orixás, a arrebentar e a engolir seus fios de conta a mando de homens armados que falavam em nome de Jesus:
“Quebra tudo, quebra tudo! Apaga as velas, porque o sangue de Jesus tem poder!
Arrebenta as guias todas! Todo o mal tem que ser desfeito, em nome de Jesus! Quebra tudo porque a senhora é quem é o "demônio-chefe"! É a senhora quem patrocina essa cachorrada! Quebra tudo! Arrebenta as guias todas, derrama, quero que quebre as guias todas! ”50
Pessoas que professam uma fé e uma prática fora ortodoxia cristã, com formas antigas de medicina, utilizando ervas e plantas, curandeiras, benzedeiras, mães e pais de santo, estão novamente sendo acusadas(os) e penalizadas(os) por “bruxaria”. A grande perseguição contra a feitiçaria e a bruxaria nos séculos XVI-XVII na Europa e em suas colônias não é algo que está em um passado distante. A criminalização da cultura negra, afro-pindorâmica, acompanha toda a história do Brasil, e a gramática do período colonial tem sido avivada e reinventada para atacar e castigar essas populações. O neopentecostalismo é antropofágico em todos os sentidos, não só na apropriação das devoções populares e de parte da ritualística das comunidades de terreiro, negando-as e demonizando-as, ao passo em que, conferindo-lhe nova estética – uma roupagem cristã –, as reproduz, mas também em toda gramática violenta e ofensiva do catolicismo, em sua face mais repressora. Ainda em 2017, um pai de santo, homossexual, no Centro-Oeste do país, é encontrado empalado, com o corpo completamente ensanguentado, assassinado, na frente do seu espaço sagrado. Ainda que existam muitas variações nas denominações e nas condutas (neo)pentencostais, na atualidade, e que a cristandade seja igualmente diversa, com disputas e contendas internas, fica a pergunta: o que há séculos tem-se feito em nome de Deus no Brasil?
As fontes históricas apontam o ano de 1910 como marco do início de uma nova proposta de evangelização no Brasil, quando, na cidade de Belém do Pará, é edificada a primeira igreja do seguimento, pelos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, chamada, a princípio, de Missão da Fé Apostólica, e, posteriormente, denominada de Assembleia de Deus, hoje a maior igreja evangélica do país, com mais de 22 milhões de membros. Os dois conheceram o pentecostalismo nos Estados Unidos no início do século XX e, convictos da nova fé, resolveram expandir o culto no Brasil. No mesmo período, na região Sul do país, a Congregação Cristã, edificada pelo italiano Luigi Francescon, pioneiro do movimento pentecostal italiano, começava a ganhar contornos e alcances geográficos. Dito isso, é preciso compreender as bases culturais que forjaram o nascimento do pentecostalismo no mundo.
Fundado por John Wesley, no século XIX, o pentecostalismo é o movimento evangélico que mais influencia as manifestações de religiosidade em várias partes do planeta. A vertente surgiu dentro da Igreja metodista, com o chamado Holiness Movement51 (o movimento de santidade), que defendia a conversão como etapa imprescindível para a salvação, por meio de uma nova e profunda experiência religiosa: o batismo no Espírito Santo. Seguindo à risca as interpretações de alguns trechos dos Atos dos Apóstolos (2, 1-12; 10, 44-48; 19,17), eles acreditavam que os sinais característicos por ter recebido o Espírito Santo eram visíveis exteriormente, como o dom de falar em línguas e, posteriormente, o dom da cura das doenças.
Por intermédio da fé, pelo poder do Espírito Santo, é possível, nesta doutrina, ser totalmente regenerado e purificado dos pecados humanos.
O movimento religioso ganhou maiores proporções em 1906, com o reavivamento da Rua Azusa, localizada na cidade de Los Angeles, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.
Liderado pelo pastor afro-americano William Joseph Seymour, a manifestação é caracterizada, principalmente, pelo batismo com o Espírito Santo, por curas milagrosas, por profecias, por experiências com interpretação de línguas e pelo discernimento de espíritos. Seymour, que era filho de ex- escravizados, foi criado na tradição religiosa da Igreja Batista. Ainda jovem, mudou-se para Houston, onde passou a frequentar a recém-formada escola bíblica de Charles Fox Parham, em 1905. Contudo, por ser negro, foi proibido de participar das aulas junto com os alunos brancos e por isso assistia a tudo no corredor, do lado de fora da sala. Lá aprendeu as doutrinas do Movimento Holiness e desenvolveu a crença na glossolalia (mais conhecida como o dom falar em línguas), como prova do batismo com o Espírito Santo. A experiência religiosa
51 O Movimento Holiness ou Movimento de Santidade ensina que a natureza carnal da humanidade pode ser purificada por meio da fé e pelo poder do Espírito Santo.
de Seymour não foi muito bem recebida pelos setores conservadores do protestantismo tradicional, que consideravam o comportamento escandaloso para a época.
Em 1906, em Los Angeles, ele começou a dar início à sua “obra” e edificou a primeira igreja pentecostal dos Estados Unidos, que destoava das igrejas protestantes tradicionais por unir ritmos, sons e uma forma de comunicação com o sagrado que não se engessava na rigidez do corpo. Rapidamente, a reunião de avivamento52 na Rua Azusa começou a ganhar projeções inimagináveis, até mesmo nos meios de comunicação, e pessoas de todos os lugares do mundo peregrinaram para a Califórnia, a partir desse episódio, para conhecer o movimento.
John W. Robbins, que é cientista político e membro da Sociedade Teológica Evangélica dos Estados Unidos, nos diz que
ao fim do século XIX, muitos dentre o movimento de santidade começaram a falar e a buscar o “batismo de fogo”. Um ramo do movimento de santidade foi chamado de
“Igreja Holiness do Batismo com Fogo” (originada em Iowa em 1895 e dirigida por Benjamin Irwin). Quem recebia “o fogo” frequentemente poderia gritar, berrar, cair em transes, ou falar enrolado. Este “batismo de fogo” foi considerado como uma visitação milagrosa do Espírito que seguia à inteira santificação. Os mestres mais conservadores do movimento de santidade rejeitaram essa “terceira” benção de fogo, por considerarem a mesma coisa que a segunda benção e o batismo especial do Espírito. (ROBBINS, 2005, n. p.).
Em pouco tempo, grupos semelhantes ao avivamento da Rua Azusa foram surgindo nos mais diversos lugares dos Estados Unidos e, paralelamente, o grupo Missão da Fé Apostólica da Rua Azusa começou a ter uma singular importância pelo seu nível de organização e inter- relação com os múltiplos movimentos de avivamento no Espírito Santo do país, marcando o início do processo missionário para outros países.
No Brasil, o surgimento do pentecostalismo é dividido, pela historiografia, em três grandes ondas. A primeira, em 1909, com a entrada do missionário italiano Louis Francescon, na colônia chamada de Pequena Itália, em São Paulo, e com a entrada dos suecos Gunnar Virgren e Daniel Berg no estado do Pará, em 1910, como já mencionado. Chamado também de pentecostalismo clássico, esse primeiro momento abrange o período de 1910 a 1950 e é marcado pela sua fundação no país, com o estabelecimento das igrejas Congregação Cristã no Brasil e da Assembleia de Deus. Desde as suas formações, ambas as igrejas pentecostais são, marcadamente, caracterizadas pelo anticatolicismo, pela forte ênfase na crença no Espírito
52 Avivamento vem da simbologia de tornar desperto, vivo, ativo, intenso e disposto. Refere-se, dentro do pentecostalismo, a um momento de renovação espiritual, que é visivelmente sentida na experiência do corpo, de forma multissensorial. É um reforço vivido/sentido/confirmado da fé em Deus pelos cristãos, uma bênção disponível para as pessoas que creem fervorosamente no Divino Espírito Santo. É, geralmente, coletivo, festivo e alegre, marcado por orações, sacrifícios, louvores, danças, manifestações de transes ou glossolalia, discursos fervorosos e/ou outras ações que demonstrem abertura, conexão e dedicação a Deus.
Santo, por um sectarismo radical e por um ascetismo que rejeita os valores do mundo e defende a plenitude da vida moral.
A chamada segunda onda, com início na década de 1950, é marcada pela chegada a São Paulo dos missionários norte-americanos, ex-atores, Harold Williams e Raymond Boatright, da International Church of The Foursquare Gospel. Assim que chegaram à capital paulista, criaram a Cruzada Nacional de Evangelização, que tinha por objetivo promover a evangelização das massas populares. A Cruzada, que usou os meios de comunicação (as rádios) como uma nova proposta de evangelização, contribuiu, significativamente, para a expansão do pentecostalismo no Brasil, levando milhares de pessoas para cultos lotados em teatros, em centros esportivos e em estádios. No mesmo período, foram fundadas a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Brasil para Cristo, a Igreja Pentecostal Deus é Amor, a Igreja Casa da Bênção e a Igreja Unida.
Já a terceira onda, que é chamada de neopentecostal, tem início na segunda metade dos anos 1970, com a fundação, por brasileiros, da Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977). Depois vieram a Renascer em Cristo (São Paulo, 1986) e a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992). O proselitismo nesse momento foi marcado pela intensa utilização da mídia eletrônica e pela aplicação de técnicas de administração empresarial, com uso de marketing, de planejamento estatístico, de análise de resultados etc. Uma outra forte característica das igrejas neopentecostais é a intensa pregação da Teologia da Prosperidade (TP). Surgida no século XIX, nos Estados Unidos, ela tem como base a crença de que a fé estaria fortemente relacionada à doação financeira. A partir desse sacrifício, em forma de dízimo, o indivíduo estaria diante da frutificação da sua própria prosperidade (LEMOS, 2017).
Dessa forma,
a Teologia da Prosperidade pregada por Macedo e seus pastores relacionam-se de maneira específica com o sistema socioeconômico de consumismo existente nos dias de hoje. A pregação é voltada para o consumo, para ter bens materiais e riquezas (DO CARMO, 2016, p. 137).
O neopentecostalismo pode ser considerado um dos fenômenos mais emblemáticos na história cristã do século XX, no Brasil. Sua dinâmica de organização, de polarização cultural e de crescimento vertiginoso marcam não apenas uma nova concepção de mundo, mas uma ideia de quem deve ou não deve viver e professar a sua fé na sociedade.