Deus criou os filhos, os anjos, da sua Substância, visto como não havia outra; não podia Deus lançar mão de nada exterior a si, porque, sendo infinito, não possui exteriores, nem limites. Sendo substancial o Amor, por isso mesmo possui polaridade, podendo, porque livre, esfriar-se e inverter-se no seu contrário. "Deus é Amor" (I João 4, 16), e desse Pai-Amor saíram os filhos; "Deus é Luz" (I João 1, 5), e dessa incriada luz inacessível se criaram os anjos qual Pai, todos luminosos, todos santos, todos amorosos.
E aconteceu esfriar-se o amor num terço dos espíritos celestes, e o impulso, como o de um pêndulo que oscila, inverteu-se no seu contrário, no egoísmo.
Se o amor cria, o egoísmo descria, dissolve, desintegra, e assim os anjos caídos do amor se escureceram, sendo arrojados no Orco profundo, no centro do universo primevo, e em se fechando cada um cada vez mais sobre si mesmos, todos os dragões se desintegraram no que se chamou, então, depois, medonho e turbulento caos. Daqui principiou a fase inversa à da queda, que é a evolução, e quando pôde o homem ser recriado na subida, viu, atônito, perplexo, que a ignorância e a dor são a sua sorte. Porque se perdeu o amor, por isso erra o homem pelo mundo; procura o enigma do Universo, e não o encontra; sente a morte lançar-lhe a descarnada mão, e
se toma de horror do Nada.
Acaso conheceu o homem o amor? Sim, conheceu-o antes da queda, e o conhece agora, porém, na sua forma invertida de egoísmo. A Natureza toda é egoísta, e o homem, nela, não teve
outra sorte que não ser egoísta também. Que, pois, fizeram, os primeiros homens?
Ignorantes e fracos, a noite os enlouquecia de horror. Adoravam coisas de todas as espécies chamando-as deuses. O egoísmo engendrou a tirania, e esta criou o trabalho escravo, impedindo, ao mesmo tempo, o esforço da pesquisa da verdade. Por causa da inversão do amor em egoísmo, o mundo todo se mostrou invertido também, e, como num negativo fotográfico ou numa fôrma, tudo tem de ser entendido pelo avesso; daí que onde nos diz, a fôrma, saliência, é para entender-se reentrância ou depressão; onde o negativo nos diz luz, é para entender-se escuridão, e
onde, negro, é para entender-se branco. Porque tudo se mostrou invertido, o Mal foi tomado pelo Bem e o Bem pelo Mal.
Todavia, os anjos que, lá no empíreo, se tiveram na virtude, inflamados do sacrossanto amor, varando as trevas do Orco, sempre levaram socorros mil a todos os que quiseram salvar-se, os que, de dragões, desejaram negar-se, na reconquista do perdido amor.
Que estrela, pois, esta que brilha nas trevas? É a Nova Lei que reaparece, a Lei do Amor que exsurge, desponta e esplende fulgurante, negando o estulto egoísmo, clareando a escuridão do mundo, derretendo os ferros, as algemas, as gargalheiras com que a negra tirania agrilhoou a Liberdade do humano corpo e da consciência humana. O homem dragontino, egoísta e mau, escravo da ignorância e do vício, só pode achar a liberdade na nova Lei do Amor, e a Grande Estrela Fulgurante diz: – "Conhecereis a Verdade, e ela vos libertará!"
A Verdade? Mas o que é a Verdade? Movido pelo anseio de ser livre, passou o pensador a joeirar todas as vozes, e andando pelo mundo, foi interrogando as gentes: – em que crês tu? – Creio na existência de dois deuses: um claro e luminoso como a luz do Sol, e bom como a mesma bondade, e outro, negro, peçonhento e cheio de maldade. Interrogado outro, este assim responde: –
Creio em Brahama que gerou Trimurti; Brahama, o criador; Wishnu, o conservador; e Shiva, o destruidor. – Eu aqui budista, esse ai brahamanista, aqueloutro lá discípulo de Platão, todos cremos na transmigração das almas por corpos sucessivos.
Vagando o pensador pelos confins da Terra, por terras ignotas, ouviu ainda dos selvagens a primitiva fala: – Adoremos o Sol, a Lua e as Estrelas, porque deuses são.
Desesperado de achar a verdade na escuridão dos tempos, dirige os passos para Roma, a cabeça da Igreja, e ouve que o recém-nascido, morto sem batismo, para sempre está perdido.
Ouvindo a um tirano, desejoso de forjar uma mística que lhe sustente o despotismo, esse, em proveito próprio e arrogante, diz: – O rei é Deus, e nós outros, todos somos seus escravos. – Mahomet é infalível, diz o muçulmano, ao que retruca o católico romano: não, o Papa é que o é.
Ainda ecoou na lembrança do viajor do mundo, a fala primitiva, ouvida quando andara por ignotas terras: – É deus o fogo. Estátuas lhe façamos, de pau, e pedra, e bronze; curvemo-nos
ante elas, em adoração, humildes; cultos lhes prestemos!
Todavia, insistindo, repete a Estrela Flamejante: – conhecereis a Verdade, e ela vos libertará! Mas, que é a Verdade? Feita esta pergunta por Pilatos, Cristo emudeceu... porque se via à frente dum filosofastro, céptico, descrente de que a Verdade possa ser achada. Contudo, sem o conhecimento dela, jamais seremos livres.
Sedento de saber, estudou o pensador as filosofias, as antigas todas, todas as modernas; atormentado pelo enigma do Ser, seu espírito esteve mergulhado nos problemas metafísicos, os da origem, os do fim da natureza, origem e fim das coisas. Até que se instala a dúvida terrível, e com ela, desesperada dor. Noites indormidas, o cérebro em fogo, passa e repassa o fio da mente sua, na pedra milenar que é o enigma do Ser. E Fausto, encarando a caveira, diz-lhe:
"Que me estás tu daí zombeteando, caveira despejada? Entendo a mofa:
dizes que os teus miolos, quando os tinhas, também como hoje os meus, esfervilhavam; tudo era afadigarem-se às escuras
em demanda da luz, que vivifica; por gosto erravas, mísero, qual erro,
trás a verdade e em vão" 30
e, noutro lugar:
"Ao cabo de escrutar co'o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia... encontro-me qual dantes; em nada me risquei do rol dos ignorantes.
"Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor; e em dez anos vai já que, intrépido impostor, aí trago em roda viva um bando de crendeiros, meus alunos... de nada, e ignaros verdadeiros. "O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana insciência é lei nunca infringida. "Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade, do que toda essa récua inchada de vaidade: lentes e bacharéis, padres e escrevedores. Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores De diabos e inferno, atribulados sonhos E martírio sem fim dos ânimos bisonhos.
"Mas, com te suplantar, fatal credulidade, que bens reais lucrei? Gozo eu felicidade? Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio.
Sei que finjo espalhar luz, e nunca a espalhei
Que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores; Antes faço os bons maus, e os maus ainda piores. Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência, E vivi pobre, quase à beira da indigência.
Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me Coa vil plebe confuso, à espera em vão de um nome. "E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua não quereriam dar em troco desta a sua" 31.
Perguntando o rei Midas ao capro e calvo semideus Sileno, qual o melhor destino de um homem, este frígio semideus, inventor da flauta, gorducho, baixo e de orelhas suínas, lhe reponde: "Miserável raça de um dia, filhos do acidente e da aflição, por que me forçais a dizer o que bom fora não fosse dito? O melhor dos fados é inacessível – não nascer, não ser. Depois, o melhor fado é morrer cedo"32.
E o sábio Salomão concluiu ser melhor o dia da morte que o do nascimento (Ecl 7, 1)... Deste modo, todas as pretensas revelações sobre que os homens fundamentaram suas crenças, sofrem abalos terríveis, terríveis metamorfoses... O pensador desolado, em cujo rosto a reflexão arou profundos sulcos, sente-se tremer. Viu o pai, a mãe, a mulher amada ou o filho morrerem; assistiu-lhes a agonia longa, penosa, e por fim, o último suspiro; depois a algidez das pernas, dos braços e das mãos com os dedos entrelaçados sobre o peito. A vida se quedou no Nada. Qual é, logo, a realidade de sua esperança? Acaso a morte é o fim? Ó dúvida terrível!
E sacudindo a cabeça pendente, murmura o pensador: verdadeiramente, a ignorância e a dor são as companheiras inseparáveis do homem!...
Curvado ao peso da dor, de alma arrasada, vê desfilar por sua memória toda a humanidade no espaço e no tempo. Escuta, como ao vivo, a voz da despótica intolerância: – Que todo inimigo seja sacrificado ao altar de Baal! Que todo budista seja queimado vivo! Matemos os muçulmanos! tal o manda, tal o quer Deus! Os negros foram criados para servir aos brancos; sejam eles, pois, escravos! Trucidemos os brancos, dizem os de cor! Morte a Sócrates, sentenciam os juizes gregos! Morte a Cristo! crucifica-o, brada a turba enfurecida, açulada pelos sacerdotes, e
31Goethe, Fausto, Clássicos Jackson, XV, 27 - 28 32Will Durant, História da Filosofia, 389
sequiosa de sangue! Aquele que não crer em Cristo, seja anatematizado, exclama o jesuíta! ao fogo com ele! Anátema sobre todo o que acreditar em Deus, diz, por fim, o comunismo materialista e ateu.
Onde, pois, a verdade, aquela que me libertará? Exclama o pensador, à meia voz, como a pensar alto. Não quero o cristianismo que é a verdade de Cristo posta ao serviço e interesses dos
homens, mas a verdade pura, do modo como, em palavras, lhe saiu dos lábios.
Ora bem: o enigma do Ser, tal como me atormenta agora, azucrinou também os grandes do passado. No entanto eles, em vez de, como eu, perderem tempo com lamúrias, lançaram-se ao trabalho, aos estudos, pelo que se tornaram intrépidos naturalistas e, sob as aparências mais ou menos sinceras da alquimia, promoveram pesquisas científicas por meio da observação. Sob o pretexto da medicina, percorreram, durante dois séculos, todo o ocidente da Europa,
recolhendo elementos que outros deveriam fazer frutificar, para refundir o método científico. Inúmeros livros foram escritos pró e contra eles. É um episódio da história que me cumpre
cuidadosamente conhecer, pois o que busca a liberdade, tem de, primeiro, descobrir a verdade, uma vez que só ela me libertará. A exemplo deles, cumpre-me ser livre-pensador, como o foram eles nos séculos XV e XVI, eles, os audaciosos defensores da ciência natural, tal qual como Jesus foi o livre pensador da moral. Ninguém, como ele, pregou resolutamente a moral ideal, fundada sobre o sentimento, a única possível naqueles tempos; ninguém feriu com mais rigor e
sucesso a hipocrisia e a tirania sacerdotais.
A doutrina toda sentimental de Jesus repousa na intuição de Deus, como Providência, e na alma humana imortal! A antiga "Associação de Pedreiros" sempre proclamou os mesmos princípios, mas com o corretivo – LIBERDADE DE ESPÍRITO e OBRIGAÇÃO DO
TRABALHO, isto é, com a indagação da VERDADE. Identificando-se à obra "dos Bons Pastores", a "Associação de Pedreiros" proclamou o estudo da Natureza, como base de todo o progresso, porém, com este aditivo: A Natureza não está somente na matéria, mas também nas leis morais, cuja sede é nossa consciência e cuja realidade está demonstrada pela formação da sociedade humana, tal como as leis físicas são demonstradas pela existência dos fenômenos físicos. A "Associação de Pedreiros", como Jesus, empenha-se em aproveitar o homem em seus
sentimentos, agindo sobre sua conduta, seus costumes, predispondo-os às boas ações e à Virtude.
Não adotando para si mesma, determinada crença, a "Associação" considera todas elas como transitórias e subordinadas aos lentos progressos da razão humana. Fiel ao único princípio da liberdade e do trabalho, a "Associação" pode tirar de determinada época da
história, verdades parcialmente descobertas; pode conservar-lhes o sentido exato, repudiando seus maus elementos ou, melhor, seus abusos, por verdades mais completas.
É assim que a "Associação" tem glorificado a Fé, a Esperança e a Caridade. Sem prejuízo, porém, tem repelido a Fé pela Ciência; tem repudiado quimeras com as quais o homem infante embalava sua imaginação, e, até a Caridade, quando orgulhosamente revestida da forma de esmola. Jesus falava, de acordo com as idéias de seu tempo, da Fé e da Esperança que ele pregou. Sua mais importante obra resume-se em um vocábulo: Amor. Para ele a Bondade, a Tolerância e o Amor tornavam os homens iguais. Não poucas vezes sua palavra fez
entrever essa igualdade, como correspondente ao direito, pois a Justiça de não fazer aos outros o que não queremos que se nos façam, deveria transformar-se em Caridade, que é a sentença na sua forma positiva de fazer aos outros o que queremos que nos façam, tal, sua única finalidade.
Cumpre, pois, ao obreiro procurar a Verdade em sua sombra profunda! Esta é a voz do Trabalho e da Liberdade. Assim se conhecerá a Lei que governa o mundo!
Que motivo leva os pedreiros-pastores a se reunirem? A pedra angular, a pedra de esquina do edifício social foi levantada num madeiro, e a lançada de Longuinhos abriu-lhe o lado de que saíram sangue e água. A Pedra Cúbica verte sangue e água! Por que aconteceu isso? Porque se perdeu a Verdade no prístino passado! Como, pois, se poderá reencontrá-la? Pela
Paciência, pela Coragem e pelo Amor. Não só por estas virtudes, senão também pela Fé, pela Esperança e pela Caridade.
Armados da prudência, saíram os pedreiros-pastores pelo mundo de norte a sul, de oriente a ocidente! Interroguem os homens, todas as religiões, as filosofias todas, todos os monumentos; percorram a Terra inteira; interroguem homens e coisas. Que a prudência os guie.
E saindo eles, aconteceu verificarem estar extinta a Fé, a Caridade extinta. Notaram que os que se propuseram a reerguer a Humanidade foram mortos pelos homens cegos pela ignorância. Aquele que disse: "Sede uma Família de Irmãos", não foi compreendido pelos homens que o mataram. Aquele que disse: "Não há mais escravos", os homens, sem o compreenderem, mataram! Aquele que disse: "Procurai e encontrareis", não foi compreendido pelos homens que o condenaram à morte! Aquele que expulsou os mercadores do Templo, foi privado da existência pelos homens! Aquele que denunciou a mentira dos Fariseus, os homens
não o escutaram e o condenaram à morte! Aquele, em fim, que afrontou a tirania dos grandes e o fanatismo das multidões, foi insultado e morto pelos homens! Só resta a Esperança, e desgraçado de aquele que a extinguir!
Poder-se-ia percorrer as Câmaras dos Suplícios, dos castigos que, em várias épocas, a sociedade tem imposto aos que se mostraram esquecidos ou indiferentes às leis supremas do Amor; aos que, sem escrúpulo, lançaram sobre outrem as torturas dos sofrimentos físicos e as angústias do desespero moral e material, como os espantosos tormentos das prisões, das pocilgas dos escravos, dos antros sombrios, úmidos e infectos das masmorras sobre que os poderosos edificaram seus imponentes castelos; aos que, olvidados dos eflúvios da Fraternidade, asfixiaram os mais nobres sentimentos altruístas e da caridade, como o arcebispo Rogério Ubaldini que trancafiou na Torre da Fome o conde Ugolino com seus dois filhos e dois netos, fazendo-os perecer. Assim, embora não se tenha diante dos olhos as tristes conseqüências do esquecimento criminoso da solidariedade humana, alimente sempre o pedreiro-pastor a Esperança, que sua Fé e sua Esperança sejam as suas mais puras alegrias.
E neste momento, depois de os pedreiros-pastores terem ouvido a maldade dos homens, façam a si mesmos a promessa de jamais se esquecer desses sublimes sentimentos, dizendo, cada um, em sincero e profundo recolhimento espiritual: "Eu hei de ser bom, caridoso e justo. Jamais causarei mal a meu semelhante"!
Depois de tantas privações, tantas dores, de interrogar os homens e as coisas, acaso se encontrou a Verdade? Acaso a encontrou quem veio a Judéia, Nazaré, Rafael e Judá? Sim, que Judéia, Nazaré, Rafael e Judá formam a sigla INRI que, posto no tope da Cruz, também significava, para os antigos: Igne Natura Renovatur Integra! (O fogo renova a Natureza inteira).
Na origem do movimento, da vida e do pensamento, isto é, de todos os fenômenos naturais, os Árias, nossos antepassados, colocavam uma substância que não era uma abstração, mas uma força real e visível – o Fogo. Primitivamente, o fogo terrestre, o Agni do sacrifício; depois, o fogo atmosférico ou o relâmpago, e por fim, o fogo celeste, representado pelo Sol. O fogo concebido, a princípio, como personalidade divina, somente diferençando do homem pela extensão maravilhosa de suas faculdades, tornou-se o símbolo do Ser Único, a fonte e cúpula do Universo.
Pois que quando todas as virtudes foram extintas, e todas as luzes se apagaram, restou ainda uma – a Esperança. Que, logo, esperança pode acalentar o viajor obscuro perdido nas trevas? Não outra, senão a de produzir a centelha que fará renascer a Luz, o Calor e a Vida. E onde se oculta essa centelha? No começo dos tempos ela esteve na floresta sombria, onde um raio elétrico, caído do céu, incendiou um tronco seco. Hoje ela está noutro bosque, o das acácias, onde se ergue uma Cruz com uma Rosa nela.
Uns disseram que a centelha gerou-se a si mesma pelo atrito primordial, que este foi o modo também de o primitivo produzir o fogo. Mas, que gerou o movimento inicial para que se produzisse o atrito? Outros chamam-na Agni ou Indra ou Varuna; outros, ainda, a denominam
Ormuzd, Odin, Osiris, Iahved. Nada, porém, sobre ela se poderá saber, porque temerária é a interpretação do mortal que pretenda impor um nome ao Grande Arquiteto do Universo!
Vinde, ó vós, primeira e segunda linha do Ternário! Vinde! Reavivemos a antiga Idéia! Salve, ó tu, filho celeste, no tríplice nascimento que Prometeu trouxe aos homens no oco dum cajado! Filho do homem, tu, a quem os antigos, nossos antepassados, adoravam sob o nome de Agni, e veneravam sob a figura dum cordeiro, aquele que pôs termo às impurezas do mundo! Salve, ó tu, revelador do céu e da terra! Vencedor dos monstros da tempestade, da noite antiga e do desolado inverno! Ó tu que desvendas as maravilhas do Templo, porque, no momento mesmo em que expiravas num madeiro infame, o véu do Templo rasgou-se de alto abaixo! Ó tu que acendes, por sobre as nossas cabeças, os lampadários das estrelas! Ó tu que nos ofuscas nos ziguezagueantes coriscos, nos relâmpagos, e que nos aqueces no aconchego do lar com os doces eflúvios do calor! Ó tu que dás aos homens o meio de dominar a natureza, fazendo-os, guardadas as devidas proporções, semelhantes a Deus! Tais filhos, ó Pai, procurando compreender-te, deram- te o atributo de Criador supremo, estando, desde toda a eternidade como germe e potência de tudo o que criaste! Teu símbolo, ante nossos olhos, o Atarvan da antiga raça ariana, o princípio de todas as combinações que na Natureza se operam, na essência do movimento, na vital essência, fundamento do princípio de Razão que esclarece os homens. Aumenta, ante nós, o teu vigor e brilho! Derrama ao longe, ao largo, teus raios fulgurantes! Sobe ao céu, ao Céu dos céus donde partiste um dia, ó mediador dos mundos, para purificar as consciências nossas! E quando terminado estiver nosso dever na Terra, queiras tu acolher o que de nós subir como sutil porção imorredoura, levando-a daqui, pondo-a a coberto da corrupção que é o termo final das coisas neste mundo!
Ó Jesus Nazareno Rei dos Judeus! Ou, de outro modo: Igne Natura Renovatur Integra! Que esta chama ilumine o mundo como o esplendor da ciência! Que ela envolva a Humanidade inteira! Que o Amor engendre fecundas energias!
Agora conservai, vós que andais pelo mundo, conservai para a Grande Obra, este candelabro doravante fecundo. Igne Natura Renovatur Integra!
Deste modo se emprega a sigla INRI em seu duplo sentido: referindo-se a Jesus e à máxima hermética; à doutrina moral e democrática de Jesus, combinada com a obra especial do que procura a ciência real.
Introduzidos todos neste tabernáculo iluminado, é hora de ser enunciado que foi achada a Verdade perdida no prístino do tempo, quando o puro Amor se transmudou no egoísmo. Esta Congregação de pedreiros-pastores não quer afirmar que a Verdade está achada na sua totalidade e inteireza. Não. A Verdade inteira ainda não foi descoberta. Depois de termos andado errantes no meio dos homens, e de haver consultado os monumentos todos, todas as tradições, os livros, as crenças, as opiniões de todos, continuamos a ignorar a Verdade Eterna. Todavia, achamos o caminho que dela mais nos aproxima, até o ponto em que a humana inteligência pode