• Nenhum resultado encontrado

Varèse e Borges : (Des)leitores do Popol Vuh

No documento carolinaalvesmagaldi (páginas 109-113)

2.4 Os paratextos do Popol Vuh

2.4.5 Varèse e Borges : (Des)leitores do Popol Vuh

O único paratexto de autoria exclusiva de Sérgio Medeiros é dividido em dois subitens, o primeiro dedicado às iniciativas musicais de Edgard Varèse em suas composições precursoras dos ritmos eletrônicos e a segunda tratando no universo literário de Jorge Luis Borges. Edgard Varèse é apresentado com detalhes reservados tanto à sua biografia quanto às suas obras. No trecho sobre Borges ênfase é dada a seu conto ―A escrita de Deus‖. Em ambos os casos o objetivo é apresentar releituras do Popol Vuh por meio de análises a respeito de possíveis pontos de contato entre o conto selecionado e o Popol Vuh, bem como entre as composições de Varèse e a obra maia.

Varèse (1883-1965) desenvolveu um estilo que priorizava o timbre e o ritmo, tendo cunhado o termo ―som organizado‖ para definir seu estilo. Suas experimentações tecnológicas levaram a seu reconhecimento como pai na música eletrônica. Medeiros destaca em seu paratexto as extensas conexões do músico com a América Latina, tanto em termos de diálogos com Heitor Villa-Lobos, quanto na busca de temas para sua música, normalmente ligados às culturas autóctones. Para Medeiros, ―a dicotomia entre ‗primitivo‘ e ‗civilizado‘ era aceita sem reservas por Varèse, que declarou: ‗(...) eu quero abranger tudo que é humano, do elemento mais primitivo às mais avançadas conquistas da ciência‘‖ (MEDEIROS, 2007, p.464). As iniciativas do músico foram muito bem recebidas pelos artistas latino-americanos com quem dialogava, tendo Alejo Carpentier chegado a escrever o libretto de uma de suas obras.

Além do destaque ao universo artístico, mais uma vez registrada, mais um ponto se apresenta como relevante para nosso estudo, com relação ao uso cultural do Popol Vuh em seu contexto original. Dessa forma, Medeiros aponta que

109

O antigo Livro do Conselho era lido, antes da vinda dos espanhóis, de diferentes maneiras, inclusive para fazer previsões, pois a sua leitura ou decifração auxiliava os leitores adivinhos a tomar decisões corretas nas épocas mais oportunas. Gostaria de enfatizar esse aspecto da obra original, aspecto comprovado, aliás, pelos outros códices maias que sobreviveram, os quais contém passagens sobre adivinhações (MEDEIROS, 2007, p. 467).

A passagem em questão remete, mais uma vez, ao universo simbólico, espiritual e religioso que permeava o contexto do Popol Vuh, além de nos delimitar uma preocupação historiográfica em comprovar a afirmação por meio de códices sobreviventes ao período de colonização.

Esse processo relaciona-se, ainda, às relações entre cultura letrada e manifestações populares, as quais permearam tanto a compilação do Popol Vuh quanto suas traduções, em especial a edição brasileira.

Em todos os paratextos, tanto da Kalevala quanto do Popol Vuh, alguns pontos em comum podem ser notados. Temos, primeiramente, a preocupação com as origens das obras, relevado nos paratextos da Kalevala pelas análises acerca da oralidade que permeia o poema e na edição do Popol Vuh pelas discussões a respeito do momento posterior à colonização.

Além disso, há a adoção de uma tradução relativamente recente como parâmetro não só para a elaboração das traduções brasileiras, como também para reflexões sobre as outras traduções disponíveis das obras. Para os teóricos-tradutores da Kalevala a leitura adotada é de Eric Ploude e para os responsáveis pela edição brasileira do Popol Vuh é Munro Edmonson.

Um terceiro ponto de contato relevante é que nenhuma das duas edições traz análises exaustivas sobre as traduções anteriores de suas obras, sendo as menções genéricas a traduções ―para mais de 30 línguas‖, como é citado na contracapa da Kalevala ou ―traduzido para línguas europeias e até asiáticas‖ como informa a orelha do Popol Vuh ficam a cargo dos paratextos criados pelas editoras e não pelos teóricos- tradutores.

Um último ponto que precisamos mencionar é escolha dos temas, voltados para o universo letrado, revelados na própria estrutura bilíngue das obras e nas menções a teóricos como Benedict Anderson, na Kalevala e a escritores e músicos clássicos, no universo do Popol Vuh. Dessa forma, a aproximação entre as obras e o momento

110 presente se dá como elemento distante de suas origens populares, tão destacadas nos próprios paratextos.

Por fim, tornam-se também visíveis os paralelos entre tradução e história enquanto releituras do passado, bem como a utilização dos paratextos como forma de proporcionar visibilidade às negociações empreendidas nas sucessivas tentativas de ressignificá-las no universo espacial e temporal, tal como discutiremos a seguir.

111

3 Kalevala e Popol Vuh no espaço e no tempo

Conforme discutimos no capítulo anterior, vários fatores contribuíram para a construção da Kalevala e do Popol Vuh como produtos culturais ―híbridos‖. Tais obras são provenientes de culturas que não haviam sido narradas por meio de discurso histórico-factual tendo, assim, preenchido uma lacuna que relaciona história e ficção. No universo de nossa pesquisa o elemento histórico vem, assim, a percorrer a própria constituição das obras, suas traduções e a recepção delas derivada.

Partiremos nossa discussão do debate contemporâneo acerca do conceito de história e de suas relações com a narrativa. Seguiremos nossa análise histórica a partir de sua relação com o espaço, na construção do imaginário nacional e em seu papel no sistema cultural de seus respectivos povos e países.

Além disso, o processo de continuidade literária, um dos focos de nossa análise, é também atravessado pela dimensão espaço/tempo, uma vez que o tradutor, assim como o historiador, está sempre reconstruindo o passado. No caso de narrativas de grande representatividade histórico-literária, a manipulação discursiva do passado é particularmente importante, pois as obras são interpretadas por seus teóricos-tradutores como formas de se conhecer as culturas e povos que as originaram.

A dimensão espacial merece atenção em nossa análise, pois ambas as obras apresentam o espaço constituído em suas próprias narrativas, como pode ser percebido na interpretação de Gordon Brotherston do Popol Vuh enquanto ―título‖, ou delimitação territorial. Na Kalevala, os magos partem da Carélia e percorrem todo o território finlandês à procura de noivas e do sampo, também em um movimento de demarcação. O espaço político-geográfico também está ligado às obras, com esforços de autoridades finlandesas em criar um épico nacional para simbolizar suas pretensões de independência e as iniciativas recentes por parte da Guatemala em territorializar e nacionalizar o texto como patrimônio inalienável do país. Entretanto, ainda que ambos sejam parcial ou totalmente nacionalizados, os espaços delimitados por suas fronteiras não correspondem ao universo de suas narrativas, uma vez que, a área ocupada pelos maias-quichés junto aos quais as narrativas se originaram se estende pela Guatemala, por Honduras e pelo México48 e a Finlândia perdeu justamente a Carélia, berço da Kalevala, para a Rússia durante a Segunda Guerra Mundial.

112 Devido à complexidade da temática, dedicaremos o primeiro item deste capítulo às relações entre espaço, história e cultura, partindo das definições de história elaboradas por Walter Mignolo e Jacques LeGoff para discutirmos os processos de construção histórica do espaço finlandês e guatemalteco, os quais se relacionam à construção escrita e às traduções da Kalevala e do Popol Vuh. Para tal nos apoiaremos principalmente nos conceitos de repertório e de ferramenta, elaborados por Itamar Evan- Zohar, englobando o diálogo por ele imprimido com Pierre Bourdieu e suas noções de habitus e de bens simbólicos. Além disso, traremos as teorias de Pascale Casanova e sua releitura da contribuição de Herder para a redefinição do espaço cultural e político europeu no século XIX, momento-chave para nosso estudo por coincidir com a publicação da Kalevala e com a chegada do Popol Vuh à Europa.

A segunda metade de nosso capítulo se dedica ao eixo temporal, partindo das discussões de Paul Ricoeur acerca das relações entre tempo, história e narrativa. Trabalhamos, ainda, com as teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história, buscando compreender as relações entre sua teoria e o processo de construção do campo cultural e literário que permeia as (re)traduções da Kalevala e do Popol Vuh.

No documento carolinaalvesmagaldi (páginas 109-113)