A abordagem de Dosi e Orsenigo complementa o modelo Freeman-Perez, incorporando aspectos microeconômicos que melhor explicitam o caráter
27 A questão dos retornos crescentes tem um tratamento diferenciado conferido pelos neo- -schumpeterianos em relação aos adeptos do equilíbrio geral. Brian Arthur (1989) levanta a tese de que, em contextos de mudanças tecnológicas e de inovação, inexistem retornos crescentes, sendo comum, na introdução de novas tecnologias, o oposto, isto é, existência de retornos decrescentes, até que ocorra a difusão das inovações no novo paradigma.
evolucionário do paradigma tecnológico. A inclusão das instituições como elemento mediador fundamental o qualificam como um genuíno “estudo de caso institucionalista”, com um conteúdo teórico — tanto macro quanto microeconômico — que complementa e supera as abordagens assim auto- -identificadas. Explicita-se daí absoluta compatibilidade entre a instância prioritariamente microeconômica do paradigma tecnológico com a macroeconômica do paradigma tecno-econômico, ressaltadas as diferenças. O paradigma tecno-econômico não “paira no ar” sem ter por base uma dinâmica tecnológica e institucional definida.
A abordagem de Perez utiliza três conceitos para a compreensão da dinâ- mica do crescimento econômico: mudança estrutural, mudança tecnológica e mudança institucional. A definição de um adequado desenho institucional es- tabelece a forma que determinado paradigma assumirá nos diferentes países em que terão lugar as inovações tecnológicas, razão pela qual os critérios de eficiência, de organização da firma, de adaptação e seleção assumirão formas diferenciadas de um lugar a outro. Entretanto a transição de uma fase a outra tem um caráter marcadamente acentuado por transformações tecnológicas, cujas experimentações, através de processos contínuos e sucessivos de tentativas e erros, se constituem no laboratório natural de formação do novo paradigma. A centralidade do papel da mudança tecnológica é explicitada pela importância dos conceitos de inovações incrementais e radicais, que estabelecem os su- cessivos paradigmas tecno-econômicos. As várias fases da história do capita- lismo são resultantes da interação entre essas inovações.28 Nesse sentido, a adversidade surgida a partir dos anos 70 não impediu que continuassem ocor- rendo inovações incrementais e radicais — principalmente no ramo da microeletrônica e no da biotecnologia, originando sistemas inteiros de novas tecnologias —, mas revelou gradual perda de fôlego das mesmas, no sentido de sustentar o ritmo de crescimento econômico em níveis comparáveis aos do pós- -guerra. Tal descompasso expôs o descasamento (mismatch) entre a estrutura socioinstitucional e as necessidades de mudanças na esfera tecnológica. O esgotamento do paradigma tecno-econômico vigente desdobrou-se na transi- ção para a constituição de um “novo”, ainda em formação.
28 Tomando-se o período após a segunda Guerra Mundial, tem-se uma abundância de exemplos de inovações radicais e incrementais, introduzidas em diferentes pontos do sistema e de rápida difusão, que resultaram em profundas transformações nas formas de vida e na estrutura da produção. O que explicou isso foi uma sucessão de melhoras e novos produ- tos, processos e sistemas tecnológicos, revelando que a mudança tecnológica foi uma das principais responsáveis pelo crescimento econômico na golden age (Perez, 1989, p. 3).
Como já se viu, por trás das sucessivas revoluções tecnológicas, há mais do que a abertura de um grande leque de opções e de novas possibilidades tecnólogicas. Ocorre, também, uma revolução nas normas de funcionamento da sociedade, na ótica das organização das firmas, no processo de trabalho, na forma dos contratos que regem toda a atividade econômica e nos padrões de eficiência. Assim, períodos de mudança de paradigma manifestam-se em am- plas reformulações no aparato não só tecnológico, mas, também, econômico, social, organizacional e institucional, tornando indissociáveis as transformações econômica e tecnológica da mudança institucional.29 Esse fenômeno interliga- -se com o sistema de educação e treinamento da força de trabalho e da própria educação face às novas exigências. Todo o sistema rearticula-se, mas tal pro- cesso se realiza de forma lenta, levando décadas para se consolidar e se espa- lhar por toda a economia. Há um longo período de gestação das novas tecnologias e dos clusters de inovação, à qual se sucedem as ondas de imitação e difusão, até a consolidação do respectivo paradigma tecno-econômico.
Entretanto, como prescreve a “velha” tradição institucionalista, não é sem grandes dificuldades e resistências que se assiste à ampliação e à difusão dos novos hábitos. As próprias instituições herdadas do velho padrão tornam-se em- pecilhos às mudanças30 — aliás, não foi por outra razão que Veblen criou o conceito de imbecile institutions. A transição tecnológica realiza-se de forma lenta e difícil por exigir a formação de novas estruturas sociais, econômicas e institucionais compatíveis.31 Além disso, a constituição de um novo aparato
29 As indústrias de semicondutores e de computadores, de telecomunicações e de outros servi- ços de informação intensiva estão substituindo como motores do crescimento as indústrias automobilística, química e de petróleo, o que exige nova infra-estrutura de apoio. Assim, por exemplo, o Ford modelo T poderia andar aos solavancos nas estradas da época, mas o transporte de massa de bens e serviços exigiu infra-estrutura elétrica e rodoviária em todos as áreas, mesmo suburbanas. Da mesma forma, os computadores funcionaram com fios de cobre, mas a proliferação de múltiplos e massivos serviços, com transmissão de voz, imagem e dados na comunicação por satélite coloca a fibra ótica no centro desse processo (Perez, 1989, p. 4).
30 Mesmo depois da aplicação de novos princípios, há forças inerciais nas firmas, nas pessoas e nas instituições que frustram o “pleno emprego”, tornando difícil a propagação do paradigma.
Daí, a importância das mudanças institucionais que removem tais obstáculos (Perez, 1989, p. 5).
31 É enorme a lista de inovações institucionais necessárias à formação de um dado paradigma.
A consolidação do paradigma “energético-intensivo de produção de massa”, atualmente em fase de esgotamento, exigiu uma série de mudanças compatíveis ao intervencionismo keynesiano, caracterizadas pelas seguintes “inovações institucionais”: promoção de cres- cimento da demanda por produção de massa, políticas fiscais e monetárias compatíveis, tolerância a algum nível de déficit público, reconhecimento oficial do poder de barganha dos sindicatos, jornada de trabalho de 40 horas, rede de securidade social, crédito ao consumo, etc. (Perez, 1989, p. 5).
institucional não garante a emergência do novo paradigma, sendo necessário que cada país, região ou firma, encontre e tire proveito das “janelas de oportuni- dade”,32 que funcionam como uma espécie de substitutivo apropriado e efetivo de instituições ainda inexistentes.
O que dificulta às empresas ingressarem em uma trajetória de inovação é a acumulação de know-how e a perícia de caráter tácito — que são crescentemente de natureza privada — e o desenvolvimento de conhecimento doméstico — que é patenteado ou mantido em segredo. Tais barreiras predomi- nam na fase de crescimento do paradigma. Entretanto, uma vez superadas, possibilitam ao país, independentemente do que estiver produzindo, construir redes internas e sistemas, que lhe permitisse acumular experiências e gerar
“sinergias”, que constituem a base auto-sustentada de crescimento. Vale dizer:
elementos internos e institucionais começam a agir na consolidação de uma nova trajetória tecnológica, viabilizando novos patamares de crescimento e de inovação.
Portanto inexiste qualquer trajetória preestabelecida ou roteiro que impli- que que o ocorrido em um país se repita automaticamente em outro: as condi- ções que viabilizam um paradigma tecnológico são comumente diferentes e até inexistentes em outras realidades. Como as experiências não são facilmente repetidas em países ou regiões, as especificidades importam, porque as forma- ções históricas são diferenciadas. O esquema analítico do paradigma tecnológico, ao servir de ilustração, e não de um “roteiro para alcançar um fim”, explicita a importância das instituições na modelagem de novos patamares tecnológicos.
32 Em períodos de transição tecnológica, há um conjunto muito rico de oportunidades tecnológicas, que, se forem acompanhadas da apropriada montagem de uma estrutura institucional, pode- rão viabilizar um salto para o desenvolvimento (Perez, 1989, p. 13), mesmo que tais “janelas”
não se espalhem igualmente por todo um país. O conceito de janelas de oportunidade surge, na transição, sob duas condições: descontinuidade no progresso tecnológico e extensão da duração do período de adaptação nos países líderes (op.cit., p. 7). Assim, enquanto a primeira aponta a nova direção, a segunda aponta onde o gap anterior pode ser ultrapassado.