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A Acupuntura funciona?

No documento Raviv Rozenkviat Psicologia e Acupuntura (páginas 112-116)

Sophia – Acho que isso não importa.

Victor –Como assim não importa? Como alguém em sã consciência faria um curso de acupuntura ou até mesmo se submeteria a esse tratamento sem saber se ele é de fato efetivo?

Sophia – Você acha que tanta gente faria acupuntura se ela não funcionasse?

Victor – As pessoas fazem muitas coisas na esperança de se sentir melhor.

Minha questão é mais pragmática. Existem estudos científicos sérios que embasam a filosofia da MTC e comprovam a eficácia da acupuntura? O que diferencia a acupuntura de uma balela esotérica qualquer, afinal?

Raviv – Eu entendi sua questão. Mas ela não é tão simples de responder como você imagina. E de certa maneira, acho que concordo mais com Sophia, isso não importa tanto assim.

Victor – Eu não entendo vocês. Como assim não importa? E por que é tão complicado falar de embasamentos científicos?

Raviv – Vamos por partes. Até onde pude pesquisar, não existem estudos que comprovem assertivamente a filosofia que embasa a MTC e a acupuntura. Ou seja, nunca se fotografou o Qi, ou se achou os meridianos em dissecções, ou provou-se a teoria do Yin-Yang ou dos Cinco Elementos, por exemplo. Mas existem sim pesquisas que procuraram descobrir se a acupuntura funciona. E mesmo alguns apresentando bom resultados, não deixam de ser questionáveis.

Victor – Por quê?

Raviv – Existe um interessante artigo escrito por Celia Vectore intitulado Psicologia e Acupuntura: Primeiras Aproximações, que destaca vários estudos que foram feitos a respeito. Os estudos científicos mais conceituados geralmente se referem à supressão da dor, mas seus mecanismos são explicados pelo viés da medicina ocidental e não da MTC. Por exemplo:

Han Jisheng, fundador do Centro de Pesquisa em Neurociências da Universidade de Beijing (China), descobriu, em 1972, que a acupuntura era capaz de induzir o encéfalo e a medula espinhal a produzirem uma ou mais substâncias capazes de modificar o limiar da dor (aumento do nível de serotonina). Paralelamente a tal descoberta, o mapeamento da estrutura molecular da encefalina (analgésico) levou à suposição que a descoberta dos antagonistas mostraria o modo como a acupuntura utilizava os opióides endógenos para suprimir a dor. (VECTORE, 2005)

Victor – Em minha opinião não importa se o tratamento funciona por ativação de opióides, ou pelo reequilíbrio do Qi A questão é se funciona ou não.

Sophia – Já eu acho que faz toda a diferença. Se a questão se resume em enfiar agulhas para estimular o sistema nervoso de alguma maneira, para que estudar a MTC e a acupuntura? Joga-se toda esta base filosófica no lixo?

Victor – Sinceramente não sei o quanto isso é realmente importante. Mas e estudos relacionados aos aspectos psíquicos mostram alguma prova cientifica?

Raviv – Em tese mostram. Deixe-me citar outra parte do mesmo artigo:

Pesquisadores gregos, como Fassoulaki et al. (2003), investigaram o efeito da acupressão no ponto "extra 1" por dez minutos e concluíram que houve uma redução nos escores relacionados ao stress verbal quando comparados com a aplicação em um ponto qualquer, efetuada no grupo de controle. O efeito da inserção de agulhas no ponto "C7" na redução do stress psicológico foi observado por Chan et al. (2003).

Os estudos têm mostrado, ainda, a capacidade da acupuntura em modificar neuroquimicamente o sistema límbico (relacionado às emoções), aumentando o nível de serotonina e sendo, desse modo, indicada para o tratamento de depressões e alguns quadros de esquizofrenia, evitando os efeitos colaterais dos antidepressivos tricíclicos. (VECTORE, 2005)

Victor –Isso é ótimo. Finalmente temos uma prova que a acupuntura é funcional para a psicoterapia, pelo menos em parte.

Raviv – Mas Victor, você precisa entender que as ideias de funcionalidade e efetividade são muito relativas. Na minha tese de mestrado pude refletir sobre isso.

Eu estava estudando sobre a terapia de vidas passadas.

Victor –Terapia de vidas passadas? Você gosta mesmo de uma polêmica.

Raviv – Digamos que eu me interesse em refletir sobre a elasticidade da psicologia. Mas este não é nosso assunto no momento. Você acredita em reencarnação?

Victor – Claro que não.

Sophia – Eu acredito.

Raviv–Nesse desacordo de vocês dois repousa, em parte, a resposta para sua dúvida. Veja uma reflexão que levanto nas considerações finais de minha dissertação:

A dúvida sobre se são verídicos os conceitos de reencarnação ou outra crença qualquer, ou se são “ilusões” da nossa psique, beira quase à irrelevância para o presente trabalho. No nosso enfoque, é na maneira do sujeito ver o mundo, ou seja, no total de suas crenças, que ele cria sua perspectiva da realidade. Logo, se a crença envolvida na terapia condiz com a realidade do sujeito, o potencial de funcionalidade aumenta substancialmente. E foi o que gerou a pergunta: será que por ter crenças compartilhadas, os clientes e os terapeutas que praticam a TVP poderiam fazer esta terapia, de fato, funcionar? (ROZENKVIAT, 2005)

Victor – A terapia de vidas passadas funciona?

Raviv – A questão não é essa. O ponto aqui são as crenças compartilhadas.

Quando você procura um tipo de terapia você o faz por que acredita que funciona (ou talvez por ter esgotado todos os outros recursos) e no momento que você acredita que funciona, a chance da terapia ser efetiva aumenta consideravelmente, entende?

Victor – Mas isso não seria o efeito placebo?

Raviv– Em parte sim.

Victor – Então não conta.

Sophia – Por que não conta?

Victor – Porque significa que não é o tratamento que funciona, mas sim, sua crença de que o tratamento funciona.

Raviv – Pensando de forma estritamente científica, você tem razão. Mas para nós, como terapeutas, não faz tanta diferença assim, pois não estamos em busca de provas científicas em nossa clínica e sim de ajudar as pessoas a diminuir suas aflições. Penso que o importante é perceber que esta relação existe. Vectore destaca este aspecto em seu artigo ao citar a importante questão da empatia em relação ao acupunturista:

O trabalho efetuado por Nayak et al. (2003) mostrou a prevalência do uso da medicina complementar e alternativa em indivíduos com esclerose múltipla.

Güthlin, Lange e Walach (2004) apresentaram a evidência do benefício subjetivo de técnicas como a da acupuntura e homeopatia em pacientes portadores de doenças crônicas e MacPherson et al. (2004) mostraram a importância da empatia com o acupunturista na percepção dos resultados alcançados pelos pacientes. (VECTORE, 2005)

Victor – Acho que entendi o que você está querendo dizer. Pelo jeito a acupuntura funciona, só não temos certeza ainda de como ela funciona, certo? Ela ainda carece de embasamento científico, e eu sinceramente acho que este aspecto põe em cheque a utilização da acupuntura pelo psicólogo.

Raviv – Justamente pelo psicólogo?

Victor – Sim, você não concorda?

Raviv – Até onde eu saiba pouquíssimas linhas da psicologia tem algum embasamento científico nos moldes que você espera.

Victor – Sim, mas elas são usadas há tanto tempo, que empiricamente sabemos que funciona.

Sophia – Exatamente, e a acupuntura também.

Raviv – Creio que no caso da psicologia em particular, este debate ganha outros contornos, justamente por não ser uma divisão clara entre o que é cientifico ou não. Despret explana sobre o tema:

Podíamos refutar que essa vontade de ruptura com os saberes não científicos marcou a história da maior parte das ciências – a química com a alquimia, a astronomia com a astrologia. A psicologia, todavia, encontra uma dificuldade suplementar quando se trata, mais amplamente de se demarcar esses saberes práticos: a relação que ela mantém com esses últimos não é a mesma que a que a química e a cozinha. Esses são saberes práticos não teorizados: não há proximidade ameaçadora – como escreve Isabelle Stengers (NATHAN; STENGERS, 2995), o astrólogo não persegue o astrônomo. Em contrapartida, a manutenção em distância do profano se verifica ainda mais imperiosa em psicologia, pois a psicologia de senso comum é em si mesma uma teoria, ou sem dúvida um conjunto de teorias reunidas. (DESPRET, 2011. p.24)

Victor – Verdade. Os saberes da psicologia têm uma gama de flexibilidade enorme em suas diferentes linhas. Talvez perguntar se a acupuntura funciona não seja tão importante assim. Por sinal, a própria pergunta desafia a psicologia por si só.

Sophia – Ótimo, já que isto está entendido, para onde nos dirigimos em seguida?

Raviv – Acho que podemos começar a seguir os atores.

Victor – Como estudamos este coletivo de psicólogos-acupunturistas?

Raviv – Nós já estamos fazendo isso, mas para saber como essa nova interação ocorre temos que ir atrás dos actantes que fazem na prática o que o Conselho Federal de Psicologia legitimou.

Victor – Certo. Parece uma ideia legal fazer umas entrevistas, mas o que você espera alcançar com elas exatamente?

Raviv – Existe uma série de questões que me deixam curioso.

Victor – Que tipo de questões exatamente?

Raviv – Vamos refletir sobre isso.

No documento Raviv Rozenkviat Psicologia e Acupuntura (páginas 112-116)

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