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crença de que todas as não virtudes são decorrentes somente de influências do meio externo que convive, com exemplos da televisão, do ambiente familiar e da sociedade em geral.

Sendo assim e diante as manifestações sexuais de crianças no ambiente escolar, as profissionais da educação se utilizam de ações punitivas, bem como a repressão sem funcionalidade, a exposição frente às demais crianças, o desviar para outra atividade, o ignorar e o encaminhamento para terceiros, como os pais, a diretora e a psicóloga da escola; o que representa uma tentativa idealista – apesar de infundada e irrealista – de que comportamentos sexuais não estejam presentes no cotidiano da escola.

Concepções de que a sexualidade nas crianças é derivada de fatores puramente biológicos e naturalistas também estão presentes no questionário, nos discursos e nas atividades realizadas e a imagem socialmente construída pauta-se assim na ideia de que o desenvolvimento infantil segue uma sequencia de estágios hierárquicos e a criança é considerada um ser incompleto.

Diante disso tudo, é notório que os prazeres e desejos psicológicos e emocionais frente às excitações corporais na infância não estejam presentes entre as concepções apresentadas durante todo o tempo do projeto de intervenção em formação continuada. A ausência de percepções desta natureza, além de não propiciar o desenvolvimento integral do educando, favorece futuros transtornos psíquicos e prejuízos na socialização e aprendizagem – aspectos estes essenciais na dinâmica escolar.

Em contrapartida, as profissionais da educação declaram acreditar na possibilidade e viabilidade de educar uma criança para a sexualidade e que o abordar este tema se faz necessário para a prática docente. Porém, ao conceber a ausência de sexualidade em crianças muito pequenas, ou até mesmo de que a sexualidade provém de influências externas, os discursos, atividades e comportamentos não verbais expressam que a efetividade desta educação sexual se faz plausível frente às manifestações sexuais das crianças com explicitude.

Com isso, o questionamento caminha para as etapas iniciais da Educação Infantil, em que os comportamentos sexuais não se mostram – salvo em determinadas condições específicas – de maneira explícita. Ou seja, para as participantes desta pesquisa, a educação sexual parece mostrar-se necessária e importante somente nas etapas da Pré-Escola, a qual contempla as idades de 4 a 5 anos e 11 meses e abrange, para utilizar a terminologia psicanalítica, a fase fálica. É fato que nesta fase as curiosidades genitais mostram-se descortinadas e menos veladas, as quais, além dos comportamentos manifestos, a já capacidade de expressar-se verbalmente, parece não permitir interpretações de outra ordem.

No entanto, é indiscutível a relevância de poder oferecer orientações, direcionamentos e acolhimentos desde o início da escolarização, já nos berçários e maternais, os quais abrangem as

fases psicossexuais da oralidade e analidade. Além destes devidos ensinamentos, a proximidade afetiva que se constrói com estas refinadas percepções, é extremamente valioso para o desenvolvimento, não só psíquico, mas como um todo das crianças.

Além disso, na certeza de que o convívio em sociedade e as relações humanas requerem que os instintos mais primitivos – como os sexuais e agressivos – sofram a repressão necessária e inevitável ao desenvolvimento de qualquer ser humano, é preciso que o acolhimento frente às angústias geradas e decorrentes desta repressão seja sempre ofertado no ambiente escolar. A disponibilidade em explicar com funcionalidade as expressões sexuais das crianças é capaz de representar muito bem este aspecto e está presente, ainda que em uma pequena parcela, nas educadoras participantes desta pesquisa. Atitudes estas que merecem ser reforçadas e a oportunidade de realizar o projeto de intervenção em formação continuada de forma grupal favorece e beneficia a troca de experiência entre as professoras, na esperança de despertar novos olhares diante este tema tão polêmico e delicado.

Outrossim, a importância de debater e discutir sobre a sexualidade das crianças com o corpo docente contribui e fortalece para refletir sobre a função da escola, uma vez que as instituições escolares são responsáveis muito mais do que mera transmissão de conhecimentos científicos.

Ainda que haja alguns discursos e manifestações neste sentido entre as professoras pesquisadas, compreender a função da escola de maneira mais ampla e global colabora igualmente com a concepção da criança como um ser integral, em que a escola sustenta a responsabilidade em contribuir com o desenvolvimento, não só da intelectualidade, mas também das dimensões psicológicas, físicas, culturais e sociais.

O pedido explícito e manifesto por mais encontros e/ou demais formações continuadas exprimem o valor e a importância que as educadoras desta rede municipal de ensino depositaram no aprofundamento científico dos aspectos sexuais na infância e sua relevância no cotidiano escolar.

Pedidos estes que nos reforçam e nos asseguram acerca do caminho percorrido durante a formação continuada, a qual não se propõe o combate diretivo às participantes e sim a oferta dos conhecimentos científicos necessários, juntamente com a aplicabilidade dos conceitos na rotina escolar. Ademais, a verbalização de determinadas professoras que as ações realizadas para com as manifestações sexuais das crianças que não contribuem para o desenvolvimento saudável na infância, nos enchem de esperança e a certeza de estarmos contribuindo para a construção de um mundo mais humano e afetivo.

Sabemos porém que isto não garante a aplicabilidade no cotidiano escolar, já que os processos psíquicos e a perpetuação histórica e cultural são impeditivos para que as transformações ocorram de forma imediata. Assim, a proposta de novos e futuros estudos acerca do impacto que

esta pesquisa pôde provocar nesta rede municipal de ensino nos impulsiona e nos move, rumo à mais aprofundamentos e estreitamento das relações humanas e afetivas, na certeza de que todo este investimento no corpo docente encontrará reflexos nas nossas crianças!

Estamos igualmente seguras de que reconhecer a sexualidade em crianças, bem como as manifestações sexuais naturais e esperadas para faixa etária também encontrará reflexos frutíferos para o desenvolvimento das crianças com um todo. Os necessários conhecimentos sexuais para cada faixa etária servem para direcionar e nortear as ações na prática pedagógica e a criação do quadro normativo presente nesta pesquisa pode contribuir neste sentido, ainda que seja preciso ampliar e descrever melhor os comportamentos sexuais, já que este quadro teve outro objetivo nesta pesquisa.

Com isso, a ilusão reside ao pensar que a ampliação futura deste quadro possa, conjuntamente, alertar para uma triste realidade que se apresenta na nossa sociedade e que a escola representa uma importante aliada: os possíveis riscos e indícios de abuso sexual. Desta forma, parece incalculável o conhecimento acerca dos comportamentos sexuais na infância, os quais alcançam dimensões que talvez a olhos nus não conseguimos enxergar!

É claro que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas esperamos que todos os nossos esforços realizados durante os encontros do projeto de intervenção em formação continuada possam, dentre os demais objetivos propostos, ter respondido o título desta pesquisa. Afinal, os anjos têm sexo? Na ideia de ser sucinta, clara e mais direta possível: Sim, os anjos têm sexo!! É urgente e imprescindível que as profissionais da educação possam compreender – assentado sob a luz da ciência e contrapondo o que o senso comum insiste em pulverizar – que a infância não é o período da vida caracterizado pela ausência de sexualidade e as crianças são dotadas de aspectos sexuais desde o nascimento.

Façamos votos de que as formações continuadas possam persistir e que assim encontremos espaços e aberturas para novos e futuros projetos, na certeza de que a sexualidade e suas consequentes relações afetivas, apesar de conflituosas, nos fazem sempre crescer e florescer como seres humanos.

As nossas crianças também agradecem!

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