Em primeiro lugar, eu não sou daqui do Maranhão. Eu sou do Piauí, Teresina, né , aí eu nasci no dia 30 de Agosto de 47. Em Teresina. Eu vim
pra cá conhecer o Maranhão. E com dois meses que eu tava aqui no Maranhão, eu namorei, noivei e casei. Uma irmã minha veio pra cá porque o marido era do Exército, aí se aposentou lá, reformou, e aí veio pra cá. Aqui ela teve nenê e quando...ela pediu pra mamãe: “Mande uma das meninas aqui pra me ajudar”. Aí mamãe mandou a outra irmã, mas ela disse: “Mamãe, eu mesma que não vou”. Eu disse: “Eu vou mamãe!”. E eu vim. Quando eu cheguei aqui era uma saudade de casa. (...) Eu fui criada por minha avó. Minha mãe me deu pra minha avó me criar com dois meses de nascida. Não fui criada em Teresina, fui criada em União [PI]. Meu pai era lavrador e tinha um comercio. Minha mãe era dona de casa. Papai prometeu pra ela: “Mamãe, nessa próxima barrigada eu vou lhe dar”. Bem assim, desse jeito. Eu nasci e com 2 meses ela me levou. Quando eu era pequena, pra mim, minha mãe, meu pai, e minha avó tudo era ela. Por que era com ela que eu morava. Quando ela morreu que eu voltei pra mamãe. (...) Eu estudei no colégio das freiras, lá mesmo em União. O colégio era semi-interno. Fiz o primário e depois ela se mudou pra Teresina por causa de mim, pra eu estudar. Eu fiz até o segundo ano ginasial. Foi o tempo que eu parei, casei e agora eu queria continuar, mas não podia com os filhos tudo pequeno. Quando cheguei em Teresina fui fazer exame de admissão e fiz a 1ª série, a 2ª e foi o tempo que ela morreu. Com 17 anos ela faleceu. Eu ainda estudei um ano no colégio das freiras, de Santa Teresinha, mas foi só um ano porque elas ficavam muito no meu “pé” e eu também não fui mais (risos). Quando minha avó adoeceu o maior medo dela era de morrer e não ter com quem me deixar, pra eu não ficar com minhas irmãs e elas me botarem a perder! Era muito filho que eles tinham. Nós éramos dezoito filhos e já tinha morrido duas irmãs minhas. Duas não, só uma. É. Ficou dezessete. Nós éramos dez mulheres e sete homens. (...) E minha mãe teve esse horror de filho, apesar de que duas das filhas de mamãe foram criadas por vó. Minha irmã mais velha foi criada com minha avó e foi quando ela ficou moça e veio embora pra fazer o Normal em Teresina e aí mamãe me deu pra ela. Ela criou também outro primo nosso. Ela só teve dois filhos, papai e meu tio. E meu avô morreu e ela ficava sozinha naquela casa grande. O pessoal tinha pena, as noras né, e davam os filhos pra ela criar. Ela criou um do outro, do meu tio, e do meu pai ela criou duas (
Francisca
).Eu tenho 70 anos. É difícil hoje em dia alguém chegar nessa idade. Eu nasci no Piauí, na capital Teresina. Eu vim pra cá, minha mãe disse, que com 4 anos. Eu vim com meus pais e meus irmãos. Nós éramos quatro irmãs e a mais nova veio com 11 meses. Eu era a segunda das filhas. Meu pai veio pra cá transferido. Ele era jogador. Ele chegou aqui e mandou buscar a gente...a família era nós e minha avó. E estamos aqui até hoje. Aí minha mãe já morreu, meu pai já morreu, meu marido já morreu e estamos aqui. Minha mãe trabalhava na Fabril. Há 4 anos sou viúva. Eu tive cinco filhos, mas morreu um e ficaram quatro. São dois casais. Todos são casados. Mora uma, no Anjo da Guarda, outra, no Pará, um, na Liberdade, e o outro veio morar comigo. Já tenho até
bisnetos (risos). São 16 netos e 4 bisnetos. (...) Eu fiz até a 6ª porque meu marido era igual meu pai. Não deixava sair, não deixava estudar. Ele dizia que quem quisesse estudar não tinha casado. Ele não deixou eu terminar os estudos. Eu casei....deixa eu ver...eu casei com 17 anos. (
Rosário
).Bom, eu nasci em Penalva, na cidade de Penalva, Maranhão, só que nem eu mesma conheço a cidade porque eu nasci e meus pais se mudaram logo de lá, eu era muito pequena, e eu nunca mais voltei lá. Porque eu estudei na cidade de Monção, também uma cidade da Baixada, porque tinha uma professora de preferência de todos os pais, que queriam que as crianças estudassem com ela. Por conta disso meu pai se mudou pra onde ela veio morar, que foi em Monção. (....) Aí, lá que eu fiz o meu primário até o quinto ano na época. Aí terminou o primário e tudo e meu avô se mudou pra Santa Inês, aí eu fui pra Santa Inês...eu já tinha quatorze anos. Aí de lá, em Santa Inês, eu fiquei até...eu comecei a trabalhar, me casei, tenho seis filhos. Me casei muito nova, com dezoito anos, mas graças a Deus fui muito feliz, tenho os meus seis filhos. (...) Então é assim, meus filhos são todos em idade pertinho um do outro e eu criei todos com muito vigor e estudando junto, porque quando eu parei de ter criança eu comecei a estudar de novo. E nisso eu ajudei muito meus filhos, e me ajudei também. Eu fiz meu 2º grau, quando eu terminei de fazer o 2º grau eu alcancei um trabalho que foi...é...Já não fiquei em Santa Inês, aí eu me mudei pra Turiaçu, onde eu fiquei trabalhando 10 anos como representante do INPS na época O meu pai era lavrador. A mamãe era só dona de casa. Ela nasceu no Acre. Meu avô era Cearense e foi embora pro Amazonas e mamãe é descendente de índio. A família do meu pai é do Ceará. Eles vieram de lá. (
Rosa
).Eu tenho 60 anos. Eu nasci em Cururupu, cidadezinha daqui do Maranhão. Eu vivi lá a minha infância...praticamente a infância toda lá. Quando eu vim pra cá eu já tinha 18 anos. Eu vim pra casa de parente. Eu vim estudar aqui e fiquei na casa de parente. Até porque...lá o estudo era fraco, e meu pai era de pouca condições, então eu morava na casa de parente aqui. Vim pra estudar, pra continuar estudando. Só fiz até o segundo grau. O meu pai era pescador. A minha mãe, dona de casa e ajudava também. Ela ajudava assim na roça, mas ela não era de trabalhar direto na roça. Ela dava sempre uma ajuda porque meu pai além de trabalhar na pescaria ele também trabalhava na roça. Era mais a farinha, pro nosso consumo. Não era pra ele vender ou....viver só daquilo. Ele tinha...da pesca era pra ele vender. Ele vendia. Passava 15 dias fora de casa pescando aí voltava por 15 dias, aí tornava a voltar. Aí nesse intervalo ele ia na roça, ele fazia um pouco de farinha pra gente não ter que comprar. Eu vim pra São Luís. Eu morava no Bairro de Fátima junto com uma prima do meu pai. Aí depois essa minha prima ela foi pra Belém [Pará]. (...)
Quando eu cheguei aqui em São Luís eu vim morar na casa de uma prima de meu pai. Estudava e fui bem acolhida por essa prima, apesar de não conhecer nada, não saber nada, nada, nada e foi muito difícil. Eu estudava no colégio Nina Rodrigues e meu pai fazia um sacrifício enorme, nesse tempo, pra pagar o colégio, porque a gente não tinha muito conhecimento aí com o colégio...Tinham muitos colégios, vários grátis, do Estado, mas a gente não tinha muito conhecimento se era bom. Então eu fui pra esse colégio e a minha prima, ela ajudava muito. Ela me ajudou muito. Então eu estudei até....eu terminei até a 8ª série lá nesse colégio. Aí depois, no tempo que eles viajaram, eu ainda não tinha terminado a 8ª série quando eles viajaram. E eu fiquei aqui no São Francisco na casa de outra prima. (...) tava terminando o 2º grau quando eu engravidei. Terminei o colégio e o que é que eu fiz? Eu fui embora pro interior (
Joana
).Estas mulheres nasceram em períodos distintos, 1935, 1940, 1947 e 1950 e apresentam algumas semelhanças no modo como foram criadas, nas relações existentes com alguns familiares, como no percurso trilhado para a capital São Luís, provenientes tanto do interior do estado do Maranhão, quanto de outro estado brasileiro, neste caso Piauí. Nestas primeiras lembranças aparecem personagens e situações significativas como as experiências com suas famílias de origem, os arranjos familiares de outrora, as recordações da escola, do trabalho. Também surgem algumas referências sobre as famílias que constituíram mais tarde com os filhos, filhas, netos e netas que tiveram.
Vieram para São Luís em momentos diferentes, mas vivenciaram experiências parecidas. Rosário, natural da cidade de Teresina (PI), chegou à capital ludovicense ainda com quatro anos de idade, em 1944. No decorrer de sua narrativa ressalta a experiência com a família de origem. Em 1968, chega Joana com então 18 anos de idade. Um ano depois, em 1969, chega Francisca com então 22 anos de idade. Estas duas mulheres já enfatizam algumas de suas vivências em Cururupu (MA) e União (PI), cidades onde nasceram. Em suas narrativas recordam sobre infância e juventude com mais minúcias. A motivação de Joana para vir para São Luís foi a possibilidade de continuar os estudos. Francisca veio passear, conheceu um rapaz e decidiu com ele casar e residir nesta cidade. Rosa, natural de Penalva (MA), destacou principalmente sua vida estudantil e profissional nas cidades de Monção (MA), Santa Inês (MA) e Turiaçu (MA), embora não tenha sido a única a exercer atividade profissional, pois Joana também exerceu. Estes são dois aspectos,
vida estudantil e profissional, que aparecerão densamente nas narrativas de Rosa à medida em que apresenta os filhos, a filha, os netos e as netas. Rosa foi a que veio mais tarde para São Luís, em 1987, quando foi aprovada em concurso público estadual.
Segundo Halbwachs (1994), o passado que existe é apenas aquele que é reconstruído continuamente no presente e, para lembrarem, os indivíduos necessitam da memória coletiva, ou seja, da memória que foi construída a partir da interação entre indivíduos.
Sociedade religiosas, políticas, econômicas, familiares, grupos de amigos, relações e mesmo reuniões efêmeras de salões, numa mesma sala de espetáculos, na rua, todos imobilizam o tempo à sua maneira, ou impõem a seus membros a ilusão de que por uma certa duração, ao menos, num mundo que se transforma incessantemente, algumas zonas adquirem uma estabilidade e um equilíbrio relativos, e que nada que é essencial ali se transformou por um período longo (ibidem, p. 135).
As rememorações de Joana, Rosa, Francisca e Rosário são remetidas aos grupos sociais com os quais mantiveram e ainda mantém significativas relações. Falam de suas famílias configurando o núcleo básico mãe, pai, irmãos e parentes
próximos. Esse núcleo é marcado pela distinção hierárquica de papéis, nos quais, o
pai aparece como um personagem que encarnava a autoridade maior, pois embora a esposa gerenciasse o lar cuidando dos filhos e filhas, as últimas decisões, ou aquelas consideradas mais importantes na educação dos filhos, em geral, seriam de sua alçada. O controle familiar pode ser percebido nestes trechos das narrativas:
Quando eu morava com minha avó ela não me deixava tá na rua. Tudo que eu queria ela me dava pra não me ajuntar com vizinho. Minha avó era muito assim, assim, rígida. Era horrível! Tava conversando com alguém, ela só fazia olhar e eu já sabia que era pra correr pra casa. Eu brincava e quando tinha alguma colega ela ficava perto. Nós brincava, brincava, aí dava a hora de terminar, nós ia tomar banho, jantar e dormir. No colégio que eu ainda brincava com as meninas e tudo. Eu gostava muito no colégio de sorrir. Eu sorria demais e o professor dizia que ia colocar um esparadrapo na minha boca (risos). Ele dizia que não sabia o que eu tinha pra tanto rir. Eu sempre gostei de ser alegre! No colégio das freiras, em União, era só mulher, mas quando eu saí de lá e fui pra Teresina era misturado. Eu estudei ainda dois anos a noite. E naquela época as mães nunca queriam que ficasse brincando menino com menina junto, ta entendendo? Quando eu tava com minhas amigas brincando, minhas coleguinhas, a primeira coisa que minha avó fazia era ir olhar se tinha homem pelo meio. Se tivesse menino pelo meio, porque
tá brincando de corre-corre e se esconder não era pra ter homem no meio. Era um controle muito rígido, demais, demais, pra não colocar as filhas num precipício. (...) E nessa época era muito bom. Era boa por uma parte e ruim por outra porque sabe que freira é gente ruim! Elas pegavam no “pé” e pior era pras que eram de regime internato, porque eu era semi-interna. Eu ia de manhã e voltava a noite. Quando minha avó precisava ir em Teresina pra fazer uma consulta, ou alguma coisa, ela me deixava lá interna. Aí eu ficava. Eu dormia lá e só saía de lá quando ela chegava pra me buscar. As outras que eram internas eram mais de outros interiores, que a família deixava e vinha visitar no fim de semana. Eu lembro que uma das freiras era a Madre Teresinha. Elas eram da congregação de Santa Rita. Antigamente era muito rígido. No colégio das irmãs você não podia fazer nada. Não podia andar descalça, tinha que usar anágua, tinha que usar combinação. Não nada de sutiã, era combinação, uma espécie de camiseta por dentro, só que mais compridinha, de alçinha. Elas pegavam no pé e tudo. Quando minha avó adoeceu o maior medo dela era de morrer e não ter com quem me deixar, pra eu não ficar com minhas irmãs e elas me botarem a perder! (
Francisca
).A minha criação foi muito rígida. Meu pai não queria que a gente fosse nem na janela!! Quando a gente avistava e dizia: “Lá vem papai!”, ele já dizia “O que tu já tá fazendo na janela? Entra logo!”. Ele não deixava a gente sair. A noite, passou das 18:00 horas, a gente tinha que tá dentro de casa. Era desse jeito! Ele não batia não, mas só ele olhar e falar todo mundo obedecia. A minha mãe trabalhava e chegava em casa só a noite. Então quem me criou mais foi minha avó. Ela criava assim....Não queria pra gente fazer nada, né? Ela queria fazer tudo e minha mãe chegava às vezes na hora do almoço só pra comer e saía de novo pra fábrica. Quando ela vinha na hora do jantar, era jantar e dormir. No outro dia ela ia pro serviço...Minha avó criou assim, sem deixar fazer nada. Quem custava mais pra dormir era minha irmã, mas às 18:00 horas tava todo mundo em casa, mas a gente dormia às 20:00 horas. Era desse jeito, sem tá em porta, porque meu pai não queria. Não era de tá conversando com colega, nem em casa alheia. Meu pai era muito rígido. Minha mãe trabalhava, não era tanto assim, mas minha avó que cuidava da gente. Ela faleceu com 101 anos e ela tava lúcida. Às vezes mandava a gente comprar uma coisa, que ela gostava de comer um pirão, arroz de toucinho, essas coisas....Ela nunca teve problema, gostava de comer essas coisas e comia (
Rosário
).A minha infância foi muito rígida. A minha mãe, a criação era muito rígida, a gente foi criado obedecendo, respeitando, apanhando e tinha que obedecer...Nós tínhamos que obedecer nossa mãe até pelo olhar. Só de olhar já sabia qual coisa ela não gostasse. Bastava um olhar. Pelo olhar a gente já sabia o que ela...que ela não tava gostando daquilo. Tinha que procurar o jeito de concertar aquilo. Então a gente tinha muito
respeito, principalmente as pessoas mais velhas. E apanhando mesmo. Meu pai era diferente. Ele sempre queira que a gente respeitasse e tudo. Também era a favor do respeito...a gente tinha que andar na linha direitinho, mas ele não era muito de bater. Era mais de conversar. Minha mãe era mais rígida, ela batia e bastante (
Joana
).Estas rememorações destacam a força da autoridade dos papéis materno e paterno e o controle exercido pra que as mulheres (filhas e netas) não caíssem no “precipício” ou “se perdessem”, como destaca Francisca. É, nesse sentido, que parecem comparar a educação das mulheres jovens atualmente com aquelas que eram comuns ao âmbito de suas famílias.
O pai de Rosário controlava os filhos mais que do que a mãe, talvez porque esta trabalhasse na fábrica e passasse o dia todo fora de casa, o que desconstrói a concepção de que todas as mulheres viviam dentro do lar assistidas por maridos provedores. Assim, coube à avó paterna o cuidado dos netos. Delegar os cuidados de uma criança às mulheres, situação que parece ser bastante comum no contexto das décadas de 1940 a 1960, reforçava a noção de que aquelas saberiam cuidar destes “naturalmente”, como se uma das condições primordiais de ser mulher fosse a de ser predestinada a cuidar dos filhos e do marido. Também é importante destacar que nos casos em que as mães trabalhavam fora de casa, como é o caso da mãe de Francisca, avós e/ou tias assumiriam cuidar das crianças.
De acordo como Margareth Rago (1985) no período de 1890 a 1930 todos os discursos voltavam-se para priorizarem a ocupação das mulheres com a atividade da educação, com a formação do caráter das crianças com a destilação de valores morais, concebendo-se, a partir de então, a maternidade como traço da “natureza feminina”.
Jurandir Freire (1994) afirma em seus estudos que aquilo que se designa como família desestruturada, na sociedade contemporânea, tem muitos resíduos ou efeitos de discursos produzidos pela medicina higienista do século XIX, no Brasil, segundo os quais a vocação natural das mulheres, de acordo com suas disposições físico-corporais, seria a maternidade. Nesta construção, vai se consolidando uma distinção entre a “natureza feminina” e a “natureza masculina”, como pólos opostos,
excludentes, que nos atuais estudos de gênero são problematizados como vetores rígidos, polarizados em um sistema de relações – o sistema binário do gênero.
Desse modo, para Jurandir Freire (1994), o modelo de homem e de mulher que se encaixa na “norma familiar” são construções discursivas, mais específicas do âmbito da medicina higiênica, que ainda circulam em alguns contextos e em algumas camadas das classes médias urbanas. Entretanto, estes modelos se disseminaram como a “norma”, o modelo ideal de família, em contraposição a muitas outras formas práticas de convivência familiar nas mais diversas camadas sócio- econômicas.
Na narrativa de Joana, sua mãe aparece como figura controladora da família. Os filhos temiam fazer algo errado pensando nos castigos, em especial, nas “surras” que levariam, o que em nenhum dos relatos aparece como violência dos pais contra os filhos. Francisca relembra também o controle exercido pela avó, que só a deixava brincar com as coleguinhas, nas proximidades de casa. Ainda destaca que algumas brincadeiras se constituíam como alvos das preocupações dos adultos, como aquelas nas quais meninos e meninas ficavam por muito tempo juntos e fora da vigilância dos adultos. Ela não fala abertamente, mas deixa pistas de que tais circunstâncias poderiam colocar as meninas em “precipício”, ou seja, em situações ameaçadoras, pois envolviam jogos de manipulação e de descoberta de prazeres do corpo.
Pode parecer que o cuidado da avó para falar sobre o assunto à sua neta seja encarado como hesitação, mas a partir das considerações feitas por Michel Foucault (1988) percebo que se trata de uma forma diferenciada, dentre muitas outras, de falar sobre sexo e não de silenciá-lo. Isto se configura pelo processo de colocação do sexo em discurso, negando a possibilidade de aprendizado das crianças e construindo a concepção de que as mulheres deveriam ser inocentes a respeito do próprio corpo e de suas possibilidades de prazer. Desse modo, a sexualidade para a reprodução (geração de filhos) ia se fortalecendo na legitimação do discurso sobre a diferença na identidade de gênero, pois se disseminavam os discursos de especialistas, segundo os quais os homens teriam por “natureza” instintos mais fortes em relação ao sexo e prazer, enquanto que as mulheres em sua “natureza” não os tinham. Em alguns outros discursos como, por exemplo, a
literatura, só o amor romântico legitimaria o prazer de mulheres casadas nas relações sexuais.
Em estudos sobre o que designa como “sexualidade moderna”, Foucault