Os mercados asseguram às firmas padrões de comportamentos que per- mitem obter certa “ordem” face à incerteza reinante em processos de mudança.
Derivam-se daí determinadas propriedades, relacionadas à natureza do aprendi- zado e à montagem do aparelho institucional, operando ex ante em relação às operações de mercado. A viabilidade econômica e o êxito dos agentes econômicos frente a seus concorrentes são determinados, em última instância, pelos "processos" de mercado, sem qualquer garantia fornecida a priori. Daí a importância das propriedades de coordenação dos mecanismos de mercado sob “condições não-estacionárias” (Dosi, Orsenigo, 1988, p. 21). O grande de- safio teórico é explicar como as instituições, que orientam as atividades inovativas, interagem com os padrões de mudança baseados no mercado, onde tanto es- ses padrões afetam a natureza das instituições econômicas particulares quanto
14 A noção de “incerteza” implica, necessariamente, instituições, porque é necessária a “insti- tuição” de formas de comportamento (como regras, crenças e formas organizacionais) e porque há informações imperfeitas, que as exigem como organizadora de interação e de coordenação entre os agentes.
15 O termo instituição é empregado por Dosi e Orsenigo (1988, p. 19) em dois sentidos: o primeiro é mais convencional e compreende as organizações não-lucrativas ou não volta- das para o mercado, como governo, empresas públicas, universidades; o segundo é mais amplo e compreende todas as formas de organização, convenções e comportamentos estabelecidos e repetidos, que não são diretamente mediados pelo mercado.
o inverso. A formulação de tão complexo processo, cujas inovações mantenham seus aspectos predominantes, deve advir do ambiente de decisão, que envolve três características indissociáveis:
a) é evolucionário, no sentido de que as mudanças ocorrem de maneira lenta ou rápida, mas nunca por meio de processos instantâneos de seleção entre agentes heterogêneos, que competem entre si, come- tendo erros e aprendendo ao longo do tempo;
b) é irreversível, pois a estrutura histórica passada oferece opções aproveitáveis e mecanismos de seleção;
c) é auto-organizador, no sentido de que a “ordem” na evolução do siste- ma é resultante não-intencional da interação entre progresso tecnológico (inovação, aprendizagem, etc.), nível de atividade econômica (investi- mento, preços, finanças, concorrência), decisões e expectativas gover- nadas pelas instituições.
Tais características pressupõem a existência de algum tipo de “equilíbrio”, mas de caráter “evolucionário”16 (opondo-se ao equilíbrio “estático”), de forma a permitir alguma estabilidade ao sistema. Equilíbrio, nesse sentido, ressurge por conter elementos que asseguram “ordem” ao sistema, face às incertezas, como garantia às condições de estabilidade. Estas estão associadas a duas outras definições complementares: as estratégias estruturalmente estáveis e os mecanismos de seleção.
A primeira é uma noção comportamental ou subjetiva de equilíbrio evolucionário, implicando um conjunto de estratégias estruturalmente está- veis, que os agentes heterogêneos, mesmo convivendo em um ambiente não- -estacionário, continuarão a perseguir. Tal noção difere da vigente no “mundo walrasiano” dos modelos Arrow-Debreu-Hahn, em três sentidos.17 No “mundo evolucionário”, o message-space tem uma dimensão maior do que no “mundo walrasiano”, havendo, para o primeiro, a incorporação das regras de seleção e de solução de problemas, donde as decisões envolvem não apenas ajustar pre-
16 Dosi e Orsenigo (1988, p. 21) aceitam a existência e as propriedades do “equilíbrio”, mas definido em um ambiente evolucionário, conforme as características acima, que contemple
“ordem” e “propriedades de estabilidade”, sem confundi-lo com equilíbrio dos modelos standard.
17 Os autores observam (op.cit., p. 22) que as “teorias” de equilíbrio evolucionário se referem também a desenvolvimento tecnológico, tendências de mercado, regras de interação e crenças sobre o futuro tecnológico, que pressupõem algo além do mercado, como resulta- dos parcialmente endógenos de expectativas e estratégias individuais.
ços e quantidades, mas também “decidir quanto inovar ou imitar”. Isso implica regras com mais de uma “estratégia estável” ao longo do tempo, sendo impos- sível rankear qual a melhor ou a pior.
Os mecanismos de seleção operam no sistema, gerando uma seqüência de atração,18 o que permite afirmar que, dentro de um quadro institucional de determinado paradigma tecnológico, pode existir uma ou várias seqüências de
“equilíbrio evolucionário”, que asseguram estabilidade na evolução do sistema, através da manutenção de seus principais fatores de atração, que agem como
“forças” que mantêm o sistema funcionando nos respectivos moldes (Dosi, Orsenigo, p. 23). Por exemplo, o lucro de uma firma inovadora, além do permiti- do pelas “assimetrias tecnológicas”, não invalida a noção de equilíbrio, mas a reforça, uma vez que a série de attractors, definida por uma evolutionary path, é behaviour-dependent e path-dependent, funcionando como uma espécie de “centro de gravidade” do sistema. Logo, qualquer equilíbrio evolucionário implica forças que mantenham a indústria unida e forças que a mantenham em movimento, não podendo ambas ser rigorosamente separadas.
O processo pelo qual a indústria se ajusta, a partir de um excesso de lucro de inovadores, pode se realizar através de uma expansão das quantidades produ- zidas pelas outras firmas, a qual, ceteris paribus, pode provocar redução de pre- ço. Tal manifestação é designada de “ajustamento estacionário”. Porém o mesmo processo pode implicar mudança nas condições médias de produção da indús- tria, na propensão média de P&D (devido à mudança na distribuição do produto entre firmas inovadoras e imitadoras), fazendo variar o spill-over de conhecimento técnico das firmas líderes para as retardatárias, mudanças na taxa média de variação dos custos de produção e, finalmente, mudança no evolutionary attractor.
Daí se conclui que a estabilidade de uma “trajetória evolucionária” está nas condi- ções de oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade de cada paradigma tecnológico e na permanência de instituições que comandam comportamentos e formação de expectativas (ibid. p. 24). Ou seja, em um processo de transição, quando um paradigma não está consolidado, diferentes trajetórias tecnológicas são freqüentemente antecipadas por pequenos “desvios de conduta”, que, sob certas micro ou macrocondições, se amplificam, podendo se tornar dominantes.
18 A série de “equilíbrio evolucionário” é “(...) a trajetória de evolução do sistema onde: (a) o progresso técnico ocorre ao longo de uma trajetória tecnológica; (b) a distribuição de firmas se dá de acordo com suas características organizacionais e assimetrias tecnológicas; e (c) as distribuições das variáveis de performance (preços, taxas de lucro, produtividades, etc.) das firmas em uma indústria também são estáveis. Obviamente, o crescimento de steady- -state é um caso especial de trajetória evolucionária” (Dosi e Orsenigo, 1988, p. 22).
O problema da mudança e da estabilidade dinâmica relaciona-se ao processo de aprendizado, aos mecanismos de seleção e à estrutura institucional da economia. A interação entre esses fatores forma a “máquina evolucionária”
(evolutionary engine), onde as assimetrias e a diversidade entre os agentes são não apenas funcionais, mas uma resultante necessária da inovação. As- sim, reaparecem as características schumpeterianas de contínuo desequilíbrio no sistema, uma vez que ele é permanentemente dominado por um processo dinâmico de inovação, diversidade e mudança.19 Nesse sentido, a aparente im- portância da noção de equilíbrio é substituída pela noção de dinâmica na abordagem evolucionária.