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“Vamos tocar”: esta é uma das traduções possíveis dessa expressão em inglês utilizada por Torquato Neto em seu poema-canção. Talvez também, no contexto desta tese, possamos

traduzi-la como “vamos jogar e/ou brincar”. Jogo de criança é coisa seríssima... — já o sabemos —, e talvez eu faça esta alusão aqui por intenção e desejo de evocar o “espírito criativo”. O físico e filósofo da teoria quântica David Bohm (2011) nos traz a ideia de que o espírito criativo é aquele cujo interesse no que está sendo feito é total e sincero — como o de uma criança. É com esse espírito que podemos apreender o novo, que a percepção sutil do real é capaz de discernir diferenças e semelhanças, novas correlações e percepções de problemas.

Falo do tema desta pesquisa que desenvolvo, iniciada no mestrado, e agora desdobrando-se em novas facetas no doutorado. Para isso gostaria muito que esta tese fosse escrita em devir.

Há tempos, desde a pesquisa iniciada no mestrado, que venho procurando escrever assim, mesmo não sabendo exatamente, na época, tratar-se de uma escrituradevir.

A escrita em devir, como diz Armony (2010), se faz na conjunção paradoxal simultânea de árvore, raiz e rizoma, é um embarcar-se nas ondulações das palavras, na percussão de seus ritmos, na textura volumosa e/ou sutil das sonoridades, no fluxo de movimentos diversos, surfando nas ondas de marés altas e baixas dos acontecimentos. Escrita que se faz no caldeirão de conceitos, afectos e perceptos23, num movimento contínuo, que implica circulação e produção de intensidades no corpomente da autora. Escrita que se compõe com a expressividade mais do que a representação, com a possibilidade de diluição da metanarrativa e da metalinguagem universal, lógica que nos permite trabalhar com paradoxos e que, neste primeiro capítulo, nos cairá muito bem, já que se pretende discutir as relações entre ordem/desordem, disciplina/indisciplina. Por isso essa escrita se permite desvios e uma não linearidade prescrita, desvios que seguem uma determinada ordem implícita (que abordaremos adiante), subjacente, intuída, entendendo que o sentido da Harmonia extraído da linguagem musical está em sua vocação máxima de pôr em consonância a diversidade dos contrários.

Escrita intuitiva, entendendo que a intuição também se apresenta como um caminho, um meio que, não se restringindo à mera razão instrumental, determina regras elaboradas e, nisso, Gilles Deleuze (2012) nos dá o excelente exemplo da intuição como o método do

23 “(…) o conceito é o que impede que o pensamento seja uma simples opinião, um conselho, uma discussão, uma tagarelice. Todo conceito é forçosamente um paradoxo. (...) o conceito, creio eu, comporta duas outras dimensões, as do percepto e do afecto. (…). Os perceptos não são percepções, são pacotes de sensações e de relações que sobrevivem àqueles que os vivenciam. Os afectos não são sentimentos, são devires que transbordam aquele que passa por eles (tornando-se outro). (…) o afecto, o percepto e o conceito são três potências inseparáveis, potências que vão da arte à filosofia e vice-versa” (DELEUZE, 2004, p. 171).

bergsonismo24. Por isso também, essa escrita priorizará as experiências vividas e partirá dos acontecimentos que, afetando meu corpomente, suscitaram-me intuições/sensações, produzindo um pensamento contextualizado, não separado do real vivido, mas em devir, devendo ele mesmo — o pensamento — ser a matéria em letra e melodia — a obra obrando ininterruptamente...

Mas por que escrever em devir? Por que escrever procurando o exercício de escuta máxima às intuições que emergem precisamente do que foi vivido? Porque gostaria que este trabalho, a despeito de todas as exigências de tempos e prazos prescritos ao doutorado, tangesse em níveis profundos o que venho procurando, quer seja, de minha própria vida e da prática compositora com os jovens: fazê-las uma obra de arte. Que a ocupação com a música e a clínica, que o exercício de escuta e produção subjetiva conjunta com os jovens pobres, com esse ensejo e desejo, sejam a viva expressão dessa busca. Se considerarmos que a essência da vida humana seja a própria arte — a ação da conexão25 (BOHM, 2011) —, nesse sentido então, a vida vivida em intenso fluxo e composição é obra encarnada.

Mas como não sucumbir e deixar-se engolir pela máquina capitalística, sempre, em sua avidez, a engendrar velocidades incompatíveis com o corpoafetopensamento? Se viver a vida e as nossas práticas como arte/obra encarnada nos demanda tempo, trabalho, intensidade e coragem, sabedoria, paciência, espera atenta... Se o trabalho criativo requer, como nos diz Bohm (2011), um estado de espírito criativo que se traduz, como já mencionei, pela atenção, sensibilidade, interesse total e sincero pelo que se faz, por nossas concretas implicações, pela inconformidade explícita ao que já é dado, mecanizado e que não nos oferece o medo perturbador do caos, então, escrever em devir também é questionar a própria escrita acadêmica, na maioria das vezes endurecida, engessada, por pressões e condicionamentos próprios da burocracia de fomento à pesquisa, bem como outros tantos atravessamentos. A velocidade não favorece o pensamento, um processo de pesquisa tem seu próprio tempo e apresenta, em seu percurso, desafios que nos demandam cautela, prudência, tempo necessário à passagem das intuições (micropercepções) em seu entrelaçamento singular com os conceitos, assim como o auxílio bem vindo de nossos orientadores e colegas, conversas,

24 “A intuição é o método do bergsonismo. A intuição não é um sentimento nem uma inspiração, uma simpatia confusa, mas um método elaborado, e mesmo um dos mais elaborados métodos da filosofia. Ele tem suas regras estritas, que constituem o que Bergson chama de “precisão” em filosofia” (DELEUZE, 2012, p. 9). Ver:

DELEUZE, G. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 2° Edição - 2012.

25 Sobre a questão da arte enquanto ação da conexão, consultar: BOHM, D. Sobre a Criatividade. São Paulo: Ed.

Unesp, 2011.

muitas conversas, que podem nos acrescentar, multiplicar os pontos de vista, que certamente desdobrarão novos importantes agenciamentos. Por isso, por mais que implique concentração e atenção, estar sozinho na produção da leitura e escrita, também nos exorta aos encontros, ao desenvolvimento de nossa capacidade de abertura ao novo em nossas práticas, aos outros, àquilo que vai batendo em potência à nossa porta e àquilo que também vamos procurando sutilmente, como rizomas, a-colher na superfície — as forças possíveis que nos impulsionam.

Gostaria que esta escrita fosse; ela mesma, um dispositivo de produção subjetiva, podendo abrir caminhos para a minha, a dos jovens com quem desenvolvo esta pesquisa e a sua, leitor: resingularização, que implica o cuidado de si e dos outros nas dimensões de uma Ecosofia Social, Mental e Ambiental26 (ARMONY, 2010). Escrita e pesquisa na comunhão com a pluralidade de vozes tocando juntas canções distintas, mas em uma mesma orquestra e sintonia. A maneira de tocarmos (ou jogarmos) juntos será aquela inspirada numa Ecosofia, como nos comunica tão bem Guattari:

A ecosofia mental, por sua vez, será levada a reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o fantasma, com o tempo que passa, com os mistérios da vida e da morte. Ela será levada a procurar antídotos para a uniformização midiática e telemática, o conformismo das modas, as manipulações da opinião pela publicidade, pelas sondagens etc. Sua maneira de operar aproximar-se-á mais daquelas do artista [...], (GUATTARI, 2007, p. 16, grifos nossos).

Já sobre o gesto de escrever e ler, diz Carlos Skliar:

Haverá que disseminar o gesto, multiplicá-lo não por si mesmo, senão por suas variedades, suas variações: o gesto da mão que escreve, o gesto de dar a ler, o gesto de deixar ler, o gesto de ler, o gesto de abrir um livro. Ler é um gesto que apenas supõe, quisera a duras penas, ressuscitar os vivos. O gesto, para que? Para não esquecer-se do humano. Para que o humano não se negue ao humano. “Para não esquecer que estamos vivos” (SKLIAR, 2010, p. 25, grifos nossos).

Ainda sobre a resingularização através da escrita e leitura, Rilke nos brinda com um belíssimo poema intitulado O Leitor:

“Quem pode conhecer esse que o rosto mergulha/ de si mesmo em outras vidas/ que só o folhear das páginas corridas/ alguma vez atalha a contragosto?/ a própria mãe já não veria o seu/ filho nesse diverso ele que agora/ servo da sombra, lê. Presos à hora,/ quanto sabermos quanto se perdeu/ antes que ele soerga o olhar pesado/ de

26 Félix Guattari (2007) propõe uma recomposição das práticas sociais e individuais segundo três registros complementares – a ecologia social, a ecologia mental e a ecologia ambiental – sob a égide ético-estética de uma ecosofia, uma eco-lógica, ou seja, uma lógica das intensidades que priorize o movimento, a intensidade dos processos evolutivos.

tudo o que no livro se contém/ com olhos, que, doando, contravêm/ o mundo já completo e acabado:/ como crianças que brincam sozinhas/ e súbito descobrem algo a esmo;/ mas o rosto, refeito em suas linhas, nunca mais será o mesmo

(Tradução em: CAMPOS, 2001, p. 42, grifos nossos).

Entre os antídotos contra toda conformidade das modas, dos hábitos, dos cientificismos, das opiniões, impregnada no socius e que procuraremos aqui, estão aqueles relacionados à linguagem intensiva da música, da poesia, das canções produzidas, entoadas, contadas e cantadas pelos jovens, como dispositivos e, quem sabe, bálsamos de uma nova ordem não condicionada: — uma nova suavidade, uma nova Harmonia.

Será dos lugares que compõem meu percurso como música, amante da poesia, psicóloga/psicanalista, facilitadora de Biodança e educadora que conduzirei esse projeto, numa atitude de efetiva aproximação com os jovens, a instituição, a comunidade, em recusa ativa a uma suposta neutralidade subjacente à pesquisa. Se um dos objetivos desta tese está na reinvenção de práticas de inspiração ético-estéticas e se esta prática que ora venho operando em pesquisa de campo já é, em si, uma profícua experimentação, que esta escrita possa ser o lugar também do estranhamento, do paradoxal, sem ter, por isso, que perder-se em labirintos improdutivos, ou seja, que tornar-se exígua em seu rigor e fundamentação. Que seja também o forjar de linhas de fuga (ou fugas, pensando nas modulações em música!) para toda a parafernália acadêmica estruturação estéril, e que possa mesmo forjar tempos, entretempos, contratempos (na linguagem musical), entre espaços...

É legitimo desafinar, afinar, ajustar e reajustar novos instrumentos de acordo com o que se apresenta em cada novo momento. É legítimo desafinar o “coro dos contentes”, coro de tantos condicionamentos que nos são impostos, como se realmente nos contentássemos em viver com o menos daquilo que podemos viver, ser e fazer. Uma cura não deveria ser como uma obra de arte?; como criação de novas melodias?; novas sonoridades? Por isso intensamente desejo, que esta escrita seja também como um toque suave, a desatar nós invisíveis, a desatar impasses, tocando delicadamente em questões graves. Sendo assim..., não se espante, leitor, se por um momento você se vir tocado por uma canção sensível, por súbita inesperada melodia... e gostaria mesmo que fosse tomado por esse desassossego e alegria...

Sobre o sério e o alegre na escrita da filosofia, Paula de Oliveira nos diz que:

Sêneca considera a leitura indispensável e indica para nós seu primeiro motivo: ‘[...]

para evitar que me contente comigo mesmo’. Ler o mundo, como o faz a filosofia, também é uma maneira de não nos contentarmos conosco. E isso pode ser motivo de alegria. Entre aquele que fala e aquele que ouve ou entre aquele que escreve e aquele que lê há um texto falado ou escrito que se dá para ser ouvido ou lido. Barthes nos diz: ‘[...] esse leitor, é mister que eu o procure (que eu o “drague”), sem saber onde ele está. Um espaço de fruição fica então criado. Não é a pessoa do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma

imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo.

(OLIVEIRA, 2010, p. 50, grifos nossos).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 36-41)