• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 3. Enquadramento do tema na atualidade

3.1. Veneza

O Centro Histórico de Veneza, tem demonstrado ser o caso mais paradigmático e problemático no que diz respeito ao turismo e desta cidade nasce a expressão “Sindrome de Veneza”. Esta é uma expressão que designa os fenómenos de turismo de massas, saturação turística e gentrificação da cidade.

Figura 12. Habitação, Veneza

A habitação encontra-se no centro da problemática em questão, onde a especulação imobiliária e despejos das familias afetam todos os residentes. Se pensarmos bem, é normal estes sentimentos de mau-estar, visto que esta é uma cidade com cerca de 261.905 habitantes no total (ISTAT, 2018) todavia, o centro histórico, que é o local que recebe mais turistas e/ou excurcionistas tem apenas 52.996 habitantes (ISTAT, 2018) e recebe cerca de 70.000 visitantes por dia dos quais uma grande parte são excurcionistas ou “daily-trippers”.

Com isto, importa aqui diferenciar o turista e o excurcionista. De acordo com a OMT (2011) um turista é o visitante que permanece no local pelo menos 24h sendo que pernoita no mesmo, já o

excurcionosta é o visitante temporário que permanece no local por menos de 24h e não pernoita no mesmo. De acordo com o Serviço de Estatistica e Pesquisa da Cidade de Veneza (Servizio Statistica e Ricerca, 2019) em 1990 o Centro

2000 tinha 66.945 habitantes, em 2010 59.621 e em 2018 o número de habitantes é de 52.996, com isto há uma perda constante de população no centro histórico.

Alguns jornais relatam os acontecimentos do turismo na cidade de Veneza como sendo a “morte” mesma. O jornal The Telegraph, em 2018 entitula um artigo com uma questão “Será que o turismo matou Veneza?” seguido de “Visitamos a cidade durante o mês mais movimentada para entender” que é complementado por um mini documentário, feito por Greg Dickinson designado de “Overtourism – The

Destinations loved to death?”. Neste, o autor demonstra que já existem ações sociais

para que haja um melhor ambiente entre turistas e residentes, como o movimento “Enjoy and Respect Venecia”. Este consiste numa lista, que é entregue aos visitantes, composta por regras de turismo

responsável. Sindrome de Veneza deu ainda nome a um filme-documentário, realizado por Andreas Pichler (2012) sobre esta problemática, uma cidade que se auto-destruiu com o turismo e que foi abandonada pelos residentes devido à pressão turística (Pichler, 2012), uma visão dos autor, sobre os residentes locais para o mundo.

Para além dos relatos dos media, a população residente também se organizou para manifestar os desagrados em relação ao crescimento do número de turistas e excurcionostas, ao aumento do número de cruzeiros, ao declínio da qualidade de vida e à falta de soluções por parte do governo central.

Em 2017, começaram a surgir pelo Centro Histórico frases como “Turistas vão para casa!” (Tourists go home!), "Veneza não é um parque temático!".

Fonte: The Telegraph; AWAKENING/AWAKENING

Figura 14. Manifestação da Malas, Veneza

Figura 15. Manifestação dos Habitantes do Centro Histórico de Veneza

3.2. Barcelona

“Com uma população de mais de 1,6 milhão de habitantes, Barcelona é hoje um dos principais centros turísticos, económicos, de feiras / exposições e de desportos culturais do mundo, e um peso pesado em comércio, educação, entretenimento, media, moda, ciência e arte. É um importante centro cultural e económico no sudoeste da Europa e um crescente centro financeiro. Barcelona é um centro de transportes com um dos principais portos da Europa. O aeroporto internacional de Barcelona recebe mais de 34 milhões de passageiros por ano e a cidade possui uma extensa rede de rodovias. Recentemente, a cidade também se tornou um centro de comboios de alta velocidade, ao aderir ao novo elo entre Espanha e França, atualmente o segundo mais longo do mundo.” (World Tourism Organization, 2012)

O crescimento do turismo em Barcelona dá-se a partir da reabilitação da cidade para os Jogos Olimpicos de 1992, que colocaram a cidade no “mapa” do setor, após esse acontecimento as associações da cidade juntaram-se de modo a promover o turismo e este continuou a crescer intensamente.

FONTE: EL PERIÓDICO (2016)

FOTOGRAFIA: MARCO BERTORELLO FONTE: LA VANGUARDIA (2016)

O termo especifico, turismofobia, nasceu em Espanha e, este foi uma das cidades- mãe nos movimentos anti-turisticos. Esta é uma cidade que sofre deste fenómeno há mais tempo e é um exemplo a observar no que diz respeito ao excesso de turismo. De acordo com o IDESCAT (Institut d'Estadística de Catalunya) Barcelona é uma cidade com 1,6 milhões de habitantes e recebeu cerca de 15,8 milhões de turistas. Apesar disto, segindo Milano (2017 ) as estimativas calculam que mais de 30 milhões de visitantes passaram pela cidade, porém não são contabilizados (excurcionistas e passageiros de cruzeiros).

Em 2017, de acordo com o Barómetro de Barcelona, o turismo foi considerado o maior problema da cidade pelos habitantes, onde foram feitas as seguintes questões “Qual o problema que considera mais grave na cidade Barcelona hoje em dia?”.

Figura 16. "O Turismo mata os bairros", manifestação em Barcelona

Fonte: Relatório da atividade turística de Barcelona em 2017; Observatori del Turisme a Barcelona (2017) Dados do número de turistas e pernoitas em Barcelona 1990-2017

Gráfico 10. Dados do Número de Turistas e Pernoitas em Barcelona

Apesar desta perceção dos habitantes em relação ao turismo não ser recente, teve mais visibilidade agora muito devido aos media que relataram estes conflitos sociais locais. Em 2008 já se tinha iniciado este eco de descontentamento da população, um exemplo é o artigo do jornal El País, intitulado de “Turistofobia” de Manuel Delgado. “A maneira como fenómeno turístico afeta a vida das cidades é uma questão densa e multifacetada. Uma delas é a aparição, em alguns setores sociais, de uma espécie de rejeição frontal aos turistas, como fator de

contaminação e perigo.” (“La manera como el fenómeno turístico afecta la vida de las ciudades es un asunto denso y con múltiples facetas. Una de ellas es la aparición entre determinados sectores sociales de una especie de rechazo frontal al turista como factor de contaminación y peligro”) (Delgado, 2008).

Figura 17. Manifestação em Barcelona

O autor refere ainda que é insensato confiar no turismo como principal recurso para sustentar a economia urbana e que o problema não está no facto de haverem turistas na cidade mas que hajam apenas turistas, ou seja, que chegue ao ponto de não haverem residentes nas cidades.

Muitos outros foram escritos com títulos como “Turismofobia no auge” (Place, 2008), “A cidade museu” (Carol, 2008), “Paranóias turisticas” (Alzamora, 2008). Contudo, na última década este tópico tem-se

tornado mais importante e foi em 2017 que o tema teve o seu boom e chamou à atenção através dos

media, não só locais mas também internacionais,

quando os residentes começaram a sentir descrença e desconfiança por parte do setor turístico ao passo que foram feitos ataques a autocarros e bicicletas turísticas e manifestações por parte dos residentes.

Fonte: Pau Barrena Fonte: Visão, 2017

Figura 18. "O turismo mata as cidades", Barcelona

Os jornais britânicos como o Daily and Sunday Express com o titulo “Nova ameaça que os turistas de Barcelona enfrentam quando homens mascarados atacam autocarro, com promessas de mais ataques” (2017), ou o jornal The Telegraph com “Protestantes contra o turismo em Barcelona cortam pneus de autocarros turísticos e bicicletas alugadas” (2017) relatam as reações sociais contra o turismo.

3.3. Lisboa

A cidade de Lisboa também sentiu bastante os impactos do turismo, quer sejam nas alterações do tecido urbano, quer seja no

aumento do custo de solo ou no número de malas que passeiam pela cidade.

A mudança para o século XXI, trouxe consigo a intensificação deste setor na capital portuguesa, e esta beneficia de uma boa a localização geográfica, um bom clima e possui

ainda um aeroporto.

Figura 19. Cartoon "Turismo de Massas", Lisboa

Contrariamente ao cenário de Barcelona onde o turismo já afeta os habitantes há muito tempo, a evolução do turismo na capital portuguesa, embora tardia teve um boom muito grande e rápido no que diz respeito a este setor, contudo pode-se fazer a comparação do que colocou Lisboa no “mapa” com Barcelona, sendo que, como já foi referido o turismo na cidade de Barcelona foi motivado após os Jogos Olimpicos de 1992 e em Lisboa podem ser referidos os seguintes eventos internacionais: Expo98 e o Europeu de Futebol de 2004 (Ferreira, 2016).

Fonte: ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

Ao analisarmos os gráficos da população residente na cidade de Lisboa versus o número de dormidas nos alojamentos turísticos na mesma podemos observar que a população residente sofreu um decréscimo acentuado – menos quase 38 mil habitantes - até 2015 e o número de dormidas continua a

aumentar exponencialmente, sendo que o número de turistas recebidos em Portugal em 2018, segundo o TravelBi (2019) foram aproximadamente 25 milhões, a Área Metropolitana de Lisboa recebeu aproximadamente 8 milhões, ou seja, aproximadamente 16 vezes mais que a população residente.

Estes números de turistas agregados ao aumento do número de alojamentos locais na cidade de Lisboa e consequentes despejos de habitantes por parte de senhorios para fins turísticos e ainda o aumento do custo de solo, foram criadas algumas organizações sociais com o intuito de se manifestarem e demonstrarem o seu desagrado em relação ao turismo, tais como a Lisboa Does Not Love, o Rock in Riot ou a Stop Despejos, que criou palestras sobre o tema e o Festival HabitAção.

Figura 21. Festival HabitAção

Figura 22. Lisboa Does Not Love

Fotografia: MANUEL DE ALMEIDA

Fonte: INE, 2019 Fonte: INE, 2019

Gráfico 12. População Residente em Lisboa Gráfico 11. Número de Dormidas em Lisboa

Figura 20. Manifestação pela habitação, Lisboa

Ambas as associações referem no seu manifesto (em anexo) a falta de habitação para os residendes, os despejos e a dificultade de usufruito de espaços públicos, sociais e culturais visto que estes são para fins turísticos, foi realizado ainda um documentário que aborda a turistificação lisboeta designado de “Terramotourism”

Todos estes efeitos do turismo e manifestações sobre o turismo tiveram impacto nos media em Portugal, manchetes como "Investigadora diz que ‘turistificação’ do Bairro Alto força moradores a sair" (Publico, 2016), "Queixas de mais de metade do condomínio podem fechar alojamento local" (Publico, 2018) ou relativos às manifestações de 22 de Setembro como "Em Lisboa, turistas ouviram residentes dizer: A cidade é nossa!” (Público, 2018). No total de noticias analisadas sobre o turismo para o estudo desta dissertação foram diferenciadas as noticias que apenas se referem à cidade de Lisboa – um total de 34 - e aquelas que se referem a Portugal – um total de 65 - no geral que, maioritariamente apelam aos problemas sentidos nas duas grandes cidades continentais, designadamente, Lisboa e Porto. Em anexo, estão as tabelas com o total das noticias, subdivididas pelos seguintes jornais: Jornal de Noticias; Diário de Noticias; Público, Expresso e Visão. O grande impacto notável existente nestas tem haver com as manifestações e o descontentamento da população residente, onde o tema principal são os despejos.

Figura 23. N oticia no Jornal Visão, “Em Liboa, turistas ouviram dizer: a cidade é nossa!” Gráfico 13. Noticias escritas sobre o turismo, Lisboa

No documento Porto: Turistificação e Turismofobia (páginas 39-47)

Documentos relacionados