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XVI Conflito de Gerações

No documento O_malho_e_o_cinzel (páginas 73-79)

Sendo o homem, por essência, um animal cultural, visto que se rege por cultura, em vez de por instintos, como os outros animais, vale perguntar: como se dissemina a cultura entre os homens, e como ela se transmite de uma geração a outra? Pela EDUCAÇÃO. Disto se tira que

todo o contato humano é educativo, se ele promove o bem, a integração; ou deseducativo, se dele resulta a desintegração, o mal.

A educação, pois, é o fenômeno da disseminação da cultura entre os duma geração, e da transmissão dessa mesma cultura de uma geração a outra.

Os fenômenos, no entanto, grosso modo, podem ser físicos108 e humanos, havendo entre

ambos esta diferença: os fenômenos físicos, isto é, da natureza, como a refração, a combustão, a locomoção, o movimento dos astros etc., são repetitivos, no passo que os fenômenos humanos são sucessivos. Os fenômenos econômicos, políticos, sociais, históricos, educativos etc., sucedem-se, no tempo, mas não se repetem. Como não há repetições, as previsões neste terreno são impossíveis. Neste campo, tudo são probabilidades e tendências.

A educação, como vimos, é um fenômeno social que consiste na transmissão da cultura, sobretudo, de uma geração a outra; e como os fenômenos sociais não são repetitivos, a geração que recebe a cultura dos ancestrais, não a recebe exatamente como lhe é transmitida. Há variações, adaptações e mudanças neste recebimento, disto resultando o conflito entre as gerações. Logo, este conflito é um bem, se dele nascer o progresso, e um mal, se dele decorrer a decadência.

O conflito não é, então, nem um bem nem um mal em si mesmo; ele apenas é a conseqüência de o fenômeno da educação, como humano que é, não ser repetitivo. Suponhamos que o fosse, como é o ensinamento de sobrevivência que, sobretudo, os mamíferos e as aves transmitem às suas crias. Sendo repetitivo, não apresentaria variações, nem mudanças, nem  progresso, com o que não teríamos saído de primitivos antropóides.

Então, a variação que produz o conflito é um bem? Pode não o ser. Quando uma civilização cai, isto ocorre, também, por causa das variações..., não num sentido de progresso social, mas, de embrutecimento, de decadência, qual o estamos vendo hoje.

O "Diário de S. Paulo" em uma de suas edições de dezembro de 1971, publicou o seguinte, com o título de "ESSA MOCIDADE"... Posteriormente no jornal de 13 de outubro de 1982, o Estado de S. Paulo, republicou a mesma matéria. Ei-la:

"Falando do conflito das gerações diante de uma associação de classe, o médico inglês Ronald Bibson começou sua conferência por quatro citações.

Primeira – "Nossa juventude adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus".

Segunda – "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro de nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível".

Terceira – "Nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe".

Quarta – "Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Eles jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter nossa cultura".

"Somente após ter lido as quatro citações, todas aprovadas pela assistência, foi que o conferencista revelou a origem delas: A primeira é de Sócrates, 470-399 antes de Jesus Cristo; a segunda, de Hesíodo, 720 antes de J. C.; a terceira é de um sacerdote egípcio que viveu no ano 2.000 antes de J. C.; e a quarta, descoberta só recentemente sobre um vaso de argila, nas ruínas da Babilônia, tem mais de 4.000 anos de existência".

Jacob Bazarian, num artigo intitulado "A rebelião da juventude", saído no Estado de S. Paulo do dia 13 de outubro de 1982, conta que houve uma mesa-redonda em 15/06/82, com a  participação de diferentes especialistas, para estudar o problema enfocado sob o título de "Geração Abandonada", do jornalista Luiz Emediato e do psicólogo Jacob Goldberg. O resultado da mesa- redonda é dado, como ficou dito, por Jacob Bazarian que transcreve as quatro citações do médico inglês Ronald Bibson.

Bazarian começa assim: "Logo de início é necessário frisar que a chamada rebelião da  juventude não é um problema especificamente nacional, brasileiro, mas universal. E, em segundo

lugar, o fenômeno é tão velho quanto a sociedade humana". E conclui mais adiante:

"Como se vê, a rebelião dos jovens é universal e tão velha quanto a sociedade humana. É necessário acrescentar que o fenômeno é periódico e aparece de modo mais agudo nas épocas de crises e mudanças sociais radicais. E, por fim, é passageira para cada geração no sentido de que a geração descontente e revoltosa acaba adaptando-se ou acomodando-se às exigências da sociedade".

Se o fenômeno da rebelião dos jovens é periódica, "e aparece de modo mais agudo nas épocas de crises e mudanças sociais radicais", se há mudanças sociais radicais, como dizer que "a geração descontente e revoltosa acaba adaptando-se ou acomodando-se às exigências da sociedade"?

Que sociedade? se esta se renova através dos jovens, e são estes os fautores de tais reformas sociais radicais, contra o conservantismo, contra o misoneísmo, da velha geração? Como hão de adaptar-se, de acomodar-se, se as mudanças sociais radicais promovem-nas eles, e, não, os velhos? Onde há radicalismo, há ruptura com o passado, e, rompendo com o passado, os  jovens hão de adaptar-se ou acomodar-se com o quê?

O que haveria de produzir de bom aquelas juventudes de diferentes épocas e de diferentes lugares, das citações de Bibsom se elas eram radicalmente anarquistas? Quem não repara que aquelas mocidades (qual a nossa hoje) marcaram o fim de suas civilizações? Que elas puderam ser  horríveis, adoradoras do luxo, mal educadas, tirânicas, insuportáveis, desenfreadas, estragadas até o fundo de seus corações, malfeitoras, preguiçosas etc., conforme as citações de Bibson, PORQUE  NÃO PRECISAVAM TRABALHAR PARA GANHAR O PÃO DE CADA DIA? E acaso não é

nas épocas, como esta nossa, de riqueza, de fastígio, que as civilizações soçobram no embrutecimento, corrompem-se, caem? E os pobres de hoje?, tema associado à fome, preferido  por todos os demagogos de todos os tempos e de todos os lugares, para seus parlapatórios? "Os  pobres tê-los-eis sempre convosco", já o disse Cristo (Jo 12, 8)..., quaisquer que sejam os regimes,

dado que os homens são dragontinos... Por isto mesmo, não são os pobres, e sim, os ricos e  poderosos que, com toda sorte de abusos e torpezas, fazem naufragar as civilizações, não havendo,  por este motivo, nenhuma civilização que se finasse, justamente, quando, às duras penas, estivesse

saindo da pobreza.

 Não é que estejamos a defender um estado de vida pobre, nem admitindo que a virtude coexiste com a pobreza, nem que a tecnologia seja a raiz de todos os males,... cujo único remédio seria voltar ao artesanato, como queria Gandhi. A raiz de todos os males consiste na  falta de sabedoria, na perda da capacidade de idear, no não saberem, os homens de todas as civilizações que se finaram, o que fazer com os ócios, com o acúmulo de bens, com a facilidade de vida; em terem, tais homens, perdido o tino para distinguir, entre eles próprios, quais os autênticos, que são si mesmos, e quais os demagogos, dispostos sempre a bajular as massas, tudo isto nada tendo a ver  com programas e formas de governo, bonitos sempre... no papel. Todo o mal do mundo esteve sempre, e o está agora, na ignorância..., seja a ignorância rica, seja a ignorância erudita, seja a ignorância tecnológica, esta última, própria dos homens de ciência os quais, segundo Ortega, são sábios-ignorantes: sábios, porque bons conhecedores de sua "porciúncula do universo"; mas ignorantes, porque se comportam frente ao que ignoram, qual seja o caso da rebelião dos jovens, "não como ignorantes, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio"109.

Também, pois, para estes, vale o dito do pintor grego Apeles: "não suba o sapateiro acima das sandálias!".

"Civilização do bode expiatório (diz Joelmir Beting), preferimos atribuir aos avanços da tecnologia moderna e não aos fiascos das ciências sociais a culpa por todos os males do mundo.

Bancar o avestruz da anedota, convenhamos, é uma atitude politicamente confortável. Tão confortável como a de Pilatos, ao lavar as mãos"110.

Que ciências sociais? Caro Joelmir, se tais ciências de cujos enunciados não se formulam leis nenhumas, e, por isto, se resolvem em disputas, quais as escolásticas, entre vintenas de escolas antagônicas? Que é de proveitoso, de útil, que tais "ciências sociais" produziram? Como podem tais ciências sociais segurar a civilização no resvaladouro para o abismo, se, desde Aristóteles, ficou estabelecido que MORAL vem de mores, que quer dizer costumes, e ÉTICA, de ethos, que também quer dizer costumes, uma e outra, moral e ética, em sendo costumes, são relativas? Onde se há de fundamentar a sociedade, se seus alicerces são movediços, relativos, sem nenhuma  Instância Superior, fora do homem, para apelar? As ciências têm seus   primeiros princípios

indemonstráveis; as matemáticas têm seus postulados e axiomas, igualmente indemonstráveis, e, apesar disto, há ciências e há matemáticas. Com a MORAL não ocorre o mesmo, porque ela é costume que se muda sempre, baseado em quê?, senão nos achismos de cada tolo? Cada futilidade que se quer implantar aqui, o argumento decisivo do macaco que somos, é dizer que isso já existe nas nações mais desenvolvidas... Fica a frase suspensa pela reticência, porque o macaco, harto, entende... que desenvolvimento significa   progresso tecnológico e riqueza, esta, advinda desse  progresso! Eis aí o padrão, o paradigma, o metro, para se averiguar se isto ou aquilo é bom: é só

verificar se isto ou aquilo existe nos "países desenvolvidos"!...

E quando uma sociedade como a nossa, que não quer nada com a filosofia, que desampara os seus filósofos os quais, apesar disso, continuam laborando no silêncio, no anonimato, não sabe o que fazer com o seu fastígio, e começa levar a breca, reúne os seus homens não filósofos em mesas-redondas para quê? Para cada um, olhando pela fresta de sua viseira de especialista, para não dizer antolhos, dizer: "eu acho..."?

E se alguém, filósofo – não mero professor de filosofa que só repete o dito nos compêndios; mas, filósofo – tiver a solução do problema, como há de apresentá-la aos demais, se lhe não permitem falar? Como há ele de vencer as BARREIRAS DA COMUNICAÇÃO, se os fariseus dela (se bem se comparam aos do tempo de Cristo, os quais, em fechando as portas do reino dos céus, não entravam nem deixavam outros entrar) não resolvem nem deixam outros resolver?

"Neo-cínicos de formação, os «hippies» freqüentam a universidade como bons filhotes da fartura, e são capazes, intelectualmente, de produzir riquezas. Mas não há maneira de fazê-los ganhar a vida pelas vias convencionais. Eles brincam de ser pobres porque sabem que numa sociedade rica, como aquela em que vivem, poderão deixar de brincar de pobreza quando tocados  pela idade, decidirem mudar de vida. É o que já faz a primeira leva deles, sobreviventes do ócio,

do tédio, do cio e da doença, a sarna, por exemplo111. Bravo! Joelmir! Até que, enfim, houve quem

tocasse com o dedo na ferida! Quem quiser, consulte agora Arnold J. Toynbee, "Um Estudo de História", e veja como e por que caíram as vinte civilizações que ele analisa. Hesíodo e Sócrates, um e outro fala da horrível mocidade de sua época? Desejaríamos ouvir falar dessa mesma mocidade quando acabou escrava, para nunca mais levantar o topete, sob o tacão de Felipe da Macedônia, de Alexandre Magno, e, por último, dos romanos. Falem-nos da mocidade egípcia,  petulante, atrevida, que não ouvia mais os pais, permitindo colher-se o mau presságio de que o fim do mundo não podia estar muito longe, como, de fato, não o estava; falem-nos, pois, dela, quando,  por quinhentos anos, esteve sob a dominação dos hicsos dos quais, ainda puderam os egípcios libertar-se, até que Roma os anulasse para todo o sempre! E a Babilônia? Que foi feito dela? Falem-nos daquela juventude babilônica constituída de malfeitores e de preguiçosos, quando Ciro, o persa, pôs, a todos, jugos invencíveis!

Se outras civilizações já ruíram, e desapareceram no pó, sobrando apenas poucos documentos indecifráveis, que garantia temos nós de que a nossa, andando pelos mesmos caminhos do embrutecimento e da imoralidade das que se foram, milagrosamente, ficará em pé?

110Joelmir Beting, Na Prática a Teoria é Outra, 18 111Joelmir Beting, Na Prática a Teoria é Outra, 127

Tróia é de ontem, e, contudo, sumiu-se de uma maneira tão sumida, que os relatos de Homero, em relação a ela, foram tidos por lendas. Coube a Heinrich Schliemann descobri-la, e a história desta descoberta é tão fascinante, fantástica, que mais parece um conto de fadas. Perfurou o chão, Schliemann, e descobriu o que ele pensou fosse Tróia. Pois era a quinta cidade enterrada e sumida, a contar da superfície da terra. E comprovou-se haver mais duas cidades ainda, com o que se totalizou o número de sete, e, posteriormente, outros arqueólogos encontraram mais duas,  perfazendo o número de nove cidades soterradas! Tróia era, então, a sexta cidade, a contar de  baixo para cima. Depois que até as notícias de nove cidades se perderam, (!) cidades opulentas,

regurgitantes de gentes, dentre as quais, muitas ricas, outras nobres, outras famosas, cada cidade, quando decadente, com uma mocidade de ricos e de nobres, a qual, por isto mesmo, ociosa,   preguiçosa, atrevida, insolente, perversa, ainda se duvida que a nossa civilização, embora em  processo de apodrecimento acelerado, não se vai com a breca? Qual naqueles tempos, tal hoje.

Fale Ortega:

"Este personagem (o homem-massa), que agora anda por toda a parte e onde quer impor  sua barbárie íntima, é, com efeito, o garoto mimado da história humana. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. Agora a herança é a civilização – as comodidades, a segurança; em suma, as vantagens da civilização"112. Mais:

"As pessoas, comicamente, se declaram «jovens» porque ouviram que o jovem tem mais direitos que obrigações, já que pode demorar o cumprimento destas até as calendas gregas da madureza. Sempre o jovem, como tal, considerou-se isento de  fazer  ou haver feito façanhas. Sempre viveu de crédito. Isto se acha na natureza do humano113. Mais isto:

"A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de arribar a uma madureza inepta. Hoje goza o ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude"114. Ainda isto:

"Vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz para realizar, mas que não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido em sua  própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnicas que nunca, o mundo atual vai

como o mais infeliz que tenha havido: puramente ao acaso"115.

As civilizações caem, diz Toynbee, quando, havendo respondido todos os reptos, deixam de responder o último. Pois a nossa sofreu um repto que não foi respondido ainda, e, se o foi, o homem da resposta não pôde vencer a barreira da comunicação; ainda não lhe deram a palavra...  Nossa civilização ia mais ou menos bem sob o signo do CRIACIONISMO. Todas as religiões e todas as filosofias (exceto a de Spencer) são criacionistas. De meados do século XIX para cá, foi imposto à nossa civilização ocidental o repto do EVOLUCIONISMO. Eis aí a tese (Criacionismo) e a antítese (Evolucionismo) clamando, urgentemente, pela síntese. E sem esta Resposta ao Repto, sem esta SÍNTESE, a civilização cairá, primeiro no marasmo, no "interregno" de Toynbee, ou "diarréia" do irreverente Gustavo Corção, e, depois, será o golpe final que virá, como sempre aconteceu, com uma guerra catastrófica. Enquanto isto, continuar-se-ão fazendo mesas-redondas e simpósios, tais quais se fizeram em Roma, na Grécia, na Babilônia, no Egito.

O problema do grande conflito de gerações, não do conflito normal que ocorre sempre, mas do conflito incomum que estamos vivendo hoje, foi resumido na seguinte sentença do artigo do "O Estado de S. Paulo", datado de 22 de agosto de 1982, sob o título: "Você sabe onde está seu filho?”, sentença que pusemos em destaque: "A juventude só encontrará seu caminho quando toda a sociedade for modificada". A isto responde um jovem descrente, na coluna "dos leitores": "Uma total reformulação do mundo (como se isso fosse possível). Na verdade a "Geração Abandonada" e todos nós, em geral, somos vítimas de um mundo que não deu certo"116.

112Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, 158 113Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, 260-261 114Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, 331 115Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas, 98

O mundo, quer dizer, sistema, deu certo até aqui, caro Augusto Gomes, vencendo todos os REPTOS, com felicidade. Agora surgiu o REPTO da EVOLUÇÃO... cuja RESPOSTA está tardando a vir, em razão do que o mesmo mundo entrou em entropia, a qual, como sói acontecer, tende para um máximo. E como entropia quer dizer reversão, retorno, arrepio de carreira, trata-se de reversão ao ponto de onde esse mundo saiu..., que foi a barbárie. É elementar, caro Gomes!

Entropia, termo tomado à termodinâmica, aplica-se a quaisquer sistemas físicos, representando a tendência de todos os SISTEMAS FECHADOS, ou QUE SE FECHAM, a apresentar um estado confuso, aleatório, caótico,   por ter-se esgotado o   potencial para as transformações. Assim, a desordem (assaltos, assassinatos, terrorismos, abusos da polícia, justiça caquética); a falta de padronização (os achismos, no lugar da lei e da moral); a falta de objetivo (ninguém sabe o que fazer com a riqueza criada, nem para onde ir); a ausência total de um ideal  superior (lenta agonia das religiões, e velório ululante da filosofia, ambas, moribundas e mortas, fontes realimentadoras do sistema); tudo isto mostra que nossa civilização entrou em processo entrópico. Causa mor? O não ter sabido ou podido REPLICAR ao REPTO do E V O L U C I O N   I S M O.

Modificação, portanto, "total reformulação", implica planejamento, projeto. E onde, o  projeto? O projeto consiste numa nova filosofia... que resolva, na SÍNTESE, as contradições entre a TESE (Criacionismo) e a ANTÍTESE (Evolucionismo). E onde, essa nova filosofia? Todavia, essa obra pode já estar pronta: como fazê-la chegar a todos, se aqueles que podem abrir as portas da comunicação querem saber, primeiro que tudo, de currículos, só em função dos quais sabem  julgar? Currículos universitários (acaso não vêem isto?) quanto melhores, piores..., para o caso  presente, dado que o enquadramento universitário condiciona o poder criador, em razão do que os gênios sempre se dão mal nas escolas. Ora, onde é preciso criar o novo, os   pontífices da comunicação,  para concederem a palavra, exigem que o inovador esteja, até às tampas, cheio, saturado, dos arcaísmos culturais, e ainda, por cima, das inutilidades (para o caso) contemporâneas. Nenhum diploma prova a inteligência e a criatividade de ninguém, e a maioria deles serve só para demonstrar que, conforme Dewey, "A memória é a grande simuladora de inteligência".

De Cristo, também, se pediam currículos: "Não é este o filho do carpinteiro?, etc. Donde lhe vem tal sabedoria? (Mat 13, 54). "Pode vir alguma coisa boa de Nazareth"? (Jo 1, 46). A sabedoria, a doutrina, não interessa nada; o tudo que interessa é a procedência, o currículo. Então Cristo sentenciou: "Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa" (Mat 14, 57). Isto bate com Feodor Chaliapin que dizia: "Ninguém é grande homem para o seu criado de quarto". E Vieira: "Não basta que as coisas que dizem sejam grandes, se quem as diz não é grande". (...) "Talvez acertou a dizer o rústico, o que tinha dito Salomão; mas no rústico não merece ouvidos, em Salomão é oráculo"117. Por causa disto se fecharam a Cristo as portas do

Templo de Salomão, e ele, se quis comunicar sua Doutrina, teve de o fazer pregando às margens do mar de Tiberíades ou no campo. De igual modo, quando se acabar esta civilização, o que sobrar  dela, se sobrar, levantar-se-á noutra base, seguindo a nova filosofia que, agora, então, se revelará através de papéis e livros amarelecidos, sujos, empoeirados, semicomidos de traças. Verdadeiramente, desta nova filosofia poder-se-á escrever: NOVAE SED ANTIQUAE. Nova  para ser seguida; antiga porque resto de uma civilização que se finou...

A verdade é que, doa isto a quem doer (e quanto mais doer, melhor), a moral é absoluta, não, relativa, do mesmíssimo modo que são absolutos e não, relativos, os primeiros princípios das ciências e os  postulados das matemáticas. Pode-se ir pedindo o porquê de tudo; mas o último  porquê é um postulado indemonstrável... até mesmo, o que é mais, para as matemáticas. A moral

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