Como se sabe, os judeus representam tanto a base histórica do cristianismo no que se refere à sua etnia, como também gerou todos os primeiros apóstolos, inclusive o Cristo, o importante Templo judaico de adoração e de sacrifício, as instituições judaicas como a observância do sábado, dos quais se sabe com profundidade através do relato das Escrituras.
Em se tratando de críticas, em primeiro lugar, com Josefo, é bem provável que o Cristianismo tenha alterado os dados dos eventos históricos descritos por ele; em um segundo momento, a crítica que se faz contra os cristãos é propriamente teológica.
70 FRANGIOTTI, 2006, p. 17-18.
71 WILKEN, R. L. The christians as the romans saw them. 2 ed. New Haven: Yale University Press, 2003, p. 1-30, 68-125.
72 MacMullen; Lane, 1992, p. 152-168.
73 VAN VOORST, R. E. Jesus outside the new testament: an introduction to the ancient evidence. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 2000.
74 FRANGIOTTI, 2006, p. 17-166.
2.2.1 Flávio Josefo
Flávio Josefo (c. 37 a 100) era filho de sacerdote judaico. Nasceu em Jerusalém, era instruído pela Torá e adepto do entendimento farisaico do judaísmo. Foi capturado por ocasião da revolta dos judeus contra os Romanos no ano 66, e passou para o lado dos romanos com a promessa de lhe preservarem a vida. Ele se apresentou como profeta e prometeu a Vespasiano que em breve seria proclamado imperador. Quando isto aconteceu, o imperador o libertou em meados de 69. Por ter acompanhado Tito, servindo-o como intérprete, no assédio a Jerusalém, era muito mal visto pelos seus patrícios judeus. Foi para Roma, onde viveu e recebeu o título de cidadão, com o nome de Flavius, recebendo também uma pensão imperial. Foi nesse contexto que escreve abundantemente sobre os judeus e bem pouco sobre os cristãos (Flavii Josephi Vita.75
Um dos poucos textos de Flávio Josefo, que descreve uma parte da história do cristianismo (Hist. Eccles. I,11,4-6), considerando outro motivo, que não o dos evangelhos (Mt 14,1-12; Mc 6,14-29; Lc 3,19-20; 9,7-9) para o aprisionamento de João Batista, é a descrição do próprio aprisionamento de João. Segundo ele, o poder persuasivo que este exercia sobre a população local. Parece claro neste texto que Herodes o aprisionou e o mandou matar pelo medo de uma insurreição, visto ter João Batista grande domínio sobre a população. Isto demonstra que havia um certo temor, por parte da administração romana, de um tumulto localizado por parte dos cristãos (cf. Antiquitates, XVIII,5,2).76
Outra menção de Josefo é controvertida e diz respeito à pessoa de Jesus. O historiador judeu o chama de “sábio” e diz que ele tenha cativado muitos gregos e judeus, sendo identificado como o “Cristo”, fazedor de muitas obras maravilhosas. É mencionado também no mesmo contexto que o grupo dos cristãos não havia ainda desaparecido até seu tempo (c. 95), como se o movimento cristão fosse, de alguma maneira, relevante numericamente, o que pode ser um contrassenso visto as fontes judaicas não mencionarem esse movimento como relevante no primeiro século:77
Nesse mesmo tempo, apareceu JESUS, que era um homem sábio, se é que podemos considerá-lo simplesmente um homem, tão admiráveis eram as suas obras. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi
75 cf. tradução de Godoy [GODOY, A. C. Autobiografia de Flávio Josefo – tradução e adaptação.
Curitiba: Juruá, 2002]; FRANGIOTTI, 2006.
76 FRANGIOTTI, 2006.
77 FRANGIOTTI, 2006, passim.
seguido não somente por muito judeus, mas também por muitos gentios. Ele era o CRISTO [...] É dele que os cristãos, os quais vemos ainda hoje, tiraram o seu nome (Antiquitates, XVIII,3,3).78
Esse texto, chamado de Testimonium Flavianum, tem sido muito criticado por duas razões principais: primeiro que não existe esta referência, ou alguma alusão a ele, antes de Eusébio, que não poderia deixar passar desapercebido, visto sua inclinação para a historicidade do Cristo (cf. Hist. Eccles. todo o Livro I); em segundo lugar, considerando o relato de Orígenes (Comm. Matt. X,17), sobre a identificação do Messias, o Cristo, com Jesus de Nazaré, pode ser bastante sofrível admitir que ele tenha escrito este texto, antes de ser uma interpolação de algum copista cristão, visto ser Josefo nominalmente incrédulo quanto ao cristianismo. Os especialistas concluem que Flávio Josefo deve ter sido vítima da apologética exagerada e intempestiva de algum copista cristão:
[A] verdade é que os estudiosos estão de acordo em considerar essa breve referência de Flávio Josefo ao Jesus histórico uma interpolação posterior.
Mãos cristãs fizeram Josefo falar como um cristão. Alguns dizem que o conjunto da passagem fora realmente escrito por Josefo, mas algumas palavras teriam sido intercaladas ou alteradas. Outros, como Harnack, sustentam a autenticidade dessa passagem afirmando que Josefo não faz ali um ato de fé na messianidade de Jesus, mas apresenta “uma obra-prima da diplomacia”.79
Que Josefo tenha sido cético, ou talvez incrédulo, quanto ao evangelho não é difícil de saber, tanto pela quase total ausência de relatos sobre Jesus e sobre o movimento cristão, quanto pela ausência dessa informação na descrição que faz de si mesmo, quanto também pela descrição de outros autores, como o próprio Orígenes (Comm. Matt. X,17) que fala objetivamente que ele não acreditava em Jesus Cristo como o Messias.
Talvez o texto de Josefo: “Ele aproveitou o tempo da morte de Festo, e Albino ainda não tinha chegado, para reunir um conselho, diante do qual fez comparecer Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo, e alguns outros; acusou-os de terem desobedecido às leis e os condenou ao apedrejamento” (Antiquitates, XX,9,1)80 tenha o único e menos controverso comentário
78 FINAMORE, J.; PEDROSO, V. (Eds.) Flávio Josefo – história dos hebreus. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2000, p. 418).
79 FRANGIOTTI, 2006, p. 22.
80 FINAMORE; PEDROSO, 2000, p. 465.
sobre Cristo e sobre o movimento cristão. Se Eusébio citou o texto, o fez de maneira muito modificada (cf. Hist. Eccles. II,23,20).
De fato, Josefo foi contemporâneo dos apóstolos e deveria conhecer, e comentar, sobre a importância do movimento cristão. Mas, não o fez, pelo menos não de maneira suficiente a dar crédito à importância desses acontecimentos entre os judeus, sobre os quais no Novo Testamento foram narrados exaustivamente nos evangelhos. Há bastante discussão sobre a autenticidade desse relato,81 mas estes textos exemplificam a escassez de material não-cristão sobre os cristãos nos primeiros dois séculos e também as possíveis interpolações cristãs
“recontando” os relatos históricos.
Como adicional, Josefo também comenta sobre as regalias e liberdades que os Judeus detinham dentro do Império Romano, como o livre exercício de culto, dispensa no serviço militar, isenção de todos os encargos, obrigações e funções incompatíveis com o monoteísmo.
Como substituído por uma prece em favor do Imperador, o culto ao imperador era dispensado.
Considerando que os cristãos saíram de dentro do judaísmo, era difícil, mesmo para a administração romana, saber diferenciar estes dois grupos, de maneira que os cristãos gozavam de praticamente os mesmos privilégios dos judeus até o final do Século I (Antiquitates XIV,225- 227; XVI,162-165).
2.2.2 Diálogo com Trifão
Trifão foi um judeu fugitivo da Palestina durante a revolta judaica (132-135). Era uma personagem fictícia (artifício bem usado na retórica antiga) da obra de Justino de Roma, apologista e filósofo cristão. A apologia dirigida ao tal Trifão chama-se Diálogo com Trifão e é considerado importante, visto ter ele assumido um papel de manual cristão de como responder judeus. E consta nessa lista elaborada por Frangiotti,82 pois, são listadas na obra as principais acusações dos judeus, a saber:
a) os cristãos inventaram para si mesmos um Cristo que não é apropriadamente o Deus de Israel (Di. Trifão,pról.); b) o deus dos cristãos era diferente do deus das escrituras hebraicas (Di. Trifão, 55); c) é quase impossível que deus tenha se encarnado (Di. Trifão, 68); d) “a imagem de Jesus no cristianismo depende muito de empréstimos feitos à mitologia greco- romana” (Di. Trifão, 67); e) Cristo viola a própria Lei de Moisés, sendo assim, impossível ser
81 WHEALEY, A. Josephus on Jesus: the testimonium flavianum controversy from late antiquity to modern times. New York: Peter Lang, 2003 (Studies in Biblical Literature 36).
82 FRANGIOTTI, 2006, passim.
o Messias esperado (Di. Trifão, 67); f) a crucificação tem relação com enforcamento e era maldição de acordo com as Escrituras judaicas Deuteronômio 21,23 (Di. Trifão, 89).83 Assim, pode-se ver que a crítica do Diálogo é mais teológica e filosófica.
Entretanto, apontamos que o problema do Diálogo é que ele foi justamente escrito pelo próprio Justino, cristão, tecendo a crítica e respondendo-a. Por outro lado, Fragiotti também observa que na Carta a Diogneto, há relatos de perseguição judaica anticristã, embora existam outros trabalhos contra os judeus que foram perdidos na história (ou sequer nem existiram) – como parece ser o caso de Milcíades e de Apolinário – conforme citações de Eusébio (cf. Hist.
Eccles. 4,17; 5,4; 27,1).84