Com base em FREIRE (2004), a vocação vitivinícola de Portugal tem origem no século VII a.C., quando os Gregos introduziram a cultura da vinha no território nacional169. Para a região do Alentejo, de uma forma resumida, as únicas evidências arqueológicas que suportam a passagem da vinha do estado selvagem para a produção de vinho, aparecem pela primeira vez, nesse mesmo século VII a.C., com a presença dos Fenícios na região. Tudo aponta para que, também os Romanos tivessem sido ativos produtores e consumidores do vinho produzido no Alentejo. Com a abertura das grandes rotas marítimas que desenvolveram o comércio mundial, tudo indicia terem existido grandes exportações de vinhos Alentejanos, a partir do século XVII. No século XIX a vinha estava disseminada por toda a região, mas com o aparecimento do oídio, míldio e filoxera a vinha quase desapareceu na região, sobrevivendo apenas pequenas partes, associadas com outras culturas como o olival. Adicionalmente, a campanha que quase conduziu ao desaparecimento da vinha na região, foi promovida pelo Estado nos anos 30 do século XX, quando definiu o Alentejo como região cerealífera lançando a Campanha do Trigo.
O renascimento da viticultura Alentejana dá-se nos anos 50, com o estabelecimento das adegas cooperativas, que conseguiram, de alguma forma, estruturar o setor produtivo.
Em 1970, sob a direção da Comissão de Planeamento da Região Sul, foi anunciado o estudo "Potencialidades das sub-regiões alentejanas", seguido dois anos mais tarde pelo estudo "Caracterização dos vinhos das cooperativas do Alentejo. Contribuição para o seu estudo", do professor Francisco Colaço do Rosário170, ensaios académicos determinantes para
169 Baseado em FREIRE (2004).
170 Francisco Colaço do Rosário nasceu no ano de 1935 em Messejana, concelho de Aljustrel. Formou-se pelo
Instituto Superior de Agronomia em 1963. Os primeiros anos da sua profissão foram dedicados ao ensino, na escola de Regentes Agrícolas de Évora. Foi no início dos anos 70 que Colaço do Rosário se lançou no seu primeiro projeto vinícola. O trabalho de investigação denominado “Caracterização dos Vinhos das Adegas Cooperativas do Alentejo” serviu de tese para a sua admissão como Professor Técnico na Universidade de Évora (onde, mais tarde, viria a fundar a cadeira de Enologia) e constituiu o primeiro levantamento científico dos vinhos alentejanos. A este trabalho foi dada continuidade em 1977, com o “Projeto da Vitivinicultura do Alentejo”. Estes e outros trabalhos que se seguiram, viriam a ser a base para a constituição da “Denominação de Origem Alentejo”. Colaço do Rosário esteve associado, como técnico responsável, de dois dos mais prestigiados projetos vitivinícolas alentejanos e nacionais: o do Esporão, onde participou na conceção da adega e conduziu as vinificações entre 1985 e 1990, e o da Fundação Eugénio de Almeida, onde a partir de 1980 delineou a reestruturação das vinhas e da adega da Cartuxa. Como técnico principal da Cartuxa, onde se manteve até 2006, Francisco Colaço do Rosário foi o responsável pela implementação de toda uma filosofia que deu origem a
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. o reconhecimento regional e nacional do potencial do Alentejo. A estes trabalhos foi dada continuidade em 1977, com o “Projeto da Vitivinicultura do Alentejo”, onde Colaço do Rosário foi responsável pelo grupo que realizou o estudo das castas cultivadas na região, através de microvinificações. O resultado destes trabalhos, e de outros que se seguiram, serviria de base para a constituição da “Denominação de Origem Alentejo”, em 1989. Associando várias instituições ligadas ao setor e tirando proveito das sinergias criadas, o Alentejo conseguiu estabelecer um espírito de cooperação e entreajuda entre os diversos agentes, característica que ainda hoje é uma das imagens de marca dos vinhos do Alentejo.
No início dos anos 80, começavam a formar-se as primeiras empresas vitivinícolas numa região que só possuía as adegas cooperativas e poucos pequenos produtores.
O grande salto no sentido da modernidade é dado nos anos 80, com a criação da ATEVA em 1983 e da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) em 1989.
Nessa altura, as características individualistas de muitos proprietários, bem como as estruturas familiares das explorações, dificultaram a criação de associações com objetivos, de um melhor emparcelamento, aproveitamento dos solos, divulgação de apoio disponíveis e mesmo a contribuição para as capacidades de gestão das unidades e formação dos vitivinicultores aos vários níveis171 (CAMPOS, 1999).
Foi neste contexto, e com base no fomento à MAA PI, que a Associação Técnica de Vitivinicultores do Alentejo (ATEVA) mostrou ter uma grande contribuição, para a evolução dessa situação na região do Alentejo.
É também de referir que, ao longo de cada campanha, foi visível em algumas adegas e cooperativas, o aproveitamento dos apoios comunitários para fazerem uma atualização tecnológica, principalmente ao nível das instalações produtivas e linhas de engarrafamento, usufruindo portanto, de um melhor desempenho no mercado. A Região Demarcada do Alentejo passa assim, a ser das mais dinâmicas de Portugal e a relevância e expressão da vinha na economia Portuguesa vai aumentando de ano para ano.
grandes vinhos, como o Cartuxa ou o Peramanca, que muito contribuíram para prestígio do Alentejo. Colaço do Rosário foi um dos primeiros elementos da Câmara de Provadores da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana e Escanção Mor da Confraria dos Enófilos do Alentejo desde a sua constituição. Para além do prémio Senhor do Vinho, acrescenta a condecoração, pelo Estado português, em 1997, com o grau de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada, pelos serviços prestados à vitivinicultura Alentejana.
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. Segundo ICEP (1995:43-80) e FREIRE (2004), em 1996, primeiro ano em análise neste Estudo, a cultura da vinha representava para Portugal aproximadamente um quinto do Produto Agrícola Bruto e empregava mais de 230 mil pessoas, ou seja, perto de um quarto da população agrícola ativa de então. A área estimada, ocupada por vinhas, era de 355 mil hectares, aproximadamente 8% da Superfície Agrícola Útil (SAU) por sua vez distribuída principalmente por um grande número de minifúndios, na sua maioria com tecnologias pouco recentes172.
Mais recentemente, segundo INE (2012a), relativamente à produção vinícola declarada, expressa em mosto173, no ano de 2011 (NUTS II), a produção total em Portugal de mosto situava-se em 5.466.258 hectolitros, sendo que, na Região do Alentejo (NUTS II) a produção foi de 1.319.319 hectolitros, representando 24,16% da produção total em Portugal.
Para melhor enquadrar no Estudo efetuado, ainda seguindo INE (2012a) para o mesmo ano de 2011, se forem consideradas, da Região do Alentejo, apenas as suas Regiões Vitivinícolas, a produção de mosto foi de 968 551 hectolitros, sendo que, ao apurar ainda o valor total das Sub-regiões Determinadas174, nomeadamente de Borba, Évora, Granja- Amareleja, Moura, Portalegre, Redondo, Reguengos e Vidigueira, verificamos que, as mesmas, foram responsáveis por uma produção de 816 296 hectolitros. Desta forma, estas oito Sub-regiões Determinadas representam 84,28% do total da produção das Regiões Vitivinícolas do Alentejo e representam 14,93% do total da produção de Portugal.
A SAU mostra-se também, particularmente importante, sendo que, segundo MAMAOT (2012:17), “as áreas com aproveitamento agrícola e florestal ocupam cerca de 70% do território nacional”. Segundo INE (2012a)175, a SAU de vinha na região do Alentejo176, representa uma superfície de 32.158 hectares, representando 18,38% da SAU de vinha de Portugal Continental177.
Do ponto de vista do cliente final, como o mesmo nem sempre consegue facilmente distinguir vinhos de diferentes qualidades, o Instituto da Vinha e do Vinho certifica a origem
172 É de referir que, ainda nos nossos dias, apenas as empresas de maior dimensão dispõem de enólogos
formados e adegueiros experientes.
173 Em vinicultura, o termo é usado para referir-se ao sumo de uvas frescas, utilizado antes do processo de
fermentação.
174 Fonte: INE (2012a).
175 Produção das principais culturas (NUTS II) – Alentejo – Uva para vinhos. 176 Uva para vinho - dados provisórios 2011.
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. dos vinhos de mesa de acordo com 18 regiões DOC (Denominação de Origem Controlada), cabendo às Comissões Vitivinícolas Regionais a verificação dos Vinhos de Qualidade Produzidos em Regiões Demarcadas (VQPRD).
No Alentejo existiam oito zonas vitivinícolas regulamentadas para a produção de VQPRD’s:
i) as cinco mais antigas (Portalegre, Borba, Redondo, Reguengos e Vidigueira), criadas em 1988 (cf:. Dec.Lei 349/88), estavam qualificadas como DOC’s;
ii) as três mais recentes (Évora, Granja/Amareleja e Moura), criadas em 1991 (cf:.Portaria 943/91), estavam qualificadas como: Indicação de Proveniência Regulamentada (IPR).
Por iniciativa da Comissão Vitivinícola da Região Alentejana (CVRA) e em conformidade com as expectativas dos vitivinicultores Alentejanos e a realidade do mercado, as oito zonas foram oficialmente (cf.: Dec.Lei-265/98) consideradas sub-regiões de numa única região demarcada, a DOC Alentejo. Assim, atualmente todos os VQPRD’s alentejanos são comercializados com a menção DOC Alentejo, podendo utilizar, em complemento, o nome da sub-região de origem.
É de notar no entanto, que o processo de certificação ainda não conduziu completamente à criação de produtos característicos de cada região com sabor e qualidade reconhecíveis. Para além da qualidade, certificações e da própria marca do vinho, o sucesso na competição nos mercados externos implica cada vez mais inovação178.
Seguindo de perto FREIRE (2004), até ao início de 1996, era visível ao nível do mercado doméstico, uma gradual redução do consumo de vinhos, que o autor argumenta ter uma contribuição relevante do rápido aumento da procura de bebidas alternativas, resultado de intensas ações de marketing, bem como, devido a campanhas institucionais contra o excesso de ingestão de álcool. Em contrapartida, refere que o nível de conhecimento médio dos consumidores nacionais tem vindo a aumentar, sendo já frequente a escolha do vinho por região, marca e ano179.
178 Ex.: adoção de garrafas mais elegantes e estilizadas ou rótulos mais estéticos e apelativos.
179 Tudo aponta para que, a formação dos Portugueses tenderá a induzir um consumo em menor quantidade mas
de melhor qualidade, pelo que, a certificação como fator de qualidade adicional ao vinho, poderá ser sempre um caminho para continuar a explorar.
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. É também de referir que, os diferentes solos e microclimas associados às várias regiões propiciam, a geração de diferentes castas nobres, continuando as vinhas alentejanas a produzir uvas de grande qualidade.
No entanto, muito há ainda por fazer, numa vinha que já acusa o peso dos anos, e com dificuldades de produção de vinhos de qualidade a preços competitivos.
Atualmente, o crescente interesse da sociedade pela preservação e conservação da natureza, tem aberto excelentes oportunidades para a valorização do espaço vitivinícola e da diversificação das atividades nas explorações vitivinícolas.