O bairro da Vila Madalena, em São Paulo, tem 1 Km² – dois terços do parque Ibirapuera – e apenas 20 mil habitantes numa cidade de 10 milhões de pessoas e 1,5 mil Km². Neste artigo, preferi deixar as análises abstratas de lado e mostrar como uma experiência, da qual participo, desenvolvida nesse fiapo urbano se presta quase como uma parábola sobre o impacto da educação na formação de capital humano e social – ou seja, como o conhecimento se transforma em riqueza.
Nesse território, um grupo de psicólogos, advogados, arquitetos, jornalistas, psicopedagogos e pedagogos que se propôs a fazer da Vila Madalena uma escola a céu aberto. Na experiência batizada de bairro-escola, conduzida pela Cidade Escola Aprendiz, praças parques, ateliês, becos, estúdios, oficinas, empresas, museus, teatros, cinemas, parques de
diversão, centros esportivos, bibliotecas, livrarias são exploradas como extensões das salas de aulas, formando trilhas educativas a serem percorridas.
O sonho de descoberta da rua está resumido no nome do projeto, inspirado na história paulistana: Cidade Escola Aprendiz.
No começo do século passado, os ingleses trouxeram para São Paulo o conceito de cidade-jardim, destinado a civilizar, para elites, os bairros, cujas casas seriam entrelaçadas por agradáveis áreas verdes. Tirou-se dessa composição bucólica a idéia de civilidade, na qual as casas se mesclam e se integram harmoniosamente ao espaço público. Trocaram-se jardins pelo saber, na busca de uma integração pelo aprendizado. Cidade Escola significa que não deveriam existir fronteiras entre a escola e a cidade, assim como não deveriam existir muros entre o viver e o aprender, entre o ser e fazer.
A experiência começou em 1997, quando São Paulo vivia seu pior momento, teoricamente ruim para mostrar os encantos educativos da rua. Além dos crônicos congestionamentos, da poluição, da sujeira, da feiúra, avolumavam-se as denúncias de corrupção municipal. Na cidade que não pode parar, o emprego parou, indústrias desapareceram. E pensar que poucas décadas antes chegavam alemães, japoneses, italianos, espanhóis, portugueses, todos hoje no primeiro mundo, em busca de oportunidade. E achavam. Desde a década de 80, o desemprego e subemprego não paravam de subir, gerando legiões de centenas de milhares de desocupados, especialmente entre os mais jovens.
Recordes nas estatísticas de violência. Áreas como a chamada
“Cracolândia” pareciam territórios dominados por estrangeiros;
era o pico da epidemia do “crack”. Meninos e meninas
perambulando sujos, fétidos, pelas ruas, rastejando e assaltando para comprar a droga. Muros por todos os lados e cada vez mais altos. Os jornais noticiavam que mesmo famílias de classe média blindavam seus automóveis. Blindavam-se até quartos nas casas.
O misto de insegurança e congestionamento produziu a segunda maior frota de helicópteros do mundo, alguns deles contratados por empresários para vigiar suas casas. Prosperavam, como nunca, empresas de segurança. Uma pesquisa do Datafolha informou que mais da metade da população sonhava em se mudar para um lugar mais tranqüilo. Crianças e suas bolas de gude quase desapareceram da paisagem.
Naquele fiapo geográfico se buscou criar um contraste ao caos urbano, uma amostra de uma cidade que priorizasse, em todos os seus espaços, o aprendizado. A pretensão, em suma, era fazer da Vila Madalena uma vitrine em movimento, viva, do show-room social paulistano. O espírito do bairro, afinal, está associado à transgressão e ao prazer. Na década de 70, a ditadura fechou a residência dos estudantes da Universidade de São Paulo.
Acabaram se encontrando na Vila, com seu ar provinciano, de interior; e, mais importante, com seus aluguéis baratos. Surgiria na rebeldia estudantil a imagem de bairro alternativo; viriam depois os artistas e hippies, atraídos pelo espírito liberal e boêmio. Apesar da especulação imobiliária, a Vila Madalena continua um espaço diferenciado. Ao final da tarde, crianças brincam na rua, senhoras conversam na calçada, cachorros dormem debaixo de alguma árvore. De madrugada, ouvem-se gargalhadas nas esquinas tomadas pelos jovens. A década de 90 trouxe designers sofisticados e cosmopolitas. Convivem ali entre as ladeiras, provincianismo e cosmopolitismo. Não é um bairro, mas um estilo numa cidade sem estilo.
A sede da Cidade Escola Aprendiz era uma antiga oficina de cerâmica, instalada numa casa de tijolos aparentes, portas e janelas de fazenda, rodeadas por plantas, na rua Belmiro Braga, na Vila Madalena. Além do charme da casa, um atrativo especial:
o preço do aluguel. Entendia-se facilmente o preço baixo. Uma das portas de entrada do bairro, a Belmiro Braga sintetizava as mazelas paulistanas. Pela sua localização geográfica – fundo de um vale – e por estar em cima de um córrego canalizado, a rua transformava-se, em alguns dias de chuva, num rio. Uma criança tinha morrido afogada em seu próprio quarto. Todos os moradores dali tinham alguma boa história para contar sobre o humor das águas. Numa das extremidades da Belmiro Braga, depositava-se lixo, conduzido para os bueiros e facilitando as enchentes. Os moradores pareciam ver aquele lixo como uma espécie de fenômeno natural imutável.
Num sobrado, uma casa de prostituição, dividida em cubículos sem janelas. Ao seu lado, um galpão, sempre fechado, escondia operárias de uma fábrica têxtil clandestina. A poucos metros dali, comercializavam-se papel e ferro velho. Carrinheiros usavam a rua como banheiro, dormitório e estacionamento. Um terreno, em frente ao prostíbulo, há anos abandonado, prestava-se de moradia para mendigos e esconderijo de traficantes e criminosos.
Esconderijo ideal: o terreno dava para um beco, depósito de fezes de animais e de homens.
Daquele beco partiam grupos para cometer assaltos nas redondezas. Deixar o carro estacionado na Belmiro Braga – isso quando os carrinheiros deixavam algum espaço – era um convite para ficar sem o rádio. Diante dessa coleção de chagas urbanas, sobrava pelo menos o consolo da compensação do aluguel. A
Belmiro Braga apresentava-se como um cartão de visitas às avessas para quem se dispunha a acenar com as vantagens da educação para a cidadania.
Programas de artes e comunicação recheavam a educação pela expressão, ajudavam crianças e jovens a se conhecer e a produzir conhecimento, a partir de seu entorno e de suas vidas. O diferencial, porém, estava na incorporação da comunidade aos processos de aprendizado. Se a internet nos ensinava a tirar proveito das redes virtuais, a perspectiva de tomar o bairro e, em última instância a cidade, convidava a descobrir as redes reais. Redes virtuais e reais deveriam se fundir na comunidade de aprendizagem, associada à escola. Seria necessário, portanto, misturar intervenção urbana com educação. Se não existem recursos para disseminar uma escola integral de qualidade, por que não mapear os potenciais educativos da comunidade e integrá-los cotidianamente à sala de aula?
Idéias desse tipo não são novas, embora, muita vezes, apresentadas como contemporâneas em embolados textos pedagógicos. Sêneca, filósofo romano, dizia, 64 anos antes do nascimento de Cristo: “Não se educa para a escola, mas para a vida.” Fala-se tanto, nos seminários, em aprender fazendo, com ares de modernidade, mas era exatamente assim que as sociedades primitivas ensinavam as crianças. Desde seus primórdios, a educação judaica colocava a comunidade como centro da disseminação de sabedoria.
Desde a década de 70, começou a prosperar na Europa a proposta de cidade-educadora, abraçada pela UNESCO, o que, na visão do Aprendiz, teria viabilidade se fosse uma reunião de vários bairros-escola. Antes disso, o educador Anísio Teixeira,
influenciado por John Dewey, que conheceu nos Estados Unidos, implementou no Brasil as escolas-parque. Interessado em unir o saber ao fazer e formar alunos para o trabalho e para a cidadania, Anísio propunha que os estudantes, espalhados em escola-classe (as salas de aulas) se misturassem na escola-parque, espaços dedicados às mais diversas atividades práticas. Experimentar é indissociável do saber. Sabemos porque experimentamos. O que não experimentados, esquecemos – o que, aliás, está escrito em textos ancestrais dos árabes.
Falar em princípios pedagógicos é fácil, difícil é executá-los nas escolas no geral e nas escolas públicas em particular, onde os professores tendem a ser desmotivados, sobrecarregados, atrelados a um currículo defasado. Não têm tempo nem estímulo para inovar. São vítimas de uma cultura do fracasso. Uma das escolas do bairro, Alves Cruz, era um exemplo perfeito desse clima. Estava para fechar. Não paravam professores, diretores;
muros pichados, vazamentos na parede, relatos de violência.
Queríamos fazer dela uma escola-modelo, mas só tínhamos de interlocutores escassos alunos que freqüentavam programas do Aprendiz, além de um grupo de ex-alunos, dispostos a fazer alguma coisa.
O Aprendiz se propunha, então, a mesclar a escola desmotivada com a cidade acuada. Precisava, portanto, romper a lógica do medo paulistano e manter suas portas abertas. Faltava um ponto de encontro para que os educadores se reunissem e a comunidade fosse recebida. Na Belmiro Braga, decidimos criar, na fábrica clandestina, agora desativada, um Café, empreitada para a qual fomos desaconselhados. Empresários chamados a ajudar rabiscaram as contas e alertaram para os riscos. O local
pequeno não comportava muitas mesas e só iríamos ficar abertos para almoço. Aquela rua, além do mais, não atraía ninguém: o lixo na esquina, os carrinheiros, o terreno ocupado por mendigos, os traficantes, as enchentes.
Nessa decisão de serenidade empresarial duvidosa, conspirou a força do acaso para que se desse mais um passo do bairro- escola. O Café nos estimulou a mexer no terreno em frente para que virasse uma praça. Plantamos os mais diversos tipos de árvores floridas como ipês e primaveras. O beco já tinha virado a sala de aula dos grafiteiros e, ao mesmo, tempo, galeria de arte. Mais do que isso, tinha virado um símbolo – um lugar sem saída que apresentava uma saída. Bem na nossa cara, nosso melhor cartão de visitas. Novos cheiros, sons e cores. O café exalava o aroma do café torrado; os ipês salpicavam flores amarelas; as primaveras traziam tonalidades roxas e vermelhas.
Nesses cheiros e cores se delineavam as forças do acaso que iriam compondo o bairro-escola. O impulso definitivo desse molde deveu-se a outro acaso. Sem nada para fazer, crianças que brincavam na rua assistiam, sem serem convidadas, aos programas de arte. Ficavam vendo, curiosas, as peças saírem dos fornos, a agitação dos artistas, os risos, as brincadeiras, homens e mulheres com roupas estranhas e jeito diferente.
Parecia um misto de ateliê com circo. Vieram mais crianças até virarem uma tur ma. Como não queríamos expulsá-las, a alternativa foi colocar alguma ordem na algazarra. Ganharam um programa especial. Obtiveram status especial. Receberam a praça, recém-recuperada, como sua sede, além de uma equipe exclusiva de educadores comunitários – a própria personificação da imagem da escola a céu aberto. As crianças iam construindo
as trilhas nas parcerias com uma oficina de invenção de brinquedos, num bufê, numa oficina de vela, num estúdio de xilogravura, numa escola de circo. Firmaram-se acordos com médicos e terapeutas.
Como as crianças tinham de ser avaliadas, conversávamos com os professores da escola formal e chamávamos os pais. A improvisada “Escola na Praça” ia abrindo as picadas, as tais trilhas, mesclando escola, comunidade e família. Ganhava-se, nesse caminhada, capital social e cultural. Um dos principais diferenciais dos alunos de maior poder aquisitivo não é apenas a escola em que estuda, mas o capital cultural que recebe em casa e, depois, é mantido nas relações com amigos. Desde cedo, eles têm contato com formas de falar e de se expressar mais sofisticadas, vêem os pais e parentes lendo jornais. Tudo isso é a base para uma boa formação. Inútil pensar que apenas a escola pública em nosso país conseguiria suprir todo esse capital cultural. Não há dinheiro nem mesmo para as tarefas obrigatórias.
As trilhas tentam suprir essas deficiências.
Se a trilha tinha encantos também tinha ameaças. O “crack”
entrou no beco. Essa droga gera paranóia e agressividade.
Ficamos ainda mais vulneráveis, porque os traficantes nos encaravam o projeto como um inimigo a ser derrotado, expulso.
Brigavam, faziam ameaças de morte, quebravam nossos espaços, numa guerra de território como se fôssemos mais uma gangue.
Em reuniões, avaliou-se a possibilidade de deixar o beco. Mais do que um território, ameaçava-se um símbolo. Perdeu-se a saída?
Mas e se acontecesse alguma coisa, se alguém morresse?.
Acostumada a lidar com crianças em situações de risco, a advogada Célia Pecci, diretora-adjunta do Aprendiz, apostava
na idéia de que aqueles jovens no beco eram adversários, mas, ao mesmo tempo, público-alvo. Urgente aprender a trabalhar com eles, para que nos respeitassem, porque os respeitávamos como indivíduos à procura de perspectiva. Com a chegada do crack, até Célia, há tantos anos envolvida em projetos sociais, temia que talvez não tivéssemos mais espaço e colocássemos nossas crianças em risco. A última alternativa: seduzi-los com a proposta de uma ponte para eles saírem da marginalidade, enquanto se convidavam seus irmãos menores para estudarem na “Escola na Praça”, envolvendo a família.
Ocorriam eventuais blitze policiais; os adolescentes, presos, rapidamente estavam na rua, e nutriam a suspeita de que o Aprendiz os denunciara. A situação, portanto, só piorava – a polícia às vezes atuando sem coordenação representava mais um complicador. Mas não faltavam estímulos para que persistíssemos. O Café sempre cheio de pessoas interessantes – designers, arquitetos, estilistas, intelectuais, pirados, artistas –, a praça com as crianças, o beco com malabaristas e grafiteiros, os jovens circulando nos mais diversos programas, nos faziam sentir o hálito da utopia. Nas manhãs, idosos se reuniam no café para aprender, com adolescentes, navegar na internet e iam escrevendo suas histórias de vida. Depois da aula, sentavam-se, em torno do pão quente, café, geléia, e conversavam. Talvez estivessem, sem aquele programa, trancados em casa.
Flores nasciam onde antes imperava o lixo. Nos nossos trajetos habituais, passava Esmeralda Ortiz, uma ex-menina de rua e ex- viciada em crack, que se tornou escritora e entrou na faculdade.
Sempre tinha um sorriso e uma história para contar. O responsável pela ordem do beco era o “frete”, um ex-presidiário, que agora ajudava as crianças, entre meninos e meninas das quais
acompanhávamos o crescimento, muitas delas superando obstáculos, vítimas de escola ruim e da família desestruturada.
Um deles, Anderson Gomes, trabalhava nos bares de madrugada e, quando veio para o Aprendiz, não sabia ler nem escrever.
O bairro-escola implica trazer a vida, com suas imprevisibilidades, dores e delícias para o cotidiano do aprendizado. E devolver tudo isso melhorado para o sistema formal. Um grupo de alunos a quem ensinamos informática batizou-se de “Inconformáticos”. Motivo da “rebelião”: os computadores da escola estavam trancados pelo simples motivo de que os professores, envergonhados, não reconheciam a inabilidade para operá-los. Os inconformáticos trataram de dar aulas aos professores e, enfim, liberaram o laboratório. A essa deliciosa conquista de ver alunos dando aulas para professores – o sonho de Paulo Freire – seguiu-se uma frustração. Mudou a diretora e aquela “liberalidade” foi abolida.
Foram firmadas parcerias com as redes municipal e estadual de educação para que pudéssemos trabalhar, durante o horário de aula, com os professores, habilitados como capacitadores em projetos de arte e comunicação. Não dependeria mais da boa vontade deste ou daquele diretor. Estávamos oficialmente integrados em seu cronograma. Esses acordos permitiram que se agregassem escolas dos bairros limítrofes, como Alto dos Pinheiros, Alto da Lapa, Butantan, Pinheiros, além do 1 km².
Nesse momento, se criava uma teia, de diferentes maneiras e graus de envolvimento, em 55 escolas estaduais, municipais e privadas, atingindo cerca de 10 mil alunos.
A prefeitura aderiu ao movimento de cidades educadoras, tema central de um fórum mundial em abril. Poucas semanas
antes do fórum, a secretaria municipal da educação procurou o Aprendiz, interessada em disseminar o bairro-escola na Vila Maria e Mooca, respectivamente distritos nas zonas Norte e Leste. A secretaria estadual da educação a pensar um projeto para as escolas de ensino médio do centro da cidade. Mais uma vez, o atrativo eram os baixos custos e um possível impacto positivo no rendimento escolar via choque cultural. Na região central, há algumas das melhores “salas de aulas”. Basta, para começar, alinhar o que já era desenvolvido pelo próprio Estado em seus programas educativos, por exemplo, da Pinacoteca e da Orquestra Sinfônica. Muito mais há ali disponível, como centros culturais da Caixa Econômica, Banco do Brasil, Faap.
Se quisermos atingir um modelo viável, devemos seguir o óbvio: tudo deve ser em conjunto e complementar. Por isso, começou a funcionar um espaço informal para ajudar a operar o bairro-escola. Os coordenadores do Aprendiz criaram uma comissão, sempre reunida para um café da manhã, para um bate- papo, convidando as várias coordenadorias da subprefeitura (educação, cultural, juventude, trabalho e saúde), delegados do orçamento participativo, professores, diretores das escolas, artesãos e ONGs – um agrupamento, com os mais diferentes atores focados na idéia de melhoria do processo educativo. Cada um oferecendo um pouco na sua especialidade e possibilidade, os custos tornam-se administráveis.
Cada porta aberta é uma nova sala de aula, a ser trabalhada.
Por esse princípio, o músico e pesquisador Antônio Nóbrega, estudioso da tradição nordestina, colocou, em 2004, seu teatro e cursos em nossa trilha. Um centro de terapias e massagens ofereceu-se a dar cursos para aprimorar o equilíbrio dos
aprendizes e de seus familiares. Quando ocorreu a “Arte na Vila”
– os ateliês se abrem ao público e oferecem oficinas – estávamos lá apresentados como parte do roteiro. Artistas circenses se dispuseram a dar aulas de malabares. Em cada um daqueles ateliês e estúdios, agora delineados em mapas, vislumbrava-se a chance de trilhas.
A chave de tudo é juntar e ressignificar. A um grupo de jovens que já grafitavam foi oferecido o beco, convertido numa galeria a céu aberto. A partir dali, eram apresentados a roteiros culturais para que aumentassem seu repertório cultural. Vieram então doadores de tintas e uma fundação com a Coordenadoria Municipal da Juventude, autorizando a intervenção por toda a cidade. Uma delas, os túneis que conduzem à avenida Paulista, tornaram-se a maior galeria de grafitagem de que se tem notícia.
Em 2004, já não era mais possível entrar na Vila Madalena, por qualquer lugar, sem esbarrar numa intervenção de arte, sugerindo um novo jeito de se olhar o espaço público – tratou- se também de disseminar, por ruas das regiões vizinhas, mosaicos e grafites pelos caminhos que levavam ao bairro-escola, como se formássemos corredores com significado educativo. Mas o ponto vital, onde se vê o DNA da experiência, localiza-se em torno do conjunto arquitetônico composto pelo beco e pela praça, deixando bem para longe os tempos sombrios daquele ambiente. Aos grafiteiros, agregaram-se skatistas, treinados para serem monitores. Malabaristas montaram uma escola e, de noite, quando davam suas aulas, o que se via era uma exótica cena de centenas de malabares no ar. Fez-se também uma improvisada quadra de basquete; em certos dias, tinham aula de tênis. Muitos de nossos aprendizes estavam entrando ou querendo entrar na
universidade, o que nos levou a criar com a Universidade de São Paulo um cursinho pré-vestibular na Belmiro Braga.
A praça virou uma sala de aula também para adultos, com palestras ao ar livre. Assim o coreógrafo Ivaldo Bertazzo explicou como levou os ritmos hindus para a favela da Maré, no Rio; o médico Dráuzio Varella falou de sua vivência como comunicador; Wellington Nogueira mostrou o processo educativo dos “Doutores da Alegria”,
uma escola de palhaços que atuam em hospital. O empresário Ricardo Semler compartilhou sua proposta de criar uma escola que revolucionasse o ensino; o pianista João Carlos Martins, um dos maiores intérpretes de Bach, contou, comovido, como perdeu o movimento nas duas mãos e começou a envolver-se com a educação musical de egressos da Febem. Depois das exposições, os bate-papos se
prolongavam e atraíam gente fascinada por experiências educativas. Essa fauna tão animada, divertida, provocativa, compunha os fragmentos vivos da comunidade de aprendizagem que construíamos.
É impossível ainda fazer uma avaliação de impacto do bairro- escola – o que demanda vários anos de observação e análise para medição de diferentes indicadores – , mas alguns sinais
“Quando se inicia 2004, uma indicação valiosa: o Aprendiz foi tema da Pérola Negra, a escola de samba do bairro. Essa indicação é valiosa porque, no momento em que o saber passa a ser o centro de uma comunidade – e a comunidade o centro do
saber – cria-se o valor da educação. Ou seja, gera-se vida e riqueza. Esse princípio
básico, ancestral, testado por tantos povos em momentos tão diferentes funciona em qualquer lugar – a começar do ínfimo 1 KM² perdido num remoto bairro de um
país da América Latina.”