cobriríamos com as toalhas. Antes de deitar, fizemos nossa primeira refeição do dia: pão com água do rego. Deitamos e dormimos.
No dia seguinte, descemos a ladeira, passamos em frente à casa dos Nascimentos e atravessamos a ponte do rio Poxoreuzinho.
Prosseguimos. Devagar e sempre. Nas margens da estrada de chão, fomos nos alimentando com os frutos silvestres que abundavam. E chegamos ao Alto Coité. Entrando na vila, fomos até um bolicho, onde pedimos café e uns caramelos. O bolicheiro só nos cobrou os caramelos.
Voltamos para a estrada principal. Ali chegando, encontramos um moço. Perguntamos-lhe se era difícil de conseguir carona e ele disse que não. Então ficamos ali com ele e logo veio um caminhão. Parou ao nosso sinal e nos deu a carona em cima da carga. E fomos embora, conversando com o moço e falando para onde íamos. Subimos a serra e chegamos à Br- 070 que ligava Cuiabá a Brasília. O caminhão virou no sentido de Brasília e fomos em em frente. Depois que passamos por Posto Barril, o moço nos perguntou:
“Vocês não iam para Paranatinga?”
“Sim”, respondi-lhe.
“Então vocês deveriam ter decido no posto. É dali que sai a estrada para Paranatinga”.
Pedimos ao motorista para parar. Descemos. Agradecemos e voltamos ao posto. Ali, nós nos informamos sobre o nosso destino.
Deveríamos pegar a estrada que estava sendo aberta pelo DERMAT - Departamento de Estradas de Rodagem de Mato Grosso. E assim fizemos.
Conseguimos carona em um trator que estava indo naquela direção. Ele nos levou alguns quilômetros e quando ia deixar a estrada, nos orientou sobre como prosseguir. E então pegamos a estrada nova e fomos em frente. Encontramos uma máquina quebrada. O operador estava esperando o mecânico, o qual deveria vir com o engenheiro, na hora do almoço. E que já deveria chegar. Ficamos ali com ele esperando o carro do almoço. Quando o veículo chegou, nos aproximamos, falamos com o
Engenheiro e pedimos carona para prosseguir. Ele disse que levaria o almoço para os outros e que na volta nos pegaria. Ficamos esperando.
O sol já virava o pino. Sentíamos fome. Ainda estávamos com o pão de ontem, para economizar. O engenheiro parou e nos pegou. Subimos e fomos embora.
“Fique de olho para ver a Sapeca e a entrada da Fazenda Volta Grande. Deve ter alguma placa”, disse ao meu irmão José Pardal.
“Pode deixar, manão”, respondeu-me ele.
Mas, foi com tristeza que avistamos o rio. Pensamos que havíamos passado pela Sapeca e não tínhamos percebido. Descemos do carro, agradecemos ao Engenheiro que entrou para o Acampamento do DERMAT ali na beira do Rio das Mortes. Voltamos ao Bar e Restaurante que havia do outro lado do rio. Compramos balinhas e pedimos informação.
“A Sapeca está aí para frente. Daqui lá deve dar uns 50 quilômetros”, disse o moço do bar.
“Que bom! Nós pensamos que tinha ficado para trás, que tínhamos passado a entrada e não tínhamos visto.” - disse ao moço do Bar.
Agradecemos e fomos em frente. Paramos sobre a ponte.
O Rio das Mortes ali tinha um duplo visual. A esquerda ponte era formado por fortes corredeiras. Havia grandes pedras no meio das águas. Estas, ao baterem nelas, formavam espumas e espirravam por todo os lados. Era muito bonito. À direita, na parte de baixo da ponte, o rio se acalmava, se alargava e toda aquela braveza de cima silenciava. Na parte de cima era o Rio das Mortes. Já na parte de baixo, era o Rio Manso. E essa deve ser uma característica deste rio que é conhecido por esses dois nomes:
Rio das Mortes ou Manso.
Depois de algum tempo contemplando a beleza do Rio das Mortes, atravessamos a ponte e avançamos. Algum tempo depois, já por volta das quatro da tarde, chegamos ao Rio Cumbuco, onde descemos às águas e tomamos banho.
O Rio Cumbuco era um rio de superfície. Quase não havia barranco. Suas águas eram calmas e escuras e não ficamos muito tempo por ali. Poderia haver sucuris e jacarés naquelas águas. Bem próximo do rio, havia uma casinha cobrindo um cocho de sal. Pensamos que seria um bom lugar para pernoitar, já que a noite estava próxima e o céu nublado ameaçava romper em chuvas a qualquer instante. Mas, optamos por seguir
em frente e ver se conseguíamos chegar até a Sapeca. Lá nós comeríamos e descansaríamos.
* * *
A partir do Rio Cumbuco, nossa caminhada foi cada vez mais lenta. Nossos pés doíam muito e o tempo fechou de vez. As nuvens carregadas de chuva encobriram tudo. E não se enxergava um palmo adiante do nariz. A estrada tinha dois trilhos mais profundos nas laterais. Eu seguia por um e José Pardal pelo outro. Trocávamos poucas palavras.
Estávamos cansados. Seguíamos a escuridão, sem sabermos para onde estávamos indo, embora isso fizesse pouca diferença, posto que, mesmo se estivesse claro, ainda assim não saberíamos. Nunca havíamos estado ali.
Depois de um tempo caminhando na escuridão, avistamos uma luz que piscava intermitente. Pensamos que era na Sapeca e que aquela luz, certamente era um pisca-pisca de algum carro saindo do posto de gasolina da Sapeca. Animamos. Pensamos que estávamos chegando perto.
Avançamos em nosso passo a passo. Mas, nada! A luz, ora aparecia, ora desaparecia. Quando aparecia piscando, pensávamos que era mais um carro saindo do posto Sapeca.
Não tínhamos noção das horas. Depois de um tempo caminhando e não chegando na Sapeca, nos vimos em um cerrado quebrado, sem árvores, só a macega. Certamente, para formação de pastagem. Por estarmos muito cansados decidimos parar um pouco ali para descansar e dormir. Escolhemos um local onde a macega estava mais baixa e fizemos a cama, estendendo sobre ela as nossas roupas. Deitamos e nos cobrimos com as nossas toalhas de banho.
O nosso sono foi muito curto. Acordei com as picadas das formigas no meu corpo. Peguei uma e senti que era das cabeçudas. Essas formigas tem uma mordida muito doída. Joguei fora e já bati a mão em outro lugar do corpo, e mais outro e mais outro… As formigas estavam nos atacando e nos comendo vivos.
“Acorda, mano. As formigas estão nos atacando!”, chamei José Pardal, já me pondo de pé. Ele também se levantou!
“O que foi, mano?”, perguntou.
“Formigas! Formiga cabeçuda! Elas estão nos atacando”, respondi.
“Meu Deus!”
“Zé Pardal, fica ali mais longe” - e apontei em uma direção - “e eu vou limpando as roupas das formigas e jogando para você”.
“Tá bem”, disse-me ele. E se afastou.
Eu arrancava as pelotas de formigas grudadas nas nossas roupas. Limpava o máximo que podia e jogava para ele, que fazia nova inspeção e ia amontoando as roupas ali onde estava. Limpamos tudo, roupas, calçados. E então nos afastamos um pouco mais pela macega e arrumamos a cama de novo. E deitamos.
Nem me recordo se deu tempo para dormir. Só sei que o céu desabou sobre nós de forma torrencial. Foi uma chuva daquelas. Bem grossa! Nós juntamos as roupas de baixo de nosso corpo o máximo que pudemos e nos apertamos um no outro para impedir a passagem da chuva para as roupas. Cobríamos o corpo com as toalhas, que se encharcavam rapidamente. Aí, espremíamos a toalha na boca e bebíamos a água da chuva, porque estávamos com muita sede.
E então a chuva parou. Estávamos molhados, com o corpo todo dolorido pelas mordidas das formigas e os pés também doendo da caminhada. Então achamos melhor voltar para a estrada e caminhar. E assim fizemos.
Andamos por mais algum tempo. Saímos do cerrado quebrado e entramos em um cerrado virgem, mas bem ralo. A luz das estrelas apareceu após a chuva e já víamos a estrada e os trieiros nas margens, por onde caminhávamos, pois no meio da estrada era pura lama e água empossada. Decidimos parar e dormir.
Arrumamos a cama na beira da estrada, forrando com as roupas que conseguimos manter secas e deitamos. Estávamos com muita sede.
“Mano, eu vou beber dessa água empossada na estrada”, disse ao José Pardal. Peguei a toalha e usando-a como filtro, bebi daquela água vermelha e barrenta da estrada. Era uma água apertenta. Mas serviu para matar a sede.
José Pardal, em princípio, não quis beber da água empossada na estrada. Mais tarde, no entanto, seguiu meu exemplo. Saciada a sede, conseguimos dormir. Acordamos com o barulho de machadadas cortando árvores. Olhamos na direção e vimos, a uns duzentos metros de nós, um carro atolado na estrada e várias pessoas tentando tirá-lo do atoleiro.
Levantamos acampamento e fomos até o carro. E então ficamos sabendo que a luz que havíamos visto era a deles, dando sinal para ver se alguém viria em seu socorro. Eles nos deram água limpa para beber.
“Daqui a uns dez quilômetros vocês chegarão na Fazenda Centro-Oeste. Lá eles darão café para vocês.” - disse o homem que nos atendia. Agradecemos e fomos em frente. E, de fato, não demorou e nós chegamos à referida fazenda, que nos atendeu muito bem.
“O meu filho foi lá Sapeca comprar uma garrafa de pinga.
Daqui lá é perto. Umas duas horas de caminhada. Vocês vão topar com ele pelo caminho.” - disse o homem da fazenda.
Agradecemos pelos cuidados e informações e prosseguimos.
Pouco depois de sairmos, topamos com o jovem que vinha da Sapeca em sua bicicleta. Cumprimentamos ele, perguntamos se estávamos no caminho certo e, confirmados, continuamos. Mais parávamos do que caminhávamos.
Meus pés doíam demais. Andava cinquenta metros e sentava. Me lembro que ao iniciar a viagem a pé, eu disse ao José Pardal:
“Olha, a caminhada vai ser dura. Eu sei que eu aguento, mas estou preocupado com você. Será que você vai aguentar também?”
“Claro, mano! Aguento, sim. Se você aguentar, eu aguento!” - disse-me ele.
E então estávamos ali naquela estrada, andando mais devagar que tartaruga. E não exatamente por causa dele, mas por minha causa. Ele estava todo animado. E entrava no cerrado, procurava frutas para nós comermos. Sei que era muito penoso. Pensei que não daria conta.
O sol já se aproximava do pino. Fazia um calor de rachar.
Cheguei a pensar que estivéssemos perdidos, que tínhamos deixado passar a estrada da Sapeca sem ver, porque não chegávamos nunca. Mas, finalmente, avistamos um casebre.
“Olhe, mano! Uma casa! Vamos parar lá e perguntar se erramos ou se a Sapeca ainda está para frente”, disse José Pardal.
E fomos até a casinha de palha e pau-a-pique. A porta estava aberta e vimos que ali era um bolicho. Entramos.
“Bom dia!”, disse a uma velha senhora que estava atrás do balcão. “Duas pingas para nós!”, pedi-lhe. E ela nos serviu.
“A senhora poderia nos dizer se é por aqui a tal Sapeca!”, perguntei-lhe.
A mulher não disse nada. Saiu detrás do balcão e entrou casa adentro. Uma moça bonita assumiu o posto dela.
“Míriam, onde está a caixa de balas da carabina?”, gritou a mulher lá de dentro da casa.
“Não sei”, disse ela em alto som.
“O que foi que aconteceu? Por que a mulher está brava?”, perguntei à moça.
“Ah, é que ela não gosta que a chamem pelo apelido, como você fez”, respondeu-me.
“Mas eu não sabia que esse era o apelido dela. Pensei que era o nome do lugar. Vai lá e diz para ela que eu peço desculpas, que não queria ofendê-la”.
“Ah, isso passa. Deixa para lá”.
“Vocês fornecem comida?”, perguntei-lhe.
“Não! Fornecíamos, mas paramos. Nós vamos nos mudar para Paranatinga”, respondeu Míriam, que depois ficamos sabendo ser conhecida como a Sapequinha.
“Mas nem para quem já está com três dias sem comer?”, insisti.
“Não!”
Paguei as pingas e fomos saindo. Nisso, ouvimos o ronco do motor de um caminhão chegando ao local, vindo da estrada da Fazenda para onde iríamos.
“Alfredo! Que bom te ver. Venha, vamos almoçar. Você chegou na hora” - disse-lhe Sapequinha, saindo ao encontro do motorista quando ele parou no local.
“Não, obrigado! Já almocei”, respondeu ele.
“Moço, o senhor pode nos informar se estamos perto da Fazenda Volta Grande?”, perguntamos ao motorista. Ele parou ao nosso lado e a moça se afastou.
“Daqui lá dá uns quarenta quilômetros”.
“Eles não quiseram fornecer comida para nós aí. Estamos com fome. Já é o terceiro dia que estamos sem comer”, disse-lhe.
“Ah, mas vocês não perderam nada. A comida aqui é muito ruim. Elas são muito sebosas!”, disse o motorista.
“O senhor trabalha na Fazenda Volta Grande?”, perguntei.
“Não! Trabalho na Fazenda Passo Fundo. Daqui lá dá uns quinze quilômetros. Lá tem uma pensão e vocês poderão comer”.
“O senhor vai voltar para lá, agora?”, perguntei-lhe.
“Não! Eu estou indo para Poxoréu”, esclareceu.
Agradecemos ao Alfredo, o motorista e pegamos a estrada da fazenda. Íamos no mesmo ritmo de antes. Eu andava cem metros e me sentava para descansar. Às vezes já me sentava dormindo, tal era o cansaço. Caminhamos por horas. O sol já tombava para o fim da tarde, quando avistamos um trator trabalhando. O Zé Pardal foi correndo até eles enquanto eu continuava no meu passo.
“Boa tarde moço! Esse trator é da Fazenda Passo Fundo?” - perguntou ao tratorista, que se acompanhava por mais dois jovens.
“Não! Esse trator é meu!”, disse o homem.
“Nós estamos indo para a Fazenda Passo Fundo, onde nos disseram que poderíamos encontrar comida. Já estamos viajando a pé a três dias e sem comer”, explicou José Pardal.
Ele ouviu e olhou para o mano e para mim.
“Menino, vá lá em casa e fala para sua mãe arrumar comida para eles”, disse o homem a um dos jovens, o qual desceu do trator e veio com o José Pardal em minha direção. Depois de alguns minutos chegamos na casa dele, a sede da Fazenda Campo Alegre, onde o menino explicou a situação para a mãe dele.
“Boa tarde. Se você quiserem tomar um banho enquanto eu preparo a comida, podem ir lá na bica, ali embaixo”, disse-nos uma simpática mulher, apontando a bica. Fomos até lá.
Tomamos um banho maravilhoso. A água fria revigorou-nos. Ao voltarmos à casa, nos deparamos com um banquete de hospitalidade. Havia tanta coisa para comer naquela mesa que nem sabíamos por onde começar.
Comemos, enquanto contávamos para a mulher a nossa história. Ela ficou comovida ao saber que estávamos indo em busca de nossa mãe. Ao terminarmos a refeição, com direito inclusive a doce de leite de sobremesa, a mulher mandou que o menino nos levasse por um atalho que cortariam alguns quilômetros até a Fazenda Passo Fundo.
Havia um rio separando as duas fazendas, o Rio Suspiro. A estrada dava uma volta para passar por uma ponte, mas havia um atalho que reduzia as distâncias para apenas uns 500 metros. O menino nos levou até o rio, onde havia uma pinguela, pela qual atravessamos.
O Rio Suspiro era de correnteza no lugar da pinguela, mas era estreito e logo chegamos ao outro lado. Acenamos ao moço, em agradecimento. Ele voltou para sua casa e nós chegamos à Fazenda Passo Fundo, pelos fundos. O atalho saía na serraria, onde havia um trabalhador.
“Boa tarde! Será que poderíamos passar a noite aqui na fazenda?”, perguntei-lhe.
“Olha, vocês vão ter que falar com o Gerente, Seu Miguel. Ele está lá no escritório” - disse, apontando uma direção.
“Obrigado! Nós vamos falar com ele”, disse.
Subimos em direção ao escritório. Chegamos em um montão de toras que estavam esperando para serem serradas.
“Mano, você vai lá e fala com ele. Eu vou ficar aqui. Estou muito cansado”, disse ao José Pardal, que anuiu e seguiu em frente, voltando pouco depois.
“O seu Miguel disse que podemos dormir no paiol de milho, logo ali”, disse José Pardal apontando para o paiol. Caminhamos para lá.
Entramos.
O paiol não tinha muito milho. Estava parcialmente vazio. Era assoalhado de madeira. Fizemos nossa cama sobre as espigas de milho. E eu deitei. José Pardal disse que iria na pensão ver se conseguiria um café para nós. Voltou um tempo depois e me acordou.
“Mano, o Tonho irmão do tio Luís e uns outros funcionários da Volta Grande está aqui na fazenda com um trator. Eles estavam desatolando caminhões num aterro aí na frente que está que é só atoleiro. Eles estão jantando e vão voltar lá para a Fazenda. Eles vão nos levar. O trator está lá no fundo da pensão. Vamos!” - disse José Pardal.
“Então vamos!”, concordei.
Meus pés haviam inchado depois que eu deitei e eu quase não conseguia parar em pé. O José Pardal me amparou, pegou as mochilas e foi me levando, passo a passo até chegarmos ao trator, onde o pessoal já estava nos esperando. Cumprimentei-os no atacado e me sentei no piso do trator. Partimos.
O trator ia jogando lama na minha cara, na minha roupa. Mas eu não estava nem aí. Fechei os olhos, agarrei firme em alguma coisa para me segurar e deixei o pau quebrar. Ao chegarmos no aterro, tivemos que descer para passar a pé e pegar outro trator que estava do outro lado.
Aquele ficaria daquela parte do atoleiro, porque no dia seguinte eles voltariam para continuar prestando socorro naquele lugar.
Foi uma luta imensa e em meio a muitas dores que consegui chegar ao outro lado, sempre amparado e socorrido pelo meu irmão José Pardal. Finalmente chegamos ao trator, onde embarcamos de novo. Assumi a mesma posição de antes. Sentei-me e segurei firme. O barro batia no meu peito, na cara, por todo lado, mas eu não me incomodava.
E então chegamos à chamada sede velha da Fazenda Volta Grande, onde morava tio Luís e tia Deusina. O Tonho, irmão de tio Luís, nos deixou na porta da casa deles. Chamou e tia Deusina veio abrir a porta. Ao ver-nos no meio daquele barro pensou que eu era o primo Cebola. Nós não a víamos fazia muitos anos. Ainda éramos meninos. Mas então nos apresentamos e tia Deusina ficou muito feliz em nos ver. E preparou banho e janta para nós. Eu tinha vontade de chorar diante da alegria de ter chegado ali, de estar vivo, de estar perto de nossa mãe.
Ficamos um dia na casa de tia Deusina. Descansamos. E então ela nos emprestou um cavalo para irmos para o Rio São José.
“Agora vocês estão pertos de ver sua mãe. O Selismar, meu cunhado vai com vocês até lá. É perto. Logo, logo vocês estarão lá”, disse tia Deusina.
E então saímos da fazenda. Eu e o José Pardal íamos no cavalo da tia Deusina e o Selismar em outro cavalo. De certo era dele. A viagem a cavalo ainda nem tinha começado quando José Pardal e eu já começamos a discutir. O José Pardal queria dirigir o cavalo e eu também.
Tive que convencê-lo com um beliscão duro sobre quem seria o motorista. E aí, sim, partimos.
Chegamos ao Rio São José, na casa de tio Gregório, marido de tia Justina, irmã de minha mãe. Chegamos bem na hora da Escola Dominical. A família toda estava reunida ali. O irmão Saulo dos Santos, pastor da Igreja Neotestamentária de Rondonópolis estava ensinando a Palavra de Deus. Seguimos o Selismar, que entrou e se sentou em um banco. Nós também nos sentamos e ficamos esperando terminar a reunião.
A partir daquele momento, viramos o alvo das atenções. As pessoas ficavam olhando para nós. Um se levantava, ia lá dentro da casa.
Daí a pouco voltava outro e sempre olhavam para nós. Até que enfim, a reunião terminou e nós pudemos abraçar nossa mãe, irmãos e primos. A
felicidade foi geral. Todos estavam muito alegres com nossa presença entre eles.
A nossa aventura chegava ao fim de mais um capítulo, mas, com certeza, ainda viriam outras histórias.
* * *
III – ALÉM DAS ESMERALDAS
Quero contar a história de um amigo, mas eu não sou bom em registrar diálogos… Eu até tento, mas depois que leio o que escrevi, acho tão artificial, que desisto e deleto tudo. Mas mesmo assim eu quero contar essa história. Vou usar, em nome de Daniel Pardal, a primeira pessoa do singular em minha narrativa. Minha história tem de tudo um pouco, mas não estou preocupado em como ela será classificada. Apenas, quero contar, porque, afinal, é a história de uma vida. É a história de Daniel e Esmeralda, que, segundo ele, era a gema mais preciosa que Goiás já produziu e que lhe deu por esposa, para quem um dia escreveu:
Minha senhora,
Esmeralda preciosa de Goiás, Sonho de outrora,
O meu presente é você que sempre faz!
O meu amor é por você um sol brilhante, Que no eterno horizonte sempre sai...
E aquece a vida, fazendo a luz continuar, No seu eterno caminhar,
Gerando paz.
E então será assim que escreverei o relato de meu amigo.
* * *
Meu nome é Daniel Pardal. Esmeralda é minha esposa, a mulher da minha vida. Ela foi minha primeira namorada, minha única esposa.
E eu já disse a ela que se eu ficar viúvo algum dia, jamais me casarei novamente, porque não quero outra mulher na minha vida. Mas não me importarei se ela voltar a se casar, caso ela fique viúva. Claro que também é se ela quiser. O caso é que não faço questão que ela se case de novo. Mas, embora ela também diga que não se casará outra vez, isso já é com ela, pois eu já não estarei aqui mesmo, para ver o indivíduo. Mas, lá no fundo, gostaria que fôssemos somente nós dois, os atores dessa história. Até parece que tenho ciúmes, mas não…
“Eu não tenho e não quero ter ciúmes dela! Eu quero apenas amá-la e, eu creio que o amor, não arde em ciúmes”.
Esmeralda é uma linda gema, nem muito clara, nem muito escura, uma gema morena que garimpei em Santa Terezinha de Goiás, no interior do Estado de Goiás, a 289 quilômetros de Goiânia. A sua beleza, revestida pelo verde da vida conquistou meu coração desde a primeira vez que a vi, quando ainda não fora lapidada pelas mãos de nenhum outro, quando ainda era uma pedra virgem somente tocada pelos dedos do Criador.
E desde então eu a amei como nunca amei a mais ninguém, nem antes, nem depois e nem nunca. Mas, apesar de toda essa loucura, nossa vida sempre foi uma novela.
Hoje nós estamos juntos e penso que somos inseparáveis. Mas eu sou muito instável, emocionalmente. Vivo navegando por entre as águas da meiguice e da irritação. Qualquer coisa, até uma simples conversa é capaz de fazer-me bem ou mal humorado. A vantagem é que esses meus devaneios de espírito são passageiros. E quem me conhece tão bem, como Esmeralda conhece, sabe que minhas manifestações irritadas devem ser ouvidas para não agravar ainda mais o caso, mas devem ser ignoradas, entrando por um ouvido e saindo pelo outro, porque meu nervoso sempre passa muito depressa e, em muito pouco tempo, lá vem eu de novo, ronronando como um gato em busca de um cafuné, a pedir o perdão pela minha grosseria. Às vezes eu entro em tempestades e em guerras, mas o que eu gosto mesmo é da calmaria, da bonança e da paz. E esse prazer é o que sempre me fez depor as armas e hastear a bandeira branca. Esmeralda aprendeu a evitar a guerra. É uma excelente embaixatriz de nosso casamento. E eu também aprendi com ela a pôr em prática o ditado popular:
“quando um não quer, dois não brigam!”. Assim, quando ela se irrita com alguma coisa que eu disse ou fiz e sai do sério, eu procuro ficar calado. E ela faz o mesmo quando o caso é com ela. Não sei se funcionaria com todo mundo, mas em nossa vida tem sido um fomento para que nós chegássemos sos corais em perfeita harmonia e entendimento. Às vezes, depois das exaltações, eu me afasto. Fico sozinho. E procuro esquecer tudo o que passou. E, da mesma maneira que um escrito na areia se apaga com a primeira ventania, rapidamente eu também me esqueço das cenas ruins da peça que encenamos. Peço perdão, ela me perdoa e a vida continua.
Esmeralda sempre me perdoou. Ela tem um coração de ouro, que é só bondade. E, se tem alguma mágoa guardada, ela nunca deixou que se manifestasse. Mas eu tenho muito medo do poder das palavras ditas, principalmente dessas que a gente não pensa antes de abrir a boca, dessas que a gente vai jorrando sem parar, que nem a água que brota dos olhos da terra, parecendo um vulcão em erupção. Eu acredito que toda palavra tem a sua dose de poder, seja benéfico ou maléfico.
Certo sábio que não quis se aparecer disse que “há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”. Os provérbios de Salomão, na Bíblia, trazem muitas orientações sobre os cuidados que se devem ter com as palavras. E eu creio na sabedoria deles. Sei que o melhor seria não falar nada, ficar calado, principalmente, porque o silêncio fala mais alto do que todas as palavras que pudermos proferir. A epístola de Tiago também fala sobre esse assunto:
O que guarda a sua boca conserva a sua alma, mas o que abre muito os seus lábios se destrói. Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo. Provérbios 13:3; 25:11.
Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Tiago 1:19.
A verdade de Tiago se materializa em nosso corpo. Se Deus quisesse que falássemos mais e ouvíssemos menos, ele teria nos dado duas bocas e apenas uma orelha, ao invés de duas orelhas e uma boca.
Infelizmente, a gente nem sempre consegue guardar a boca, principalmente nos momentos de nervosismo e que, no meu caso, foram muitos. Creio que, se não fosse o coração de ouro de Esmeralda e a sua enorme paciência comigo, nosso ilídio, nosso romance e nosso amor não teria passado do primeiro capítulo. Porque a verdade é que eu digo que sempre a amei sem limites, mas eu já disse tanta abobrinha para ela e já a fiz sofrer extremamente que, às vezes até eu duvido que realmente tenha por ela todo esse amor que eu proclamo. Mas, se eu duvido, é sem convicção e sempre acreditando e acreditando que minha dúvida não procede. E a verdade é que eu a amo, eu a amo e eu a amo. E nunca duvidei do amor dela por mim, ainda que, da boca para fora, eu possa ter dito isso, porque somente quem ama é capaz de suportar o que ela suportou para ficar ao meu lado. Mas que nossa vida tem sido uma luta, isso é a mais pura verdade.
As pessoas dizem que no começo, tudo são flores, mas Esmeralda e eu não passamos por esse mar de rosas no começo. Pelo
contrário, enfrentamos fortes batalhas e tempestades até que, hoje, sim, acreditamos ter chegado ao nosso porto seguro, nosso paraíso e nosso céu.
Hoje, a gente se sente inseparável, mas é difícil dizer quando foi que nosso relacionamento se tornou irreversível. A verdade é que nós passamos por tantos contratempos para construirmos nossas bodas de coral, que nem dá para contar. Eu até cheguei a abandoná-la uma vez e cheguei a pensar que nunca mais a gente voltaria a se entender. Mas, quis o destino que nosso amor superasse fosse o que fosse e chegasse até aqui e, queira Deus nos conceder a graça de que perdure até o fim de nossos dias nessa vida.
Mas deixa eu deixar bem claro uma coisa. Eu não estou contando a nossa história apenas por contar. Eu estou contando porque Esmeralda e eu acreditamos que o amor, a paciência, a bondade e o perdão vem de Deus, que habita em nosso coração e que esse é um fruto poderoso que pode fortalecer um relacionamento conjugal de papel de uma maneira muito intensa que seja capaz de torná-lo em um para sempre. Nós acreditamos que, nutrindo-nos do fruto espiritual de Deus, nós seremos muito mais que vencedores em nosso combate conjugal pela união de nossas almas por toda a vida, da forma como desejamos no dia do sim, diante de tantas testemunhas, como nossos pais, irmãos, amigos... Não temos dúvidas que o fruto do Espírito é o alimento que todo relacionamento conjugal precisa para crescer e se fortalecer, ao ponto de ser capaz de vencer toda e qualquer barreira opositora. É assim que chegamos aos corais e, daqui a cinco anos haveremos de chegar às esmeraldas e, depois aos diamantes, às platinas e a tudo que conseguirmos alcançar de fato e de direito.
E então, eu te conto nosso conto, porque, como nós cremos um dia poder chegar, todo aquele que crê no amor, certamente também poderá chegar muito além das esmeraldas. E, pode ter certeza de que o amor é o elo que une de verdade um relacionamento. Ele é um verdadeiro
“Cântico da Esperança”.
Amar é a arte Do bom viver É coisa boa
De se ter.
O ter o amor É ter na vida
Um sonho lindo E imortal.
Eu quero viver sorrindo.
Eu quero crer no amor.
Eu quero ter o amor.
Eu quero ter a paz.
Amar é a esperança Que tem o povo
Num mundo novo que nascerá.
E viva o povo Que acredita No que não há Mas que haverá.
Eu quero ter a fé.
Eu quero ter a vida.
Eu quero crer no amor.
Eu quero viver a paz.
Acredite no amor para o seu relacionamento. Saiba que, mesmo achando que não sente o amor, ele existe, ele é divino e pode unir duas vidas para sempre. Uma coisa é a gente amar e outra é a gente ser amado. Nós podemos amar qualquer pessoa, desde que queiramos amar. O amor não depende do outro, mas somente de mim, porque ele não é um sentimento do outro para mim, mas um sentimento de mim para o outro. É possível que eu o ame e ele não me ame. Mas se eu, realmente o amo, com o meu amor eu poderei levá-lo a me amar também.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba. 1 Coríntios 13:4-8.
O amor vem de Deus. Nós amamos porque Ele nos amou primeiro.
* * *
Em 1983, Esmeralda e eu estávamos separados. E então, numa tarde de um intenso por do sol, eu estava sentado sobre uma grande pedra calcária, às margens da barragem de Rio das Pedras. Estava melancólico, pensando na vida que estava levando longe da casa do velho Argemiro Pardal, meu pai, com quem eu travara tantos conflitos quando vivia com ele, em Goiânia. E então me lembrei de Esmeralda, a menina da casa vizinha que conquistara meu coração e que eu, feito um louco desvairado havia abandonado como se não tivesse importância. E, àquela lembrança, meus olhos se encheram com as lágrimas da saudade e, pela primeira vez, desde que partira, senti o peso da loucura sobre meus ombros.
“Nenhuma forma de amor é loucura, mas, a pessoa que rejeita e abandona qualquer de suas manifestações, certamente é muito louca. A gente pode até rejeitar amar a alguém, mas é estúpido e ignorante a pessoa que rejeita ser amada”.
É importante buscar conquistar o amor de novas pessoas, mas nunca se deve abandonar alguém que te ama. E se já fizemos isso, devemos voltar ao ponto em que erramos e corrigir o percurso. Eu descobri isso depois que deixei a casa de meu pai, em 1977, para sair em busca de minha mãe em companhia de meu irmão José Pardal.
Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. Apocalipse 2:5.
Em toda linha de tempo existe um intervalo significativo para que nós possamos repensar o que fizemos e, se nos arrependermos de nossas atitudes estúpidas e insensatas, voltarmos atrás antes que isso seja irreversível. Às vezes, pensamos que temos a eternidade toda para isso, mas não é verdade. O nosso tempo de arrepender de nossos erros se encerra com o fim da vida terrena. Não existe possibilidade de arrependimento além da morte. Tudo o que tivermos de fazer, devemos fazer enquanto caminharmos pela estrada finita da primeira vida.
Aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo. Hebreus 9:27.
Sentado ali naquele meu recanto de solidão, eu chorei profundamente. Deixei as lágrimas rolarem pelo meu rosto. Algumas pessoas que passavam pela estrada, e me vendo ali a chorar, mesmo me conhecendo, apressavam o passo, certamente me imaginando embriagado
como vinha sendo o meu costume há alguns meses. Ninguém parou, ninguém perguntou o que estava acontecendo e eu também não me incomodei com ninguém. Chorei o tanto que quis sem ser perturbado. E ao final, concluí que precisava ir atrás dela outra vez. Eu não poderia continuar ignorando as coisas e vivendo fora da realidade. Minha vida não era para eu viver sozinho, enchendo a cara de cachaça todo dia, só pensando em coisa ruim. Eu precisava voltar para Goiânia, falar com Esmeralda, pedir o seu perdão e penetrar de novo no maravilhoso mundo de seu coração, tão puro, meigo e gentil.
“Eu acreditei que ainda existia salvação para nós dois, porque nenhum de nós já selara o compromisso de viver com outro até a separação pela morte; nenhum de nós já dissera o sim para alguém. E então, havia um fio de esperança. E eu decidi me pendurar nele, mesmo que fosse tão frágil e tênue. Acreditei que ele seria forte o suficiente para erguer Esmeralda e eu do fundo do abismo em que nos encontrávamos até o mundo das possibilidades, onde tudo tem chance de acontecer. E eu fiquei sonhando com isso muitos dias, buscando coragem para iniciar a escalada do inferno para o céu. Mas, finalmente, tomei a decisão que foi um marco em nossas vidas”.
Resolvi escrever uma carta para Esmeralda. Nela, eu lhe diria o quanto a amava, pediria o seu perdão e que me aceitasse de volta, porque, se ela havia me amado um dia, então, certamente, nunca deixara de me amar. E escrevi mesmo. E ela, ao receber, me reportou perguntando como eu poderia ter certeza de que ela me amava. E disse-lhe em outra carta que talvez não conseguisse explicar isso, mas eu não tinha dúvidas de que havíamos nascido um para o outro e que o nosso destino era mesmo ficar juntos, casar, ter filhos e ser feliz. E então marquei um encontro com ela, em Goiânia, para que pudéssemos conversar pessoalmente e discutir com calma toda a nossa história de amor, abruptamente interrompida, sem causa, razão ou circunstância aceitável.
E assim voltei a Goiânia. Foram doze horas de viagem de Rio das Pedras até lá, regada por alegria e esperança. Passei em Por do Sol, Feliz Natal, Porto do Céu, Alvorecer e tantas outras paisagens lindas, que somente fortaleceram minhas expectativas de voltar à realidade ao lado de minha amada. A viagem parecia não ter fim, mas, com toda a certeza, valeu a pena. Esmeralda estava ainda mais linda do que nunca, quando nos encontramos. Seu corpo de menina se transformara em uma linda mulher