Raviv - Iremos aprofundar estes conceitos no capítulo posterior. O ponto aqui é que esta correlação entre determinados aspectos psíquicos e seus respectivos órgãos se mostra importante, pois será a partir destes órgãos que iremos tratar os distúrbios psíquicos do paciente. Por exemplo, se nos deparamos com um paciente que tem clareza de seus objetivos na vida, mas não possui força de vontade para correr atrás delas, tenderemos, como acupunturistas, a atuar nos pontos relacionados ao equilíbrio dos Rins. Se o caso fosse invertido, e temos um cliente com muita disposição, mas sem clareza de seus objetivos, iremos atuar no Fígado para equilibrar o Hun.
Victor – Mas estes cinco Shen, também são Qi?
Sophia –Tudo é Qi na Medicina Tradicional Chinesa.
mim baseado nas aulas de acupuntura) as diversas transformações do Qi e seus caminhos. O Qi é provido essencialmente de duas formas: através da alimentação (GU Qi – também chamado de essência pós-natal) que é formado pelo Estômago e Baço-Pâncreas16 e da essência pré-natal, com a qual nascemos (basicamente nossa herança genética) que é armazenada pelo Rim17. Um fato curioso é que a MTC acredita que a essência pré-natal, quando “gasta” jamais pode ser recuperada, e aqueles que a usam em demasia por falta de uma alimentação adequada, excesso de trabalho e de sexo ou sedentarismo, apresentam sinais de envelhecimento precoce dentre outros. Inclusive, acredita-se que os filhos concebidos por pais de idades avançadas possuem menos essência pré-natal, tornando-se sujeitos mais frágeis.
Decerto o gráfico acima parece bem confuso para aqueles que não estão familiarizados com o tema, e creio que não cabe aqui explicá-lo em minúcia, mas o objetivo de expô-lo é para mostrar que quando o Qi não flui da forma acima mostrada,
16 Na China antiga os médicos, talvez por falta de tecnologia necessária, não separavam esses dois órgãos.
17 Cabe relembrar que os órgãos na MTC têm funções bem mais abrangentes e complexas do que concebido na medicina ocidental.
as desordens energéticas irão causar diversos tipos de doenças, tanto físicas, quanto psíquicas e que a acupuntura serve basicamente para desbloquear ou reorientar o Qi para seu fluxo fisiológico.
Como podemos notar, a filosofia taoísta está intimamente ligada à observação e entendimento da natureza e a inter-relação de suas forças. O conceito de mundo relativo do Yin-Yang e dos Cinco Elementos vai se desdobrar numa série de outros princípios, todos intimamente interligados e fundamentais no conceito de saúde e doença na MTC. Como por exemplo:
As Substâncias Vitais18: Qi, Sangue, Fluidos, Essência e Espírito (ou Mente).
Os três aquecedores: superior, médio e inferior.
Os cinco elementos: Madeira, Fogo, Terra, Água e Metal.
Os Fatores Patogênicos Externos: vento, frio, calor, secura, umidade e calor de verão.
Os Fatores Patogênicos Internos: emoções, hábitos de vida, muco, Sangue (Xue), estagnações, entre outros.
A dos órgãos internos: Zang-Fu .
A dos Meridianos e Canais: reguladores, extraordinários, colaterais, musculares, sanguíneos.
A dos Oito princípios de diagnóstico: calor e frio, excesso e deficiência, exterior e interior e o Yin e Yang.
(FREIRE, 1996, p. 9-10)
Para se usar propriamente qualquer metodologia terapêutica baseada na MTC, como é o caso da acupuntura, torna-se necessário dominar com fluência todos os conceitos expostos acima – e tantos outros não citados – e suas respectivas interações. Esses conceitos não encontram correlações satisfatórias no campo da saúde e doença da terapêutica ocidental, o que parece forçar aqueles que adentram nessa área a uma séria revisão paradigmática e conceitual.
18Muitos termos advindos da Medicina Chinesa possuem a mesma grafia de termos em português, todavia como seus significados são geralmente distintos é comum usar a primeira letra maiúscula quando nos referimos aos conceitos chineses. Não é incomum inclusive encontrarmos na literatura diferentes traduções dos termos chineses.
Victor – Realmente demanda uma mudança bem radical da forma como eu entendia a saúde e a doença.
Sophia – Já que o ser humano é visto de uma maneira muito diferente, seus sinais e sintomas, doenças físicas e transtornos mentais ganham uma explicação própria na MTC. Esta percebe o indivíduo como um ser complexo e intimamente relacionado à natureza, tanto objetiva quanto subjetiva. Toda doença é o resultado de um desequilíbrio energético.
6 TIPOLOGIAS E EMOÇÕES NA MTC
Julgamento: Morder e Unir tem sucesso.
É favorável administrar justiça.
Linha Mutável: O pescoço preso à canga de madeira.
As orelhas desaparecem. Não escuta com clareza.
Victor – Você não tem dado sorte com o I Ching. Agora você está com o pescoço preso e suas orelhas desaparecem.
Sophia – O que será que não estamos escutando com clareza?
Raviv – Acho que temos um jogo de forças aqui. É um capítulo difícil de escrever. Por um lado não quero me estender em demasia, por outro corro o risco de acabar sendo superficial demais em um tema muito complexo, mas se morder e unir tem sucesso, temos que administrar esta tensão com justiça. Tentar achar o meio termo, ou seja, passar a ideia sem ser por demais exaustivo em sua explicação.
Sophia – Porém insisto, creio que o I Ching insinua que você não está escutando algo com clareza.
Victor – Como ele pode saber já que não está escutando? Que tal ir desenvolvendo a ideia e no caminho atentamos para aquilo que está silencioso demais?
Raviv – Certo. O aspecto psicológico já era contemplado pela MTC desde os seus primórdios. É claro que não podemos dizer que os antigos entendiam as questões psíquicas e emocionais da mesma forma que nós, filhos do ocidente, as entendemos hoje em dia.
Victor – Na verdade, mesmo hoje em dia não temos consenso sobre estes aspectos.
Raviv– É por isso que quando nos debruçamos na literatura que trata sobre o tema podemos ver algumas distinções nas interpretações dos antigos textos. Todavia, o objetivo aqui não é chegar-se em um consenso, porém, tentar perceber como o pensamento oriental aborda estes conceitos. Como pudemos ver anteriormente, a MTC em sua origem contempla cinco emoções básicas relacionadas a cada um dos Cinco Elementos: a Madeira está relacionada à raiva, o Fogo à alegria/euforia, a Terra à preocupação, o Metal à tristeza e a Água ao medo.
Fogo
Trovão
Raviv– Conforme outros estudiosos foram tentando traduzir19 e desenvolver estes conceitos, eles foram ganhando um escopo mais amplo e deveras interessante.
Victor – Me pergunto como você poderá dar voz a diversas ideias dos mais variados autores.
Raviv –Resolvi me basear no próprio raciocínio da MTC e usar como referência uma base que todos os autores parecem concordar: os Cinco Elementos.
Os cinco elementos têm ainda uma utilidade essencial em acupuntura, que é aquela que interessa ao nosso propósito, pois os cinco elementos servem para classificar os tipos humanos em terrenos, ou constituições. Posto que tudo o que se acha no cosmos se encontra nos seres humanos, a partir do momento em que se pode classificar todos os fenômenos em cinco elementos, pode-se classificar também os seres humanos do mesmo modo.
(REQUENA, 1990, p. 107)
Raviv– Como podemos ver, a MTC divide todos os aspectos do ser humano dentro dos Cinco Elementos e as questões psíquicas não fogem à regra. Inclusive a MTC contempla uma tipologia que caracteriza os seres humanos dentro destes Elementos. Comecemos então a estudar os Elementos a partir de seus aspectos físicos, psíquicos e simbólicos. Sendo importante relembrar que um sujeito pode ser caracterizado por mais de um dos elementos abaixo citados. Sendo assim, irei falar de cada elemento, sua tipologia e características, abordando também o aspecto mental relacionado a cada um deles.
Victor – Então cada tipo de personalidade tem seu próprio aspecto mental?
Raviv – Não. É importante destacar que estes aspectos mentais, por mais que atuem a partir de um Elemento específico, residem em todos os sujeitos não importando a qual Elemento sua personalidade se enquadra. No texto que seguirá, eles serão colocados junto à personalidade de cada Elemento apenas por objetivos didáticos.
19 Traduzir aqui está em destaque para não dar a impressão que se trata apenas de traduzir os termos orientais para o ocidente, mas sim de traduzir conceitos.