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A CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS PENAIS

por injusta ou errônea, a sentença de condenação, o réu era reabilitado com a restauração plena de seu anterior status dignitatis.222

código, unificando-as [...]. O trabalho desse jurista, embora de natureza particular, acabou sendo oficializado pelo decreto n. 22.213, de 14.12.1932, tendo contribuído de forma significativa para uma melhor compreensão e para facilitar a aplicação do direito repressivo então vigente.225

O Decreto n. 22.213, de 14 de dezembro de 1932, que, na expressão de seu cabeçalho, aprova a Consolidação das Leis Penais, da autoria do Sr. desembargador Vicente Piragibe,

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foi assinado por Getúlio Vargas, Presidente da República, e Francisco Antunes Maciel, que assumira no mês anterior a pasta da Justiça. Os considerandos que encimam o Decreto são eloqüentes, e despeitoram a grave situação da ordem penal à época, além de instruírem a aplicação do trabalho que veicula:

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Considerando que o Código Penal Brasileiro, promulgado pelo decreto n. 847, de 11 de outubro de 1890, tem sofrido inúmeras modificações, quer na classificação dos delitos e intensidade das penas, quer com a adoção de institutos reclamados pela moderna orientação da penalogia;

Considerando que essas modificações constam de grande número de leis esparsas, algumas das quais já foram, por sua vez, profundamente alteradas, o que dificulta não só o conhecimento como a aplicação da lei penal;

Considerando que, não sendo lícito invocar a ignorância do direito devem as leis estar ao alcance de todos, já pela clareza, já pela divulgação, o que, com rigor maior, cumpre seja observado em relação às leis penais, em virtude da particular incidência destas sobre a liberdade individual;

Considerando que, malogradas as várias tentativas de reforma do Código Penal Brasileiro, a que ora se empreende ainda tardará em ser convertida em lei, não obstante a dedicação e competência da respectiva Subcomissão Legislativa;

Considerando que, sem desarticular o sistema do Código atual nem alterar as disposições em vigor, é de todo conveniente seja adotada uma consoliadção (sic) das leis penais;

Considerando que esse objetivo pode ser alcançado com o trabalho “Código Penal Brasileiro, completado com as leis modificadoras em vigor”, da autoria do Sr.

225 LEAL, João José. Curso de direito penal. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris & Editora da Furb, 1991. p. 67-8.

Álvaro Mayrink da Costa indica o mesmo intuito de compatibilização da matéria penal em vigor: “Face ao grande número de leis complementares e da verdadeira colcha de retalhos que se transformou a codificação de 90, sumiu a idéia de sua revogação [...]. Para compatibilizar a matéria penal em vigor, o Des. Vicente Piragibe foi encarregado de reunir num só corpo o Código e as disposições complementares, surgindo a Consolidação das Leis Penais, aprovada e adotada pelo Decreto n. 22.213, de 14 de dezembro de 1932” (COSTA, Álvaro Mayrink da. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 1982. p. 64).

226 Cf. BRASIL. Decreto n. 22.213, de 14 de dezembro de 1932 – Aprova a Consolidação das Leis Penais, da autoria do Sr. desembargador Vicente Piragibe. Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1932: volume V: atos do govêrno provisorio: novembro e dezembro. 1933. p. 371.

227 BRASIL. Decreto n. 22.213, de 14 de dezembro de 1932 – Aprova a Consolidação das Leis Penais, da autoria do Sr. desembargador Vicente Piragibe. Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1932: volume V: atos do govêrno provisorio: novembro e dezembro. 1933. p. 371-2.

desembargador Vicente Piragibe, Juiz da Corte de Apelação do Distrito Federal, com exercício em uma das câmaras criminais desse alto tribunal judiciário;

Considerando que a própria Subcomissão legislativa do Código Penal, em parecer emitido sobre o mencionado trabalho, reconhece a sua utilidade prática e se pronuncia pela sua aprovação oficial, pensando, do mesmo modo, o Instituto dos Advogados, o Club dos Advogados e a unanimidade dos desembargadores das Câmaras Criminais da Corte de Apelação do Distrito Federal;

Considerando que o autor da obra consente na sua adoção, independentemente de qualquer indenização ou prêmio, ressalvados apenas os seus direitos autorais, quanto à edição já publicada e as reedições futuras:

Decreta [...].

A Consolidação das Leis Penais, todavia, “não refreou o movimento reformista”, como anota João Mestieri,

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e, por sua própria condição, não pôde resolver de todo os problemas da ordem penal vigente, para os quais antes se faziam necessárias medidas inéditas entre nós, muitas delas já em curso no Direito estranho. Considerável parte das críticas destinadas ao Código de 1890 enveredou para a Consolidação, tendo em vista como praticamente manteve o texto daquele, porém vazado de modo que se aboletassem os preceitos resultantes das matérias que dele extravasavam, ou mesmo constantes das leis que inovaram a ordem penal por ele iniciada.

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Somente com o advento do Código Penal de 1940 desaparecia o sistema à frente do qual estavam o Código Penal de 1890, e a Consolidação das Leis Penais,

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esta sucessivamente atualizada por seu autor, que, “nas edições posteriores de sua obra, trazia em apêndice os novos diplomas legislativos”, de acordo com José Frederico Marques.

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228 MESTIERI, João. Manual de direito penal: parte geral: volume I. Rio de Janeiro: Forense, 1999. p.

52.

229 “Surgindo em 14 de dezembro de 1932, a Consolidação de Vicente Piragibe, composta de quatro livros e quatrocentos e dez artigos, passou a ser, de maneira precária, o estatuto penal brasileiro” (JORGE, Wiliam Wanderley. Curso de direito penal: parte geral: volume I. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 98) (nossos grifos).

230 Cf. GARCEZ, Walter de Abreu. Curso básico de direito penal: parte geral: com noções de criminologia. São Paulo: José Bushatsky, 1972. p. 99.

Cf., demais, o que se disse à nota de rodapé 187.

231 MARQUES, José Frederico. Tratado de direito penal: volume I: propedêutica penal e norma penal.

1. ed. atual. Campinas: Bookseller, 1997. p. 124.

3.2.1 A Reabilitação Criminal na Consolidação das Leis Penais

A Consolidação, optando por manter a estrutura do Código de 1890, inscreveu a Reabilitação em seu art. 86, completando-o com as principais disposições extravagantes sobre revisão e indenização – modificadas consoante as exigências para sua coabitação, sob a capitania da matéria já codificada:

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Art. 86. A reabilitação consiste na reintegração do condenado em todos os direitos que houver perdido pela condenação, quando for declarado inocente pelo Supremo Tribunal Federal, em conseqüência de revisão extraordinária da sentença condenatória.

§1º A reabilitação resulta imediatamente da sentença de revisão passada em julgado.

§2º A sentença de reabilitação reconhecerá o direito do reabilitado a uma justa indenização, que será liquidada em execução, por todos os prejuízos sofridos com a condenação. A Nação ou o Estado são responsáveis pela indenização.

§3º Tem lugar a revisão:

1º Quando a sentença condenatória for contrária ao texto expresso da lei penal;

2º Quando no processo em que foi proferida a sentença condenatória não se guardaram as formalidades substanciais estabelecidas em lei;

3º Quando a sentença condenatória tiver sido proferida por juiz incompetente, suspeito, peitado ou subornado, ou quando se fundar em depoimento, instrumento ou exame julgados falsos;

4º Quando a sentença condenatória estiver em formal contradição com outra, na qual foram condenados, como autores do mesmo crime, outros réus;

5º Quando a sentença condenatória tiver sido proferida na suposição de homicídio, que posteriormente se verificou não ser real, por estar viva a pessoa que se dizia assassinada;

6º Quando a sentença condenatória for contrária à evidência dos autos;

7º Quando, depois da sentença condenatória, se descobrirem novas e irrecusáveis provas da inocência do condenado.

§4º Na revisão não podem ser agravadas as penas da sentença revista.

§5º A indenização garantida pelo art. 86 não será devida pela União ou pelo Estado:

1º Se o erro ou injustiça da condenação do réu reabilitado proceder de ato ou falta imputável ao mesmo réu, como a confissão ou a ocultação da prova em seu poder;

2º Se o réu não houver esgotado todos os recursos legais;

3º Se a acusação houver sido meramente particular.

232 In PIERANGELI, José Henrique. Códigos penais do Brasil: evolução histórica. 2001. p. 340-1.

§6º A União ou o Estado terá em todo o caso ação regressiva contra as autoridades e as partes interessadas na condenação, que forem convencidas de culpa ou dolo.

O caput e os §§1º e 2º são os mesmos do Código.

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O §3º corresponde ao §1º do art.

74 da Lei n. 221, de 20 de novembro de 1894, com ligeiras modificações.

234

O §4º obedece à idéia insculpida no §7º desse artigo, até hoje respeitada.

235

E os §§5º e 6º reproduzem o art. 84 da mesma fonte.

236

Além do que anotamos ao tópico 3.1.1 do presente trabalho, vis-à-vis ao sistema penal de 1890, a que se ligou o trabalho de Piragibe, sem maiores inovações, de se considerar a crítica de Romeu Falconi ao seu posicionamento em relação à Reabilitação:

Do tema em si: Reabilitação Criminal, nada de novo em relação ao Código suprimido. Apenas alguns novos parágrafos (do 3º ao 6º). Mas, inobstante sua pretensão de norma revolucionária, havia o ranço da norma velha, tratando da

‘revisão’ e não da ‘reabilitação’.

Desses parágrafos, o terceiro trazia sete hipóteses para a revisão e, por via de conseqüência, a concessão da restitutio in integrum. Dizia da revisão para os casos de sentenças contrárias à lei, processos com nulidades formais, juízo incompetente, antinomia normativa, crime de homicídio inexistente, sentença contrária à prova dos autos e, finalmente, a prova nova.

O §4º vetava a reforma da sentença in malus. Já o §5º cuidava do que era regulado, anteriormente, no §2º, a questão da indenização. Mas, aqui, corrigiu-se o equívoco entre os vocábulos Estado e Nação, falando-se em União e Estado, em clara alusão ao federalismo, parece-me. Agora, dá-se versão contrária, não indenizando os casos

233 Cf. BRASIL. Decreto n. 847, de 11 de outubro de 1890 – Promulga o Codigo Penal. Decretos do Governo Provisorio da Republica dos Estados Unidos do Brazil: decimo fasciculo: de 1 a 31 de outubro de 1890.

1890. p. 2.676.

234 Cf. BRASIL. Lei n. 221, de 20 de novembro de 1894 – Completa a organisação da Justiça Federal da Republica. Collecção das Leis da Republica dos Estados Unidos do Brazil de 1894: partes I e II:

volume I. 1895. p. 38.

235 Cf. BRASIL. Lei n. 221, de 20 de novembro de 1894 – Completa a organisação da Justiça Federal da Republica. Collecção das Leis da Republica dos Estados Unidos do Brazil de 1894: partes I e II:

volume I. 1895. p. 38-9.

Cf. arts. 617, 2ª parte, e 626, parágrafo único, do atual Código de Processo Penal (Cf. BRASIL.

Decreto-Lei n. 3.689, de 3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal. Coleção das Leis da República dos Estados Unidos do Brasil de 1941: volume VI: atos do poder executivo: decretos-leis de outubro a dezembro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1942. p. 117-8).

236 Cf. BRASIL. Lei n. 221, de 20 de novembro de 1894 – Completa a organisação da Justiça Federal da Republica. Collecção das Leis da Republica dos Estados Unidos do Brazil de 1894: partes I e II:

volume I. 1895. p. 40-1.

Magalhães Noronha observa, com nossos destaques, que a Reabilitaçãoentre nós surgiu com a Consolidação das Leis Penais de Vicente Piragibe, tendo como finalidade corrigir possíveis injustiças cometidas pela jurisdição penal” (NORONHA, Edgard Magalhães. Direito penal: volume 1: introdução e parte geral.

1999. p. 309), o que não deixa de causar certa estranheza, sobretudo porque segue o autor a comentar a situação do instituto “no regime do Código de 1890”.

de ‘rehabilitação’ em que o ‘rehabilitado’ tenha dado azo ao erro judiciário, ou mesmo quando a ‘rehabilitação’ chegar antes de o beneficiado haver esgotado todos os recursos processuais de que dispunha. Finalmente, Piragibe tratou de garantir ao Estado o direito de regressão.

Se critiquei o Código de 1890, pelo atraso em relação ao instituto questionado, o que dizer da obra de Vicente Piragibe, que vem com 50 anos de vantagem em relação àquele. Tivéssemos acompanhado a França (1885), a Inglaterra (1907), Espanha (1915) etc., e poderíamos ter algo mais atual, pelo menos. Entretanto, ficou o desembargador Piragibe parado no tempo. Perdeu a oportunidade de passar para a história do Direito Penal como jurista moderno e inovador, preferindo ser um mero escriba de tendência conservadora.237

Era, ainda, causa extintiva da condenação (art. 72, 3º).

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