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Plano de Composição da Natureza

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 129-139)

O biólogo estoniano Jakob von Uexküll (1982) propôs uma compreensão das composições presentes na natureza de uma maneira muitíssimo singular: ele estabelece uma conexão das composições naturais que ocorrem entre os seres vivos e seu habitat, com as relações de harmonia presentes nas composições musicais. A linguagem musical entra como um dispositivo de muitas explicações da linguagem da natureza; o que ele denominou de

“partitura da Natureza”. Tomei conhecimento de suas concepções — que muito me interessaram —, em duas passagens descritas no livro de Deleuze e Guattari (1997) Mil Platôs: uma; quando eles exemplificam alguns afectos que pertencem ao carrapato, ou carraça, e outra, quando eles comentam as relações de pontos e contrapontos melódicos presentes na natureza, nos movimentos entre os seres vivos. Fiquei deveras interessada em conhecer esse pensamento, essa visão muito peculiar de Uexküll (1982); mas chegar ao livro que traz suas principais concepções, Dos animais e dos Homens, compreendeu um percurso que gostaria de descrever aqui. Trata-se de uma obra publicada no Brasil pela Editora Livros

77 Em Spinoza a razão difere de uma razão instrumental, vista como instância transcendente impondo à conduta humana um modelo de bem universal. A razão, na perspectiva do filósofo, rompe com as verdades universais para pensar junto à existência; na singularidade dos acontecimentos, porque só podemos conhecer naquilo que nos afeta diretamente no mundo sensível.

do Brasil - Lisboa, mas há muito esgotada, fazendo parte daquelas coleções dos livros chamados “raros”. Tentei encomendá-lo, via internet, em uma editora portuguesa: Vida e Cultura, mas não obtive sucesso, pois também lá, se havia esgotado. Antes, porém, de recorrer à Estante Virtual e pagar bem caro por um exemplar, cerca de R$ 260,00, por fazer parte dos

“raros”, recorri à Escola Nômade de Filosofia de São Paulo, onde constatei pela internet da biblioteca, um exemplar. Enviei um e-mail e obtive a resposta de que a referida escola não emprestava e nem o disponibilizava on-line. Resolvi, por fim, investir na obra e encomendá-la na Estante Virtual — finalmente —, sem saber se, a perspectiva de Uexküll (1982), efetivamente, compor-se ia com a proposta deste projeto.

O livro chegou depois de certo tempo de encomendado, e foi uma surpresa alegre recebê-lo! Digo alegre porque a imagem da capa, já na primeira vista, me seduziu: a silhueta de um ser humano em verde bem claro, e nas pernas deste, uma enorme borboleta em cor acentuada e vivaz das verdes matas, contrastando com o fundo da capa em vermelho... E dentro do livro: imagens, desenhos e esquemas explicativos de suas ideias. “Um livro de biologia”: pensei... Gostava muito de estudar biologia no colégio, assim como estudar matemática (cheguei a dar aulas de matemática na infância para os colegas com dificuldade nessa matéria, mas depois esse interesse se arrefeceu com a entrada no colegial, onde não obtive tão bons professores como no primário, e o fio da compreensão maior da linguagem dos números — juntamente com meu interesse —, se perdeu...). Se a matemática pode ser previsível..., na biologia as coisas são diferentes... (ou bem diferentes...). Uexküll (1982), em prefácio junto a Georg Kriszat, faz a crítica ao paradigma mecanicista e alerta para o fato de que os animais não são meros objetos mecânicos, mas sujeitos, cuja atividade essencial consiste em assinalar e atuar: tudo o que o sujeito assinala passa a ser o seu mundo-de- percepção, e o que ele realiza, o seu mundo-de-ação. Se existe a máquina, existe o maquinista; o sujeito da percepção e da ação, presente nos animais.

O presente livrinho não tem a pretensão de servir de guia de uma ciência nova.

Limita-se, antes, a incluir o que podia chamar-se a descrição de um passeio por mundos desconhecidos. Estes mundos não são apenas desconhecidos, são também invisíveis; mais que isso: o seu direito de existir é-lhes, em geral, contestado por muitos fisiólogos e zoólogos.

Essa bem curiosa atitude é, para quem conheça esses mundos, perfeitamente compreensível, pois que o caminho que a eles conduz não é transitável para quem sofra de certos preconceitos capazes de obstruírem a porta que lhes dá acesso, tão impenetravelmente que nem um raio de luz esplendorosa que os inunda a pode atravessar.

Quem se agarrar ao preconceito de que todos os seres vivos são apenas máquinas, perde a esperança de vir a lobrigar os seus mundos-próprios. (UEXKÜLL, 1982, p.

24).

Na contracapa, escrita por Uexküll (1982), ele sugere que sua obra surge como barco- piloto em missão de descoberta, numa viagem inesperada e impregnada de encanto e magia...

E..., não é que..., ele tem mesmo razão!! — sua obra me atraiu como um ímã... A cada leitura e passagem vamos descobrindo mundos-próprios por nós ignorados em nossos próprios mundos. Sua tese principal gira em torno do conceito de ciclo-de-função e mundo-próprio dos seres vivos e marca uma nova visagem na biologia. Guiados por ele, em seu “livro-piloto”, encontramos na natureza circunstâncias irredutíveis a medidas e números matemáticos, ou seja, a conclusões obtidas por métodos quantitativos. Ele põe em relevo o que chama de

“partitura da Natureza”; o mundo das qualidades experimentadas, fazendo parte, todas as cores, formas, sons, aromas, dores e prazeres experimentados pelos seres vivos (seus mundos subjetivos), sendo a tarefa do biólogo traduzi-la e compreendê-la. Se para o músico a compreensão da harmonia é uma tarefa de conhecimento da partitura das composições musicais, na partitura da Natureza, o significado entra no lugar da harmonia, como matéria de sua compreensão. Na vida animal, as coisas são portadoras de significado. Segundo Araújo (2012), Uexküll teria esboçado um tipo de teoria não-representacionista da significação e, implicitamente, um tipo de teoria pragmática da significação. Constituído por “mundo de percepção” e “mundo de ação”, o Umwelt ou “mundo-próprio” de um organismo cria ou interpreta o meio a partir de um modo subjetivo e não diretamente acessível à observação externa. O que é significativo ou objeto significante no mundo-próprio de um organismo é aquilo que tem influência na sua ação no meio ambiente. Cada animal tem um ciclo-de-função e um mundo-próprio; esse mundo tem, para um gato, para um cavalo ou um macaco, a sua forma específica — não obstante as características comuns aos mamíferos.

Ao conceber a ideia de um plano da Natureza, o autor procurou superar a ideia de planeamento como finalidade na biologia, mostrando em repetidos exemplos, que o plano de construção de um organismo não está situado fora dele, como o de uma máquina, ou seja, não corresponde a um plano transcendente de organização, mas sim de imanência, a meu ver. Toda a sua obra descreve com minúcia como os organismos estão ordenados, como em uma melodia e como em um plano de amadurecimento, em um processo de autoconstrução e autorregulação permanente.

Nesse plano natural não há finalidades, mas ciclos-de-função dos organismos presentes em perfeito agenciamento com o plano. Os ciclos-de-função compreendem as

“notas-características” dos seres vivos e as relações que se estabelecem entre eles, de ponto e contraponto — a linguagem musical comparece para explicar as composições naturais. É assim que a carraça, ou o carrapato — exemplo que Deleuze e Guattari (1997), mencionando

a visão de Uexküll (1982), relatam em Mil Platôs —, seleciona três afectos em seu mundo- próprio: “o carrapato atraído pela luz, ergue-se até a ponta de um galho; sensível ao odor do mamífero, deixa-se cair quando passa um mamífero sob o galho; esconde-se sob sua pele, num lugar menos peludo possível” ( p. 42). Três afectos bastam para preencher o mundo–

próprio do carrapato, ele pode inclusive, jejuar durante mais de 18 anos à espera de sua presa, indiferente a tudo o que lhe rodeia, pois adormece nesse jejum, sendo despertado pela “nota- característica” do odor do mamífero que passa, e que, segundo Uexküll (1982), é o odor do ácido butírico.

Mas, o que intriga o autor é o fato de que perante as várias propriedades presentes nos mamíferos, apenas três são selecionadas pela carraça; o odor característico (que o precipita a cair sob a presa), a parte da pele com menos pelo possível (onde fará a perfuração), e a sucção do sangue (seu “lauto festim", sendo seu “último repasto”, pois morre logo após). O autor se questiona do porquê, do vasto mundo que rodeia a carraça, fulguram somente três afectos, como sinais luminosos dentre as trevas, que servem à carraça de guias, onde ela segue num ciclo peculiar de função. Uexküll (1982) compara que, se no mundo do gastrônomo, por exemplo, em um bolo ele só escolhe as “passas”, no da carraça, das coisas do meio ambiente, ela só seleciona o ácido butírico, presente em todos os mamíferos, que desencadeará, portanto, seu ciclo/função.

São os afectos — as notas características — que compõem o mundo-próprio de cada animal. Eles emitem significados; criando elos, pontos e contrapontos entre os seres vivos.

Essas composições seguem na natureza, de acordo com Uexküll (1982, p. 183), as regras da composição musical, partindo do princípio de que são necessários, pelo menos, dois sons para formar uma harmonia. “Na composição de um dueto, as duas partes que se devem fundir numa harmonia são compostas nota por nota, ponto por ponto, uma para outra. Nisso se baseia a teoria do contraponto na música”. Dessa forma, a folhagem do carvalho, por exemplo, atua na distribuição das gotas da chuva, ao passo que as formações das gotas intervêm como compositoras na melodia do carrilhão vivo das células do carvalho. Folhagens do carvalho e gotas de chuva compõem, dessa forma, pontos e contrapontos.

Dentre outros (e tantos!) exemplos de pontos e contrapontos encontrados na natureza, e que o autor vai citando durante o livro, temos o polvo gigante como sujeito nas suas relações com a água do mar. A incompressibilidade da água constitui a condição necessária para a construção de um saco natatório musculoso no animal marinho. Os movimentos compressores do saco atuam sobre a água e o impelem para trás. “A lei da constituição da água do mar, intervém, como compositora, no carrilhão vivo das células protoplasmáticas do

embrião do polvo gigante e impõe a melodia morfogenética, os contrapontos que correspondem às propriedades da água” (UEXKÜLL, 1982 p. 183). As leis naturais que compreendem essas composições estão orientadas no sentido de um significado. Para o autor, na natureza nada é deixado ao acaso, existe uma lei intrínseca do significado78 que liga o animal ao seu meio, unindo os dois num dueto, em que as propriedades de ambas as partes são compostas uma para outra em contraponto. Seria mesmo — o contraponto — a técnica da natureza. Abaixo faço questão de transcrever uma (extensa) citação interessantíssima do autor, pois creio que nos será importante para captar a peculiaridade e beleza de suas concepções:

Era, se bem me lembro, uma sinfonia de Mahler, que Mengelberg dirigia, de forma arrebatadora, no Conzertgebouw, de Amsterdã. A grande orquestra, reforçada por coros masculinos e femininos elevava-se irresistivelmente, em esplendor e magnificência.

Perto de mim, estava sentado um jovem, completamente mergulhado na partitura, a qual fechou, com um suspiro de satisfação, quando se ouviu o último acorde.

Na minha falta de preparação musical, perguntei-lhe que prazer podia sentir em acompanhar com os olhos, na partitura, o que os ouvidos podiam captar diretamente.

Todo ardendo em zelo, assegurou-me então, que só quem segue a partitura pode atingir a visão integral de uma obra de arte musical. Cada voz, de pessoa ou instrumento, representava um ser em si próprio que, todavia, se fundia, em ponto e contraponto, com outras vozes, numa forma superior que, por seu lado, se ampliava, ganhava em riqueza e beleza, para nos dar, por fim, no seu conjunto, a própria alma do compositor.

Lendo a partitura, podia acompanhar-se o crescendo e decrescendo das vozes individuais que, como as colunas de uma catedral, suportam a abóbada onipotente.

Só assim se podia ter uma perspectiva da complexa formação da obra de arte executada.

Esta dissertação, feita em termos muito convincentes, despertou em mim um problema: se, porventura, será missão da biologia escrever a partitura da Natureza.

Já então me eram familiares as relações harmônicas em contraponto, de mundo- próprio para mundo-próprio, e retomei o exemplo do pedúnculo da flor, nas suas relações com os quatro mundos-próprios mencionados. O ramo de flores que a moça ofereceu ao namorado era agora usado por este como adorno, e o pedúnculo da flor veio assim a entrar num dueto de amor. A formiga que utilizava o pedúnculo como passagem, corria ao longo dele, até ao ovário da flor e aí mungia as suas ‘vacas leiteiras’ — os pulgões. Quanto à vaca, essa transformava, finalmente, em leite o pasto de que o pedúnculo fazia parte. A larva da aphrophora crescia no seu abrigo, feito do suco que o pedúnculo lhe tinha fornecido e em breve enchia o prado com seu doce canto de amor.

Outros mundos-próprios se vieram juntar a estes. As abelhas que estavam associadas em contraponto, com o aroma, a cor e forma das flores, acorriam a elas e, depois de se terem saciado de néctar, por meio de danças impressionantes, que Von Frisch descreve pormenorizadamente. (UEXKÜLL, 1982, p. 199).

78 Na lei do significado, de acordo com Araújo (2012, p. 104), o que o autor considera essencial é a utilidade do objeto (sua função) na ação do organismo. “O organismo significa e não representa ou cria uma cópia interna do objeto porque, exatamente, a significação, corresponde a uma relação prática entre organismo e objeto no interior de um mundo próprio”. Essa noção teria uma aproximação com o conceito de ‘enação’ de Varela (VARELA apud ARAÚJO, p. 1988) que caracteriza a emergência da significação como “acoplamento estrutural” entre organismo e meio. A ideia é tornar predominante a ação sobre a representação.

Para o autor, a cada composição musical, é posto o problema de escolher, do jogo de sons de cada instrumento, aqueles que se agenciam numa sequencia melódica e, ao mesmo tempo, harmonicamente, se ligam com os sons dos “repiques” de outros instrumentos.

Colocando em paralelo com o que se passa com os animais, ele propõe que, assim como nos instrumentos musicais, bastará considerar o sistema nervoso central como um carrilhão de sons perceptivos: sinais perceptivos das células vivas que se projetam no exterior como “notas características”, e os sons efetores: impulsos que colocam em ação os movimentos dos seres vivos. “Cada animal é capaz, como qualquer instrumento, de um determinado número de sons, que entram em relação contrapontal com os sons de outros animais” (UEUKÜLL, 1982, p. 200).

Nessa perspectiva não basta, como os mecanicistas faziam, tratar os instrumentos musicais como meros produtores de ondas de ar. Com essas ondas, tomadas por si mesmas, ninguém poderá compor uma melodia ou uma harmonia e criar com elas uma partitura.

Somente as relações das ondas de ar com o órgão auditivo, onde estas se transformam em sons, tornam possível a criação de melodias e harmonias, e a composição de partituras. Na natureza não basta apenas atribuir aos animais e às plantas de um prado a função de espalhar no espaço as cores, os sons e os odores que lhes são peculiares, pois eles serão captados e transformados em percepções/significados nos mundos-próprios de outros animais.

Interessante observar que “as notas características” emitidas pelos seres vivos num plano natural comum serão percebidas e transformadas em significados não apenas com os seres de uma mesma espécie, mas com os mundos-próprios de outras espécies (transversalizações?). É um plano unívoco, comum, composto pela multiplicidade de relações entre os seres vivos. Quando o autor, na citação acima, se refere ao exemplo do pedúnculo (talo) da flor, em suas relações com quatro mundos-próprios diferentes do seu, a cada mundo- próprio, o pedúnculo compreenderá diferentes significados79. Um outro exemplo muito interessante que o autor oferece é o da relação contrapontal entre o morcego e a borboleta noturna. O morcego emite um pio que em seu mundo-próprio tem um significado de “amigo”

para os outros de sua espécie, mas, para a borboleta noturna, seu pio traz o significado de

“inimigo”, o que a faz voar para bem longe... O mais interessante é que a percepção auditiva

79 “Assim, no célebre exemplo de Uexküll, um talo do ramo de uma flor tem, respectivamente, quatro possíveis significados dado a relação funcional entre certo organismo e ele: para a moça, o talo significa ‘adereço de cabeça”; para a formiga, o meio de alcançar o topo; para uma larva, material de construção de seu abrigo; e, finalmente, para uma vaca, fonte de alimentação. Como forma ou estrutura, o ciclo de função descreve diferentes mundos-próprios e sua relação de significação com um objeto. “Temos, com efeito, a seguinte equação: diferentes mundos-próprios, diferentes significados de um mesmo objeto”. (ARAÚJO, 2012, p. 104).

da borboleta noturna se limita apenas ao pio de seu inimigo — o morcego! Aos outros sons circundantes e presentes na natureza, a borboleta noturna é completamente surda, não sendo capaz de captá-los. “Como se realiza então, na estrutura da borboleta, um dispositivo para captar os sons emitidos pelo morcego?” — pergunta Uexküll (1982, p. 175). “A lei morfogenética das borboletas já implica a determinação de construir um órgão auditivo adequado ao pio dos morcegos” — explica o autor.

Mas, o contraponto que mais me impressionou, dentre todos os exemplos que o autor vai mencionando, durante a leitura de seu “livro-piloto”, foi o da abelha e da flor. Essa passagem me surpreendeu porque, justamente, é esse o exemplo que o autor considera o mais flagrante da relação contrapontal entre os seres vivos! Quando tive o sonho que mencionei no subtítulo anterior, sobre uma abelha polinizando uma flor, nem sequer poderia imaginar que, nesse livro de Uexküll (1982), encontraria tais relações! O livro chegou depois do sonho e do texto escrito anteriormente... Coincidências?..., o que isso pode significar? Difícil explicar..., pode ser que a escrita em devir vá tecendo essas micropercepções e sonoridades num plano comum de imanência, em que estamos todos relacionados, pontos por pontos, em contrapontos, tecendo linhas e linhas de encontros...

Na visão de Uexküll (1982), a cor das flores não é, para as abelhas, a mesma que é para nós, entretanto, serve-lhes de certa característica, pois a flor e a abelha estão compostas uma para a outra em contraponto.

Isto revela-se-nos ainda com mais clareza numa orquestra natural, como um prado no-la apresenta. Basta que pensemos na flor integrada nos quatro mundos-próprios.

Essa relação revela-nos ainda mais flagrante entre a estrutura da flor e a da abelha e dela se pode dizer:

Se na flor não houvesse qualquer coisa de abelha E na abelha não houvesse qualquer coisa de flor Nunca o acorde seria possível.

Nestes versos se exprime o princípio fundamental de toda técnica da Natureza. Nele reconhecemos, mais uma vez, a sabedoria de Goethe:

Se nos olhos não houvesse qualquer coisa de sol, Nunca eles poderiam vê-lo.

Mas nós podemos agora completar a sentença de Goethe, dizendo:

Se no sol não houvesse qualquer coisa de olho Em nenhum céu ele emitiria raios.

O sol é uma luz celestial. Mas o céu é um produto dos olhos, que dele fazem o seu horizonte mais distante — aquele que envolve o espaço do seu mundo-próprio. Os organismos sem olhos não conhecem o céu nem o sol. (UEXKÜLL, 1982, p. 203).

Uma vez mais (e coincidentemente...) a imagem da abelha e da flor faz-se presente, e agora, junto à mencionada imagem, poderíamos complementar a frase que me veio em sonho:

somos partes participando, na partitura da Natureza, como compositores na melodia da vida

de outras partes... Nossa participação intervém como compositora não apenas no plano das forças invisíveis, mas “contrapontalmente” (coextensivamente), no plano visível; no mundo das formas...

Uexküll (1982) exprime na conformidade da abelha com a flor e na conformidade da flor com a abelha a regra técnica fundamental da Natureza. É assim que a teia de aranha é, de estrutura ajustável à mosca, porque a aranha na sua constituição corpórea adotou para si certos motivos e/ou determinismos da melodia da mosca. É assim também a interferência de certas propriedades dos mamíferos no plano somático da carraça. E mais nítido do que em qualquer caso é a ação do determinismo do morcego na estruturação do órgão auditivo da borboleta noturna — como vimos anteriormente.

Para Uexküll (1982), em toda parte, é o contraponto que se manifesta, como causa determinante da constituição das forças/formas da Natureza. Ele estende também essa relação de contrapontos com os objetos que criamos para nos servir cotidianamente — em nosso mundo-próprio. Assim, o bule de café, com a sua asa, nos mostra, imediatamente, a relação de contraponto, por um lado, com o café, e por outro, com a mão do homem. A cadeira, por exemplo, é constituída com vários contrapontos no corpo do homem, desde o assento, as costas e os braços que encontram no corpo os elementos correspondentes. Por sua vez, esses contrapontos são para o marceneiro, causas determinantes na construção da cadeira.

A ideia de uma evolução das formas, que deva conduzir os organismos de imperfeitos a uma organização mais perfeita, é incompatível com as ideias de Uexküll (1982, p. 211), pois ele considera as propriedades de um animal e de seus parceiros, se ajustando perfeitamente em pontos e contrapontos de um coro de muitas vozes, “em todos os casos se nota uma progressão, mas nunca um progresso, no sentido da sobrevivência do mais adaptado, nunca a seleção do mais dotado, por meio de uma furiosa luta pela existência”. Em vez disso, reina na natureza uma melodia em que vida e morte se entrelaçam. A matéria, nessa perspectiva, se volatiliza de um mundo para o outro, sua imutabilidade é também questionada, assim como a imutabilidade dos sujeitos.

Os genes — a matéria mínima —, que cada indivíduo recebe, constituem o “teclado”

que torna possível as melodias morfogenéticas que, dessa maneira, vão buscar o seus motivos nas melodias morfogenéticas de outros sujeitos que elas encontrarão nos seus cenários de vida. Os motivos — os temas melódicos — são tirados, ora do ciclo de nutrição, ora do de defesa e ora do sexo. É do ciclo do habitat que a melodia morfogenética tira a maior parte dos seus motivos e por isso a estrutura de nossos olhos é ajustada à luz do sol, e a folha do bordo, com suas goteiras, é ajustada à chuva.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 129-139)