2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.5 A Escola como Instituição e a Subjetividade nas Relações dos Grupos
Ao pensarmos na instituição escolar nos depararmos com uma grande diversidade de pessoas – alunos, professores e funcionários que ali trabalham – e que logicamente se relacionam entre si. Desta forma e no intuito de promover a formação global das crianças – assim como prevê a Constituição Federal (Brasil, 1988) em suas dimensões intelectuais, físicas, sociais, culturais e psicológicas – além dos conhecimentos necessários, é claro que o estabelecimento de uma boa relação desta tríade é imprescindível neste contexto.
Neste sentido, é exatamente sobre a cultura escolar e as relações que ali se formam, assim como nos esclarece Bleger (1992), que se assenta a função do psicólogo escolar. Assim, ainda segundo o referido autor, a ideia é proporcionar aquilo que denominou como „psico-higiene‟, para a qual descreve que:
O grande passo em psico-higiene consiste nisto: em não esperar que a pessoa doente venha consultar e sim sair a tratar e intervir nos processos psicológicos que gravitam e afetam a estrutura da personalidade e – portanto – as relações entre os seres humanos (p. 27).
Sendo assim, na premissa de administrar os conhecimentos, técnicas e recursos da psicologia e na proposição de conceber os aspectos emocionais como sociais, o objetivo institucional não se refere somente à doença e sua profilaxia, mas também à promoção de saúde da população. Desta forma, é necessária a transposição dos enfoques individuais rumo à coletividade (Bleger, 1992).
Com isso e frente à possibilidade de desempenhar esta função dentro das instituições escolares, é preciso refletir, fundamentalmente, sobre a instituição e os grupos. Bleger (1992) pontua que a instituição deve ser compreendida em sua totalidade e descreve que a psicologia institucional:
[...] não se trata só de um campo de aplicação da psicologia, mas sim, fundamentalmente, de um campo de investigação; não há possibilidade de nenhuma tarefa profissional correta em psicologia se não é, ao mesmo tempo, uma investigação do que está ocorrendo e do que está fazendo. A prática não é uma derivação subalterna da ciência, mas sim seu núcleo ou centro vital; e a investigação científica não tem lugar acima ou fora da prática, mas sim dentro do curso da mesma (p. 32).
Assim, no desenvolvimento e cumprimento das nossas funções dentro das instituições, Bleger (1995) alerta que a objetividade e a tentativa de neutralidade são esforços em vão em qualquer campo científico, principalmente em psicologia, já que o objeto de estudo é o próprio ser humano. A máxima objetividade, continua o autor, “[...] só pode ser alcançada quando se incorpora o sujeito observador como uma das variáveis do campo” (p. 19).A este fenômeno, Bleger (1995), nomeou como observação participante e com isso deixa claro que todo e qualquer comportamento tramita sempre nas relações e vínculos humanos, o que faz com que cada situação seja singular e exclusiva.
É importante mencionar ainda, que a observação realizada dentro das instituições nos permite dizer sobre os conteúdos manifestos e os conteúdos latentes. Por conteúdos manifestos, de acordo com Laplanche e Pontalis (2004), entendem-se aqueles conteúdos que são expressos verbalmente de maneira clara e explícita, enquanto os conteúdos latentes são produções do inconsciente e que, por distintas razões psicológicas, sofrem transformações e se manifestam de forma distorcida. Com isso, Bleger (1992) esclarece que, muito mais do que poder investigar e agir nos conteúdos manifestos existentes dentre das instituições, é preciso estar atento aos objetivos e conteúdos latentes, os quais, pelo mero fato da existência de seres humanos, a existência da mediação se faz necessária no cotidiano escolar. E ainda mais se consideramos o tema central deste estudo – a sexualidade infantil – que por si só carrega muitos tabus, preconceitos e conceitos errôneos!
Desta maneira e na certeza de que a instituição escolar faz parte da vida das crianças, é preciso cuidar e nos debruçar nas relações estabelecidas neste contexto e aqui destacamos a relação professor-aluno. O comprometimento parece ficar muito maior ao considerarmos que, conforme Bleger (1992) “o ser humano encontra nas distintas instituições um suporte e um apoio, um elemento de segurança e de pertença. A partir do ponto de vista psicológico, a instituição forma parte de sua [da criança] personalidade” (p. 55).
É fato que, na proposta de alcançar os objetivos deste trabalho, o tema da sexualidade infantil será abordado de maneira grupal – como será descrito na sessão seguinte: o método. Para tanto, transcorrer sobre a dinâmica grupal e suas características se faz importante neste contexto.
2.5.1 A Dinâmica Grupal e suas Relações
O conhecimento sobre o funcionamento e os fenômenos que ocorrem nas relações de grupo nos oportuniza a compreensão desta dinâmica que se caracteriza por particularidades específicas, as quais devem e merecem uma atenção especial.
A relevância dos estudos acerca dos grupos se dá, segundo Zimerman (2007), pela necessária formação da inter-relação que o ser humano realiza, em seus distintos grupos, desde o seu nascimento. Ainda que frente à constituição psíquica, ao retomarmos Melanie Klein – à qual o autor citado acima cita que o desenvolvimento de sua teoria sobre os grupos apresenta uma base kleiniana - a autora descreve a premissa de que as crianças se desenvolvem sempre nas relações e interações humanas.
A inserção humana nos pequenos grupos, continua Zimerman (2007), é inevitável, pois o indivíduo passa a maior parte do tempo de sua convivência. O princípio desta formação grupal se inicia naturalmente pelas figuras parentais e aos poucos se amplia para outros novos grupos sociais, tais como avós, tios, primos, escola e futuramente grupos esportivos, associativos, profissionais, constituição de novas famílias, entre outros. Com isso, para o autor, há sempre uma busca dialética entre a identidade individual e a identidade grupal e social.
A existência de um grupo prevê, entre outras características e conforme Zimerman (2007), que todos os integrantes devem compartilhar da mesma função e objetivo; determinada quantidade de pessoas que garanta a comunicação visual, auditiva e conceitual; cumprimento dos combinados iniciais e o enquadre, bem como a preservação do espaço, de tempo e outras variáveis que normatiza e delimita a atividade no grupo como um todo. Além disso, um grupo não é uma mera somatória de indivíduos, o qual se comporta como uma totalidade e esta totalidade se comporta como um indivíduo, com uma identidade, leis e mecanismos próprios.
Assim, a formação grupal, na ideia de que este se comporta como um indivíduo em sua totalidade, mobiliza toda uma gama de sentimentos e emoções e que segundo Zimerman (2000)
“[...] se entrecruzam necessidades, desejos, ataques, medos, culpas, defesas, papéis, identificações, movimentos resistenciais, transferências e contra-transferências, etc.” (p. 117).
Com isso, fica claro que as condições humanas e psíquicas são extremamente importantes ao refletirmos sobre a constituição de um grupo. Neste sentido, Bleger (1995) pontua que:
Embora o grupo esteja concretamente aplicado a uma tarefa, o fator humano tem importância primordial, já que constitui o „instrumento de todos os instrumentos‟. Não existe nenhum instrumento que funcione sem o ser humano. Opomo-nos à velha ilusão, tão difundida, de que uma tarefa é melhor realizada quando são excluídos os chamados fatores subjetivos e ela é considerada apenas „objetivamente‟; pelo contrário, afirmamos e garantimos, na prática, que o mais alto grau de eficiência em uma tarefa é obtido quando se incorpora sistematicamente à mesma o ser humano total (pp. 55-56).
Desta maneira, devemos aqui considerar o fato de que também somos parte integrante deste processo como um todo e que certamente carregamos conosco toda uma gama de emoções e sentimentos próprios da natureza humana. Ademais, ao examinar a existência das emoções e sentimentos, estamos cientes que o tema da sexualidade infantil, por si só, suscita discussões fervorosas, carregadas de tabus, preconceitos e conceitos construídos erroneamente através do tempo histórico. Além disso, outro ponto a ser apreciado e que Bleger (1995) alerta, se refere à importância de dissociarmos a velha e tradicional proposição de ensino tradicional, na qual uma pessoa ensina e as demais aprendem. Para tanto, o autor descreve que este abandono, rumo às novas mudanças, produzem necessariamente altos níveis de ansiedade, o que contribui para a perpetuação e repetição do antigo, a fim de evitar a ansiedade. Porém, Bleger (1995) afirma que “[...] o preço desta segurança e tranqüilidade é o bloqueio do ensino e da aprendizagem, e a transformação destes instrumentos no oposto daquilo que devem ser: um meio de alienação do ser humano” (p. 57).
E aqui entra então uma breve descrição do conceito de mecanismos de defesa, o qual foi inaugurado por Freud (1926/2016) e que se constitui em operações e mecanismos mentais que apresentam a finalidade de proteger e reduzir a mente de angústias, tensões e sofrimentos psíquicos internos. Assim, na certeza de que os mecanismos de defesa são condições da natureza humana, Zimerman (2000) também os descreve como uma das características do campo grupal, os quais podem funcionar, tanto como estruturantes, quanto serem responsáveis por distorções psíquicas, na dependência do uso que se faz.