4 A BOA-FÉ-OBJETIVA ENQUANTO PRINCÍPIOS DOS CONTRATOS
Neste capítulo, procura-se abordar sobre o princípio da boa-fé-objetiva e, para tanto se destacam-se os aspectos principais como conceito, sua função e a sua aplicabilidade na Teoria Geral dos Contratos regulamentado pelo Código Civil.
A boa-fé-objetiva é uma matéria extremamente importante ao Direito Civil, principalmente no tocante a Teoria dos Contratos, pois a boa-fé-objetiva é equiparada com as normas de conduta, que determinam como o sujeito deve agir. A aplicabilidade da boa-fé- objetiva na relação contratual é uma forma de proteção para as partes contratantes, visto que ela presume a lealdade, e a boa intenção no negócio jurídico192
objetiva possui dois sentidos diferentes: um sentido negativo e um positivo.
O primeiro diz respeito à obrigação de lealdade, isto é, de impedir a ocorrência de comportamentos desleais; o segundo, diz respeito à obrigação de cooperação entre os contratantes, para que seja cumprido o objeto do Contrato de forma adequada, com todas as informações necessárias ao seu bom desempenho e conhecimento, como se exige, principalmente, nas relações de consumo194.
A Boa-fé-objetiva pode ser definida, na esfera jurídica, como comportamento inspirado no senso da probidade, quer no exercício leal e não caviloso dos direitos e das obrigações que dele derivam, que no modo de fazê-los valer e de observá-los, respeitando em qualquer caso o escopo visado pelo ato jurídico, a harmonia dos interesses das partes e as exigências do bem comum195.
A respeito deste tema, evoca-se a lição de Lisboa que assim se manifesta:
O princípio da boa-fé evoluiu sobremaneira que passou a importar o aspecto moral da obrigação contratual, impondo-se à parte uma conduta leal e proba para o cumprimento das obrigações no tempo modo e local convencionados.
A Boa-fé-objetiva é aferida mediante a análise do cumprimento, ou não, dos deveres decorrentes das obrigações principais assumidas pelos contratantes196.
Discorrendo ainda sobre a Boa-fé-objetiva se tem a concepção proposta por Sampaio, que assinala:
O princípio da Boa-fé-objetiva vem a impedir que um dos contratantes, mantendo comportamento inadequado, venha desequilibrar a relação contratual, escudando-se na própria literalidade do dispositivo contratual, em detrimento do outro. Invocando-se esse princípio, por exemplo torna-se possível afastar, nos Contratos de seguro saúde, comportamento adotado pela seguradora tendente a excluir de cobertura doenças, acobertando-se para tal, em cláusulas contratuais de conteúdo aberto197.
Interessante, aliás, destacar o seguinte conceito de Boa-fé-objetiva, no que tange esse Princípio no campo das obrigações contratuais:
A incidência da Boa-fé-objetiva no campo contratual é particularmente importante e interessa não apenas para a fase de conclusão e execução do negócio, como também para os períodos antecedente e posterior. Na
194 SOARES, Renata Domingues Balbino Munhoz. A boa-fé objetiva e o inadimplemento do contrato:
doutrina e jurisprudência. p. 83.
195 BIERWAGEM, Mônica Yoshizato. Princípios e Regras de interpretação dos contratos no novo Código Civil. p. 77.
196 LISBOA, Roberto Senise. Manual de Direito Civil. p. 50.
197 SAMPAIO, Rogério Marrone de Castro. Direito Civil: contratos. p. 29.
chamada fase pré-contratual, o Principio da Boa-Fé impõem aos negociantes, por exemplo, o dever de prestar informações verídicas e, igualmente importante, de respeitar a confiança despertada por sua conduta nos potenciais contratantes. No momento da conclusão do Contrato, a Boa-Fé serve para integrar o conteúdo do negócio nos pontos lacunosos e para vedar a inserção de cláusulas que violem o princípio198..
Seguindo ainda sobre o conceito de Boa-fé-objetiva, Gonçalves em sua doutrina destaca que:
A Boa-fé-objetiva enseja, também, a caracterização de inadimplemento mesmo quando não haja mora ou inadimplemento absoluto do Contrato. É o que a doutrina moderna denomina violação positiva da obrigação ou do Contrato. Desse modo, quando o contratante deixa de cumprir alguns deveres anexos, por exemplo, esse comportamento ofende a Boa-fé-objetiva e, por isso caracteriza inadimplemento do Contrato199.
Cumpre notar, no entanto, os ensinamentos de Loureiro sobre o respeito e a personalidade que tem que ter um para com o outro:
A Boa-Fé agrega uma exigência ético-social que é, ao mesmo tempo, de respeito à personalidade alheia e de colaboração com os demais . Portanto a Boa-Fé está na ordem do dia. Pode ser invocada em diversas situações, por se tratar de um conceito leve e amplo. Pode-se, portanto, vinculá-lo a toda regra destinada a sancionar um comportamento repreensível ou anormal.
Assim, a regulamentação das cláusulas abusivas pode ser considerada como oriunda da idéia de Boa-Fé, uma vez que aquele que impõe tais normas não age com Boa-Fé. Pode-se ainda sustentar, de forma mais convincente, que a anulação do Contrato por dolo, vício do consentimento, é a sanção de um dever de lealdade200
Gomes destaca que a “Boa-fé-objetiva é aplicável a toda e qualquer relação contratual, independentemente da existência de debilidade ou hipossuficiência por parte de um dos contratantes ou do desequilíbrio entre os pólos da relação201”.
Interessante, aliás, as observações de Pereira:
A Boa-fé-objetiva não diz respeito ao estado mental subjetivo do agente, mas sim ao seu comportamento em determinada relação jurídica de cooperação. O seu conteúdo consiste em um padrão de conduta, variando as suas exigências de acordo com o tipo de relação existente entre as partes. A Boa-fé-objetiva não cria apenas deveres negativos, ela também cria deveres positivos, já que exige que as partes tudo façam para que o Contrato seja
198 ZANETTI, Cristiano de Souza. Direito Civil: direito dos contratos. p. 68-69.
199 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil brasileiro: parte geral. p. 38.
200 LOUREIRO, Luiz Guilherme. Teoria geral dos contratos em espécie. p. 78-79.
201 GOMES, Orlando. Contratos. p. 45.
cumprido conforme previsto e para que ambas obtenham o proveito objetivado. O agente deve fazer o que estiver ao seu alcance para colaborar para que a outra parte obtenha o resultado previsto no Contrato, ainda que as partes assim não tenha que sacrificar interesses legítimos próprios. A Boa-fé- objetiva serve como elemento interpretativo do Contrato, como elemento de criação de deveres jurídicos, dever de correção, de cuidado e segurança, de informação, de cooperação, de sigilo, de prestar contas e até como de limitação e ruptura de direitos202.
Diante, do que foi apresentado sobre o conceito Princípio da Boa-fé-objetiva, entende-se que tal princípio requer a honestidade dos contratantes no procedimento e cumprimento das obrigações contratuais.
A seguir, conceituar-se-á a Boa-Fé Subjetiva, que busca-se esclarecer e estabelecer as diferenças entre o Princípio da Boa-fé-objetiva.