Os líderes mundiais sociais são Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Canadá, que têm muitas e muitas coisas em comum, inclusive duas que são lições para o resto do mundo: eles são fortes e competitivos na economia e investem pesadamente em educação, saúde, igualdade e bem-estar da população.
Na outra ponta, poderíamos apontar a África, mas vamos ficar por aqui mesmo, na América Latina. Os países, mesmo os que têm melhores índices, patinam na economia e afundam numa dramática situação social. Cálculos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, nos informam – e horrorizam! – que 44% da população do continente vive em estado de miséria. O que significa algo como 60 milhões de crianças e adolescentes vivendo precariamente. Um mundo dentro do mundo. Um mundo miserável, parado no tempo.
A comparação entre os nórdicos (mais Canadá) e os latino- americanos é feita aqui com um intuito: reforçar o que experts
internacionais estão roucos de tanto repetir, mas nem sempre são ouvidos: não há desenvolvimento econômico sem desenvolvimento dos cidadãos. Sem educação, por exemplo. É como girar em torno do nada, para nada. As pessoas não crescem;
os países também não.
Ao contrário da discussão inócua e estéril sobre “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, esta é uma discussão de resposta muito clara, evidente, quase óbvia. Mas nem por isso de fato levada em conta pelos governantes e pelas elites dos países menos desenvolvidos. No Brasil, por exemplo.
Justiça se faça: a importância e os investi- mentos em educação vêm melhorando ao longo do tempo e, hoje, a própria Constituição Federal (artigo 212) estabelece um limite mínimo para o setor: 18% de toda a arrecadação de impostos da União e 25% da de Estados e de Municípios, incluindo o Distrito Federal.
É muito. Mas é pouco. É muito porque configura um esforço correspondente a milhões de dólares/ano para tentar manter todas as crianças e parte significativa dos adolescentes e jovens na escola. Mas ainda é muito pouco, porque as escolas são ruins, os professores são mal remunerados, mal treinados, muito pouco estimulados. As crianças estão maciçamente nas salas de aula, mas aprendem exatamente o quê? E os adolescentes e jovens?
“A educação, pois, se transformou em mais um instrumento para aprofundar o grave, dramático e vergonhoso gap social brasileiro. Há uma velha expressão que
apregoa: “Quem pode pode, quem não pode se sacode”. Os filhos da pobreza se sacodem como podem em escolas precárias
e que pouco podem fazer por seu futuro.”
A essas dúvidas, a sociedade respondeu ao longo do tempo se defendendo como pôde: enquanto a grande massa de pobres ou miseráveis levava seus filhos à escola para saber assinar o nome e fazer as contas básicas da aritmética – ou “tabuada” –, a elite, primeiro, e a classe média, depois, reunindo energias e trocados, puseram seus filhos em escolas particulares.
A educação, pois, se transformou em mais um instrumento para aprofundar o grave, dramático e vergonhoso gap social brasileiro. Há uma velha expressão que apregoa: “Quem pode pode, quem não pode se sacode”. Os filhos da pobreza se sacodem como podem em escolas precárias e que pouco podem fazer por seu futuro.
E, se não podem garantir o futuro deles, que futuro garantirão ao país?
Como o mundo gira, saímos novamente do Brasil e voltamos à América Latina, onde encontramos situações bastante razoáveis de direitos humanos e de conquistas sociais na Costa Rica. Ali não há petróleo, como no Brasil e na Venezuela, não há Forças Armadas, como em toda a América do Sul, não há ortodoxia econômica como sinônimo de cumprir metas internacionais e relegar as metas nacionais. E, assim, a pequena Costa Rica, tão bela entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, é um exemplo de distribuição de renda mais justa e de bons índices sociais.
A lembrança, aliás, é do sociólogo e economista Bernardo Kliksberg, diretor da Iniciativa de Capital Social, Ética e Desenvolvimento do BID, para quem, sem justiça social e sem parceria do Estado com igrejas, empresas e todos os atores
sociais, inclusive a imprensa, não há desenvolvimento. As vítimas são os cidadãos, principalmente os mais excluídos.
Em nosso continente, houve enormes problemas de qualidade no debate sobre o desenvolvimento. Um dos mais graves foi a falta de associação da ética com a economia. Não se cuidou do valor moral e ético da conduta econômica. Na base disso tudo está a desigualdade, um problema econômico que exige um debate e uma visão ética, disse ele em entrevista à Folha Online, durante viagem ao Brasil e à Argentina, no final de 2003.
Por que Costa Rica e Uruguai têm menos desigualdade? Porque Costa Rica tem um projeto histórico, desde 1948, de investir muito fortemente nas pessoas. É um país pobre, sem muitos recursos naturais, sem petróleo, mas que investe tudo o que pode em gente, em educação e saúde. Ou seja, que mobiliza seu capital para o desenvolvimento humano. No Uruguai, há políticas públicas muito ativas voltadas para as pessoas, com uma sociedade civil muito mobilizada,
acrescenta.
Quando se discute tanto as PPPs (as Parcerias Público- Privadas que o presidente Luiz Ignácio Lula da Silva espera aprovar ainda em 2004 no Congresso), aí vai mais uma fala de Kliksberg:
As empresas têm que assumir cada vez mais suas responsabilidades sociais. E as empresas que não poluem, que empregam mais gente, que especializam seus empregados e respeitam seus consumidores têm que ter um tratamento diferenciado do Estado. Delas dependem muito os investimentos internacionais num país, e eles são cada vez mais reduzidos e disputados.
Isso é também Educação.
O neoliberalismo tenta ressuscitar, daqui e dali, a tese de
“primeiro crescer o bolo para depois dividir”. Kliksberg dá um pulo e ensina justamente o contrário: os países mais desenvolvidos do mundo fizeram o oposto, primeiro distribuíram a renda e depois o bolo cresceu que foi uma beleza.
Essa, diz, é a melhor receita. Já está mais do que na hora de o Brasil aprender. E de fazer.
O bairro da Vila Madalena, em São Paulo, tem 1 Km² – dois terços do parque Ibirapuera – e apenas 20 mil habitantes numa cidade de 10 milhões de pessoas e 1,5 mil Km². Neste artigo, preferi deixar as análises abstratas de lado e mostrar como uma experiência, da qual participo, desenvolvida nesse fiapo urbano se presta quase como uma parábola sobre o impacto da educação na formação de capital humano e social – ou seja, como o conhecimento se transforma em riqueza.
Nesse território, um grupo de psicólogos, advogados, arquitetos, jornalistas, psicopedagogos e pedagogos que se propôs a fazer da Vila Madalena uma escola a céu aberto. Na experiência batizada de bairro-escola, conduzida pela Cidade Escola Aprendiz, praças parques, ateliês, becos, estúdios, oficinas, empresas, museus, teatros, cinemas, parques de