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EDUCAR PARA A PRIORIDADE DA EDUCAÇÃO

Não há eleição no Brasil sem que todos os partidos – não um ou dois, mas todos, de direita ou de esquerda, importante ou pequeno, com chances ou completamente outsider – falem da importância da educação, apontem-na como prioritária (não raro como primeira prioridade).

Se fosse possível levar a sério o discurso eleitoral, todos os problemas educacionais do país já estariam resolvidos, certo?

Completamente errado, conforme mostram dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, centro de estudos ligado ao Ministério do Planejamento.

Nos últimos oito anos (a partir de 1995), os investimentos do Ministério da Educação diminuíram 57,8%, passando de R$ 1,874 bilhão para R$ 790 milhões em 2003.

É bom lembrar que esse período cobre toda a chamada era FHC (Fernando Henrique Cardoso), que usara como símbolo de

EDUCAR PARA A PRIORIDADE

suas prioridades, na campanha eleitoral de 1994, uma mão espalmada, em que cada dedo representava uma prioridade.

Educação era um dos dedos. Foi cruelmente decepado, como se vê pelos dados divulgados pelo Ipea.

No atual governo, o de Luiz Ignácio Lula da Silva, o cenário melhorou um pouco, mas ainda seria necessário aplicar R$ 1 bilhão adicional simplesmente para que os investimentos retornassem ao patamar de 1995.

Note-se que foi no governo FHC que a educação brasileira deu de fato um salto quantitativo e praticamente se universalizou o atendimento às crianças em idade escolar no ciclo básico. Se mesmo em um governo com essas características, o investimento em educação foi reduzido, basicamente para atender às necessidades de pagamento da dívida pública, fica claro que qualquer campanha para tornar prioritária a educação perderá seu tempo se permanecer focada nas autoridades.

Elas parecem convencidas de que educação é prioridade e parecem igualmente convencidas de que o público também considera a educação um bem inestimável. Suspeito que aqui mora o erro. A sociedade brasileira ainda não está nem tão convencida nem muito menos mobilizada para reivindicar educação – e educação de qualidade – , sem o que perder-se-á o avanço quantitativo obtido no governo Fernando Henrique.

Não adianta colocar todas as crianças na escola, se elas saem dela semi-analfabetas ou, na melhor das hipóteses, com conhecimentos muito fracos, como está ocorrendo. Todos os testes e provas de avaliação das escolas e dos estudantes revelam carências brutais, que se tornam ainda mais graves quando os estudantes brasileiros são submetidos a comparações internacionais.

A verdade é que muitas vezes, as famílias brasileiras fazem da educação não uma busca pelo conhecimento, pela informação, pelo aperfeiçoamento, mas um atalho para corrigir problemas sociais, pelos quais a escola não é responsável.

Um exemplo claro está dado pela Bolsa-Escola, o mecanismo pelo qual uma família recebe um valor “xis” desde que mantenha o filho na escola. O programa tem todos os méritos como amortecedor de dramas sociais. Evita a fome, pura e simplesmente.

Mas é razoável supor que parte das famílias não envia seus filhos à escola pelo conhecimento a ser adquirido, mas justamente para matar a fome. Que a fome seja saciada é necessário e nobre, mas o ideal seria que também a fome de conhecimentos empurasse as crianças para a escola, sob pena de só poderem comer até que se complete o ciclo básico. Depois, sem que tenham avançado na escolarização, o risco é o de se perpetuar a miséria, que empurrará novas famílias e suas crianças para a escola pelo prato de comida, não pela educação a ser adquirida.

O mesmo raciocínio aplica-se às cotas para negros, tema de polêmica no momento. Há inegáveis méritos em se oferecer vagas a estudantes que, de outra forma, não teriam acesso ao curso superior, mas, de novo, há o risco de se perpetuar o atalho.

Por que há necessidade de cotas? Porque o estudante pobre (e os negros formam a maioria dos pobres) não tem, de modo geral, acesso a ensino de boa qualidade e, por isso, na hora do vestibular, perde para estudantes de melhor nível de renda.

O problema, portanto, não está nas cotas, mas na concorrência desleal, em favor dos mais ricos, que começa no ensino básico e

se estende até o ensino superior. Só aí as cotas podem, como no caso da Bolsa-Escola, fornecer um amortecedor social, mas nunca uma solução para o problema de fundo.

Para este, a única real solução, que, evidentemente, demanda tempo, é a pressão social para que a educação, do berço à Universidade, se me permitem o exagero, seja de fato a prioridade que, por enquanto, o é apenas nos discursos de campanhas eleitorais.

Basta ver a diferença entre o ensino básico público e a universidade pública. O primeiro é freqüentado, como regra geral, pelos estudantes de famílias de menor poder aquisitivo (ou pelo

“andar de baixo”, na feliz expressão cunhada pelo jornalista Elio Gaspari). Já uma universidade como a USP (Universidade de São Paulo) fica, também como regra geral, para o “andar de cima”.

Conseqüência: o ensino fundamental público é precário e perde quase sempre nas comparações com o ensino privado (sem que este, no entanto, possa ser considerado de excelência, a não ser em meia dúzia de escolas). Já a universidade pública continua sendo de qualidade superior, por muito que tenham avançado, nos anos mais recentes, algumas universidades privadas.

Parece haver uma correlação direta entre a capacidade de pressão da clientela de cada segmento. O “andar de baixo”

pressiona pouco ou nada e lhe sobra um ensino público em constante crise. O “andar de cima” é forte o suficiente para que, embora também público, o sistema de ensino universitário seja, com exceções, superior ao privado.

Os governantes não se sentem pressionados a dar o passo seguinte na educação fundamental, qual seja o de introduzir a

qualidade depois de mais ou menos resolvido o problema da quantidade – ou seja, o a da universalização. Como a grande maioria das crianças está na escola, cessou o ruído em torno da falta de vagas, até porque boa parte dos pais, em especial no “andar de baixo”, nem sempre tem condições de acompanhar o estudo de seus filhos e, por extensão, não pode saber se é bom ou não.

É bem provável que, como conseqüência dessas diferentes condições de pressão, o avanço educacional do brasileiro seja tímido. Pelos cálculos dos responsáveis brasileiros pelo IDH (Índice de Desenvolvimento

Humano), a escolaridade do brasileiro avança apenas um ano por década, o que é absurdamente insuficiente quando se leva em conta o imenso desnível entre o número de anos de educação de estudantes de certos países asiáticos e o dos

brasileiros (para não mencionar a comparação com países já desenvolvidos, o que só aumentaria a humilhação).

Corrigir essa situação depende, creio, de pressão de baixo, muito mais do que de mentes iluminadas que eventualmente estejam no governo. Para este, qualquer que seja o seu titular, haverá nos muitos anos à frente, os constrangimentos gerados pela precária situação fiscal do Estado brasileiro (em todos os seus níveis). Em conseqüência, sempre poderá haver restrições aos investimentos em educação, para poder, por exemplo, manter os pagamentos da dívida.

“A única real solução, que, evidentemente, demanda tempo, é a pressão social para que

a educação, do berço à Universidade, se me permitem o exagero, seja de fato a prioridade que, por enquanto, o é apenas nos

discursos de campanhas eleitorais.”

Sabendo-se que os recursos são sempre escassos, é preciso ordenar as prioridades. E só a pressão de baixo é capaz de fazer com as prioridades sejam escolhidas de acordo com as necessidades das maiorias, e não apenas pelos que mais poder detêm.

No início dos anos 70, José Figueiredo, o chefe dos vaqueiros da Fazenda Boa Sorte, na pequena Viçosa, interior de Alagoas, procurou o patrão para com ele se aconselhar porque não se conformava com o fato de o filho não querer seguir sua profissão.

“O menino só quer saber dos livros, de estudar, e não de tanger o gado”, disse José Figueiredo ao patrão, Teotônio Vilela – depois conhecido no Brasil como o “Menestrel das Alagoas”.

O menino a quem se referia Zé Figueiredo era o filho José Aldo Rebelo Figueiredo. Ao deixar de lado a profissão de vaqueiro como o pai, Aldo foi alfabetizado ali mesmo, numa escola típica do interior – uma única sala e uma só professora para todas as séries. Prosseguiu nos estudos, formou-se em jornalismo depois de ser presidente da União Nacional dos Estudantes, a UNE.

Mais tarde foi eleito deputado federal por São Paulo, líder do governo na Câmara e chegou a ministro da Articulação Política no governo Lula.