O neoliberalismo fundamenta-se na idéia de desigualdade natural entre os homens. Essa desigualdade se manifesta mesmo entre irmãos, que se diferen- ciam tanto em suas características físicas quanto mentais e, sobretudo, na “(...) inata desigualdade dos homens com relação à capacidade de realizar diversos tipos de trabalho” (Xavier, 1996, p. 111). Para os clássicos do pensamento neoliberal, Mises e Hayek, “Nada hay que descanse sobre un fundamento mas débil que la afirmación de la supuesta igualdad de todo lo que tiene forma huma- na” (Mises) e “(...) las desigualdades sociales son inevitables, puesto que expresan las diferentes capacidades de adaptación de los individuos a las leyes del mercado y las cambiantes condiciones históricas” (Hayek, apud Lopez,1988).
As conseqüências desses pressupostos para a formulação democrática são funestas, como se verá adiante. Hobbes e Locke, em suas concepções origi- nais, também não davam lugar à idéia democrática. Nesse sentido, pode-se afirmar que o neoliberalismo significa um retorno às origens, nesse caso, de cunho marcadamente reacionário (Lopez, 1988), e, sobretudo nas últimas déca- das, fornece várias das justificativas teóricas para o movimento neoconservador internacional, que tem sua origem e liderança nos Estados Unidos (Borón, 1981) e na Grã-Bretanha, como analisaremos no próximo capítulo.
Para entender as postulações dos neoliberais, faz-se necessário um retor- no aos clássicos fundadores do liberalismo: Hobbes e Locke. “O liberalismo é entendido nessa doutrina como um corpo teórico que tem seu fundamento no individualismo possessivo, cuja noção fundamental é a de que o homem se relaciona com a realidade através da propriedade de si mesmo e de seus bens.”
(Lopez, 1988). Essa idéia foi amplamente desenvolvida por MacPherson em sua obra clássica A Teoria Política do Individualismo Possessivo, onde trata de esclarecer as dificuldades do pensamento liberal democrático:
“O presente estudo é uma tentativa de fazer isso. Ele propõe que as dificuldades da moderna teoria liberal-democrática são mais profundas do que se havia pensado antes: que o individualismo oriundo do século XVII continha a dificuldade central, residindo esta na sua qualidade possessiva. Sua qualidade possessiva se encontra na sua concepção do indivíduo como sendo essencialmente proprietário de sua própria pessoa e de suas próprias capacidades, nada devendo à sociedade por elas. O indivíduo não era visto nem como um todo moral, nem como parte de um todo social mais amplo, mas como proprietário de si mesmo. A relação de propriedade, havendo-se tornado para um número cada vez maior de pessoas a relação fundamentalmente importante, que lhes determinava a liberdade real e a perspectiva real de realizarem suas plenas potencialidades, era vista na natureza do indivíduo. Achava-se que o indivíduo é livre na medida em que é proprietário de sua pessoa e de suas capacidades. A essência humana é ser livre da dependência das vontades alheias, e a liberdade existe como exercício da posse. A sociedade torna-se uma porção de indivíduos livres e iguais, relacionados entre si como proprietários de suas próprias capacidades e do que adquiriram mediante a prática dessas capacidades. A sociedade consiste nas relações de troca entre proprietários. A sociedade política torna-se um artifício calculado para a proteção dessa propriedade e para a manutenção de um ordeiro relacionamento de trocas” (MacPherson, 1979, p. 15).
Dessa forma, todo o raciocínio neoliberal gira em torno de uma percepção individualista e atomística da sociedade, identificada com as condições do mer- cado capitalista, às quais todos os homens se subordinam (Lopez, 1988). O fundamental no mercado, para os neoliberais, é a liberdade econômica e não a igualdade política.
O problema para os neoliberais (e conservadores em geral) é que os povos apresentam uma tendência histórica a reivindicar maior participação, em espe- cial a intensificar suas demandas por “(...) una creciente e insaciable igualdad, no solo legal y politica, es decir de oportunidades, sino igualdad de condición
económica y social” (Borón, 1981, p. 45). Tocqueville — um teórico liberal que encontra grande repercussão entre os liberais brasileiros —, em seu tratado A Democracia na América, de 1835, já havia denunciado a luta pela igualdade como uma luta que avança entre as ruínas que ela mesmo cria através dos séculos e que, ainda que os povos democráticos possuam uma predileção natu- ral pela liberdade, “(...) tem pela igualdade uma paixão ardente, insaciável, eter- na, invencível; desejam a igualdade dentro da liberdade, e, se não a podem obter, ainda a desejam na escravidão. Suportarão a pobreza, a servidão, a barbárie, mas não suportarão a aristocracia” (Tocqueville, 1987, p. 385).
Assim, entre os dois princípios que estruturam o pensamento de Tocqueville — liberdade e igualdade —, o neoliberalismo opta claramente pela li- berdade. A liberdade de que se fala não é política, já que, dentro do conceito neoliberal, a liberdade individual não tem como pressuposto a liberdade política (Lopez, 1988). “Un pueblo de hombres libres no es necesariamente un pueblo libre.” (Hayek, 1965). O neoliberalismo fundamenta a concepção de liberdade negativa considerando-a um atributo estritamente individual, sem dimensões sociais, e como uma situação que obriga o indivíduo a assumir todos os riscos da condução de sua própria vida de forma individual e independente. “Es indudable que ser libre puede significar libertad para morir de hambre.” (Hayek, 1965). Em sua autobiografia, o Filósofo e ex-socialista Karl Popper também manifestou claramente sua preferência pela liberdade:
“(...) if there could be such a thing as socialism combined with individual liberty, I would be a socialist still. For nothing could be better than living a modest, simple, and free life in an egualitarian society. It took some time before I recognised this as no more than a beautiful dream;
that freeedom is more important than equality; that the attempt to realise equality endangers freedom; and that, if freedom is lost, there will not even be equality among the unfree” (Popper apud Cockett, 1995, p. 7).
A ênfase que os neoliberais colocam no conceito de liberdade em detri- mento do de igualdade revela o darwinismo social implícito na concepção neoliberal. Afinal, no momento em que a questão da igualdade é tratada como uma questão menor, desconsideram-se todas as lutas sociais e as vitórias his- tóricas dos povos por igualdade de direitos, e abre-se caminho para a exaltação da grandeza do mais forte, e, inclusive, para a idéia de revitalização da socieda- de através do sofrimento e da eliminação dos fracos (Lopez, 1988).