Esquema temático da literatura
VULNERABILIDADES E O PAPEL DO ESTADO ACERCA DOS DESASTRES
5.1 ABORDAGENS ACERCA DOS RISCOS, VULNERABILIDADES E TEMÁTICAS AFINS: CONTRIBUIÇÕES OU ENTRAVES PARA SE PENSAR AS PROBLEMÁTICAS
5.1.2 Vulnerabilidades, desastres e resiliência: um debate complementar
Além das discussões sobre riscos, há outros debates acerca das áreas de riscos e suas dinâmicas inerentes. Alguns se apresentam como bastante pertinentes, a exemplo da abordagem sobre vulnerabilidades. Por outro lado, há discussões que, ao que parece, pouco auxiliam na problematização do assunto, como é o caso do debate sobre resiliência, que, algumas vezes, mais serve como justificativa de estigmatização dos moradores ou como minimização das responsabilidades de agentes como o Estado e o setor imobiliário.
Trata-se, portanto, da ausência de debates mais aprofundados, na maioria dos casos, que deem conta das dinâmicas que envolvem os espaços denominados de áreas de riscos. Lamentavelmente, ao mesmo tempo, observa-se a ausência de substitutos187 para essas expressões e termos188, uma vez que o seu uso tem se dado de maneira mais recorrente recentemente, ou seja, a problematização acerca da maior parte deles ainda não foi possível, tampouco o foi nesse estudo, em função das dimensões de outros debates.
Cumpre pensar que várias outras denominações, expressões ou abordagens estão inseridas nessas reflexões, a exemplo das ameaças, dos perigos, das fragilidades, entre outros. Mas em função do escopo da pesquisa, tratar-se-á apenas sobre as vulnerabilidades, os desastres
186 Urge fugir de tais simplificações. Mas ainda há muito o que se fazer nesse sentido, tendo em vista que, por
exemplo. Para Marcelo L. de Souza, “O mais comum, nos estudos geomorfológicos, climatológicos, pedológicos etc., quando se faz referência à presença e às interferências da sociedade, é referir-se a isso como ‘fator antrópico’. Com isso, toda uma complexidade se esvai e se oculta, em favor de um termo-valise que tudo contém e nada ou quase nada explica” (SOUZA, 2015, p. 26).
187 Nesse caso, pode-se fazer uma analogia ao que Beck chama de “categorias zumbis” em alusão às categorias do
século XIX que hoje não dão conta da realidade, mas que também não encontraram substitutos a contento para denominar tais realidades. Segundo Bauman, essas categorias dizem respeito aquelas que “na ausência de substitutos adequados, ainda não temos condições de abandoná-las” (BAUMAN, 2001, p. 12)
188 Um exemplo nesse sentido é apresentado por Veyret e Richemont: “O próprio termo ‘risco natural’ tem sido
discutido ou questionado. Essa formulação pode parecer ambígua, uma vez que o risco é construído pela sociedade. Ao utilizar o termo ‘natural’, enfatiza-se o processo (‘deslizamentos, reologia, química dos gases’), que está na origem da ‘construção do risco’ por um grupo social. Esse termo é tão largamente utilizado pelos atores, ministérios, coletividades territoriais, que somos levados a conservá-lo a fim de não complicar inutilmente uma terminologia frequentemente ainda mal fixada (VEYRET; RICHEMONT, 2007, p. 64).
e a resiliência, tendo em vista sua profícua relação com o que vem se discutido, sem, entretanto, deixar de considerar a pertinência dos demais debates e a necessidade de uma abordagem crítica sobre eles. Fica um convite a essas reflexões.
A discussão sobre vulnerabilidades está intimamente relacionada à perspectiva mista (ou socioambiental) de abordagem dos riscos, visto que os problemas sociais são contemplados em suas intrínsecas relações com os fenômenos naturais, em caso de desastres. De acordo com Mendonça (2009, p. 130): “Riscos e vulnerabilidades socioambientais formam um par indissociável no tratamento dos problemas urbanos”.
Para Filgueira, a vulnerabilidade, pode estar relacionada a “processos sociais, econômicos, territoriais e políticos” (FILGUEIRA, 2013, p. 54). Os processos que se originam na sociedade estão fortemente imbricados nas causas das vulnerabilidades. Mendonça afirma que “A formação e agravamento de riscos de toda ordem, associados às vulnerabilidades da população, por exemplo, são aspectos que demandam um maior envolvimento da ciência, da técnica e da política no seu tratamento” (MENDONÇA, 2010, p. 154).
Quando o autor fala da formação e agravamento dos riscos, percebe-se que ele aborda esses aspectos enquanto algo construído que não existe a priori como elemento ou fenômeno da natureza. A respeito da segunda parte da citação, defende-se que a ciência, a técnica e a política devem tentar ultrapassar os discursos rasos que têm se ampliado sobre esse tema e tem naturalizado os problemas, visando omitir ou retirar a culpa dos principais responsáveis pela geração e manutenção das desigualdades socioambientais.
Para Mendonça (2004) os riscos e vulnerabilidades têm caráter socioambiental e estão relacionados ao clima. Observe-se: não afirma que o clima é culpado nem naturaliza tal questão. Reforça-se que a natureza não está desvinculada da sociedade, então o termo “relacionada” cabe muito bem no contexto. Diante disso, Mendonça (2004, p. 142) expõe:
[...] há, todavia, que se assinalar, a vulnerabilidade urbana envolve, assim como os riscos urbanos, uma gama de implicações sociais, econômicas, tecnológicas, culturais, ambientais e políticas que estão diretamente vinculadas à condição de pobreza de representativa parcela da sociedade moderna.
A citação é bastante interessante no sentido de reforçar o que se discute nesse estudo, ou seja, mostra como vários fatores estão relacionados às vulnerabilidades e não somente dá ênfase aos elementos ou dinâmicas naturais ou antrópicas. Mostra ainda como esses fatores estão, frequentemente, presentes nos contextos de pobreza.
Nesse sentido, a respeito do termo vulnerabilidade, Castro (1999) afirma que seria a “Condição intrínseca ao corpo ou sistema receptor que, em interação com a magnitude do
evento ou acidente, define os efeitos adversos, medidos em termos de intensidade dos danos previstos” (CASTRO, 1999, p. 9). Assim, “a vulnerabilidade seria o grau de ‘fragilidade’ de um espaço ou sua fragilidade diante do sinistro” (VEYRET, 2007). Quanto mais vulnerável, mais o espaço estará em risco. E essa vulnerabilidade, na concepção aqui adotada é, sobretudo relacionada aos aspectos socioeconômicos.
Para Veyret (2007, p. 39), “A vulnerabilidade se mede pela estimativa dos danos potenciais que podem afetar um alvo, tal como o patrimônio construído ou a população”. Quanto menos abastado for um grupo social, mais vulnerável aos riscos ele será. O que não quer dizer que pessoas ou grupos mais abastados não possam estar expostos a riscos, quer dizer que o grau de vulnerabilidade socioeconômica, sobretudo, será muito menor para esses grupos. Corroborando a discussão, Mendonça assevera:
A heterogeneidade espacial e temporal das condições climáticas introduz, de maneira clara, a compreensão de que os riscos e as vulnerabilidades socioambientais das sociedade (sic) em face das mudanças climáticas não são homogêneos, ou seja, de que as sociedades e os lugares serão diferentemente impactadas pelos eventos climáticos de caráter extremo ou catastrófico (MENDONÇA, 2010, p. 160).
Essa citação é muito oportuna por se tratar da heterogeneidade espacial e social, atentando para o fato de que, uma vez que essa heterogeneidade é uma realidade, os problemas socioambientais são diferentemente distribuídos no espaço, conforme vem se discutindo, a exemplo do que Beck enfatiza quando afirma que “La falta de recursos económicos influye de manera directa en la capacidade de conservar tanto la vivenda como ese estilo de vida que reduce la vulnerabilidade [...]” (BECK, 2017, p. 05).
Sobre o debate, Marandola Jr. e Hogan (2006) escrevem “[...] a própria condição social, mesmo em termos de classes, age de diferentes maneiras na forma como pessoas e grupos específicos irão enfrentar o risco” (MARANDOLA JR e HOGAN, 2006, p. 34). Nesse cenário, os grupos sociais de maior renda terão mais capacidade financeira e técnica de lidar com possíveis riscos do que aqueles grupos que não têm essa capacidade.
Essa dinâmica se aplica também à questão da estrutura das moradias (localização e formas de construção, por exemplo, [THOMAS, 1993; MARTINS e FERREIRA, 2012]). Veyret (2007) cita um caso emblemático relacionado às inundações: “[...] em caso de inundação, uma casa construída com um entressolo não apresenta o mesmo grau de vulnerabilidade que uma construção sem essa arquitetura [...]”.
Uma vez tratado o tema das vulnerabilidades na sua íntima relação com os riscos, pode-se pensar acerca dos desastres que envolvem esses dois elementos discutidos anteriormente. Nesse contexto, na concepção de Castro (1999, p. 07), desastre é “O resultado
de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ambientais e consequentes prejuízos econômicos e socias”.
O desastre é o resultado de todo um processo que envolve desde antes do momento do acontecimento até as suas consequências mais sérias. Embora tenha uma visão dicotômica das causas, o autor citado aponta que são elas, aliadas a um espaço vulnerável, são os elementos que originam o desastre. Além disso, os danos e as perdas são fatores a serem levados em consideração nessa definição. De acordo com Castro (1999), “Na imensa maioria das vezes, o fator preponderante para intensificação de um desastre é o grau de vulnerabilidade do sistema receptor” (CASTRO, 1999, p. 07).
Os desastres são a concretização da probabilidade medida pelos riscos, em outros termos, é a consolidação das previsões inseridas nos riscos. A junção entre as vulnerabilidades e a ocorrência de um fenômeno natural intenso pode originar os desastres. Contudo, reforça-se que o fenômeno natural em si não necessariamente provoca desastres (ROMERO e MASCREY, 1994), mas sim sua correlação com “[...] determinadas condiciones socioeconómicas y físicas vulnerables (como situación económica precaria, viviendas mal construidas, tipo de suelo inestable, mala ubicación) (ROMERO e MASCREY, 1994, p. 7-8). São diversos os fatores que contribuem para a conformação dos desastres, sobretudo as vulnerabilidades apresentadas. Assim,
Para que uma ocorrência seja considerada desastre é necessário que o fenômeno ou o perigo atinja a população, causando uma grave perturbação do funcionamento de uma comunidade, envolvendo perda de vidas, perdas materiais, econômicas ou ambientais de grande extensão de forma que os impactos estejam além da capacidade dessa comunidade se recuperar com seus próprios recursos (AMARAL e GUTJAHR, 2011, p. 20-21, grifo dos autores).
Quando há a concretização do que foi previsto ou percebido através dos riscos, é possível afirmar que houve o desastre que pode envolver, conforme a citação, vários tipos de perdas, desde aspectos materiais até vidas humanas. Esse fenômeno também pode ser pensado e definido a partir de variáveis quantitativas, quais sejam:
O que caracteriza um desastre é a ocorrência de pelo menos um destes fatores: 10 ou mais óbitos; 100 ou mais pessoas afetadas; declaração de estado de emergência ou calamidade pública pelo município, estado ou país; pedido de auxílio internacional (critérios definidos por Scheuren et.al. 2008) (AMARAL e GUTJAHR, 2011, p. 21)
Assim, além das vulnerabilidades e da sua junção com a ocorrência de um fenômeno natural extremo para se caracterizar um desastre, os elementos acima devem ser levados em consideração no momento dessa definição.
Os desastres podem ser classificados segundo sua intensidade, quanto à sua evolução e ainda quanto à sua origem. No primeiro caso, os desastres são classificados em quatro níveis: Nível I, desastres de pequeno porte ou intensidade, também chamados de acidentes; Nível II, desastres de médio porte ou intensidade; Nível III, desastres de grande porte ou intensidade; Nível IV, desastres de muito grande porte ou intensidade. (CASTRO, 1999, p. 14). A intensidade dos desastres vai depender de alguns fatores, tais como a magnitude do fenômeno natural e as vulnerabilidades do espaço. Além disso, o tipo de resposta a cada um deles vai variar conforme suas especificidades.
Outras duas classificações dos desastres são possíveis, a saber: Quanto à origem ou causa primária do agente causador, os desastres são classificados em: naturais; humanos ou antropogênicos; mistos (idem, grifos do autor), conforme discutido anteriormente; Quanto à evolução, que pode ser súbita ou aguda; gradual ou crônica; por somação de efeitos parciais. (CASTRO, 1999, p. 16).
No que diz respeito a essa última classificação, pode-se afirmar que a intensidade do fenômeno natural e sua magnitude, além das vulnerabilidades e características físicas do espaço vão influenciar nessa questão. Por exemplo, em caso das intensas precipitações pluviais e consequentes inundações, os espaços impermeabilizados serão mais afetados, em virtude da ausência ou dificuldade de infiltração da água que irá escoar superficialmente de maneira mais acelerada.
Com relação à previsibilidade dos desastres, Amaral e Gutjahr (2011) contribuem com a seguinte assertiva:
Muitos desastres estão relacionados ao tempo atmosférico - se está fazendo sol, se está chovendo, se está ventando, etc. Alguns são previsíveis, como uma tempestade ou furacão. Outros são parcialmente previsíveis, como um escorregamento. Outros, ainda, não aprendemos a prever, como um terremoto. (AMARAL e GUTJAHR, 2011, p. 22)
Note-se que a citação afirma que os desastres estão relacionados aos fenômenos naturais e não que esses são os culpados pelas ocorrências dos desastres, como tem sido visto em algumas abordagens, ou seja, “los desastres son fenómenos eminentemente humanos y sociales y, em consecuencia, debemos despojarlos del calificativo de "naturales" que genera la sensación de que el mundo "es así" y no podemos hacer nada para evitarlo “ (WILCHES- CHAUX, 1993, p. 19).
É interessante abandonar os chamados fatalismos e pensar que, no caso das dinâmicas socioambientais, a natureza tem uma importância indiscutível, não sendo, contudo, culpada pelas problemáticas expostas. Sabe-se que os fenômenos da natureza sempre existiram e
fizeram parte do espaço, porém, as intervenções da sociedade (incluindo todos os agentes produtores do espaço) é que são “novas” (em comparação à escala de transformações da natureza) e têm alterado extremamente essa dinâmica. De acordo com Tominaga:
Além da intensidade dos fenômenos naturais, o acelerado processo de urbanização verificado nas últimas décadas, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, levou ao crescimento das cidades, muitas vezes em áreas improprias à ocupação, aumentando a situação de perigo e de riscos a desastres naturais (TOMINAGA, 2012, p. 15).
Assim, pode-se pensar a respeito da responsabilidade da sociedade em processos acentuadores das possibilidades de desastres, a exemplo da urbanização189 e da ocupação em áreas impróprias à moradia, tendo em vista a ausência do Estado enquanto mediador dos problemas habitacionais, além das desiguais formas de produção e apropriação do espaço.
Há que se ressaltar também os aspectos relacionados às desigualdades socioespaciais, uma vez que esses riscos e desastres são distribuídos de maneira muito díspares entre diferentes parcelas da sociedade, pois “[…] uma situação que pode ser risco a um determinado segmento social pode não ser a outro” (SANTOS, 2015, p. 81). Essa análise será exposta no tópico seguinte.
Aqui, quando se refere à sociedade está se falando de todos os seus âmbitos, desde os moradores dos espaços nas microescalas, passando pelos promotores imobiliários até o Estado e o capital internacional. Porém, a ênfase que deveria ser dada a esses agentes na tentativa de se aproximar dessas problemáticas não acontece190.
Conforme já exposto, pode-se afirmar que tem sido frequente a culpabilização de pessoas individualmente (ou em grupos) por problemáticas socioambientais, bem como é corriqueira a crítica à ausência de “capacidade” dessas pessoas para solucionarem sozinhas esses problemas. Em contextos neoliberais, como no Brasil, essa responsabilização tem sido crescente, fato que colabora para emergência das discussões sobre resiliência.
Resiliência é outra terminologia muito frequentemente utilizada. Trata-se da famigerada “capacidade de resposta” da qual muito se tem falado. Mendonça (2010) traz à tona a discussão sobre a concepção de “resiliência”, tratando-a como uma premissa inovadora, ao explicar que essa concepção é proveniente de discussões das ciências naturais e da psicologia, sendo aplicada, atualmente, ao contexto dos desastres.
189 É preciso sublinhar a seguinte afirmação: “[...] a urbanização, enquanto processo de dinamização das cidades,
não apresentaria nenhum problema em si mesmo não fossem suas diferentes e complexas formas de manifestação (MENDONÇA, 2010, p. 154).
190 Uma ilustração nesse sentido é a fala a seguir. Conforme Wilches-Chaux “Las definiciones existentes de
Porém, aqui, não se considera a abordagem como algo tão inovador e tampouco como contribuição ao debate, uma vez que se tem percebido que o termo tem sido utilizado mais no sentido de responsabilizar sujeitos e espaços de forma individual, eximindo Estado e mercado da sua responsabilidade, do que propriamente para melhorar as condições de vida da população de uma forma geral. Para Cantos (2008, s. p):
La resiliencia concierne a la capacidad de esta misma sociedad de recuperarse lo más rápidamente posible de las alteraciones negativas provocadas por una perturbación y, en este caso, depende del grado de preparación social (eficacia de las medidas de gestión del riesgo) ante una posible calamidad.
Segundo Veyret (2007, p. 42), resiliência seria “[…] a capacidade de um sistema para se adaptar às mudanças resultantes de uma crise e melhorar sua capacidade de resposta tendo em vista catástrofes futuras”. Contudo, esse debate mais parece discurso tecnocrático, para pôr a responsabilidade de recuperação dos espaços afetados pelos desastres nas pessoas individualmente, do que para se pensar em políticas públicas que possam ser efetivadas nesses contextos.
Na verdade, o poder de recuperação e de seguimento das dinâmicas nos espaços afetados pelos desastres é papel do Estado, que tem o dever de garantir os direitos previstos em lei, como o de moradia. Corroborando o exposto, segundo Santos (2015) a capacidade de resposta deve provir do Estado que deve resolver adequadamente as crises (SANTOS, 2015, p. 76). Assim, acredita-se que um povo que não tem como recuperar suas casas, tampouco poderá recuperar bairros e cidades inteiras. Ao Estado compete evitar e resolver essas questões.
Além disso, a resposta a tais problemáticas deve incluir toda a sociedade e não se limita a responsabilizar os mais pobres e colocar a discussão somente nas mãos dos experts/tecnocratas, como tem sido feito. Ademais, não se deve deixar a gestão urbana e dos problemas socioambientais a cabo de empresas privadas e do Estado somente. Mas deve-se pensar em um arcabouço de soluções que partam dos agentes de maneira geral.
Ao recordar que a resiliência também se refere, teoricamente, à capacidade de pessoas, grupos ou espaços de retornarem às condições anteriores aos desastres, é importante lembrar- se da contribuição de Mendonça (2010) quando enfatiza que em países ou espaços pobres essa ideia não é a mais apropriada, tendo em vista que em muitas realidades as condições pré- existentes aos desastres já eram de precariedade, “extremamente excludente, injustas e degradadas” (MENDONÇA, 2010, p. 158).
Dessa forma, entender a resiliência como a capacidade do ser humano de transformar momentos difíceis em oportunidades de crescimento, mudança e de aprendizagem e usar um
discurso como se seu alcance fosse, realmente, possível, é uma forma de coadunar com uma dinâmica perversa que desobriga o Estado de resolver problemas históricos para uma massa crescente de grupos sociais empobrecidos e precarizados.