• Nenhum resultado encontrado

A criança, a natureza e Deus

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 83-91)

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o Chapelinho Vermelho simbolizou, na cidade de Petrópolis a ideia de um espaço promotor de uma educação de qualidade, para crianças na faixa de três a cinco anos de idade. Com isto, passou a ter maior visibilidade na sociedade petropolitana, cidade onde se destacavam as escolas privadas religiosas.

31 CRECT. Centro Regional Educação Cultura e Trabalho.

32 Maria Montessori, nascida na Itália em 1870, entrou na universidade, matriculando-se na Faculdade de Medicina; Ela lutou contra todas as oposições, venceu e impôs-se pelo seu desejo e gosto para o estudo.

Depois de alguns anos, começou a perceber que as escolas normais estavam mal organizadas, que os métodos eram péssimos e sacrificavam todas as possibilidades que a natureza, generosamente, tinha distribuído à maior parte das crianças. Passou a ter um grande interesse pela educação. Em 1907, abriu a primeira Casa dei Bambini, com instalações que ficavam muito aquém das que hoje se exigiriam numa escola bem montada, mas que davam à Montessori toda a possibilidade de fazer as suas experiências.Em 7 de Abril, inaugurou-se a segunda, pouco depois uma terceira; as perspectivas eram brilhantes, porque a escola possuía já 400 prédios, e 400 escolas Montessori seriam mais que o bastante para impor o método a toda a Itália e depois ao resto do mundo; os educadores começavam a chegar a Roma e a visitar as Case dei Bambini, regressando

entusiasmados com o que se conseguia fazer: falavam de crianças novas, de inteligência, de correção que Maria Montessori soubera criar; nas escolas que iam montando noutras cidades, os professores mais audaciosos guiavam-se todos pelas normas montessorianas, que vinham aprender nas visitas nas Case . Teresa Bontempi introduziu-as na Suíça, e as escolas infantis deixaram Froebel por Montessori; pouco depois, fundou-se uma escola na Argentina e, em 1910, o método penetrou nos Estados Unidos; em 1911, abriu-se uma escola em Paris e, em 1913, constituiu-se na Inglaterra uma sociedade Montessori. Ao mesmo tempo, duas sociedades, uma de Milão, outra de Roma, ofereceram-se para fabricar o material necessário, e a baronesa Alicia Franchetti pagava a primeira edição da Pedagogia Científica, em que Maria Montessori expunha os princípios e a didática do seu método; em 1911, devido aos esforços de Maria Maraini Guerrieri, o .método Montessori era adotado nas escolas primárias da Itália. Disponível em

<http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/sanderson/ vida_e_obra_montessori.htm>. Acesso em 09-11- 2011

Por não ter encontrado documentos escolares que fornecessem elementos sobre as práticas educativas do Chapelinho Vermelho e do Externato Delgado de Carvalho, procurei obter conhecimento sobre o cotidiano da instituição através de relatos orais de familiares e entrevistas com ex-alunos e professoras. A fonte oral, como metodologia, “nos possibilita ter uma melhor compreensão do presente, bem como permite apreender a realidade - presente e o passado - pela experiência e vozes dos atores sociais que as viveram”, (SOUSA, 2006).

Verena Alberti (2007) diz ainda que as fontes orais tornam-se capaz de transmitir uma experiência coletiva, uma visão de mundo tornada possível em determinada configuração histórica e social (ALBERTI, 2007, p. 163).

No momento em que fui entrando em contato com ex-alunos e com familiares da educadora, me surpreendi, não apenas com seus relatos, mas com os cadernos escolares que alguns alunos haviam guardado como símbolo de reminiscência da sua vida escolar na infância. Como diz Mignot, são “letras trêmulas, borrões de tintas, traços vermelhos, decalques, exercícios, frases edificantes, bilhetes elogios e reprimendas - marcas da aprendizagem e do exercício da escrita” (MIGNOT, 2008, p.7).

De acordo com a pesquisadora Lucinda Coutinho (1984), a maioria das escolas primárias em Petrópolis recebia crianças a partir dos cinco anos, e o Chapelinho Vermelho recebia crianças a partir dos três anos para o jardim de infância, um atrativo para as famílias petropolitanas. Segundo relato da mãe de um dos alunos era o “único lugar para atender crianças nesta faixa etária. Na época, não tinha muito colégio só de Jardim. Acho que era o único aqui. Assim, todo mundo conhecia todo mundo” (Naíla Marins Costa, entrevista 11/10/2012).

No fim dos anos de 1950, Astrogildes Delgado de Carvalho começou a se destacar no cenário educacional de Petrópolis, passando a ser reconhecida por um estilo de trabalho com as crianças pequenas, em que procurava transmitir os preceitos cristãos fazendo-os conviver com toda uma série de metodologias e princípios pedagógicos dotados de um viés inovador. Sua maneira de ser, sua seriedade e competência pedagógica contribuíram para que as famílias se interessassem em matricular seus filhos no Jardim de Infância, o que pode ser percebido através de uma entrevista com uma mãe de aluno:

Ela era uma leoa, uma guerreira. Era uma pessoa muito especial, ela era mansa, altiva. (...) conduzia a escola com calma, muita precisão às coisas. Todos se respeitavam; alunos, professores. As reuniões de pais eram uma grande família.

(Naíla, entrevista, 11/10/2012).

A escola Chapelinho Vermelho, no período de 1948 a 1950, se organizava através da

divisão das crianças em pequenos grupos na faixa etária de 3 a 5 anos, desenvolvendo atividades que estimulassem o processo cognitivo, motor, social e a autonomia, juntamente com atividades que despertassem na criança a ideia da natureza como expressão divina e de amor a Deus. A proposta educativa de Didinha neste primeiro momento, dá indícios de que dialogasse com os fundamentos teóricos de Froebel e Montessori, conjugando a dimensão da criatividade infantil com a valorização da natureza do “ser como obra de Deus”. As ideias centrais do pensamento educacional desses educadores estavam entre os primeiros a considerar o início da infância como uma fase de importância na formação da pessoa. As mesas e cadeiras do Chapelinho Vermelho seguiam um padrão de mobília escolar que fosse proporcional às crianças, inspirando-se em Maria Montessori.

No Chapelinho Vermelho, a criança era estimulada a ficar livre para expressar sua natureza interior, desenvolver seus interesses e brincar. Um dos exemplos dessa proposta era o aproveitamento do “Bosque da Vida”, um quintal ao fundo da casa, onde as crianças passeavam, em contato com a natureza e valorizam as criações de Deus. Os piqueniques, as brincadeiras de faz de conta, os teatrinhos e outras atividades que eram oferecidas às crianças supõe-se terem tido embasamento nos princípios de Froebel, apresentados em seu livro A educação do homem33

A natureza, de acordo com a doutrina humana, deve manifestar-se mediante o intercâmbio vivo entre os dois - a unidade de lei que existe entre a natureza e o homem. Por meio da educação, apresentada em sua totalidade - isto é, como ensino, doutrina e educação propriamente dita -, o homem deve levar de uma forma magnânima à sua consciência e à atividade de sua vida o sentimento de que ele, assim como a natureza, procede de Deus, depende de Deus e em Deus encontra seu apoio e descanso. Deve, também, a educação conduzir o homem a uma clara visão de si mesmo, da natureza, da sua união com Deus. Deve elevar-lhe o conhecimento de si mesmo, o conhecimento de Deus e da natureza e, mediante esse conhecimento, conduzi-lo a uma vida pura e santa. Porém, para chegar a tudo isso, a educação deve fundamentar-se e repousar sobre o interior e o mais íntimo da personalidade.

(FROEBEL, 2001, p.24)

Essas ideias, ligadas à questão transcendental, alimentaram a prática de Didinha, o que é explorado, posteriormente, em sua obra intitulada Treinamento para educadoras de Centros Infantis (1981, p.5), quando diz que “a educação só será completa se for global, isto é realizada de tal forma, que compreenda o todo da criança, ou seja, bio-psico-social, e eu direi, com muito empenho transcendental”) Sublinhando a imagem transcendental do

“Bosque da Vida”, uma das ex-alunas do Chapelinho escreveu, no seu caderninho, o

33 A Educação do Homem de Friederich Froebel( 1826) . O primeiro acesso à essa obra ocorreu através da edição espanhola, no inicio do século XX( 1913). No Brasil, a professora doutora Maria Helena Camara Bastos foi quem realizou a tradução e editou em 2001, através da editora Passo Fundo.

código de honra do Chapelinho (CARVALHO, 1981,p.5).

Chapelinho ama a Deus Senhor e Criador de todas as coisas.

Seu guia no “Bosque da Vida e cumpre a sua lei”.

Nossa Vida é um bosque O Bosque do Chapelinho Vivemos na linda natureza de Deus.

O Chapelinho tem por melhor companheiro e amigo o Menino de Jesus e o tem sempre O bom Jesus o Bom Jesus é nosso guia Nosso amor nosso amor nossa alegria Junto dele junto Dele nós

brincamos aprendemos e cantamos

O Chapelinho respeita e quer bem ao seu anjo da guarda e porta-se sempre de modo a não o entristecer Nosso Anjo é nosso amigo pelo bosque nos conduz

Nos defende nos perigos e nos mostra a Santa Luz!

Vivemos no Bosque da Vida estudando e amando os reinos da Linda Natureza de Deus.

O reino encantado dos vegetais:

A planta é um ser que nasce, vive, cresce, senti e morre. A raiz suga do solo o alimento necessário a vida da planta. Este alimento transforma-se.

Este alimento transforma-se em seiva que leva a vida a planta percorrendo tubos tão finos como um fio de cabelo.

A planta respira pelas folhas oxigênio do ar durante a noite e expelindo durante o dia.

Sabemos como é formada a planta, mas não somos capazes de criar nenhuma delas. So um ser infinitamente sábio pode criar alguma coisa. Só Deus é criador. Como é linda a natureza que Deus criou.

O Chapelinho é leal diz sempre a verdade mesmo sabendo que ira ser castigado.

A lealdade uma das florinhas da alma que mais agrada ao menino Jesus.

O Chapelinho deve ser leal porque assim será uma grande homem para servir a Deus e a Pátria.

Com nosso bosque aprendemos amar a nossa Pátria.

A bandeira é o símbolo da Pátria. Devemos ama-la e respeita-la.

O verde é a cor que representa as nossas matas.

O amarelo nosso ouro, nossa riqueza.

O azul o nosso céu que nos lembra a nossa Pátria Celeste.

O branco paz que leve existir em nossos corações e nas consciências dos Brasileiros.

Viva nosso querido Brasil.

Arquivo Pessoal – Código de honra do Chapelinho34.Caderno de Maria Célia Delgado de Carvalho, Colégio Chapelinho Vermelho, em 1963

Observa-se que são nomeados como “Chapelinho” os alunos da escola. Neste código, podemos perceber que a educadora tinha uma preocupação em transmitir para as crianças princípios católicos, mostrando-lhes que a natureza é obra de Deus. Percebemos neste código, preceitos morais, associados a um viés patriótico, também são observados.

Podemos perceber a partir desse “Código de Honra do Chapelinho”, que as ideias pedagógicas de Didinha, presentes no início de seu primeiro jardim de infância, dialogavam com o pensamento de Froebel, principalmente, no que se refere a “idealizar” um jardim de infância, que tinha como princípio estimular o interesse da criança, proporcionar aprendizado de acordo com as suas pontecialidades, adaptar a criança ao ambiente e realizar sua

34 Código de Honra do Chapelinho Vermelho escrito pela ex-aluna Maria Célia Delgado de Carvalho. Foi transcrito como encontrado em seu caderno.

integração social.

Froebel foi o fundador dos jardins de infância, destinados a crianças menores de oito anos, na Alemanha do século XIX. Viveu numa época de mudança de concepções sobre as crianças e esteve à frente desses processos na área pedagógica. Considerava a educação infantil como indispensável para a formação da criança. Para ele, o objetivo das atividades no jardim de infância era possibilitar brincadeiras criativas, consideradas o primeiro recurso para o caminho da aprendizagem. O brincar não apenas era proposto como uma diversão para criança, mas como um modo de criar representações do mundo concreto, com a finalidade de entendê-lo, com base na observação das atividades dos pequenos com jogos e brincadeiras, Froebel foi um dos primeiros pedagogos a falar em auto- educação35, conceito que só foi difundido no início do século XX no Brasil graças ao movimento da Escola Nova, que preconizava uma nova concepção de educação, segundo a qual é o educando, com seu interesse, suas aptidões que deve ser o centro da ação pedagógica. Os princípios escolanovistas, apontavam para o ensino baseado nos interesses espontâneos da criança, procurando associar o trabalho intelectual com atividades de desenho, música e trabalhos manuais envolvendo a maior diversidade possível (VEIGA, 2007).

Esses princípios estavam presentes na proposta educativa da escola Chapelinho Vermelho, o que é sugerido em vários relatos obtidos, entre os quais o de uma das ex-alunas e filha mais nova da educadora. A escola deixou muitas lembranças, principalmente no que se refere ao teatro de fantoches, em que as histórias contadas por Didinha eram dramatizadas pelas crianças. Em seu relato, podemos perceber o quanto a escola marcou a sua vida.

Ah! Tem uma coisa muito legal que eu lembrei agora, que eram os teatros de fantoches! Nossa! As histórias eram maravilhosas, eram de babar. Ela tinha o Zé da Roda Fina que não comia vitamina. Era muito legal, porque ao mesmo tempo que era uma historinha de criança, você vê que essa frase já tem um compasso, um ritmo que é muito legal, é uma música. (Maria Celia Delgado de Carvalho, Entrevista 10/07/2012)

35 A infância de Froebel foi determinante para a sua vida e impregnou, igualmente na sua pedagogia.A orientação de sua vida foi uma incessante observação de si mesmo, uma introspecção pessoal e uma autoeducação, atitude que constituiu sua auto didática. ( BASTOS,p.8.2001)

Figura 36 – Alunos do Chapelinho Vermelho, Petrópolis, 1959.

Arquivo pessoal de Astrogildes.

Na mesma direção das lembranças de Maria Célia, podemos observar, nesta fotografia, os chapéus e as roupinhas das crianças representadas com os alimentos, tais como, repolho, cenoura, laranja etc. Didinha criou uma história, intitulada Dona Vitamina, em que as crianças dramatizavam, usando roupas que representavam frutas e legumes.

Olhem minha amiga d. Josefina. Ela é gordinha e forte. Suas faces rosadas, suas pernas bem grossas e seu rosto redondinho como uma bola e corado como uma maçã. D. Josefina vai contar a vocês sua história.

Bom dia, amiguinhos, como vão vocês? Têm sido obedientes e bem educadas? Na certa, vocês estão achando engraçado que eu, sendo tão forte, tenha o nome de Josefina, não é? Pois eu vou explicar. Na verdade, eu era magrinha e fraca e vivia muito triste com a sorte, quando, um belo dia, encontrei no caminho a comadre Cenoura que me falou.

- Comadre Josefina, você precisa de umas pernas fortes que ajudem a andar firme e com força. Se você quiser, eu empresto as minhas. E me deu um copo de delicioso refresco de cenouras.

Eu já estava caindo de fraqueza e aceitei com prazer. Mais adiante, encontrei d. Laranja, que teve pena de meu corpo cansado e disse:

-Você quer meu corpo redondo?-

Quero, respondi animada, e fui andando e chupando a laranja. Enquanto andava, fui sentindo mais forças. Lá adiante, encontrei seu tomatão, bochechudo e alegre.

- Que pernas fortes e que corpo gordo, d. Josefina!

Só falta agora eu lhe ajudar. E pronto, saltou pro meu pescoço e me ofereceu um pequeno copo de suco de tomate. Ia eu muito contente, quando baixando os olhos para ver como estava bonita, dei com os meus olhos caídos e finos e ia ficando triste outra vez, quando duas bananas se penduraram em meus braços, e eu senti na boca um gostinho delicioso. Corri para a casa muito satisfeita e procurei olhar no espelho. Como eu estava bonita, bem disposta, alegre, com forças para pular e dançar!

Só falava uma sainha franzida... E pronto!

Quatro folhinhas de alface vieram dançando, dançando, em volta de mim e formaram esta linda sainha verde.-

Mas sabem de uma coisa? Eu resolvi mudar de nome. Já não me chamo Josefina, pois deixei de ser... fina, agora meu nome é... adivinhem vocês!

Isto mesmo que vocês estão pensando: dona Vitamina”. (História criada por Didinha. CARVALHO, 1978, p.66)

Nas atividades propostas, Didinha procurava tanto mostrar para as crianças a importância dos alimentos, como também despertar o seu gosto pelos legumes e frutas e reforça a importância destes como “obra da criação”. Ela acreditava que, “dando a ela estímulos mais variados e sugestivos de materiais para todas as atividades, ela [a criança]

aprende com mais facilidade” (CARVALHO, 1978, p. 60).

Ainda sobre a vivência das crianças no jardim de infância, me reporto à pesquisadora Tizuko Kishimoto (1999), que, em sua pesquisa, Froebel e brincadeira, apresenta o educador alemão como um filósofo do período romântico, que acreditou na criança, enalteceu sua perfeição, valorizou sua liberdade e propôs a expressão da natureza infantil por meio de vivências e brincadeiras espontâneas e livres. Para a pesquisadora, esses jogos desenvolvidos livremente pela criança contribuem para o desenvolvimento na esfera cognitiva, social e moral (KISHIMOTO, 1999, p. 102)

Froebel, ao mesmo tempo em que pensou sobre a prática escolar, se dedicou a criar um sistema filosófico que embasasse sua pedagogia. Para ele, a natureza era a manifestação de Deus no mundo terreno e expressava a unidade de todas as coisas. Da totalidade em Deus, decorria uma lei de convivência dos contrários. Isso tudo levava ao princípio de que a educação deveria trabalhar os conceitos de unidade e harmonia, pelos quais as crianças alcançariam sua própria identidade e sua ligação com o ser transcendental.

A importância do autoconhecimento não se limitava à esfera individual, mas seria ainda um meio de tornar melhor a vida em sociedade. Para o pensador, a natureza continha um sistema de símbolos conferidos por Deus, sendo, portanto, necessário desvendar tais símbolos para conhecer o que era o espírito divino e como ele se manifestava no mundo.

Segundo o educador, a criança trazia em si a semente divina de tudo que havia de melhor no ser humano, cabendo à educação desenvolver esse germe e não deixar que perecesse.

Didinha, em seu livro Treinamento para educadoras de Centros Infantis (1981), fala sobre a relação entre educação-criança- Deus, reforçando a ideia de transcendentalidade na sua proposta pedagógica, utilizando inclusive trechos da Bíblia que davam legitimidade ao seu discurso. Para ela, o homem devia habituar-se, desde criança, a “ver Deus nas suas obras”.

A Bíblia é um livro inspirado pelo próprio Deus. Só nos cabe, como educadoras, ouvir sua voz, apresentando a nossas crianças meios e modos para elas descubram, através de suas próprias obras, sentindo, na vivência do dia a dia, o poder do Criador manifestado na natureza: nos astros, nas plantas, nos animais, nas estações do ano e em nós mesmos, como obra aperfeiçoada que contém em si uma parcela do próprio Deus. É essa vivência que levará a sentir que existe alguém que sabe mais que o papai, a mamãe, a educadora. Nosso papel consiste principalmente, em não deixar

passar ocasiões propícias para enriquecer as experiências que podem tornar evidente a presença do criador em suas obras, todas feitas por nós, porque ele nos quer bem, como um Pai amoroso.(CARVALHO, 1978, p.5)

Percebe-se, neste fragmento, elementos que estiveram presentes nos primeiros anos de seu trabalho, em que fundamentava-se nos preceitos católicos encontrando, ainda, inspiração na filosofia de Froebel, principalmente no que se refere aos estudos relacionados à criança, natureza e Deus. Para Froebel (2001, p.98):

A natureza confirma que Deus nos ensina; o que nasce da consideração do interno se patenteia na contemplação do exterior. O que a religião demanda, cumpre-o a natureza, porque a natureza, como todo o existente, não é outra coisa, senão a revelação de Deus.

Ao filosofo assinala, ainda, que é preciso que o homem, desde a sua infância, acostume-se a conviver com a natureza, “considerando-a não em seus fenômenos e formas particulares, mas como manifestação geral do espírito divino que nela vive e sobre ela paira” (FROEBEL, 2001, p.103).

Vimos que, ao longo da trajetória profissional de Didinha, esses fundamentos serviram de referência para que se desenvolvesse uma metodologia específica de viés católico para trabalhar com crianças na faixa de três a cinco anos. Essa marca de seu trabalho talvez tenha contribuído para a uma procura cada vez maior que pode ser observada em sua escola.

Figura 37 – Alunos do Externato Delgado de Carvalho, Didinha, no centro da foto, e as professoras Regina Bourroud, de inglês, e Maria Carmem Mattos, de música, em frente à casa onde ficava a escola. Petrópolis, 1962.

Arquivo pessoal de Paulo Edny Chedier.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 83-91)