4. EDUCAÇÃO EM REDE E FORMAÇÃO CONTINUADA: IDEÁRIOS DA EDUCAÇÃO AO LONGO DA VIDA
4.2 A VALIDADE DO DIREITO NO TEMPO DAS REDES DE APRENDIZAGEM
Gerir pessoas, no contexto da formação continuada, pressupõe a introspecção dos conceitos estabelecidos por Delors (2012), sobretudo no ambiente público, do conhecimento que norteia o serviço público e suas características próprias.
A administração pública é pautada na obediência ao que dispõe a Constituição Federal, as leis, os decretos, os regulamentos e todas as normas que regem o serviço público e suas nuanças, disciplinando qualquer matéria que envolva política institucional e administrativa, seja de gestão financeira, orçamentária, de bens e materiais, seja de gestão de pessoas, incluindo nesta última a formação continuada a ser promovida e dirigida a gestores e colaboradores das organizações.
Compreender a gestão da formação continuada em uma organização, sobretudo a pública, sugere um prelúdio da norma que está no ápice do ordenamento jurídico brasileiro: a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Este instrumento normativo serve de norte para a atuação legislativa, judiciária e executiva do poder público nas esferas federal, estadual e municipal. É por ela que as instâncias administrativas se baseiam para definir seus estatutos e regulamentos.
Para Lenza (2012, p. 77), há vários sentidos para o conceito de Constituição. Dentre estes, o culturalista:
[...] pode-se dizer que a Constituição é produto de um fato cultural, produzido pela sociedade e que sobre ela pode influir. Ou, como destacou J.H. Meirelles Teixeira, trata-se de “... uma formação objetiva de cultura que encerra, ao mesmo tempo, elementos históricos, sociais e racionais, aí intervindo, portanto, não apenas fatores reais (natureza humana, necessidades individuais e sociais concretas, raça, geografia, uso, costumes, tradições, economia, técnicas), mas também espirituais (sentimentos, ideias morais, políticas e religiosas, valores, ou ainda elementos puramente racionais (técnicas jurídicas, formas políticas, institucionais, formas e conceitos jurídicos a priori), e finalmente elementos voluntaristas, pois não é possível negar-se o papel de vontade humana, da livre adesão, da vontade política das comunidades sociais na adoção desta ou daquela forma de convivência política e social, e de organização do Direito e do Estado.
A atual Constituição Federal, também chamada por Lenza (2012) de Constituição Cidadã, em razão dos inúmeros dispositivos que remetem a questões sociais, notadamente relacionadas aos direitos humanos, elenca, em seu artigo 34, princípios administrativos que servem de direcionamento para atuação dos gestores públicos. O citado preceito estabelece expressamente que a administração pública deve ter como parâmetro a busca pela legalidade
de seus atos, impessoalidade de suas ações, moralidade na gestão pública, impessoalidade na atuação administrativa, publicidade de atos, ações e decisões, e eficiência nos meios empregados pelo gestor para alcance de eficácia no desempenho da organização.
Nesse sentido, a organização que empreende recursos com foco em uma gestão que se propõe a ser aprendente, valoriza a formação continuada como meio para tornar a administração eficiente, com resultados eficazes. A educação, no âmbito das instituições públicas, é a via que interliga espaços produtivos com gestores e colaboradores motivados, a fim de alcançarem resultados positivos no desempenho de atividades individuais e em equipe, para o bem estar público e social.
Sob o ponto de vista infraconstitucional, a Lei Federal nº 9.394/1996 estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. A norma promove um enlace entre a vida escolar e as experiências familiares, profissionais e cotidianas. Verifica-se que não há uma cisão entre o que é educação promovida pela escola e as impressões colhidas a partir do convívio em sociedade e no ambiente de trabalho.
É com esse sentimento que a norma estabelece macropolíticas do sistema educacional, porém a que serve como norte da pesquisa é a educação profissional, sob o aspecto da formação continuada, indicada no artigo 39, §2º, I:
Art. 39. A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia.
§ 1o Os cursos de educação profissional e tecnológica poderão ser organizados por eixos tecnológicos, possibilitando a construção de diferentes itinerários formativos, observadas as normas do respectivo sistema e nível de ensino.
§ 2o A educação profissional e tecnológica abrangerá os seguintes cursos: I – de formação inicial e continuada ou qualificação profissional;
(grifos nossos) (www.planalto.gov.br)
O legislador normatizou aspectos da formação profissional no sentido de estabelecer como obrigatoriedade do poder público de promover formação continuada para seus gestores e colaboradores. À administração pública não compete questionar dispositivo de lei ou deixar de cumprir, mas se insurge na obrigatoriedade de estabelecer mecanismos para formação interna, seja no ambiente de trabalho ou por meio de instituições de ensino especializadas.
Tal aprendizagem organizacional sustenta, também, a inclusão de processos para avaliação do serviço prestado pelo servidor público à sociedade, como forma de angariar resultados a partir de investimentos feito pela gestão da organização. O artigo 41 da citada lei versa que a formação ofertada poderá ser objeto de avaliação e esse instrumento confere à administração pública o dever de cobrar eficiência dos serviços que são prestados à sociedade.
Como forma de ratificar a obrigatoriedade de o serviço público ser eficiente, busca-se, novamente, na Constituição Federal, mais precisamente em seu artigo 37, o fundamento de validade dessa afirmação, considerando que citada norma materializa que “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”.
Assim, ser eficiente não se trata de faculdade do gestor público, mas obrigação, compreendendo tal aspecto a partir da formação continuada oferecida pela organização, sem se afastar das características próprias e individuais de cada servidor público ou agente político, destacadamente quanto aos aspectos pessoais e ao longo da vida do indivíduo.
Qual o papel da educação na dinâmica das sociedades modernas, no tempo do Estado de Direito?
Responder tal pergunta sugere um desprendimento da ideia de educação, afastando-a única e exclusivamente da ligação entre educação e escola. Trata-se de abranger a função da educação na vida do ser humano e tangenciando aspectos profissionais e pessoais, do cotidiano do ser humano.
Limitar o universo educacional às escolas supõe uma diminuição do potencial conceitual do que é educação. A rigor, o processo educativo surge a partir do nascimento do indivíduo, sendo introduzido em atividades educacionais diariamente, em todos os meio. A família é instrumento de aprendizagem e vivências. As primeiras impressões e bases sociais são construídas no universo familiar. As bases de formação pessoal são estabelecidas muito antes da frequência escolar.
Iniciar a vida profissional não supõe uma ruptura do processo educativo, mas sim uma forma diferente de experimentá-lo. Pode-se dizer que a educação está em constante transformação, desde os primeiros dias de vida até a hora dos últimos sinais vitais.
Para Delors (2012, p. 85),
[...] a própria educação está em plena mutação: as possibilidades de aprendizagens oferecidas pela sociedade exterior à escola multiplicam-se em todos os domínios. [...] Uma educação permanente, realmente dirigida às necessidades das sociedades modernas, não pode continuar a definir-se em relação a um período particular da vida – educação de adultos, em oposição à dos jovens, por exemplo – ou a finalidade demasiado circunscrita – a formação profissional, distinta da formação geral.
O processo de mudança não é apenas de cunho educacional, mas o próprio ser humano deve ser sujeito passível de se adaptar às transformações decorrentes de questões globais,
locais e setoriais, próprias do ambiente de trabalho, público ou privedo, sendo capaz, também, de tomar decisões e ser responsável pelos caminhos que percorrerá na jornada pessoal e profissional.
A educação no ambiente de trabalho promove mudanças de comportamento, de atitude, de estímulo ao incremento de novas rotinas de formação continuada, e quando a política de gestão organizacional ou quando as adaptações provocam desigualdades no processo de aprendizagem, a tendência sugere um afastamento de práticas aprendentes de gestão.
Para Delors (2012, p. 87),
De modo geral, o príncípio da igualdade de oportunidades constitui um critério essencial para todos os que se dedicam à progressiva concretização das diferentes vertentes da educação ao longo de toda a vida. Correspondendo a uma exigência democrática, seria justo que esse princípio estivesse presente, de maneira forma, em modalidades mais flexíveis de educação, por meio das quais a sociedade apareceria de imediato como responsável pela igualdade de possibilidades de escolarização e de formação posterios oferecidas a cada um no decurso de sua vida, sejam quais forem os desvios ou incertezas do seu percurso educativo.
Pensar a educação ao longo da vida, a igualdade de oportunidades, a transmudação da sociedade por fatores da globalização, faz com que a dinâmina da sociedade em rede se estabeleça como instrumento de profusão de inteligências coletivas, seja no ambiente familiar ou profissional, de democratização de acesso à formação no sistema organizacional, com a capacidade de estimular o incremento de novos ambientes ou novas formas de se relacionar, como o ciberespaço e a cibercultura.
Assim, a própria validade do Direito, notadamente a que regulamenta o serviço público, deve acompanhar a modernização de instrumentos para se implementar políticas que fundamentem uma gestão que se propõe a ser aprendente.
4.3 APRENDENDO A “SER-MAIS”? SUJEITOS E PROCESSOS DE FORMAÇÃO