4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.3 O 3° encontro: “Desenvolvimento Infantil e Noções Básicas de Sexualidade”
4.5.4 O Quadro normativo, as respostas e seus apontamentos
É fato que ainda há uma longa jornada a ser percorrida para que todas as professoras possam conceber as demais manifestações da sexualidade na infância, mas acreditamos que já podemos considerar alguns enormes ganhos.
Após a realização da atividade foram apresentadas, quantitativamente, as respostas fornecidas pelas professoras no questionário no que se refere ao Quadro normativo (ver Apêndice F), as quais estão expostas a seguir, em conjunto com as discussões e análises decorrentes. É importante dizer que as docentes não esboçaram nenhuma expressão verbal e não foi observada nenhuma modificação facial.
escola?” e “é pra dizer o que a criança faz se não for orientada?” (sic) foram feitas durante a aplicação do questionário. Vale dizer que, como as dúvidas a esta questão foram, de certa forma recorrente, tivemos o cuidado de explicar a função e o objetivo deste tópico a todas as professoras presentes neste dia. Assim, com o objetivo de coletar dados sobre a percepção das mesmas acerca do desenvolvimento infantil e suas manifestações sexuais adequadas e esperadas para cada faixa etária da infância, a não compreensão é um fator a ser considerado neste momento. Com isso, optamos por abordar este tema no terceiro encontro e discutimos sobre as noções básicas de desenvolvimento humano. É claro que, mais uma vez, a generalização não se encaixa à todas as professoras, o que nos permite poder discutir sobre as respostas fornecidas.
Ao observarmos as respostas dos comportamentos descritos para as crianças de 2 anos de idade, é possível dizer que, para a grande maioria, é adequado uma criança tentar tocar no seio, clamar por contato físico constante, brincar com brinquedos do sexo oposto e requerer a chupeta e o
“paninho” sempre.Em contrapartida não é adequado para uma boa parcela destas docentes, beijar outra criança na boca. Isto nos faz pensar que, ao elaborarmos este Quadro, as manifestações comportamentais retratadas para esta idade, realmente não apresentam conotações sexuais muito explícitas, o que, muito provavelmente possibilitou assinalarem a alternativa como adequado. Desta forma, tudo o que foge a estas explicitudes sexuais, lhes soam mais confortáveis psiquicamente, sem menções às ansiedades, tensões e conflitos internos que suscitem os mecanismos de defesa que confrontam suas concepções intrínsecas. O mesmo acontece com a alternativa assinalada como inadequado, ainda que inversamente. Uma criança pequena beijar outra criança na boca certamente é um comportamento com uma conotação sexual mais explícita, o que é considerado pelas docentes como inadequado. Mais uma vez, estamos diante de concepções acerca da sexualidade como genital e, tudo que remete a este conteúdo em crianças pequenas parece assustar-lhes – sentimento este confirmado com as atividades anteriormente descritas sobre suas condutas frente às manifestações sexuais das crianças no ambiente escolar.
Com as crianças de 3 anos de idade, apesar do caminho de conceber a sexualidade infantil estritamente genital permanecer intacta, é interessante refletir que a curiosidade sexual destas crianças já parecem ser mais aceitáveis. Curiosidade esta que são aceitáveis, por estas educadoras, as tentativas de olhar as outras crianças nuas ou o que existe em baixo das roupas, mas as explorações dos órgãos genitais não são consideradas adequadas. Ora, será que para que estas docentes, o aprendizado se dá somente pela imitação e pela cópia do que as crianças observam? Será que elas não consideram como importante a exploração do ambiente e do próprio corpo? É claro que na Educação Infantil está posto a importância da exploração do meio externo e as brincadeiras com tinta, cola e o poder sujar-se são
exemplos disto. E então, porque as explorações sexuais não seguem esta mesma direção? Explorar é ver, tocar, manusear e isto se aplica igualmente nas explorações sexuais.
E o que dizer com as crianças de 4 anos de idade? Para esta faixa etária, é certo que as descrições dos comportamentos apresentam uma conotação sexual muito mais gritante e estão retratados de maneira muito mais explícitos, o que seguramente contribuiu para que todos fossem considerados, pela grande maioria das docentes, como inadequados. Contudo, podemos assegurar que tais manifestações estão presentes no cotidiano da escola e que certamente a vivacidade do movimento puritano que se arrasta até os dias atuais, que desemboca nas concepções de crianças inocentes, conjuntamente com a dificuldade em lidar com a própria sexualidade na infância são impeditivos de conceber as explorações e a curiosidade genital como parte do desenvolvimento sexual natural e esperado nas crianças. A genitalidade como concepção de sexualidade infantil se confirma e as reflexões caminham no mesmo sentido das necessárias explorações do meio externo e do próprio corpo. Idade esta em que o que lhe é privado ou público – característica do modelo familiar contemporâneo – está em plena construção e que necessita ser orientado e direcionado.
É obvio que estas orientações e direcionamentos são imprescindíveis em qualquer faixa etária – e qualquer etapa de ensino – e que a possibilidade da expressão sexual em ambiente privado esperado para os 5 anos de idade é decorrente de tais condutas dos adultos para com as crianças. Novamente, para esta faixa etária, aquilo que é expresso e possível ver a olhos nus acerca da sexualidade explícita é entendido como inadequado, ainda que a curiosidade já seja concebida como adequada e esperada.
Assim, diante dos dados coletados neste Quadro e das demais atividades e condições que nos permite dizer que a concepção relacionada estritamente à genitalidade, optamos por descrever as fases psicossexuais postuladas por Freud (1905/2016) e que a presença de uma sexualidade expressa de forma muito mais precoce, segundo Klein (1926/1981),bem como a condição da criança como um ser desejante e a atividade como auto-erótica não ser mencionada nem abordada neste projeto de intervenção em formação continuada. Não que isto não mereça um destaque e que não seja importante, mesmo porque foi exatamente esta postulação científica que fez com que Sigmund Freud pudesse desenvolver sua teoria acerca da sexualidade infantil, mas acreditamos que este não é um momento adequado para tal, uma vez que corremos o risco de fortalecer e enrijecer os mecanismos de defesa e a negação, a projeção e a resistência desempenhem então um papel neste contexto que impeça tal compreensão. Com isso, na certeza de que a modificação – tanto histórica quanto psíquica – se dá por movimentos lentos e não no combate diretivo (Freud, 1910/2016), além da condição grupal daquilo que se é possível pensar e conceber no atual momento, façamos força para que tais formações continuada perpetuem e que, quem sabe um dia, possamos abordar este tema que seria de fundamental relevância, tanto para a prática profissional, quanto para a condição emocional das crianças.
Em seguida, com a proposta de discutir a prática profissional com o tema da sexualidade infantil, foram apresentados os três casos caracterizados no questionário (ver Apêndice E). Como pode ser observado nos slides, a estratégia seria uma atividade grupal com a socialização posterior; porém, com o adiantar da hora, os casos foram sendo discutidos e refletidos verbalmente conosco e, é claro, compartilhado com todos.
É importante dizer que, durante a reflexão e discussão dos casos, não foi observada nenhuma dispersão, nem risadas, nem conversas paralelas. Podemos afirmar que as professoras estavam com os olhos fixados no telão e/ou em nós, em que contamos com a participação ativa de algumas delas. A leitura das contribuições das docentes está disposta abaixo: