Lisandra Paraguassú*
* Jornalista do O Estado de São Paulo, graduada em Jornalismo e Publicidade pela Pontifícia Universidade Católica.
0 a 14 anos na escola, mas, como as próprias pesquisas do Ministério da Educação demonstram, quase metade delas chega à 4ª série sabendo quase nada. Esperar crescimento sustentável de um país que deixa para trás boa parte da sua população é simplesmente inviável.
Tudo depende da educação. Sabe-se que filhos de mães com algum estudo têm maiores chances de sobreviver às doenças infantis. As estatísticas também mostram que sobram postos de trabalho que pedem mais qualificação enquanto boa parte da população brasileira não consegue emprego justamente porque não tem nem mesmo o ensino fundamental completo.
Durante décadas o Brasil simplesmente “esqueceu” a maior parte dos seus habitantes, especialmente aqueles que vivem longe das grandes capitais, do centro econômico do país. A falta crônica de escolas e de qualidade de ensino condenou boa parte dos brasileiros a uma ignorância que também não os permitia cobrar e exigir mais dos governos e da sociedade onde vivem. Uma das conquistas dos últimos anos foi, certamente, trazer a educação para a pauta do dia no país. Mesmo que ainda sem qualidade, hoje se fala em educação mais do que em qualquer outra época.
Lamentavelmente, mais se fala do que se faz.
Nada é mais unânime do que educação. A necessidade de colocar todos as crianças na escola, os resultados que se podem alcançar com uma população que, ao menos, consiga entender o mundo em que vive, estão entre as prioridades de qualquer brasileiro. Não se encontra no país um prefeito, governador, parlamentar ou funcionário de qualquer governo, seja de que lado político for, que tenha a coragem de não defender os
investimentos em educação. Um grande pacto na teoria. Na prática, a realidade é outra.
Muitas vezes se diz que o que falta não são recursos, mas gerenciamento. Com o que se tem poderia ser feito muito mais.
Depois de escrever dezenas de matérias sobre desvios de recursos dos mais variados tipos, de livro didático à merenda escolar, passando por idéias mirabolantes e pura e simples incompetência de alguns gerentes de educação, não tenho a menor dúvida de que isso é verdade. Mas
também descobri que existe sim uma falta de recursos crônica para a educação brasileira. E, apesar das dificuldades que se sabe que existem nas universidades públicas do país, os recursos faltam mesmo é na edu- cação básica. É ali que os investimentos são desespe- radamente necessários.
Hoje, dos R$ 17,3 bilhões do orçamento federal da educação, praticamente R$ 11 bilhões vão exclusivamente para as universidades federais. Está certo, pela Constituição brasileira a responsabilidade do governo federal é com o ensino superior. E nem se pode dizer que nas universidades federais estejam sobrando recursos. No entanto, em um país em que apenas 9% dos jovens de 18 a 24 anos estão na faculdade o governo federal não deveria se preocupar mais com o ensino básico, em colocar mais crianças em condições de chegar a essas universidades? Não seria
“Durante décadas o Brasil simplesmente
‘esqueceu’ a maior parte dos seus habitantes, especialmente aqueles que
vivem longe das grandes capitais, do centro econômico do país. A falta crônica
de escolas e de qualidade de ensino condenou boa parte dos brasileiros a uma
ignorância que também não os permitia cobrar e exigir mais dos governos e da
sociedade onde vivem.”
necessário descobrir fórmulas para colocar mais dinheiro da educação, em vez de tentar esticar um cobertor curto demais?
Todos os anos, a União retira 20% dos recursos que deveriam, pela Constituição, ir para a Educação. A chamada Desvinculação das Receitas da União (DRU) vai tomar este ano de 2004 R$ 4 bilhões do ensino brasileiro.
E é a falta desses recursos que faz com que as crianças brasileiras estudem em escolas onde, muitas vezes, não há luz elétrica ou banheiros, quanto mais laboratórios, bibliotecas, quadras esportivas. Aprendendo de professores que mal conhecem o que estão ensinando, porque também estudaram nas mesmas escolas, ganham salários risíveis e, logicamente, não têm tempo ou condições de aprender mais.
Há muitos discursos, muitos debates, centenas de teorias sobre o que fazer para melhorar o Brasil, para que haja crescimento econômico, as empresas produzam mais. Outros países, como Coréia, Irlanda e Espanha, tiveram o mesmo problema décadas atrás. A solução que encontraram foi uma só:
investir em educação. Investimento, não gasto. Quase um terço da população brasileira está fora do mundo mágico do mercado:
não consomem, não gastam, pouco produzem. Não por coincidência, são esses mesmos que mal sabem escrever o nome.
Dê a essas pessoas educação e elas irão produzir, consumir, reivindicar. Deixarão de ser números de estatísticas sobre a miséria brasileira para serem cidadãos. É por isso que educação é um investimento, não um gasto: investimento dá retorno.
Aprendi há alguns anos que contos são uma das melhores formas de educar. Trazem casos factíveis ou fictícios, mas sempre com ensinamentos. E passam de geração para geração. De uma certa maneira, jornalistas fazem isso. Relatam casos reais, diariamente. Aos poucos, deixam registros para ajudar a escrever a história. Então, peço licença ao leitor para narrar três rápidos episódios, que, ao final, refletem uma realidade semelhante.
João, 37, nasceu na zona rural de uma pequena cidade no Nordeste do Brasil. Caçula entre oito irmãos, cresceu em uma família cujo lema usado pelo pai era “trabalho começa cedo”.
Foi à escola só para aprender a escrever o nome. Cortador de cana até os 30, resolveu mudar para a capital federal com a mulher e os três filhos menores de dez anos na tentativa de melhorar a vida. Ficou seis anos morando em um cômodo alugado. Fazia
“bicos”, pois não conseguia uma vaga no mercado de trabalho.