No capítulo anteiror, “Religião e Crença”, ficou assente que a Vida é Egoísmo, dado que todos os entes vivos são egoístas, e agem a partir de si mesmos. Dir-se-á que existe impulsos altruísticos, e temos a prova na mãe, já no nível animal, que se sacrifica pela prole, e, pelo menos por certo tempo, vive em função dos filhos. Entre os insetos gregários como a abelha e a térmita, há os que sacrificam suas vidas: as abelhas, pela colméia, e as térmitas guerreiras, pelo termiteiro. Quando o herói morre por sua pátria, e o mártir, por sua idéia, um e outro repete o impulso vital que já existe lá embaixo no mundo invertebrado. A Vida, logo, dá-nos provas de existir o altruísmo, termo criado por Augusto Comte para significar o oposto do egoísmo, ou seja, agir a partir do outro, alter, o que daria alter + ismo, sendo que o sufixo ismo, neste caso, que dizer
doutrina ou sistema. Os romanos já chamavam ao amigo íntimo, em quem se pode confiar, de alter ego, e que significa outro eu. Portanto, há isso de se poder agir a partir do outro.
Não obstante, se repararmos bem, notaremos que a ação invariavelmente tem sua geratriz no sujeito, e não, no objeto. Este objeto da ação excita o interesse no e do sujeito, porém, em si mesmo, o objeto é sempre passivo. No sujeito da ação é que está a atividade. É o sujeito que expandiu sua intenção egoística, pondo o amigo dentro de sua esfera de domínio; daí o dizer: meu amigo, minha pátria, minha ideologia, e, para a abelha e para a térmita, minha colméia, meu
termiteiro. Ninguém lutaria senão para o que considera seu; e este seu pode ser qualquer coisa, donde se tira que o alter ou outro nem sempre é o amigo, alter ego. Se um rei não sobreviveria à perda do seu trono, este trono é o seu outro eu; se um político não pode viver sem o seu cargo,
sem o poder, ele e o poder são um; se o argentário não pode suportar viver sem sua riqueza, esta é o seu outro eu.
Disto se conclui que eu e o meu se confundem, e o altruísmo é uma invenção artificial de Augusto Comte, sem base na realidade. Qualquer um tem provas vivenciais de que o egoísmo pode expandir-se e abarcar o outro em sua zona de domínio. Altruísmo é egoísmo dilatado, e quem diz dilatado ou expandido, deixa subentendido para o que vai, e até que ponto vai essa dilatação ou expansão.
Com a palavra altruísmo Comte pretendeu superar o Evangelho de Cristo com a criação de um conceito sem conteúdo ontológico, sem base na realidade deste mundo. No seu superevangelho sem Cristo, a máxima seria: "ama ao próximo, mais do que a ti mesmo". Meu outro eu (alter ego), seja o amigo, seja o próximo, seja uma coisa qualquer como um trono ou a riqueza, subentende a existência, em primeiro lugar, do eu, do eu 1.º... Não pode haver eu 2.º, para o eu 1.º, se não houver, primeiro, o próprio eu 1.º... que é o sujeito da ação de desejar, de querer, de amar. Logo, real é o egoísmo, não passando o altruísmo de artificiosa criação intelectual de Comte.
A fórmula da filosofia de Ortega se resume nesta frase: "Eu sou eu e a minha circunstância". Por que não põe Ortega "a minha circunstância" em primeiro lugar, para depois dela derivar a outra realidade, a realidade segunda, “eu sou eu"? Porque esta é que é a realidade primeira; o alter, seja lá o que for ou quem for, em relação ao "eu sou eu", vem depois.
E há mais isto: a palavra altruísmo não dá a idéia de demarcação, de limite; o conceito de egoísmo dilatado sim, dá: dilatado até onde? E abarcando o quê?
Repetimos que o egoísmo do sujeito se dilata até o outro (alter), passando esse outro a ser posse do sujeito, a fazer parte daquilo que o sujeito chama de seu, isto é, o meu dele. Todavia, o
sujeito pode sentir que o outro é seu, em dois sentidos: pode ser no sentido de tirar proveito desse outro, ou pode ser no sentido de dar alguma coisa para esse outro, e até de dar-se a ele. Podemos explorar o próximo, tirando dele para nós o que pudermos, e isto é egoísmo fechado, egoísmo puro; e podemos amar ao próximo, e aí darmos de nós para ele, e isto é o que se chama egoísmo dilatado. Daí que egoísmo dilatado, é o mesmo que amor. Ora, se egoísmo dilatado e amor são uma e mesma coisa, por que dar outro nome ao amor? Este nome novo dado ao amor nasceu do desenvolvimento da premissa inicial que diz ser a Vida egoísmo, antes que seja qualquer outra coisa.
No entanto, poderia aparecer um outro pensador, de linha comteana, que partisse doutra premissa, e seria a que diz: a Vida é altruísmo. Assim sendo, o outro vem antes do eu, do ego. O sujeito, que ainda não tem consciência de si mesmo, tem já de haver-se com um meio, com o mundo. Nenhum animal se reconhece no espelho, e quando se vê no espelho cuida que sua imagem é o outro com o qual se defronta. A criança humana, em tenra idade, também não se reconhece no espelho. O reconhecer-se no espelho marca o limite de sua integração de personalidade, de sua constituição como pessoa para si. Já pode dizer eu, em oposição a algo que
é o outro.
Pois, então, se o sujeito, animal ou criança tenra, não têm consciência de si, e a têm do mundo, o outro, para eles, vem em primeiro lugar. Como outro é alter, então, o altruísmo precede ao egoísmo, e a Vida, que, de princípio, é altruísta, só se torna egoísta, quando o sujeito pode dizer: eu. Daí que o eu é odioso, e, para suavizar essa odiosidade, os homens inventaram o plural majestático, pondo o nós com valor de eu. Todo o mal no mundo, portanto, surgiu quando apareceu um animal, o homem, que pôde ter consciência de si mesmo, e dizer eu. O ego é mau, e egoísmo vem de ego – eu. Se não houvesse o homem... que pode dizer: eu, o mundo seria bom, e a Vida seria só puro altruísmo. Favoravelmente a isto, diz Ortega:
"O mundo humano precede, em nossa vida, o mundo animal, vegetal e mineral. Vemos todo o resto do mundo como através das grades de uma prisão, através do mundo de homens em que nascemos e em que vivemos. E, como uma das coisas que mais intensas e freqüentemente fazem esses homens, em nosso imediato contorno, em sua atividade reciprocamente, é falarem uns com os outros e comigo, com o seu falar injetam em mim as suas idéias sobre todas as coisas e eu vejo, em princípio, o mundo todo através dessas idéias recebidas"44. Disto conclui Ortega:
"Isso nos leva a formular este primeiro teorema social: o homem está a nativitate aberto ao outro que não é ele, ao ser estranho; ou, com outras palavras: antes de que cada um de nós percebesse a si mesmo, já havia tido a experiência básica de que existem aqueles que não são
«eu», os Outros; isto é, o Homem ao estar a nativitate aberto ao outro ao alter que não é ele, é, a nativitate, queira ou não, goste ou não, altruísta"45 .
O homem está, assim, aberto ao outro do seu meio social, desde o nascimento, mas em que sentido? Será para dar algo a esse outro?, ou para tomar algo dele? Perguntado isto a Ortega, eis o que ele diz:
"Quando se afirma que o homem está a nativitate e, portanto, sempre aberto ao Outro, a saber, disposto no seu fazer, a contar com o Outro, enquanto estranho e diferente dele, não se determina se está aberto favorável ou desfavoravelmente. Trata-se de algo prévio ao bom ou mau talante em relação ao outro. O roubar ou assassinar o outro implica estar previamente aberto a ele, não mais nem menos do que para beijá-lo ou por ele sacrificar-se"46.
Que teria pensado Augusto Comte ao ver o seu altruísmo, assim, reduzido a nada, por Ortega para o qual é ser aberto ao outro ou altruísta, tanto o que assassina e rouba, quanto o que beija e se sacrifica? Desse jeito, concordamos em que a Vida seja altruísta. Neste sentido, o primeiro teorema social de Ortega, referido há pouco, tem validade para toda natureza animal,
conforme o explica o próprio Ortega:
"O animal não rege a sua existência, não vive a partir de si mesmo, mas está sempre atento ao que se passa fora dele, a esse outro diferente dele. Nosso vocábulo outro não é senão o latino alter. Dizer, portanto, que o animal não vive a partir de si mesmo, mas do outro, trazido e levado e tiranizado por seu outro, eqüivale a dizer que o animal vive sempre alterado, alienado, que a sua vida é constitutiva alteração"47 .
Se, pelo primeiro teorema do social, diz Ortega que, desde seu nascimento, "a nativitate", o Homem está "aberto ao outro, ao alter que não é ele", donde concluiu que o Homem é, "queira ou não, goste ou não goste, altruísta"; e sendo alteração a ação de centrar-se no outro, de estar fora de si e voltado para esse outro, segue-se que alteração é o mesmo que altruísmo. Diz-nos a lógica que, se duas coisas forem iguais a uma terceira, são iguais entre si. Pois alteração e altruísmo são "estar aberto ao outro"; são ser "trazido e levado e tiranizado por seu outro"; são viver a partir do outro.
Logo, o que se mostrar altruísta não "vive a partir de si mesmo, mas do outro", seja o animal e a criança tenra, seja um primitivo em fase mítica, seja um homem-massa... que vive a crédito da sociedade e, por isto, não é si mesmo. Dado que nenhum destes "vive a partir de si mesmo, mas do outro", todos são trazidos e levados por seu outro, que é o mesmo que viverem alterados, alienados, fora de si.
Eis a que fica reduzido o tão decantado altruísmo, palavra cara a Augusto Comte. Altruísta é o que não tem consciência de si, e, embora exista, não pode reconhecer-se e dizer: eu
existo; eu sou eu, e ajo a partir de mim mesmo pelo que sou responsável por meus atos bons e maus. Muito pelo contrário, sou irresponsável, visto que meus atos são maquinal ou automático cumprimento dos rituais impostos pela sociedade. Não sou eu quem vive, mas a sociedade que vive em mim. Dado que minha vida é o puro reflexo do social, e que vivo a partir do meu
44Ortega y Gasset, O Homem e a Gente, 142 45Ortega y Gasset, O Homem e a Gente, 142 46Ortega y Gasset, O Homem e a Gente, 142 47Ortega y Gasset, O Homem e a Gente, 56
contorno social, nunca sou eu mesmo, mas o social em mim. Como não sou eu mesmo, vivo alter-ado, ou seja, vivo sendo o outro. Sou, por isto mesmo, altruísta, pois o Outro é o centro a cujo redor gravito; o Outro é a minha referência, e, por esta razão, sou como todo mundo, sem nenhuma autenticidade...
Ninguém reparou, no entanto, que a ação do sujeito parte do sujeito, tenha ou não ele consciência de si mesmo. E não há outro modo de agir senão no e sobre o contorno. E mesmo quando o homem-massa, que não é si mesmo mas o social nele, reage, refletindo o social, essa reação e reflexo nasce de um núcleo vital que tem de ter um nome, e este será re-agente, sujeito da re-ação. Mesmo aqui, como se vê, o sujeito, embora inconsciente de si, devolve a ação a qual vem pejada das características egoístas do sujeito. O alter, para o ego, só pode vir depois. Não importa que quando nasci, já houvesse a sociedade; eu só tive acesso a ela, depois que me constituí como centro vital de ação e de reação, e esse centro não é senão o ego, donde se tira que não há altruísmo, sem que primeiro tenha havido o egoísmo.
Demonstrada a nossa tese de que o altruísmo é uma ilusão, simples jogo de palavras, por causa de a ATIVIDADE ter sede no sujeito da AÇÃO, e não, no objeto, seja ele qual for, voltamos à nossa sentença inicial: A Vida é Egoísmo, e este egoísmo manifesta-se através da AÇÃO dos sujeitos ou agentes que são todos os entes vivos. Goethe, no seu Fausto, diz: "No princípio era o Verbo. No princípio era o Senso... No princípio era a Potência... Agora é que
atinei: No princípio era a Ação"48 .
Há, pois, de uma parte, o sujeito da ação que é o agente; da outra parte, o objeto da ação, o paciente. A atividade está da parte do sujeito que atua sobre seu meio; este meio é passivo, e, por isto, sofre, padece, a ação do sujeito. O sujeito, porque agente, porque ativo, é a pessoa, em oposição ao objeto que vem de ob-jacere49 que significa jazer contra. De um lado temos a pessoa
e, em sua oposição frontal, temos todos os objetos que compõem o mundo.
Pessoa vem de persona, e esta era uma máscara de cera que os atores usavam no teatro grego. O ator, sendo um só, podia representar muitas personagens. Então, estas personagens eram únicas, específicas, inconfundíveis, não podendo haver duas iguais. Do mesmo modo como São Tomás diz que "cada anjo é uma espécie", cada persona é uma espécie. Como não há, também, dois homens iguais, cada homem é uma espécie, uma persona. O simples agente, que pode ser um animal, ganha a dignidade de pessoa, quando o agente é um homem.
Como é que o selvagem descobriu Deus? Descobriu-o por extensão de si mesmo como pessoa que age sobre o mundo. O homem age sobre o mundo, sobre o meio, modificando o existente. Então é que se pergunta: quem me criou a mim? Quem agiu sobre algo, modificando-o, e desta modificação eu surgi? Se eu não sou o agente da minha própria modificação que me criou, quem foi? Ora, se eu, por inconfundível, sou uma pessoa, o que me criou a mim é a Pessoa por excelência, e essa Pessoa que existe por si mesma, Agente primeiro de toda transformação, é o Ente Supremo, a Pessoa plena ou, de outro modo, a plenitude da Pessoa, ou ainda, o Grande Sujeito – Subjectum – subjacente e sustentador de tudo, que é Deus.
Aqui temos as três entidades inconfundíveis: homem, mundo, Deus. O homem sabe, de si mesmo, que é pessoa e agente; sabe do mundo que é objeto e paciente da ação não só dele, homem, mas sobretudo, paciente da ação do Grande Sujeito que é Deus. Dissemos que o homem sabe de si, e também que ele sabe do mundo. E de Deus o homem sabe? De si o homem sabe, porque tem uma experiência radical de si, e pode dizer: eu existo. Do mundo ele tem uma vivência quotidiana, e pode dizer: o mundo existe, está aí, à mão, ao perto e ao longe, a perder de vista, mesmo estando esta vista armada do mais que potente telescópio. E de Deus, o homem tem uma experiência sensível também, pela qual pudesse, igualmente, dizer: Deus existe?
48Goethe, Fausto, Clássicos Jackson XV, 79-80
49 "Sujeito, do latim subjectum, derivado de sub-jacere (jazer debaixo), que quer dizer, aquilo que está por debaixo,
como base, substrato e sustentáculo de todas as coisas; aquilo que causa efeitos, mas não é causado. Objeto, do latim objectum, derivado de ob-jacere (jazer contra), é aquilo que está contra ou defronte, algo que é oposto ao sujeito, algo que foi emitido ou individualizado pelo sujeito subjacente" – Huberto Rohden, Filosofia Universal, 1, 164.
O existir ou o ser de Deus não é um dado da experiência sensível, nem da inteligência racional, mas, da intuição.
A razão trabalha com conceitos. Conceito é uma definição, e definir é traçar os confins de alguma coisa; é recortá-la num todo maior. Cada coisa é limitada, recortada, destacada de um todo maior, e esse destaque é a definição da coisa, ou seu conceito. Assim, há coisas maiores e menores, mas todas delimitadas. Até que, em chegando a uma coisa única em si mesma, sem nada além de si, que por isto mesmo, não pode ser recortada sobre um todo maior, aí temos uma intuição. Deste modo, a intuição é uma visão total, ou visão em todo, toda sem recortes, por isto mesmo indefinível. Se é indefinível, não podemos dizer que é, não podemos conceituar. Então, neste caso, só podemos falar a respeito dessa coisa ou dar nosso testemunho dela, assinalá-la, mas sem dizer o que é. É assim que ninguém define o Espaço, a Eternidade, Causa primeira, os Postulados todos de qualquer espécie, Deus.
Este é um aspecto pelo qual podemos saber o que é a intuição. Mas há outro, correlato, que é a visão em globo na qual o todo é um conjunto, ou conjuntura, ou situação, e, embora esse conjunto esteja limitado por um contorno, esse limite não nos interessa. Quando um mecânico vai consertar um carro, ele olha o veículo como um todo, e procura enxergar com os olhos da inteligência (daí intuição), onde está o defeito no conjunto de peças articuladas. Ao mecânico não interessa o carro relacionado com nada. Todas as implicações que o veículo possa apresentar em relação ao dono, à família, ao social, ao econômico, ao tecnológico, ao científico, ao artístico, ao bem-estar humano, etc., nada disto interessa ao mecânico. Para ele, naquele momento, o carro se lhe apresenta como em globo, como um todo, como um conjunto que lhe cumpre analisar ou estudar mas só desse todo para baixo. As relações que procura entre as peças, o nexo que busca entre elas, é relação e nexo vistos do todo para as partes. Trata-se de visão analítica, dedutiva, que, idealmente, decompõe o todo em partes, para intuir o defeito, visão intuitiva esta, diametralmente oposta à outra visão, a indutiva ou sintética que relaciona o carro com tudo o mais que a ele se refere: o dono, a família, a sociedade, a economia, a política,
Donde vem que há dois modos de ver uma coisa: a visão intuitiva ou em totalidade, que apreende o todo, e vai para as partes, e visão associativa, indutiva, sintética, que vai das partes para o todo. Na visão do mecânico, o carro é um todo enxergado dele abaixo. Para o dono do carro
este é apenas uma parte de quantas outras há enchendo a sua vida. O mecânico olha o carro, e procura ver a situação como em globo. Para o dono do carro a situação é a sua vida da qual seu
carro faz parte.
Este modo de ver do mecânico é o próprio do filósofo que é o homem que considera qualquer matéria ou problema à luz ou em função da totalidade. O filósofo sempre está na totalidade, de onde parte para qualquer estudo, em razão do que, para ele, nada é desconexo. Fale Toynbee:
"Recusei-me a ser encurralado dentro de um campo de conhecimentos arbitrariamente delimitado. O Sr. Haselfoot salvou-me disso, ensinando-me, uma vez por todas, a considerar um problema em totalidade"50.
Falando, Toynbee, do general Smuts, diz:
"A «totalidade» era a chave de sua grandeza, assim como o era a da de Einstein. Einstein fez descobertas que marcaram época reunindo coisas que espíritos menores tinham deixado separadas. Sir Winston Churchill é outro grande homem do mesmo filão não-moderno. A ampliação de vistas destes três grandes homens é um elo entre si que transcende as diferenças de suas personalidades e de suas carreiras. Todos três ter-se-iam sentido à vontade se tivessem nascido no mundo de Políbio, Catão, o Censor e Arquimedes"51. Mais: "Tal como o filósofo da
história islâmica do século XIV Ibn Khaldum, o filósofo ocidental da história do século XVIII
50Arnold J. Toynbee, Experiências, 109 51Arnold J. Toynbee, Experiências, 125
Vico Freeman tinha o dom de «ver o mundo em um grão de areia»"52. O mesmo que Toynbee,
afirma Gusdorf:
"O filósofo é o homem da totalidade, da composição global onde todas as significações são retomadas e arbitradas em função da pessoa"53. Ainda isto: "Tal como o rei Midas, que ao
simples contato transformava em ouro os objetos mais vulgares, o metafísico eleva ao absoluto tudo aquilo em que toca"54.
A diferença existente entre um professor de filosofia, ainda que com pós graduação e doutoramento nesta matéria, e um filósofo, está em que o professor conhece todas as filosofias que se foram, mas não segue nenhuma, nem tem uma própria, no passo que o filósofo, ou está na cabeça duma escola, ainda que por se formar, ou tem uma filosofia para si, tomada de outrem, filosofia que lhe forma a mentalidade como um absoluto, de onde parte para, por dedução, entender o mundo e enfrentar a solução de todos os problemas.
E do mesmo modo como procedemos o estudo do pensamento como ação reforçada,