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A crítica gnóstica

No documento ADVERSUS HAERESES DE IRENEU DE LIÃO (páginas 62-66)

da ressurreição, pois, sobre esta também havia uma implicação política decisiva. Para os cristãos gnósticos, a ressurreição de Cristo não era literal, e que suas testemunhas oculares (relatadas nos evangelhos) não o viram de fato, mas é apenas uma maneira de dizer que os

“iluminados” poderiam encontrá-lo através de uma de um êxtase, fazendo com que a importância da ressurreição esteja no presente e não no passado – é assim que se têm entendido textos encontrados de Nagi Hammagi, intitulados como o Evangelho Segundo Maria (Madalena).129

As implicações políticas da crença na ressurreição literal era a seguinte: o comando de toda a comunidade judaica estava então reservado ao pequeno grupo de pessoas, conhecidos como os discípulos apóstolos, que foram seus primeiros líderes. E, assim também, pela evidência da demonstração de poder, por terem presenciado a ressurreição, dado a estes cristãos, tornava-os únicos habilitados a falar em nome de “deus”. De maneira que no Século II, as implicações teológicas dessa visão da ressurreição se arrastariam por mais de dois mil anos:

muitos cristãos se serviram da narrativa de Lucas [do evangelho, sobre a ressurreição] para estabelecer a rede de tramas de comando específicas e restritas para todas as gerações cristãs futuras. Todo o chefe eventual da comunidade iria dever deter, ou afirmar deter, sua autoridade desses mesmo apóstolos. Entretanto, segundo a opinião ortodoxa, ninguém poderia jamais igualar sua autoridade, menos ainda contestá-las. Aquilo que os apóstolos experimentaram e atestaram não será possível a seus sucessores verificá-lo por eles mesmos. Eles deveriam contentar-se em crer, em preservar e em transmitir às gerações futuras o testemunho dos apóstolos. Essa interpretação conheceu um sucesso extraordinário durante dois mil anos [...] a partir do século II, essa doutrina servia para validar a sucessão apostólica dos bispos, a qual fundou até nossos dias a autoridade dos bispos e dos papas. Os cristãos gnósticos que interpretam a ressurreição de outra maneira têm menos títulos para exercer a autoridade: quando eles reclamam uma prioridade sobre os ortodoxos, se lhes denunciam como heréticos.130

Tirando o que escreveu Ireneu de Lião sobre os gnósticos, se bem que não são fontes, e sim o possível fundamento filosófico/doutrinário, as fontes gnósticas remontam, ao que já foi mencionado anteriormente, aos escritos encontrados de Nag Hammagi, no Egito. Este grupo de textos escritos em grego por volta do Século II d.C. são geralmente atribuídos a Hermes

129 FRANGIOTTI, 2006, p. 149-153.

130 FRANGIOTTI, 2006, p. 153.

Trimegistro, que reflete diferentes correntes de pensamento grego, oriental e egípcio, sendo muitas vezes tidos como mesmo cristãos.131

Todos os sistemas gnósticos partilham de uma mesma visão cosmológica, na qual interpretam o homem como proveniente de uma “pátria superior”, mas preso em um ambiente hostil, que é este mundo e seu próprio corpo. Somente a gnose (“conhecimento”) verdadeira, ou seja, o correto conhecimento de seu extravio dessa “pátria”, pode fazê-lo voltar à sua pátria natural e à sua forma original. Por esta razão, igualmente se pode afirmar que estes sistemas se assemelhavam às religiões de mistérios, posto que estas acreditam ser a divinização do homem o produto final de sua religião.132

A tradição judeu-cristã elaborou de modo original a consciência do homem como um ser peregrino e forasteiro neste mundo, talvez por influxo do nomandismo do hebraísmo antigo. Enquanto os gnósticos sentiam-se estranhos (ksenoi) ao mundo, os cristãos sentiam-se peregrinos. Para essa mentalidade judeu-cristã, os fiéis são paroikoi, isto é, não têm cidade nem pátria que os vinculem ao mundo como o homem greco-romano. Pela fé, o crente torna-se cidadão do céu. Sua verdadeira pátria não é qualquer coisa que tenha deixado, é algo de seu futuro [...].133

A concepção gnóstica que invadiu a Ásia Menor é corroborada pela Cartas de Inácio de Antioquia. Ireneu mesmo combateu os gnósticos valentinianos em Roma e na Gália; e em Cartago, Tertuliano combatia o gnóstico Hermógenes,134 da qual ainda sobram até hoje cópias de sua apologia (cf. Adv. Val.).

Talvez a obra mais completa que sistematiza o ataque gnóstico contra a “filosofia cristã”

de uma perspectiva moderna seja a Gnostic Truth and Christian Heresy: a study in the History of Gnosticism, de autoria de Alastair H. B. Logan.135 No livro, o autor pretende mostrar que o Gnosticismo mesmo antes do advento do cristianismo, e depois desenvolvido com os cristãos, possuía um background na filosofia e teologia judaica e também platônica. Assim, o desenvolvimento do gnosticismo se dá com ideias judaicas, no contexto de uma filosofia platônica, e sendo desenvolvido de maneira isolada nas primeiras formas de seu mito

131 MARTÍNEZ, 1990, p. 97.

132 MARTÍNEZ, 1990, p. 98.

133 FRANGIOTTI, 2006, p. 57-58.

134 MARTÍNEZ, 1990, p. 99.

135 LOGAN, A. H. B. Gnostic truth and christian heresy: a study in the history of gnosticism. Edinburgh:

T & T Clarck, 1996.

fundacional no cristianismo, sobretudo preservado e discutido por Ireneu de Lião, nos primeiros dois séculos.

Logan, fazendo uma revisão mais pormenorizada, e se valendo dos textos descobertos de Nag Hammagi, entende que os gnósticos foram realmente os primeiros cristãos platônicos, desenvolvendo mesmo a teologia da Trindade, ou os primeiros a lançar teorias sobre a essência de Deus e, assim, possibilitando uma sistematização cristã dessa ideia, e os primeiros a fazer crisma pós-batismal da iniciação cristã.136 Por isso, sentiam-se como cristãos verdadeiros intérpretes do “Deus desconhecido” e, pela semelhança de origens, é sabido hoje que o Gnosticismo era uma das mais tentadoras aproximações com o cristianismo, interpretados por alguns como mesmo uma vertente do próprio cristianismo, ou como ele mesmo.

Pelo que se entende do texto de Logan,137 de maneira geral, são duas aproximações que se faz dos gnósticos e que não representa propriamente a realidade do grupo citado: primeiro porque a descrição que Ireneu faz dos gnósticos não é precisa (cf. Adv. Haer. I,29-30), justamente porque Ireneu usa frequentemente termo “gnosticus/gnósticos” como uma descrição coletiva de todas as heresias a que ele estava se opondo, deixando sempre o contraponto de que a verdadeira “gnose” era a dos cristãos, e quanto aos conhecimentos exteriores, àquilo que estava se formando com ortodoxia, era um “falso conhecimento”, ou seja, se bem que Ireneu realmente tenha tido um relacionamento com certos grupos valentinianos, os “gnósticos”

poderiam ser todos estes da heterodoxia.138

Em segundo lugar, a crítica é propriamente teológica e filosófica na interpretação dos mitos bíblicos, como o mito de Gênesis (como descrita no Apócrifo de João) e do Evento Cristo, bem como de seu posterior desenvolvimento a começar pelo Evangelho de João e sendo trabalhado por autores cristãos como o próprio Ireneu, influenciando assim sua liturgia e sistema doutrinário, e pela filosofia platônica, o que gerou diferentes maneiras de pensar a Soteriologia, Escatologia e Antropologia teológica até na atualidade cristã.139

Percebe-se assim que a crítica vinda dos gnósticos não é semelhante àquelas que provinham do âmbito de fora do cristianismo; antes, era uma crítica filosófica e teológica sobre o cristianismo enquanto suficiente para salvar o ser humano. O gnosticismo era mesmo uma alternativa cristã para um sincretismo platônico maior do que se viu mesmo nos primeiros anos da história da Patrística, que veremos brevemente na resposta cristã a seguir.

136 LOGAN, 1996.

137 Ibid.

138 LOGAN, 1996, p. 1-12.

139 LOGAN, 1996, p. 29-56, 167-314.

No documento ADVERSUS HAERESES DE IRENEU DE LIÃO (páginas 62-66)