_ "Esta crença que honra e enobrece o vosso coração não é exclusivo
patrimônio do filósofo; também o é do selvagem.
– Desde que o selvagem percebe que
não existe por si mesmo, interroga a natureza e faz render tosco, mas sincero culto a um Ente Supremo que é
o Criador do Mundo".
Já hoje não padece dúvida que o homem evoluiu de uma ordem inferior de animais não muito dissemelhante dos chimpanzés e dos gorilas. Egresso, assim, do mundo animal, o homem traz em si e consigo enorme acervo de animalidade que lhe cumpre superar, a fim de que possa conviver com os demais homens, ou seja, viver em sociedade. Ora, isto é impossível sem um regramento ético-legal... com fundamento em Deus, visto como a Natureza é impotente para fundamentar a moral. Por este motivo a antropologia, indo procurar os começos da sociedade humana, deparou-se, sempre, com o xamã, com o feiticeiro, com o sacerdote, com o fautor de religião, este que é o "primo-irmão” do filósofo" (Gusdorf).
Face a isto, qual é o padrão de medida para se saber, dentre tantas, aquela que seria a religião melhor?, superior? O padrão é a ANTIANIMALIDADE. Deus revelou-se, progressivamente, através dos tempos, como ANTIANIMAL. Superar a animalidade, e mais
ainda, dominar a subanimalidade, nisto consiste o tornar-se ético.
Todavia, a animalidade é recalcitrante, desnorteadora, traiçoeira, despistadora dos objetivos, fazendo os homens pensarem que avançam, rompendo caminho, quando estão estacionados, não indo a abertura de seus egoísmos além de suas famílias.
Ocorre que a Vida é Egoísmo desde os seus fundamentos mais remotos, e isto, pela observação de que cada ente vivo é um egoísta. A partir deste egoísmo, o homem age, e age, porque a mesma Vida é Ação. Nos níveis mais inferiores, a vida é só movimento. Um animal, para resolver o seu problema de evadir-se de uma jaula ou gaiola, emprega o movimento, tentando, pelo ensaio-e-erro, achar a solução do problema. Já um chimpanzé, após algumas tentativas desassisadas, pára, e reflete, como o demonstrou o Prof. W. Köehler. Este refletir do chimpanzé é feito de um ensaio-e-erro subjetivo, no qual o antropóide se imagina, como se estivera fazendo todos os movimentos que faria um rato ou galinha, quando submetidos ao mesmo desafio de fugir da prisão.
E o homem, num nível mais alto, ao resolver seus problemas, faz o mesmo que o chimpanzé, com esta diferença: o primata usa imagens para pensar, ou pensa por imagens, no passo que o homem, usando conceitos, pensa abstratamente.
Como o pensamento teve suas raízes evolutivas no movimento, no agir corporal, por isto os filósofos chamam a ação de uma contemplação enfraquecida, o que nos dá a recíproca: o pensamento é uma ação reforçada.
Conseqüentemente, há quatro níveis de realidade superpostos que se erguem do lastro primário da VIDA, VIDA que, por sua natureza, é EGOÍSTA. O primeiro nível da realidade que
se confunde com a própria vida, diz-nos que a vida é ação, ação que se mostra como uma forma enfraquecida de pensamento no ensaio-e-erro dos animais inferiores, vida que, num nível mais alto, alcança sua plenitude de ação reforçada no pensamento abstrato do homem. Portanto, se a ação é o primeiro nível, o pensar abstrato é o segundo... que se sobrepõe ao primeiro. O terceiro diz-nos que, sendo o homem obrigado a agir e a pensar, tem de fazê-lo segundo uma direção, e não mais que uma, escolhendo-a no leque de opções que as contingências lhe oferecem. O que dá essa direção é a CRENÇA. Esta crença (terceiro nível) é uma como sedimentação das experiências da vida, uma como decantação daquilo que o homem tem para si como sendo a verdade. A crença é o seu conjunto-verdade. Por conseguinte, a crença foi criada pelo pensador que todo homem é, a partir da meditação ao longo do tempo, e é a que, agora, lhe orienta a escolha a ser feita. Ora, só escolhe quem é livre, sendo a LIBERDADE o quarto nível que se sobrepõe a todos os demais, e só existe para quem, como o homem, chegou ao uso da razão. Disto se infere que quanto mais pleno é o uso da razão, tanto mais livre é o homem na escolha do seu quefazer, sendo esse o motivo pelo qual sentenciou Jesus: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8, 32). E o sentido desta liberdade se acha expresso no versículo seguinte, 34, quando Cristo remata seu pensamento ao dizer: "... todo aquele que comete pecado é servo do pecado". E, como diz
Gusdorf, "os cativos mais dignos de lástima são os que nem sequer têm consciência de seu cativeiro". Quem nem chega a ter consciência do próprio cativeiro é sumamente ignorante; ora a ignorância é o oposto da sabedoria: disto se tira que quem não erra nunca, e só faz o certo, é sábio, que é o mesmo que santo. Só são, pois, livres, o sábio e o santo. Assim, o último nível da realidade, o da liberdade plena, só é atingido com a sabedoria e com a santidade.
Estes quatro níveis da realidade não são estanques, mas decorrentes, desenvolvendo-se do simples para o complexo, da ação pura para a liberdade plena, não havendo linha divisória nítida entre eles. Pela ordem de construção: Ação, Pensamento, Crença, Liberdade, eis a superposição de níveis da realidade a partir do fundamento que é a VIDA.
A vida, portanto, é ação que se manifesta como uma meditação enfraquecida, um pensar insipiente, no ensaio-e-erro animal, no passo que, também, se manifesta como uma ação reforçada, potencializada, no pensamento abstrato do homem. Meditar, portanto, é uma forma plena de agir, como a ação ensaio-e-erro dos animais é uma forma insipiente de pensar.
E quem age tem de tomar por um caminho dentre vários, tem de decidir. A vida impõe-nos como diz Ortega, não uma, mas várias trajetórias. E temos de escolher. Daí o dizer Ortega que "viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir"37. O homem tem de
decidir-se por um caminho, por uma direção, sendo que o que lhe impõe este caminho, esta direção é sua CRENÇA.
A crença é o homem, não se separando ela dele um só instante. "Nós somos as nossas crenças", diz Ortega. Assim sendo, a crença (que somos, e porque a somos) não pode ser posta como objeto de discussão. A crença que somos forma o nosso substrato mais profundo, do qual nascem TODOS os atos de nossa vida, sem nenhuma exceção. Atos são ações; e ações implicam escolhas direcionadas pela crença. Não podemos discutir ou permitir discussão sobre ou a respeito da crença que somos, porque, como a somos, ela é o fundamento; e fundamento nenhum é passível de discussão, porque, se o fosse, não seria o fundamento.
Eis por que a crença num Ente Supremo ("Credes num Ente Supremo?") "honra e enobrece" o coração do homem, uma vez que essa crença lhe norteia não só a conduta moral, como ainda todas as obras da sua vida. Só que a resposta do neófito: "Sim, creio", raramente é sincera, por causa da confusão que se faz entre crença e religião.
Como vimos, a crença, sendo o substrato profundo do homem, donde lhe nascem TODOS os atos da vida, sem nenhuma exceção para ninguém, segue-se que este fundamento não
pode ser posto como objeto de discussão. No entanto, as religiões, com serem exteriores ao homem, são discutíveis. Deste modo, a crença que somos nada tem a ver com nossa religião, porque a religião que seguimos pode ser discutida, enquanto que a crença que somos, não. Bem pode ser, portanto, que o neófito haja confundido religião com crença, donde se segue que ele aceita a existência de um Ente Supremo como um primado intelectual, distante, como puro Ente de Razão, nada tendo isto a ver com suas vivências cotidianas, com seus atos nascidos de sua verdadeira crença da qual Deus não participa.
Conseqüentemente, para sabermos qual é a crença de um homem, não nos devemos ater à sua profissão de fé, que é intelectual, mas sim, às suas obras. As ações de um homem são o aspecto exterior de sua crença, no mesmo passo que, pela recíproca, sua crença é o aspecto interior das sua obras. Como tudo no mundo tem o fora e o dentro, podemos conhecer o dentro de cada um por suas obras. Ponhamos esta doutrina em sentença:
Mostra-me as obras de tua vida, e dir-te-ei qual é tua crença. Isto eqüivale a: Mostra- me as obras de tua vida, e dir-te-ei quem és. Pois claro: a crença é o homem. Agora, pela recíproca: Revela-me tua crença, teu substrato profundo, e dir-te-ei quais serão as obras de tua vida.
S. Paulo, o grande Apóstolo de Cristo, tinha uma CRENÇA... que era sobre si mesmo, e por isto dizia: "Viver para mim é Cristo, e morrer é lucro" (Epístola aos Filipenses, 1, 21). "Sede meus imitadores, assim como eu sou de Cristo" (Cor 11,1; Filip 3, 17). "Estou crucificado com Cristo; logo já não sou eu o que vivo, mas Cristo que vive em mim" (Gal 2, 20-21). Esta identificação de Paulo com Cristo formava a mentalidade de Paulo, e a mentalidade não se constitui só de conceitos vazios, puramente intelectuais, e sim, por conceitos cheios de conteúdo vivencial, emocional. Cristo em Paulo, se tornou vivência, CRENÇA, consorciada às obras de sua vida. Essa sua Crença-Cristo se tornou, como sói acontecer, o aspecto interior das sua obras, como estas eram o aspecto exterior de sua Crença-Cristo.
Por causa disto, Paulo sentia-se crucificado com Cristo no mundo, como todo aquele que se diz ser de Cristo deveria estar, e o não está. Todo mundo que se diz ser de Cristo está, também, em paz com o mundo... mundo que, como diz São João, "está todo, inteiro, posto no maligno" (I Jo 5, 19). Donde se tira, como inferiu S. Tiago, que quem é "amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus" (Tgo 4, 4). Mundo que, por estar posto no maligno, não é o mundo de Cristo que disse expressamente: "Meu reino não é deste mundo" (Jo 18, 36).
Por causa desta crucificação de Paulo com Cristo... que consistia em estar num mundo invertido no negativo, sendo este mundo a contradição do mundo celeste; mundo este dragontino... em que todos os valores são a contraditória dos valores imperantes nos planos celestiais; por causa de estar o Apóstolo no mundo dos dragões no qual impera a subanimalidade, ou seja, a animalidade requintada pela inteligência; por causa disto Paulo mostrava-se dividido, como aquele que, tendo visto a luz, tem de retornar à caverna de Platão, a fim de ensinar seus companheiros. A seu modo diz Paulo o mesmo que propõe Platão ao filósofo, ou seja: "Tenho desejo de partir deste mundo e estar com Cristo, porque isto me é melhor. Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne" (Filip 1, 23-24).
Este nosso mundo não é ilusório, mas real; só que de uma realidade invertida e mostrada pelo avesso, desde quando ocorreu a queda dos Espíritos celestes, parte dos quais, em se desintegrando no atro abismo, produziu o Caos do qual nasceu nosso universo evolutivo. Por causa disto, nosso mundo ainda é, em parte, a "Caverna de Platão", reino das trevas em que pontificam os dragões, mundo que tem de ser desinvertido do seu negativo... pelo trabalho dos bons, dos de Cristo, dos de Deus, aos quais, por isto mesmo, se pode dizer: "Essa crença que honra
e enobrece o vosso coração não é só patrimônio do filósofo. Também o é do selvagem, etc.", porque ser selvagem não significa ser dragão, se o selvícola pauta seus atos pelo Deus que pôde intuir. Ser dragão, as mais das vezes, é ser só intelectual, vazio de princípios morais, isto é, sem Deus, e, por isto mesmo, perfeitamente identificado com o mundo, e ainda disfarçado de homem de fé, pelo fato de seguir uma religião qualquer.
O objetivo da religião seria incutir crença, deixar de ser extrínseca, passar para o substrato profundo, recriar o homem, re-li-gá-lo com a Divindade, fazê-lo nascer de novo, isto que é simbolizado no batismo. Mas que nada; tudo não passa de ritualismo vazio de conteúdo: o tal muda, às vezes, de religião, mas não muda de vida, tal qual como diz Sócrates, e, Vieira escreve, do forasteiro: "O peregrino sempre anda mudando de lugar em lugar, e nunca melhora, porque sempre se leva a si consigo"38.
Entre os dois termos, religião e crença, aparece um terceiro que é a FÉ, capaz, sozinho, de produzir toda a confusão reinante no mundo hoje, e que fez nada menos que falirem as religiões. Quando, onde e por quem teve origem esse grande mal-entendido?
O Apóstolo S. Paulo recebeu de Cristo a incumbência de levar o Evangelho aos gentios39, e para isto organizou um programa com base na fé, FÉ que, para esse Apóstolo, é o
mesmo que CRENÇA. Um homem, como S. Paulo, para quem "viver é Cristo e morrer é lucro", que dizia: "faço penitência, para que me não suceda que, havendo salvo os outros, venha eu mesmo a me perder"; que recomendava: "sede meus imitadores, assim como eu sou de Cristo"; que dizia de si: eu e Cristo somos um, visto como "já não sou eu o que vivo, mas Cristo que vive em mim"; um tal homem para quem CRENÇA e FÉ são uma e mesma coisa, podia, com toda a verdade afirmar: "o justo vive da fé", isto é, da crença; "as obras nascem da fé", ou seja, da crença. Toda sua vida de apostolado, de sacrifícios, de martírios, e, finalmente, sua morte por decapitação, provam que, de fato, suas obras nasciam de sua crença... que ele chamava fé, exatamente como
acontece com qualquer homem da rua que, metido só consigo, vai indo executar muitos quefazeres nascidos todos de sua convicção mais profunda, indiscutível para ele, que é sua crença. Só que a crença de qualquer um é qualquer crença40, no passo que a de S. Paulo era Cristo. Ele não pregava
uma religião exterior, sempre discutível, e que, por isto, não é o homem; ele pregava Cristo com o qual se identificava tanto, ao ponto de ser um com ele.
Em face destas evidências irrecusáveis, indiscutíveis, move-nos a riso a polêmica dos espíritas e protestantes, cada um teimando na sua, os primeiros enfatizando as obras (salvação pelas obras), e os segundos pondo em destaque a fé, pelo que a salvação se faz pela fé. Fé ou obras? Ora, que fé e que obras? Pois separe alguém as obras da vida de qualquer um de sua crença, que é ele mesmo, e verá que é o mesmo que pretender separar o ser pesado do chumbo, do próprio chumbo, ou o ser carnívoro do leão, do mesmo leão. A crença forma uma como que natureza de cada um, e desta como que natureza, nascem, espontaneamente, ainda que se não queira, as obras da vida. E tudo isto não tem nada a ver com a religião exterior à qual, também, se costuma chamar de fé.
A crença-Cristo de S. Paulo, que ditava as obras de sua vida, ele chamava FÉ. E é aqui ou nisto que, repetimos, os religiosos de todos os credos fizeram a enorme confusão, porque a fé-crença de S. Paulo não tem nada a ver com a fé-religião, com o entusiasmo religioso de uma
religião discutível, porque exterior ao homem, e por isto mesmo separada das obras de sua vida. Partindo da máxima que diz: mostra-me as obras de tua vida, e dir-te-ei qual é tua crença, podemos perguntar: qual era a crença de Torquemada (1420-1498) que o levou a praticar, durante catorze anos, todos os horrores do Santo Ofício espanhol, perecendo sob sua crueldade sem limites nada menos que oito mil pessoas? No entanto, perguntado a ele qual era a sua fé- religião, diria não só que era católico, como, por cima, religioso dominicano. Sua ganância, sua crença no dinheiro, crença no poder o fez conivente com os exploradores espanhóis que destruíram os índios bolivianos. Estes eram obrigados a meter-se nos rios, com a água pela cintura, para minerar o ouro de aluvião. Desesperados, os infelizes abreviavam a morte certa pelo suicídio, não sem primeiro matarem os próprios filhos. Que fez Francisco Pizarro (1475-1541) contra os incas peruanos ao dar vazão a sua cupidez, orgulho e crueldade? E acaso Pizarro não
38Vieira, Sermões, 12, 123 – Ed. das Américas
39Gentios, para os judeus, tinha a mesma conotação de bárbaros para os gregos e romanos.
40Como a crença na riqueza material, donde a máxima: "Ser é ter"; ou então, a crença no poder: "Ser é poder"; ou
tinha uma religião que era a católica? Que fez Fernão Cortês (1485-1547) no México contra os naturais da terra, contra todo o império asteca, sobretudo, contra o imperador Guatimozin? De que lhe valeu, então, a sua religião católica?
A polêmica nascida já no tempo de S. Tiago, e ainda hoje acesa entre as duas facções religiosas, uma, a espírita, que dá excelência às obras, e outra, a protestante, que dá primazia à fé, não tem nenhuma razão de ser, porque crença e obras são dois aspectos de uma mesma coisa. Crença e obras fazem a vida de cada homem, do mesmo modo que núcleo e citoplasma formam a célula, que prótons e camadas eletrônicas fazem o átomo, que homem e mulher constituem a família.
São Tiago diz que "a fé sem obras é morta" (Tgo 2, 26). Mas se a fé é igual à crença, a frase fica sem sentido, porque não há crença morta, ou seja, crença sem obras, assim como também, pela recíproca, não há obras sem crença. Ora, se uma não há sem a outra, falar de fé morta é supor que a fé pode existir independente de sua contraparte? Se a fé é morta por faltar-lhe sua contraparte obras, segue-se que ela jamais nasceu; e porventura poder-se-á falar a respeito do que jamais existiu?
Ocorre que S. Tiago, quando se referiu à fé sem obras, estava pensando em religião que, de fato, pode existir sem obras, e não, em crença que não pode. Este absurdo foi possível por causa de se confundir crença com religião, tomando-se esta como sinônimo de fé. Para S. Paulo, crença e fé eram uma mesma coisa, porque ele e Cristo eram um, e todas as obras da vida do Apóstolo nasciam do Cristo interior, do Cristo que vivenciava nele. Agora, os religiosos cristãos de todos os credos vivem suas vidas e praticam seus atos os quais nada tem a ver com Cristo, mas se dão como pessoas de fé... só porque trinam lindos hinos, fazem extensas orações, emocionam- se, entusiasmam-se, nunca se esquecendo de curvar-se à frente de Cristo e de fazer-lhe mesuras.
Esta é a causa por que diz Vieira que somos cristãos de meias: "temos uma parte da fé, e falta-nos outra; cremos em Cristo, mas não cremos a Cristo"41. Mais: "Quando Cristo saiu ao
mundo com a primeira prova da sua onipotência e divindade, convertendo uma coisa em outra nas bodas de Caná de Galiléia, conclui o evangelista S. João a narração do milagre com esta notável advertência: Este foi o primeiro milagre que fez o Senhor Jesus, e creram nele seus discípulos. Já vejo que reparais em uma e outra conseqüência. Se depois do milagre creram nele seus discípulos, segue-se que antes do milagre não criam nele; e se ainda não criam nele, como eram já seus discípulos? Eram já seus discípulos, porque criam a sua doutrina, mas ainda não criam nele, porque não conheciam a sua divindade. Criam-no a ele, mas não criam nele: criam-no a ele como
mestre, mas não criam nele como Deus. De sorte que crer em Cristo e crer a Cristo não são crenças que andem sempre juntas. Os discípulos naquele tempo, e naquele estado, criam a Cristo, mas não criam em Cristo; e nós agora, às avessas deles, cremos em Cristo, mas não cremos a Cristo: cremos em Cristo, porque cremos o que é; não cremos a Cristo, porque não cremos o que diz"42.
Cristo disse expressamente: "Vós sois meus amigos se fizerdes o que vos mando" (Jo 15, 14). Perante isto, perguntamos: quem é que ama a seu próximo como a seus próprios filhos? Quem é que perdoa ao inimigo, e faz o bem a quem o persegue e calunia? Quem é que dá a capa a quem lhe está querendo furtar a túnica? Quem é que vê em cada mendigo andrajoso o próprio Cristo? Que disse: todas as vezes que amparastes a um destes pequeninos, é a mim que o fizestes.