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A Clínica Crítica

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 113-117)

É preciso esclarecer — mais amiúde — a perspectiva clínica a que me proponho neste trabalho. Se estamos trabalhando na área da saúde e educação, na promoção e expansão da vida, é preciso levar em consideração que, historicamente, a Psicologia em nosso país, como disciplina e profissão, evidenciou um predomínio do setor privado em detrimento do setor público. A noção de clínica social, por exemplo, começou a aparecer segundo Romagnoli (2014) na década de oitenta onde ocorrem concursos na área pública de nossa profissão, que no Brasil, nasceu marcada como uma atividade liberal. Historicamente, a Psicologia fundou- se no país a partir das áreas da clínica e da educação. Floresceu junto às classes mais favorecidas, relacionada ao modelo médico tradicional. As intervenções clínicas, nesse contexto, são realizadas em consultórios particulares, para a elite, versando em torno da cura.

De acordo com Romagnoli (2014, p. 7) “ainda somos formados dominantemente, dentro de uma proposta de clínica tradicional, dentro de uma formação clássica, o que nos deixa sem ferramentas teóricas, técnicas e críticas para atuarmos no SUS.”. E eu diria também, para atuarmos em ambientes comunitários. “Com a abertura política, em 1984, iniciam-se em nosso país questionamentos dessa postura, que confrontam essa ideia dominante de clínica.

Entretanto, é preciso frisar que essa ainda é a formação que os psicólogos recebem na graduação” (ROMAGNOLI, 2014, p.7). Quando Romagnoli pontua, que ainda somos formados dentro de uma proposta de clínica tradicional, cabe então perguntar o que seriam, a clínica tradicional, o exercício e os efeitos de outras práticas e propostas clínicas (não tradicionais), capazes de atuar e se instrumentalizar no campo social, rompendo com as clássicas dicotomias, sujeito/objeto, público/privado, indivíduo/sociedade etc.

No ano de 2009 lecionei a disciplina Teoria e Fundamentos Psicológicos III no curso de graduação em Psicologia da UERJ, para alunos do 5° período. Essa disciplina tinha o objetivo de oferecer conhecimentos básicos da teoria e prática clínica psicanalítica. Era a primeira disciplina, durante o curso, onde seria, efetivamente, apresentada a psicanálise. Ao olhar a ementa da disciplina, fiquei preocupada, pois se pautava, do princípio ao fim, em conceitos lacanianos. Indaguei: como assim? como apresentar a psicanálise lacaniana para alunos que ainda não conhecem sequer o pensamento e contexto histórico freudiano? como saltar/queimar, dessa maneira, etapas na compreensão desses conceitos? e mais: como a partir da trama teórica da metapsicologia freudiana, discutir convergências e divergências de outras

perspectivas (derivas..) psicanalíticas e psicológicas (não tradicionais...), à luz de outros olhares na contemporaneidade?... No primeiro dia de aula, ouvindo os alunos, a fala deles me

“desconsertou” (ou mais ainda, me preocupou...): “olha, estamos traumatizados, pois numa disciplina anterior, cuja proposta não era estudar psicanálise, a professora falou do início ao fim sobre Lacan, e não entendíamos absolutamente nada, ela entrava naquela viagem sozinha e nós ficávamos completamente ‘boiando’, à parte.”

O desafio desse trabalho docente foi-me extremamente produtivo e inquietante;

primeiro porque, necessitei debruçar-me cuidadosamente sobre os textos da metapsicologia freudiana; recorrendo inclusive, a supervisões, para que pudesse “saldar minha dívida com Freud”, em outros termos, a atividade docente exigiu-me um aprofundamento teórico da trama conceitual71 concebida por Freud à época de sua elaboração; inquietante porque ao transmitir esse conhecimento não pude fazê-lo sem uma apresentação histórico/crítica de outras correntes psicanalíticas; outras psicanálises que divergiram de certos conceitos do grande mestre, abrindo assim, com os alunos, um espaço crítico de reflexão, para forçar o pensamento a outros possíveis. Ao final da disciplina, foi gratificante o retorno e a produção de discussões que os alunos manifestaram em relação às questões apresentadas e discutidas no geral, durante as aulas. Uma das falas que me afetou positivamente — no sentido em que pude perceber minha contribuição —, foi: “aprendemos que a psicanálise, como concebida desde sua origem pelo próprio Freud, é uma teoria que sempre esteve em construção e não um sistema teórico fechado em si mesmo.” Essa proposta de discutir conceitos a partir de uma análise crítica dos contextos históricos de cada perspectiva psicológica e/ou psicanalítica, parece-me essencial na contemporaneidade, para que possamos avançar no terreno ainda insólito e movediço de propostas de novas práticas clínicas, que rompem com a fronteira individual/coletivo; abarcando o diálogo tão necessário com as outras disciplinas. Falo aqui da minha experiência docente com a psicanálise, mas me refiro também às práticas psi que ainda reificam uma posição intimista da subjetividade, apartada de múltiplos referenciais políticos, culturais, sociais e ético-estéticos. É aqui que o exercício da transdisciplinaridade nos desafia e nos convida a ir além de um modelo clínico tradicional, e nos fazer sair da zona de conforto de nossas certezas, para o campo da indeterminação, das incertezas como matéria de produção do conhecimento; que desliza sempre por “entre”, por aquilo que vamos experimentando e

71 Recorri à supervisões da psicanalista Miriam Oliveira Mariano, que havia sido minha professora na graduação de Psicologia na Universidade Católica de Petrópolis (UCP), ministrando exatamente essa disciplina. Suas aulas, bastante didáticas, envolviam os alunos deixando-os interessados e motivados na compreensão da teoria psicanalítica. Nas supervisões discutíamos como apresentar aos alunos certos conceitos relacionando-os ao contexto histórico freudiano e a contemporaneidade.

construindo em aliança com outros saberes/fazeres. Um espaço “trans” de estudo e aplicação, me parece bastante atual para a invenção de novas práticas psi no contemporâneo.

A transversalidade, de acordo com Passos & Benevides de Barros (2000), se sustenta em uma não separação da Psicologia em áreas e nem polarizações antagônicas, se desvencilhando dos especialismos e das dicotomias. Para que esse espaço “trans” se efetue, é preciso que cada teoria, cada prática, perca sua identidade. E que, nesse processo, seja criada uma zona de indeterminação entre elas, em que as fronteiras disciplinares se dissipem, para ocorrer algo no “entre”. Dessa maneira, podemos afirmar que essa zona de indeterminação é oriunda da desestabilização das

“certezas” de cada disciplina, necessitando ainda de uma relação de intercessão com outros saberes/poderes/disciplinas. Logo, essa perspectiva implica em uma diluição da relação sujeito-objeto, em um redirecionamento da relação teoria-prática, e insiste nas subjetividades em processo, no caráter de criação da intervenção.

(ROMAGNOLI, 2014, p. 8, grifos meus).

Pensar nossas práticas no “entre” as disciplinas, na costura singular de contextos que vão se desenhando em cartografias, potencializa um fazer/saber distanciado dos

“especialismos” que tanto psicologizam e normatizam procedimentos como “certos e inquestionáveis”. Essa reflexão se faz sumamente válida para intervir em ambientes comunitários que, como vimos no capítulo anterior, estão fortemente marcados por estigmas e preconceitos que, limitam por muitas vezes, a compreensão desses espaços — dada a sua complexidade.

Ferreira Neto (2014) tece uma discussão interessante a respeito da transversalidade na clínica, ele aponta os Programas de Saúde Mental, no bojo da Reforma Sanitária, como sendo um setor vital que colaborou nessa reorientação das práticas psi, que desde os anos 1980 contrataram um contingente de psicólogos para atuação ambulatorial na Saúde Pública, tal como Romagnoli (2014) indicou à década de oitenta onde ocorreram concursos na área pública da Psicologia. Mas a passagem de uma “clínica clássica” para as atuais “práticas emergentes” não garantiu, segundo o autor, uma evolução sócio-política das mesmas, pois encontramos tanto a simples adaptação flexível para o alcance de novos mercados (a classe popular), quanto o desenvolvimento de atuações, de fato inovadoras, favorecendo a autonomia dos sujeitos e coletividades. Aqui uma das expressões frequentemente utilizadas para designar as diferentes tentativas de articulação entre clínica e política é a da clínica ampliada, que visa superar a clínica tradicional e a dissociação entre reabilitação psicossocial de um, e clínica de outro. Para isso existe uma redefinição do objeto, do objetivo, e dos meios de trabalho de assistência individual, familiar e de grupos.

Se a clínica clássica afirmava sua suposta homogeneidade de composição dos elementos que a formavam com a definição de um setting e enquadre, procurando a produção

de um espaço e temporalidade autônomos em relação à vida social, econômica, política, cultural, etc. Em contrapartida, a clínica de saúde desenvolvida na saúde mental, como menciona Ferreira Neto (2014), é composta de elementos heterogêneos. É aqui que o conceito de transversalidade ajuda a perceber uma mudança nessa direção. Guattari (1981) define a transversalidade como o aumento da comunicação entre diferentes níveis e sentidos das múltiplas forças que atravessam e compõem os processos. O “coeficiente de transversalidade”

retrata o grau de percepção e atuação institucional das múltiplas dimensões que atravessam e produzem os processos de subjetivação (retornaremos a esse conceito adiante nos platôs musicais).

A proposta de nossa prática se insere nesse campo “trans” de atuação, e tem na potência da linguagem e criação musical, o diálogo com outras fontes; seu alinhamento possível com alguns conceitos da psicanálise, da filosofia, da literatura e da educação. A palavra clínica, do latim: klinamem, quer dizer inclinação, deriva ou desvio de um ponto de direção estabelecido. Nesse sentido, a clínica como crítica e política; se faz não por limites epistemológicos, mas em sua dimensão de deriva, processualidade, criação, intervenção.

(NEVES; JOSEPHSON, 2002), ou eu diria, “interinvenção”. Cabe aqui o convite feito por Ewald:

Você quer fazer Psicologia? ...aprenda a história, percorra as grandes formações da história universal..., espolie a biblioteca do arqueólogo, do etnólogo, do economista, empanturre -se de literatura e de arte, estão aí as disciplinas do desejo, as disciplinas que relatam no seu conjunto e na diversidade, as produções do desejo (EWALD apud NEVES; JOSEPHSON, 2002, p.90).

A primeira vez que ouvi essa citação, concordei imediatamente com as observações do autor; as disciplinas do desejo precisam ser a fonte de nossas inclinações! Este trabalho, pois, situa-se no âmbito das produções do desejo, que tem a clínica como crítica, ou seja, campo eminentemente político; crítico, pois questiona os saberes e práticas em sua constituição, não os referindo mais a um sujeito transcendental, mas, apontando seus pontos de emergência, as lutas que lhes deram origem — sua genealogia. São nessas lutas que encontramos o que ficou à deriva, podendo compor positivamente na compreensão/expansão das forças que encontramos em campo — exercício diário de uma prática aberta a muitas vozes. O diálogo constante com os jovens, a comunidade, e a instituição, inaugura uma polifonia frutífera/desejante, onde os conceitos são atraídos como na série harmônica — explicada anteriormente —, aqueles que mais se afinam com a proposta e os efeitos de nossa prática serão os que ganharão, de fato, solo e consistência nesse plano, que estamos permanentemente

construindo. Mas, não pretendemos formar nenhum modelo de clínica a priori — nesse terreno, entendemos que não há modelos; se denomino (e provisoriamente...) a prática desenvolvida com os jovens de micropolítica musical e/ou de clínica compositora, é tão somente para interligá-la à criação na linguagem musical, fugindo à lógica de uma clínica respaldada apenas no uso da palavra, ou seja, da linguagem da representação verbal. Mas, outros tantos nomes poderiam ser suscitados..., no território critico dessa clínica política há experimentações provisórias, e são por elas que nos interessamos; o que pode funcionar e traçar uma linha transversal, potencializar um movimento, uma mudança a disparar outros devires...

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 113-117)