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1 - A Politica da Casa Popular

Através de uma análise profunda e objetiva, que envolve o conceito de construção de habitações como benefício social, a geógrafa Hilda da Silva expõe, em seus múltiplos aspectos, a política habitacional brasileira e, em particular, sua aplicação em diferentes zonas da cidade do Rio de Janeiro.

Transcrito do Boletim Carioca de Geografia ano XXVI, 1976, editado como

homenagem póstuma à geógrafa.

A Natureza da Política Habitacional para

cipalmente por entidades bancárias de poupança, como as "Caixas Econômi- cas", ou por Fundos de Previdência de vários Institutos, destinados a atender grandes contingentes ocupacionais da população.

Em 1964 criou-se o Banco Nacional da Habitação (BNH) para atuar como agente central, normativo e consultivo do problema habitacional, bem como para gerir o Fundo Financeiro de Ha- bitação. A idéia foi extinguir definiti- vamente o caráter paternalístico medi- ante a implementação de condições ge- rais e impessoais para a obtenção de uma casa. A principal preocupação consistia em seguir uma diretriz, de tal sorte que as amortizações provenien- tes do financiamento de uma casa tor- nassem possível a construção de ou- tra. A introdução da correção monetá- ria no mercado de habitações teve por objeüvo eliminar a distorção básica an- teriormente existente. Teoricamente, o novo esquema permitiria que, com as amortizações obtidas, outras pessoas pu- dessem, igualmente, beneficiar-se. Des- de sua fundação, o BNH tem tido uma constante preocupação de aperfeiçoar o mecanismo do sistema financeiro de ha- bitação e de obter maiores recursos fi.

nanceiros a fim de enfrentar a crescen- te escassez de moradias.

Uma série de programas foi implemen- tada, a começar pela criação e instala- ção das primeiras COHAB e cooperati- vas. As COHAB são empresas habita- cionais, criadas pelos governos (nos Estados), que oferecem residências e alojamento a pessoas de renda compre- endida entre um e cinco salários míni- mos, nível este que não lhes dá condi- ções de se organizarem em cooperati- vas.

Foram, então, concedidas prioridades às famílias de baixa renda; todavia, co- mo o BNH não pôde contar com amor- 'tizações adequadas, provenientes desse grupo populacional, devido a dificul-

dades por este demonstradas na assimi- lação do sofisticado sistema financeiro e principalmente no pagamento da cor- reção monetária, tornou-se imprescin- dível a procura de novas fontes de in- vestimentos que pudessem absorver e amortizar os recursos destinados a esse grupo; o reforço financeiro iniciou-se com a participação de grupos de rendas mais elevadas, capazes de pagar maio- res 1taxas de juros - em torno de

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ou mais. Algumas pessoas de rendas mais baixas podem pagar US$ 5,00 por mês, referentes aos juros e ao princi- pal, pelo terreno da habitação, enquan- to que outras, ricas, pagam mais de US$ 750,00. Há, também, diferenças em termos de prazo para o pagamento dos empréstimos. Geralmente, aos gru- pos de menores rendas se concedem 25 anos, enquanto que alguns projetos, destinados a rendas mais elevadas, são programados para amortização total em dez anos.

Visando a um desempenho mais efici- ente em face de seu objetivo primor- dial - oferecer casas condignas aos gru- pos de menores rendas ou de renda mé- dia - o Banco tem passado por uma série de ajustamentos não só para fa.

cilitar a implantação de seus progra- mas mas também para melhorar a captação de recursos destinados à ex- pansão do sistema financeiro de habi- tação. Neste 1tocante, o fato mais im- portante ocorreu em 1966 com a cria- ção do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), cuja supervisão foi atribuída ao Banco. O FGTS consiste num depósito mensal (83 do salário recebido pelo empregado) feito pelo empregador a favor dos empregados.

Apresenta as características de um se- guro social e de desemprego, bem co- mo de uma poupança compulsória pa- ra cada trabalhador. O empregado po- de levantar seu FG TS não so quando desempregado como também na com- pra de sua casa, para cobertura de ne- cessidades sérias e prementes, tais co- mo doença, bem assim na com pra de

equipamento para se estabelecer por conta própria. Esse Fundo constitui a fonte do ativo do BNH.

Uma segunda inovação foi estabelecida com o programa de poupanças voluntá- rias e a introdução do Sistema Brasi- leiro de Poupança e Emprés<timo. Foi o meio de atrair o pequeno investidor, proporcionando-lhe a garantia de pou- panças corrigidas da inflação e capazes de renderem juros.

Expandindo-se os recursos originais, em decorrência das novas disponibilidades, outras áreas foram abrangidas, sendo os programas revisados e ampliados, co- mo o Programa Financeiro de Material de Construção, Programa Financeiro de Saneamento, seguidos posteriormen- te do Plano Nacional de Saneamento

(PLA-NASA) e do desenvolvimento da idéia de planejamento local integrado a ser implementado pelo Serviço Fede- ral de Habitação e Urbanismo ... .

(SERFHAU).

Em 1971 novas modificações alteraram a estrutura interna do BNH. Transfor- mou-se em empresà pública e, conse- quentemente, pôde contar com maior flexibilidade no desenvolvimento de seus programas. Constitui-se atualmen- te num banco de retaguarda que esta- belece as diretrizes a serem implemen- tadas por uma associação de bancos de primeira linha que operam diretamen- te com o cliente.

O problema habitacional, sobretudo o relacionado com moradias de interesse social, ainda não solucionado, mereceu a elaboração de um plano denominado Plano Nacional de Construção de Ca- sa Popular (PLANASA), cuja meta foi eliminar o "deficit" de habitações er_itre as famílias de rendas compreen- didas entre um e três salários mínimos

(no Rio de Janeiro um salário míni- mo corresponde a US$ 70,00) . Outra cogi tação desse Plano era a necessidade de se assegurar serviços públicos e in- fra-estrutura às unidades residenciais,

além de prover auxílio financeiro para a implementação de recursos comunitá- rios necessários aos conjuntos habita- cionais. A fim de atingir os objetivos quanto a essa complementação, criou- se o Projeto CURA, cuja principal finalidade consiste em integrar a exe- cução da infra-estrutura urbana e dos recursos comunitários, de modo a apro- veitar a capacidade total dos investi- mentos urbanos.

Todos esses novos programas e ajusta- mentos visaram, na realidade, a cor- rigir as distorções que estavam sendo observadas na política habitacional: o PLANAP foi realmente um indicador de que uma parte da população não estava sendo satisfatoriamente conside- rada; outra distorção a sanar seria a referente à necessidade de sustar o au- xílio financeiro para construções desti- nadas a adquirentes com alta r,4nda,

cujos exemplos se acham nas áreas "no-

E

bres" do Leblon e de Ipanema. Dessa

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forma, os objetivos do Banco se amplia- · · ram, envolvendo também a promoção do desenvolvimento urbano. Sua atua- ção foi igualmente sentida no contexto da política que orienta o desenvolvi- mento econômico do País: sua contri- buição na formação do hábito de pou- pança financeira, principalmente entre o povo; por outro lado, promoveu a

r~a~ivação da indústria da construção ovil - o melhor absorvedor de mão-de- obra não .qualificada - aumentando, neste particular, a oferta de empregos.

Apesar de todos os esforços, até o pre- sente, a experiência do Rio de Janeiro tem demonstrado que algo não está funcionando, o que se pode notar pe- la presença de um considerável número de construtores que não estão em con- dições de saldar seus compromissos mensais, a existência de uma grande quantidade de conjuntos com aparta- mentos vagos (são chamados "conjun- tos-problemas'', com 203 ou mais de unidades que não foram vendidas) e, por outro lado, o verdadeiro clima de Boi. Geogr. Rio de Janeiro, 34(250): 37-45, jul./set., 1976

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especulação resul1tante do auxílio fi- nanceiro concedido para construções destinadas a adquirentes de alto nível de renda.

Como fatores positivos, resultou que, atualmente, o BNH encara o problema habitacional muito mais em termos de

"habitat" do que, apenas, como de construção de habitações, e que cha- mou a si a responsabilidade e a com- petência para definir a política de de- senvolvimento urbano do País.

li - A Mudança na Fisionomia