O conteúdo a ser abordado neste tópico é o que relaciona a Boa-fé-objetiva como elemento do Contrato, pois esta pressupõe algumas condutas que devem ser respeitadas como elemento principal e cláusulas gerais da relação jurídica. Dentre estas condutas, é necessário destacar que, uma relação jurídica que liga duas pessoas, a estas são atribuídas deveres
205 SIMAO, José Fernando. Direito Civil: contratos. p. 20-21.
206 KÜMPEL, Vitor Frederico. Direito Civil : direito dos contratos. p. 27.
207 SOARES, Renata Domingues Balbino Munhoz. A boa-fé objetiva e o inadimplemento do contrato:
doutrina e jurisprudência. p. 80.
mútuos de condutas, padrões de comportamento e reunião de condições suficientes para ensejar na outra parte no estado de confiança no negócio celebrado208.
Importante destacar que, o princípio da Boa-fé-objetiva é elemento indispensável que incide sobre todas as relações jurídicas na sociedade, e “configura cláusula geral de observância obrigatória, que contém um conceito jurídico, segundo as peculiaridades de cada caso concreto209.
A Boa-fé-objetiva como elemento do Contrato é analisada sob as cláusulas gerais do Contrato e principalmente no que tange a Boa-Fé como cláusula geral das relações obrigacionais, nesta corrente tem-se o seguinte posicionamento da doutrina:
A boa-fé-objetiva serve como elemento do Contrato, como elemento de criação de deveres jurídicos (dever de correção, de cuidado e segurança, de informação de cooperação, de sigilo, de prestar contas) e até como elemento de limitação e ruptura de direitos, que veda a conduta da parte entre em contradição com a conduta anterior, que proíbe comportamentos que violem o princípio da dignidade humana210.
Assim, conclui-se que a Boa-fé-objetiva origina-se como uma cláusula geral do Contrato, e que além dessa cláusula os Contratos ainda são regidos por cláusulas gerais. Nesse aspecto a ordem jurídica, assegura aos indivíduos a faculdade de criar direitos e estabelecer entre si as cláusulas pertinente a obrigação que estes estão vinculados211·
A seguir, destaca-se a Boa-Fé como cláusula geral dos Contratos e as respectivas cláusulas gerais
4.3.1 A Boa-Fé-Objetiva como Cláusula Geral do Contrato
O uso da técnica de cláusula geral aconteceu com grande incidência no atual Código Civil Brasileiro, muito embora estas cláusulas já estivessem presentes no Código de Defesa do Consumidor. Neste paradigma formal a doutrina traz a seguinte observação no que tange a Boa-fé-objetiva como cláusula geral do Contrato:
A Boa-fé-objetiva como cláusula geral do direito é uma norma jurídica que serve para avaliar a conduta, mas não define essa conduta. É norma em
208 ROSENVALD, Nelson: Dignidade humana e boa-fé no Código Civil. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 80
209 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. p. 18
210 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. p. 18-19.
211 LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil. p. 50
branco que atribui ao aplicador a função de estabelecer, caso a caso, qual a conduta devida, isto é, qual o comportamento esperado do cidadão, naquelas circunstâncias e naquela relação. Essa determinação é feita pelo operador à vista do valor que a norma quer proteger212.
Neste sentido, Boa-fé-objetiva esta configurada no artigo 422 do Código Civil Brasileiro. O presente artigo trata que os contratantes estão dentre outras obrigados a guardar os princípios da Probidade e Boa-Fé213.
Como bem foi assinalado acima, a cláusula geral da Boa-fé-objetiva diz respeito aos deveres dos contratantes, nesse aspecto destaca-se o posicionamento de Coelho:
A regra da boa Fé objetiva inserida no artigo 422 do C.C é cláusula geral, porque incide apenas na conclusão e execução dos Contratos, e quando empregada numa interpretação sistemática, comparece como um elemento a mais do repertorio do ordenamento a sistematizar e não como fator de sistematização214.
Com base nesse enquadramento de idéias, verifica-se que em razão da cláusula geral da boa-fé-objetiva, os contratantes devem-se, tanto nas negociações como na execução do Contrato, guardar o mútuo respeito quanto aos direitos da outra parte contratante, caso essas condutas venham a ser desrespeitadas, configurando-se assim, a ausência de Boa-fé-objetiva.
Nesse aspecto o contratante não age de Boa-Fé, ou seja, passa a descumprir uma obrigação imposta pela lei215.
Insere-se aqui, o posicionamento do doutrinador Gonçalves ao tratar da Boa-fé- objetiva como cláusula geral dos Contratos, disciplinada no Código Civil.
Nesse aspecto, Gonçalves216 ressalta, que a “cláusula geral da boa-fé-objetiva é tratada no Código Civil em três dispositivos, sendo de maior repercussão o art. 422, e os demais são os arts. 113 e o 187217. Os respectivos artigos, mencionados acima dispõem matéria comum em seus textos, que assim dispõe:
Art. 422 - Os contratantes são obrigados guardar, assim na conclusão do Contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.
212 SOARES, Renata Domingues Balbino Munhoz. A boa-fé objetiva e o inadimplemento do contrato:
doutrina e jurisprudência. p. 87.
213 ROSENVALD, Nelson: Dignidade humana e boa-fé no Código Civil. p. 98.
214 COELHO, Fábio Ulhoa.Curso de Direito Civil. p 31.
215 COELHO, Fábio Ulhoa.Curso de Direito Civil. p. 34.
216 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil brasileiro: parte geral. p. 36
217 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 20 jul. 2009
Art. 113 - Os negócios devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar e de sua celebração.
Art. 187 - Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê- lo, excede manifestamente os limites impostos pelo fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
Consoante, fazer algumas observações a respeito dos referidos artigos, inicialmente o art. 422 dilata a causa em favor de ambos os contratantes, pois esta cláusula geral incide mesmo antes e após a execução do Contrato, isto é nas fases pré e pós- contratual, e tudo mais quem resulte de natureza do Contrato218.
Já o art. 113 esclarece que os comportamentos das partes e o cumprimento de seus deveres devem ser pautados na ética, mesmo após a extinção contratual219.
E por fim o art.187 aplica a função da Boa-fé-objetiva com aplicabilidade para a correção de abusos no que diz respeito a um ato ilícito, a Boa-Fé atua neste campo como limite aos exercícios e interesses da relação contratual220.
Nessa corrente doutrinaria, exalta-se o entendimento da doutrina Diniz, com o seguinte pensamento:
A vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) funda-se na proteção da confiança, tal como se extrai dos artigos 187 e 422 do novo Código Civil, ressaltando, que em virtude do princípio da boa-fé, positivado no art. 422 do Código Civil, a violação dos deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente de culpa221.
Versando sobre a cláusula geral contida no art. 422 do Código Civil, ressalta-se a lição de Diniz, que assim ensina:
Impõe ao juiz interpretar e quando, necessário, suprir e corrigir o Contrato, segundo o Princípio da Boa-fé-objetiva, entendida como exigência de comportamento leal aos contratantes, incompatível com a conduta abusiva.
Tendo por objetivo gerar, na obrigacional a confiança necessária e o equilíbrio das prestações e da distribuição de risco e encargos, ante a proibição do enriquecimento ilícito e sem causa222.
218 DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 14. ed. ver. atual. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 365-366.
219 DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. p. 365-366.
220 ROSENVALD, Nelson: Dignidade humana e boa-fé no Código Civil. p. 101-102.
221 DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. p. 365-366.
222 DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. p. 365-366
Para finalizar este tópico, destaca-se que a positivação do princípio da Boa-fé-objetiva como cláusula geral no código civil Brasileiro, certamente muito contribuiu para as relações obrigacionais, em face dos Contratos223.
E, ainda o Princípio da Boa-fé-objetiva e o Princípio da Probidade, são os princípios alusivos a um padrão comportamental a ser seguido pelos contratantes baseado na lealdade e na Probidade, ou seja, em caráter integridade, que proíbe assim, o comportamento contraditório224.
4.3.2. Cláusulas Gerais dos Contratos
As cláusula gerais do Contrato, cuida-se de normas que não prescrevem uma certa conduta mas, simplesmente, definem valores e parâmetros hermenêuticos, ou seja, elas servem como ponto de referência interpretativo, e põe limites para a aplicação de demais disposições normativas, possibilitando também a evolução do pensamento e do comportamento social com segurança jurídica225.
Neste norte, colaciona-se o entendimento de Coelho sobre a Cláusula geral do Contrato, que assim se manifesta:
As cláusulas gerais são normas jurídicas vazadas em um ou mais conceitos vagos destinados a deixar em aberto a questão dos exatos contornos do seu âmbito de incidência. O elaborador da norma, diante da alta complexidade do fato a regular, intencionalmente emprega expressão dotada de vagueza, de modo que o juiz possa nortear-se mais confortavelmente por ela na solução dos conflitos de interesses. Trata-se, portanto, de uma técnica legislativa. À cláusula geral se contrapõe a norma casuística, em que não se empregam conceitos propositadamente vagos.226.
Prossegue o autor:
Se uma norma estabelecesse, por exemplo, que “o devedor inadimplente deve pagar juros a título de consectários”, ela adotaria a técnica casuística;
mas, se estatuísse que “o emprego pelo empresário de meios imorais na captação de clientela configura concorrência desleal” a técnica usada seria a da cláusula geral227.
223 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. p. 19.
224 DINIZ, Maria helena. Código Civil anotado. p. 365-366.
225 ROSENVALD, Nelson: Dignidade humana e boa-fé no Código Civil. p. 80
226 COELHO, Fábio Ulhoa.Curso de Direito Civil. p. 30-31.
227 COELHO, Fábio Ulhoa.Curso de Direito Civil. p. 30.
No tocante à Boa-fé-objetiva, tem-se uma cláusula geral que consubstancia um princípio, como dito no tópico anterior da presente pesquisa. Assim sendo, existem várias cláusulas gerais que contêm regras que norteiam e disciplinam o Contrato228.
Veja-se, que as cláusulas gerais não são princípios, há uma diferença significativa entre esses dois tipos de normas jurídicas, neste sentido destaca-se o seguinte entendimento doutrinário:
A diferenciação entre princípio e cláusula geral é importante porque a interpretação desta última não pode contrariar o primeiro. Há, por assim dizer, uma hierarquia que privilegia o Principio sobre a cláusula geral – a mesma hierarquia que o destaca relativamente à norma jurídica de qualquer outro tipo. A cláusula geral, como qualquer outra norma de âmbito especifico deve ser harmonizada com os princípios o direito.229
Para finalizar, este assunto, entende-se que a aplicação de cláusula geral no direito contratual, deve-se antes de tudo sempre respeitar aos princípios que regem a relação contratual e os princípios gerais de direito.
Nesse âmbito, importante dizer que no direito contratual brasileiro, existe apenas duas cláusulas gerais, quais sejam, o Princípio da Boa Objetiva e a função social do Contrato.