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1.3 De outras influências

1.3.1 Filosofias

Havia mesmo muitas filosofias nos séculos I e II. De acordo com Arens,44 as “filosofias são certamente enfoques sobre a vida, refletidos por indução a partir de observações e das

41 LIÉBAERT, 2000, p. 19-23.

42 LIÉBAERT, 2000, p. 19-23 passim.

43 LIBANIO, J. B.; BINGEMER, M. C. Escatologia cristã. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 59.

44 ARENS, E. Ásia Menor nos tempos de Paulo, Lucas e João: aspectos sociais e econômicos para compreensão do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1997, p. 185.

experiências e situações vividas, que depois são teorizadas de modo a servirem de orientação para viver de maneira determinada e proposta como a ‘melhor e mais proveitosa’ para o homem”: o Cinismo, o Estoicismo, o Epicurismo, o Neoplatonismo, e o Neopitagorismo, que passamos a descrevê-los com um pouco mais de detalhes a seguir, baseando-nos nas obras de Arens;45 Sacks;46 Rivers,47 Schofield et al.;48 e de Harnack.49 Como veremos abaixo, Ireneu demonstra conhecer essas filosofias, mesmo que indiretamente:

Cinismo era um movimento de enfoque ético sobre a vida que desprezava a dependência dos bens materiais, de maneira que o cínico buscava alcançar um grau de autossuficiência que não precisasse de ninguém, com uma profunda resignação. Pela sua simplicidade ganhou notoriedade da parte menos abastada da sociedade, e foi por séculos a filosofia predominante dessa classe. Tanto que muitos adeptos dessa filosofia viviam mendigando, vivendo em ruas e praças. A visão teológica dos cínicos era de que os deuses não precisavam de nada, sendo assim, modelos a serem copiados na sua “liberdade” de bens materiais. Com ascetismo característico, pode-se perceber semelhanças com os primeiros monges cristãos. Por duas vezes, Ireneu fala deste grupo e de sua relação com o Gnosticismo. (cf. Adv. Haer. II,14,5; 32,2);

Estoicismo também era uma filosofia de vida que teve início em Atenas por volta do ano 300 a.C. por Zenão de Cítio, que teve como ideal uma vida virtuosa longe da infelicidade ou adversidade na condição humana. Os seres humanos deveriam evitar o medo, a luxúria, o prazer, e o sofrimento da vida. Sua segurança em um universo ordenado no qual o indivíduo desempenhava um papel específico ajudou a desenvolver um sentimento de mudança e dúvida que desencadeou a antiguidade para a Era Helenística. Durante o este período (300 a.C. -150 d.C.) o Estoicismo permaneceu com uma modesta influência quase igual ao Epicurismo, que veremos adiante. Quando foi introduzido em Roma, o Estoicismo assimilou a mentalidade romana e cresceu dentro de um movimento intelectual no Império Romano. Ao contrário do Epicurismo, esta filosofia encorajou seus seguidores a engajar na vida pública do governo, e muitos oficiais e dirigentes do Império eram estoicos, como o famoso Sêneca (c. 60 d.C.) e o

45 ARENS, 1997, p. 185-197.

46 SACKS, D. A dictionary of the ancient greek world: Oxford: Oxford University Press, 1995, p. 235- 6.

47 RIVERS, I. Classical and Christian ideas in english renaissance poetry: a student’s guide. Londres:

George Allen Unwin Publishers Ltda. 1994.

48 SCHOFIELD, M. et al. (Eds.). The Cambridge history of hellenistic philosophy. Cambridge:

Cambridge University Press, 2008, p. 295-322; 362-381; 418-450; 675-737.

49 HARNACK, A. The history of dogma. Grand Rapids: Christian Classics Ethereal Library, 2016.

(Volume 1). Disponível em: <http://www.ccel.org/ccel/harnack/dogma1.pdf>. Acesso em: 13 Maio 2016.

Imperador Marco Aurélio (c. 170 d.C.). Essa filosofia de vida foi sendo modificada no decorrer do século III a.C. até o final do século II d.C. Alguns estudiosos a dividem em três partes: O Estoicismo Antigo, o Estoicismo Médio (144-30 a.C.) e o Estoicismo Tardio (30 a.C. até meados de 200 d.C.), em vigor até final dos anos do nosso autor Ireneu (cf. Adv. Haer. II,14,4).

O Estoicismo ajudou a formar a perspectiva ética dos primeiros pensadores cristãos no período do Estoicismo Tardio, que foi, aliás, o período de maior produção intelectual dessa filosofia, ou que pelo menos a que mais sobreviveu e chegou até nós. Eram três as divisões que se faziam dentro desta filosofia: física, lógica e ética. Esta última divisão é que ordenou o pano de fundo do mundo greco-romano e cristão que vivia Ireneu. Interessante notar que eles entendiam que cada ser humano possuía uma centelha de razão dada por Deus, que ajudava o ser humano a distinguir entre as coisas boas e as coisas más. Ou seja, era um grupo que possuía alguma relação com a divindade. Mas, os estoicos também possuíam um imaginário que os cristãos logo chamaram de heresia: como a glorificação do suicídio, quando não se alcança o ideal estoico e quando os “sofrimentos” da vida são intoleráveis, e a crença no destino. Depois do Imperador Marco Aurélio, o Estoicismo foi perdendo seu vigor. Mais recentemente, Justus Lipsius (c. 1547-1606) procurou resgatar o Estoicismo para o Cristianismo relendo as obras de Sêneca, no que podemos chamar de Neoestoicismo;

Epicurismo ensinava que o homem deveria buscar uma libertação total de todo o sofrimento e de toda a ilusão, dos medos e ansiedades para poder gozar dos prazeres que a vida oferece. Somente assim, se desprendendo do medo da morte (sua desintegração física, sem a ideia de “alma” fora do corpo), e mesmo de “supostos” poderes de espíritos e deuses é que o homem então poderá se deleitar na vida presente. Assim, quanto menos “sofrimento” e “dores”

na vida, mais seria o prazer (daí que vem o conceito dentro do Epicurismo, conhecido como Hedonismo). A visão teológica do Epicurismo é uma separação e não dependência de divindades. Apesar de não ser ateia, essa filosofia propagava a ideia de separação do ser humano com divindades para um correto equilíbrio necessário. Por valorizar grandemente a vida comunitária, o Epicurismo conseguiu lograr-se como até mesmo comunidade religiosa, onde todos deveriam ser tratados iguais sem diferenciação de classes, embora fosse também um grupo individualista. Já no final o primeiro século estava em declínio (cf. Adv. Haer. II,14,3;

32,2; III,24,2);

Platonismo Médio que florescera desde c. 50 a.C até 250 d.C. tendo seus principais pensadores como Cícero de Roma, Fílon de Alexandria, Albino de Pérgamo, Ammonio Saccas e o filósofo grego Plutarco. Essa filosofia era altamente especulativa e metafísica, e possuía uma mínima projeção na dimensão social ou política e econômica. É certo que tenha

influenciado mesmo as filosofias religiosas, como a ideia do dualismo, ou seja, a exaltação do espiritual e menosprezo do material ou corporal. Esse dualismo tendia a fazer separação entre a manifestação do espiritual no homem, provenientes do mundo divino, e da matéria que se corrompe, como o corpo passageiro que é apenas um “cárcere” dessa alma. Observa-se também que essa filosofia era particularmente das “elites”, embora tivesse influência no cristianismo como se vê em partes do Novo Testamento e em apologistas cristãos do século II d.C. como Justino, Taciano, Clemente de Alexandria. Essa ideia foi acentuada no Neopitagorismo também presente nos primeiros dois séculos da Era Cristã. Foi a partir do século III que Plotino passou a exercer influência filosófica que tornou esta filosofia conhecida hoje, no que se chama Neoplatonismo (Adv. Haer. I,15,6; II,14,3-4; 33,2; III,25,5);50

Neopitagorismo de Apolônio de Tiana no século I d.C., diferente do próprio Pitágoras no século IV a.C. era um movimento de preocupação religiosa e filosófica com o bem-estar do outro, no que se refere ao poder do mal na vida das pessoas. Eram completamente ascéticos, mesmo vegetarianos e até faziam abstenção de relação sexual. Pretendiam ter o “equilíbrio que produz paz e alegria”. Foi o Neopitagorismo que acentuou o dualismo platônico, no qual os discriminou como uma luta entre o mal e o bem. Ou seja, o espírito ou alma é imortal e deve preservar-se “pura”, sendo que a causa de todo o mal é a matéria e a ação dos demônios na vida das pessoas. O Neopitagorismo também louvava a pobreza porque esta era vista como um tipo de condição ascética na vida, e que poderia contribuir para aproximação daquilo que é divino, ou seja, não material. “Este foi o enfoque adotado no judeu-cristianismo por grupos como ebionitas e pelo gnosticismo de corte ascético e certa concepção de santidade que continua vigorando hoje”. (cf. Adv. Haer. I,1,1; 15,6; II,14,6).

No documento ADVERSUS HAERESES DE IRENEU DE LIÃO (páginas 30-33)