Como já argumentado no início deste capítulo, o interesse dos economis- tas pelo processo de mudança tecnológica deu-se nos início dos anos 80. Tal
“redescoberta” constituiu-se em uma espécie de “volta às origens” da teoria
28 Centrar-se-á a presente discussão no trabalho de Nelson (1987) por apresentar uma síntese da visão evolucionária desenvolvida a partir de estudos realizados em Nelson e Winter (1982). O termo evolucionário é aqui empregado como sinônimo de neo-schumpeteriano, embora sejam termos distintos, dada a maior amplitude do primeiro em relação ao segundo.
Essa discussão será retomada no item 2.5.
29 Nelson (1987, p.1) afirma que “(...) nossa capacidade em contribuir construtivamente tem sido limitada pelo fato de a análise econômica contemporânea ter a tecnologia como dada e exógena, (...) [onde] os instrumentos teóricos standard da economia moderna não foram moldados para tratar da mudança tecnológica. [S]e os economistas reconhecessem a mu- dança técnica como importante e endógena, algumas mudanças seriam necessárias em termos de como modelar a atividade econômica de maneira mais geral”.
econômica, pois, desde Adam Smith,30 passando por Marx, Marshall e, final- mente, Schumpeter, a mudança tecnológica constituiu-se em elemento cen- tral de análise e agente da própria dinâmica capitalista. Nesse sentido, a ênfase no equilíbrio e no steady state como resultante final do processo de crescimento econômico não deixa de se constituir em algo alheio à referida tradição histórica. A mudança tecnológica desencadeia uma série de inova- ções, que, por sua vez, exercem outros efeitos propagadores na economia.31 A inovação vencedora do processo de seleção permite aos compradores adqui- rirem produtos a quantidades e preços vigentes, que cubram os custos totais e, além disso, reduzam ainda mais os custos de produção em relação às técnicas vigentes, operando lucrativamente. Portanto, a lucratividade da inova- ção, além de depender dos gastos dos consumidores e do preço do produto e dos fatores, também depende da tecnologia predominante. Além dos aspec- tos intrafirma, a inovação demonstra sua lucratividade substituindo técnicas através da expansão da produção e do crescimento da firma indutora da inova- ção ou através da “imitação adaptativa” pelas firmas concorrentes. Assim, em uma indústria onde a inovação é importante fator de concorrência, a habilidade da firma em sobreviver depende da eficácia de seus laboratórios de P&D, da capacidade de explorar e proteger suas inovações e da rápida incorporação do que fazem seus concorrentes. Isso abre espaço para a adoção de determina- das estratégias de inovação e imitação em relação à concorrência.
Percebe-se, assim, que, para a tradição evolucionária, o processo de mu- dança tecnológica conduz ao crescimento econômico, mas, ao contrário da visão neoclássica, sem “compromisso” com qualquer posição de steady state, nem de equilíbrio de longo prazo. A ênfase está em uma força motriz centrada na “dinâmica das inovações”, que repousa, inequivocamente, no funcionamento
30 Para os clássicos, a tecnologia importa, mas a ela não é dado qualquer tratamento teórico especial, ao passo que a acumulação de capital, o crescimento da população e os recursos naturais têm um significado mais ativo do que a tecnologia.
31 Segundo Nelson (1987, p.7), a complexidade sob a qual está envolvido o processo de mudança tecnológica gera substanciais diferenças inter-regionais, interindustriais e intersetoriais. Além disso, reina considerável incerteza sobre a melhor forma em se obter qualquer avanço técnico desejável. Exemplos disso: a aviação, nos anos 50, evoluiu com base tanto em motores impulsionados por turbojatos quanto por motores a turbo propulsão;
o mesmo ocorreu entre projetistas de computadores, que divergiam no uso de transistores.
Já o contexto pluralístico da mudança técnica em países capitalistas deve-se à concor- rência entre as diversas firmas, que buscam, por seus próprios caminhos (decisões), diferentes alternativas de exploração de determinada inovação.
da firma, na sua forma de organização, na forma de concorrência e nas relações intra e interfirmas. Vale dizer, o processo de inovação e o conseqüente cresci- mento econômico originam-se e desenvolvem-se em uma instância prioritariamente microeconômica. Ambos operam em um nível desagregado, em um ambiente diversificado, heterogêneo, sujeito a regras ferozes de concorrên- cia e competitividade, estando, inevitavelmente, sujeito a incertezas ante o futu- ro. É nesse sentido que as instituições, ao terem a função de reduzir — ou até de aumentar, como afirma Minsky (1995) na visão do moderno capitalismo finan- ceiro — as incertezas, têm papel fundamental no processo de crescimento. Se na visão do mainstream são “intratáveis teoricamente” por possuírem uma natu- reza “inquantificável”, para os evolucionários são parte vital do processo de cres- cimento, pois permitem uma melhor ou pior adequação à consolidação de um paradigma tecnólogico.
O caráter evolucionário da mudança está na presença da novidade gera- dora, que faz as entidades (firmas) capazes de se tornarem “mais aptas” que as já existentes.32 O conceito de inovação, crucial para a teoria evolucionária, utiliza o ambiente institucional como condição necessária ao desenvolvimento de “condições inovadoras” para o crescimento. O ambiente institucional está, por assim dizer, “enraizado” (embedded) no processo dinâmico das inovações,33 o qual, ao referendar o padrão de mudança técnica, desencadeia a seleção, a trajetória, a forma ou o padrão de desenvolvimento e crescimento econômico.
Essa interação se realiza em um nível tanto micro quanto macroeconômico. Ou seja, a decisão de “o quê é lucrativo” para as firmas conduz, necessariamente, à extinção de formas antigas não-lucrativas: emerge daí o novo em meio ao velho, explicitando o mecanismo de destruição criadora. Por essa razão, a mudança técnica deve ser entendida como um processo evolucionário.
32 A teoria de Nelson e Winter “(...) pode ser vista como um caso especial de análise da evolução cultural, onde os valores de mercado jogam um papel essencial, e o lucro é uma figura de mérito, onde as pressões competitivas operam para eliminar as entidades não- -lucrativas e aumentar as lucrativas. A novidade em nosso sistema são as inovações e sua força sobre as novas técnicas de produção. Entretanto, em nossa teoria é perfeitamente possível estratégias de P&D em novos tipos de firma ou outras características de novas firmas emergirem e serem testadas pelo mercado” (Nelson, 1987, p.14).
33 Para os neo-schumpeterianos, o mercado “opera” a seleção em um ambiente competitivo, onde o predomínio das novas técnicas tem se dado sobre as anteriores, acompanhadas do surgimento de novas instituições (Nelson, 1987, p.15).
Compreendê-lo sob essa ótica não implica abandonar qualquer tentativa de formalização do modelo, mas teorizá-lo de maneira diferente do mainstream.