Figura 38– Carta de Didinha ao professor Delgado, escrita em papel timbrado do Externato (frente). Petrópolis. Arquivo
Figura 39 – Carta de Didinha ao professor Delgado, escrita em papel timbrado do Externato verso). Petrópolis. Arquivo
Meu querido Dad36,
Mandei fazer este cabeçário e venho estreiá-lo escrevendo umas palavrinhas a você que foi é e será sempre o idealizador do nosso Externato Delgado de Carvalho.
Não acha que ficou bem distinto?
Já tenho 95 alunos. É pena que eu tivesse que dispensar os alunos do 4º ano para serem o 5º o que acarretaria prejuízo mantendo para eles uma professora. Em breve, si Deus quiser chegaremos aos 100 alunos.
Gostei de saber que o Sr Bispo esteve aí. Soube que ele gostou da visita que lhe fez.
Quero trazer-lhe aqui o meu mais carinhoso abraço de parabéns pelo seu aniversário com os votos de saúde e muita coragem para enfrentar a vida.
Deus o abençoará com graças muito escolhidas.
Envio-lhe também o abraço do Carlos Alberto, embora não tenha falado a ele na data para não emocioná-lo.
Um beijinho carinhoso da filha que muito o quer”
Didinha
O nome Externato Delgado de Carvalho, portanto, foi uma homenagem ao historiador e signatário do movimento dos Pioneiros da Educação, Carlos Delgado de Carvalho. A escola pareceu ser reconhecida na cidade de Petrópolis, como instituição promotora de uma educação de qualidade, caracterizada pelos princípios católicos, embora recebesse crianças de todos os credos. Embora Carlos Delgado de Carvalho não fosse católico, apresentava-se como agnóstico, em vários momentos, Didinha realizou tentativas para que ele se convertesse.
A educadora tentava de diversas formas mostrar a importância de se estar em comunhão com os princípios da fé católica, fundamentos que, segundo entendia, deveriam fazer parte da vida de um “verdadeiro cristão”.
O atendimento ao segmento da pré-escola e escola primária Externato Delgado de Carvalho, contribuiu para a afirmação da identidade profissional da educadora. Seu trabalho proporcionou um novo olhar para o segmento da primeira infância. Sua metodologia, tendo como foco o desenvolvimento integral da criança, foi também marcada por aproximações em relação aos princípios escolanovistas, presentes nos debates da educação brasileira que desde os anos de 1920. Essas aproximações oportunizaram a educadora desenvolver atividades que apostavam na capacidade de pensar da própria criança, tomando como ponto de partida o seu universo e a sua experiência. Procurou sempre trabalhar com as crianças a partir dos objetos concretos, do cotidiano, mas nunca se distanciando do catolicismo como referencia básica. Essa relação entre os princípios escolanovistas e os intelectuais católicos estavam presentes nos primeiros debates entre os intelectuais da educação.
36Dad era uma forma carinhosa com o qual Didinha se dirigia ao Delgado de Carvalho, indicando que o identificava como pai.
A sedução nos anos 1920 exercida pela “moderna pedagogia”, era grande, pois seus métodos, centrados na atividade do aluno eram considerados mais eficientes do que os antigos. Para Marta Carvalho, a ideia de uma educação integral proposta pela escola nova exercia um “fascínio”. Tratava-se de uma leitura da literatura escolanovista em que não se fazia crítica aos objetivos instrucionais da escola, mas como postulação de uma formação integral, com ênfase na moral. Para pesquisadora, já na década de 1920, percebia-se as pretensões católicas de recuperação do poder político da Igreja e a reforma moral da sociedade abalada com a República. “Na defesa da educação integral, as pretensões católicas podiam abrigar-se, sem se explicitarem como posição particular ou antagônicas às proposições laicistas que também se firmavam no movimento”. (CARVALHO, 2003, p.105)
Encontramos, no arquivo pessoal da educadora, um vasto material didático relativo a estudos sobre o desenvolvimento da criança, onde podemos aferir que havia uma preocupação da educadora em estar sempre se aprimorando nas questões concernentes à infância e seu desenvolvimento. A aproximação, estabelecida, na década de 1950, com a educadora católica Laura Jacobina Lacombe, através de cursos de educação infantil, possibilitou a Didinha ampliar seus conhecimentos relativos à pedagogia infantil, ainda nessa busca também se dedicou ao tema da alfabetização natural, através do curso realizado por Heloisa Marinho, no Jacobina em 1959, sob a coordenação da OMEP/Brasil. Com isto, seus horizontes foram se alargando, o que nos leva a crer que a educadora, foi criando uma pedagogia própria, que, ao longo de seu trabalho, foi sendo aplicada no Jardim de Infância Chapelinho Vermelho e no Externato Delgado de Carvalho.
Num dos cadernos de seu acervo, encontrei anotações sobre o curso de que participou no Jacobina, em 1959, intitulado “A educação do homem consciente,” de Helena Lubienska de Lenval37. Neste caderno, podemos observar suas anotações, relacionadas aos princípios que fundamentavam o método de Helena Lubienska de Lenval e que estavam presentes nas práticas educativas e metodológicas da Escola Chapelinho Vermelho e Externato Delgado de Carvalho.
Para Mignot (2011) o caderno escolar se constitui em objeto que possibilita muito mais do que a simples descrição. Para a pesquisadora, ele é importante para a compreensão do passado, na medida em que guarda consigo um ritual de comunicação, capaz de
37 Helena Lubienska de Lenval era seguidora de Maria Montessori, e em sua metodologia, defendia a preparação de um ambiente em que o ser humano – principalmente a criança – pudesse aprender com liberdade. Isso não significava em sua concepção, negligência ou indiferença, e sim respeito ao desenvolvimento do ser. O aluno passava a ter seu mais profundo interesse despertado e seus momentos de atenção mais bem aproveitados pelo professor, com afeto e cuidado. Disponível em: <http://www.lubienska.com.br/lubienska/
historialubienska>. Acesso em 11-11-2012
transmitir modelos pedagógicos, a que dificilmente poderíamos ter acesso por outros caminhos. A exemplo de tantos outros, oferece a oportunidade de investigar, nos temas tratados e nas atividades propostas, as preocupações pedagógicas da educadora que influenciaram na arquitetura, no interior das salas de aula, nos pátios e nos usos do tempo escolar. “Folhear as páginas e perscrutar estas anotações possibilita, portanto, interpretar as questões que perpassaram a formação de professoras, naquele período, que, deixaram marcas nas práticas pedagógicas e na cultura material da escola”(MIGNOT, 2011,p.190)
Helena Lubienska, discípula de Maria Montessori, também reafirmou princípios filosóficos religiosos, em seu livro A educação do homem consciente (1948), no qual defende a importância de se desenvolver na criança a consciência do seu “eu” espiritual e da realidade do espírito. De acordo com a autora, tanto para o adulto quanto para a criança, a vida espiritual deve ser a vida real, e toda atividade física e psíquica deve ser a ela subordinada Ainda afirmava que se deveria fazer com que essa fé penetrasse em toda a atividade pedagógica. Para ela, a educação, fosse sensorial, fosse pelo esforço ou pelo pensamento, era, antes de tudo, uma experiência do contato com as coisas, uma experiência em função da vida do espírito. Associou a aprendizagem da criança aos valores morais, baseados no amor, no respeito ao próximo, ao meio ambiente, na harmonia do ambiente escolar, na criatividade e no brincar aprendendo (LUBIENSKA,1948, p.12).
Não há dúvida de que esses princípios, defendidos pela autora, forneceram importantes subsídios para a construção dos fundamentos pedagógicos de Didinha ao longo de seu trabalho como educadora e formadora de educadores, e estão presentes nos impressos editados por ela.
No livro A descoberta de Deus Criador pela criança ou o pré-escolar e o senso transcendental (,1978) a educadora assinala:
Não se educa o homem só para ser um bom profissional - a profissão é exercida em um curto espaço de tempo, a vida terrena - e sim para viver eternamente feliz em Deus seu Criador. O homem faz parte de um povo em marcha, em demanda dessa vida. Essa é a finalidade do ser o humano: encontrar Deus. (CARVALHO, 1978, p.9. grifos da autora)
Seguindo os princípios filosóficos de Helena Lubienska, Didinha dizia que, para que as crianças aprendessem a “amar a Deus”, era preciso encaminhá-las para atitudes religiosas, através da oração, gratidão, orações bíblicas, litúrgicas, missas (orações da Igreja), ofertas, como por exemplo, indica a atividade intitulada como o “Canteirinho de Jesus”.
Canteirinho de Jesus
As flores são obras de Deus. Vamos usá-la no “Canteirinho de Jesus”.
Finalidade: Levar a criança ao domínio da vontade, ao mesmo tempo que habituá-la a oferecer ao Pai do Céu os seus sacrifícios, suas renuncias.
O canteirinho é uma caixinha ou latinha com areia na qual as crianças colocam suas florinhas de:
Obediência: amarela.
Ex.: A mamãe me chamou e eu a ajudei.
Eu rezei direitinho: vermelha.
Emprestei meu brinquedo: azul.
Só falo nomes bonitos: verde.
Na hora da rodinha a criança coloca no canteirinho a flor que ela fez em casa ou na pré-escola. As flores são feitas de papel pela educadora e colocadas numa jarra ao lado do canteiro.
Cada fim de semana se tira as flores do canteirinho e se coloca na jarrinha para recomeçarem a encher o canteirinho na segunda-feira. Dessa maneira a criança vai exercitando o autodomínio e a exercendo sua socialização
O “Canteirinho de Jesus”, concebido por Didinha, tinha como finalidade levar a criança ao domínio da vontade e, ao mesmo tempo, habituá-la a oferecer a Deus os seus atos, era lido tanto para as crianças do jardim de infância, quanto para seus netos. Encontramos em seu arquivo um texto com orientações de como trabalhar com a criança o “Canteirinho de Jesus”.
Podemos perceber, a partir dos relatos orais e cadernos escolares do ex-alunos que estudaram tanto no Chapelinho quanto no Externato Delgado de Carvalho, que Didinha tinha uma preocupação não só em alfabetizar as crianças, como também fazê-las despertar para a dimensão do sagrado, do religioso, pois considerava que “é nesta primeira fase da vida que os sentimentos e a personalidade acentuam as suas bases e vão determiná-las por toda a vida”
(CARVALHO, 1987).
Esses princípios podem ser encontrados na pedagogia de Laura Jacobina Lacombe, em seu livro Moral Cristã e educação, quando diz que só na “moral católica, encontramos o justo equilíbrio entre os deveres individuais e sociais. O meio social exerce uma grande e mesmo, podemos dizer, poderosa influência sobre o espírito dos jovens ainda em formação”( LACOMBE, 1937, p.30).
Os preceitos católicos presentes na rotina das crianças podem ser observados em alguns materiais, como num caderno de atividades pertencente a uma ex-aluna, em que encontramos as seguintes frases: “O bom Jesus é nosso guia, nosso amor, nossa alegria, junto
dele nós brincamos aprendemos e cantamos”. Na verdade, Didinha procurava aliar esses preceitos a teorias pedagógicas e experiências bastante discutidas entre os educadores da época. Ela mergulhava nesse universo da educação, nos contatos com alguns desses educadores, em especial, nos cursos que frequentava e que registrava com cuidado, o que indica uma reflexão e criação de um método próprio, mas fortemente influenciado por tudo o que ela ouvia e anotava em seus cadernos.
Em um deles, datado de 1959, do curso A educação do homem consciente, ministrado pela educadora Helena Lubienska de Lenval, anotações relacionadas às atividades pedagógicas, inspiradas em métodos e materiais de Montessori, as crianças serem preparadas intelectual e espiritualmente para a vida. Essa preparação, segundo Lubienska de Lenval, (1948 p.31) estava relacionada à “marcha na linha, equilíbrio e domínio do corpo, lição de silêncio, domínio do espírito” Didinha, assim, apresentava, em suas anotações, o método de Lubienska:
a criança necessitava tomar conhecimento do seu “eu” corpo, para assim, desenvolver a sua sensibilidade, inteligência e vontade. Era um método de
“liberdade” para libertá-la do “banco Escolar”. Enquanto isso, o corpo está sendo dominado pelo espírito. A linha do método educa o aparelho motor, pela atenção que exige. Dar “espaço” para elas. Tentar mudar de posição, liberdade de movimentos. A criança é, por “essência”, contemplativa. É por isso que ela demora a fazer as coisas. As crianças gostam do método porque é movimentado. A criança gosta de fazer “tout seul” gosta de experiência própria. (Caderno de Didinha, 1959)
O método de Lubienska de Lenval tinha como princípio fazer com que a criança tomasse consciência do seu “eu”, corpo, sensibilidade, inteligência e vontade. E ainda, buscava ter uma “estreita relação com a Bíblia e a liturgia católica”. (SAVIANI, 2008, p.
302)
As ideias pedagógicas de Lubienska e Montessori passaram a influenciar as escolas católicas de concepção humanista. Entre elas, o Colégio Notre Dame de Sion em Petrópolis.
Márcia Alamino, em seus estudos sobre esta escola, aponta que, apesar de não terem sido encontrados registros que confirmassem o programa para os cursos do Pré-Primário e Primário, depoimentos de ex-alunas confirmaram que, na década de 1960, foi introduzido o método Montessori trazido por Padre Pierre Faure38 que introduziu o Método
38 Padre Pierre Faure criou o Educational Studies Center (Paris) e trabalhava para algumas revistas ligadas à educação. Em 1940, organizou cursos e sessões educacionais com Helena Lubienska Lenval, que o ajudou na modernização de uma série de obras pedagógicas. Em 1945, fundou a revista Pédagogie, da qual foi diretor até 1972. Em 1949, fundou um segunda escola normal em Neully, associado ao primeiro, o Centre de
Formation Pédagogique, até hoje ativo. Já como responsável pelo departamento de psicopedagogia e metodologia da Universidade Católica de Paris, em 1963, foi nomeado diretor dos cursos básicos de formação
Montessori-
Lubienska no Brasil, apoiado pela Igreja Católica, que em conflito com movimento da educação Nova, organizou as semanas da Educação em 1955,1956 e 1957 no Rio de janeiro. A partir de 1958, retornou diversas vezes ao país para preparar professores para atuarem nas escolas que adotariam o método. De acordo com Márcia Alamino, coube ao colégio Sion ser uma das escolas pioneiras na aplicação dessa pedagogia, mesclando o respeito à individualidade e o desenvolvimento dos sentidos da Montessori com o desenvolvimento do ritmo e a conscientização do corpo e espírito da Lubienska.(ALAMINO, 2008, p. 83)
As ideias de Montessori e Lubienska de Lenval serviram de diretrizes para o trabalho pedagógico desenvolvido por Didinha na escola Chapelinho Vermelho e Externato Delgado de Carvalho.
Assim como no caso de Froebel, as teorias de Maria Montessori pautavam-se numa concepção de educação que privilegiava formação integral do jovem, “uma educação para a vida”. Com formação originalmente em medicina, Montessori dedicou-se à educação. Sua filosofia e métodos procuravam desenvolver o potencial criativo desde a primeira infância, associando-o à vontade de aprender - conceito que ela considerava inerente a todos os seres.
Helena Lubienska de Lenval, seguindo os princípios de Montessori, dava ênfase aos conteúdos matemáticos, trabalhando com as quatro operações, utilizando materiais sensoriais, como cilindros, barras, prismas, encaixes planos, caixas de som, quadro para laços. Como lembra um ex-aluno da Escola Externato Delgado de Carvalho, Carlos Pereira,
Existia em uma das salas “muitos quadros com tecidos e tinha para você aprender a dar laço, para você fechar coisa com pressão. Eram quadrados de madeira com tecido metade e metade, e você emendava com várias formas diferentes. Dar laço de sapato, passar fitas por ilhoses” (depoimento, Carlos Pereira, agosto, 2012).
Os materiais desenvolvidos por Montessori estiveram presentes na escola de Didinha, entretanto, à medida que iam sendo aplicados com os alunos, às crianças a educadora percebia as dificuldades do método, e com isto, passaram a ser readaptado e modificado de acordo com as necessidades de suas crianças. Como relata a professora de inglês que trabalhou no Externato Delgado de Carvalho, “não era tudo Montessori, não.
para os educadores, o Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Paris. Em 1971, criou uma associação internacional que reúne profissionais do ensino, inspirados por seu pensamento:
(AIRAP). Graças a esta parceria, a sua ação pedagógica foi multiplicado por membros integrados a ele e cujos representantes já estão em muitos países. Todos eles tentam promover uma pedagogia que visa à formação integral da criança e do adolescente de hoje, em uma perspectiva espiritual e humanista, personalista e comunitária.(http://www.periodicoelsur.com/noticia. Acesso em 28.09.2013)
Era mais ou menos um método que ela usava de pesquisa dela. Não tinha um método que fosse... específico.” (Regina Baroud , depoimento, 2012).
Podemos aferir que Didinha foi, ao longo de sua trajetória construindo uma prática pedagógica voltada para os interesses das crianças, mas não perdendo a sua origem de educadora católica. A preparação para a escrita era feita através de material sensorial em que as crianças tinham contato com o alfabeto móvel e as letras de lixa. Esse material foi explorado no Externato Delgado de Carvalho, nas turmas de pré-alfabetização como é lembrado por um dos alunos entrevistados.
Passava o dedo na lixa para fazer o contorno das letras. Memorizava o formato das letras e o tato. Usávamos a memória audiovisual, usávamos o terceiro sentido. Ainda na matemática, eram usados os bastões coloridos para somar e diminuir. Era uma forma muito palatável. (Henri Costa, depoimento, 05/09/2012)
Ao logo de seu trabalho como diretora da escola Externato Delgado de Carvalho, a educadora percebeu que tinha necessidade de obter mais conhecimentos relacionados à alfabetização, leitura e escrita, para orientar as suas professoras, uma vez que o método de Montessori, que estava sendo aplicado, era difícil para algumas crianças, como indica Maria Célia Delgado de Carvalho, filha de Didinha e ex-aluna, em seu relato sobre sua experiência de aprendizagem:
Ela começou a tentar aplicar a Montessori, que ela comprou todo o material e que ela não ficou satisfeita com o resultado. E realmente, pra mim era confuso. Eu ficava confusa. Tinha umas letrinhas de plástico, uns números de plástico. Você aprendia a manusear aquilo, mas eles eram todos parecidos, todos da mesma cor, todos recortadinhos... Então, eu ficava meio confusa com aquilo. O que eu achava legal era os da matemática que eram uns negocinhos, umas reguinhas divididinhas e tal...
Aquilo eu achava legal. (depoimento, 10/07/2012)
Didinha mostrava ter consciência de que a ampliação e a continuidade de seus estudos era importante para melhorar o atendimento às crianças de sua escola. Em 1959, tomou conhecimento dos cursos de formação para professoras pré-primárias e primárias, desenvolvidos pela Organização Mundial de Ensino Pré-Escolar (OMEP), como o d Alfabetização Natural, ministrado por Heloisa Marinho e Maria de Lourdes Pereira. Nesse curso, a educadora teve a possibilidade de aprimorar seus conhecimentos, principalmente sobre alfabetização, uma das maiores preocupações dos educadores naquele momento da história da educação pré-escolar no Brasil, tema que será aprofundado no capítulo seguinte referente à OMEP. Com isto, Didinha foi dialogando e aprofundando sua reflexão sobre as temáticas relativas à infância e, ao mesmo tempo, estreitando os laços de relacionamento com a professora Laura Jacobina Lacombe,
personagem importante nesse novo contexto da história da educação infantil no Brasil.
Iniciava-se, naquele momento, evidentemente estimulada pelo seu sogro, Carlos Delgado de Carvalho, uma experiência de participação em uma rede rede de sociabilidade, que se desdobraria na participação de Didinha na OMEP, a partir de 1970, como veremos no capítulo IV.
A partir desse curso, Didinha expandiu seus horizontes pedagógicos, mesclando aquilo que já conhecia e fazia, a partir de Froebel, Helena Lubienska de Lenval e Montessori,com os novos conhecimentos, o que reforçava a tendência a desenvolver uma metodologia própria. Para tal, muito contribuiu o Método Natural de leitura e escrita, elaborado por Heloisa Marinho. Num dos cadernos de seu acervo, encontramos todo o material do curso sobre o método desse curso como podemos observar nesta primeira folha.
Este método foi utilizado pela educadora para alfabetizar as crianças que estavam matriculadas no Externato Delgado de Carvalho.
O método se fundamentava a partir de interesses e atividades espontâneas da criança, em exercícios programados e necessários à aprendizagem da leitura e da escrita. Heloisa Marinho, em seu livro vida educação e leitura: Método Natural de Alfabetização (1976), mostra que a linguagem oral da idade pré-escolar brota da própria vida e, no dia a dia, se enriquece com novas experiências, novas ideias. Para a pesquisadora, o ensino a linguagem oral no lar naturalmente se integra em situações de vida. Utilizando o mesmo processo, deve a escola programar o ensino da linguagem oral e da escrita relacionada aos interesses infantis (MARINHO, 1976, p.83).
Aristeo Leite (1997), em sua pesquisa sobre Heloisa Marinho, assinala que ela foi considerada a educadora de quase todas as educadoras de jardim de infância, na cidade do Rio de Janeiro, no período de 1934 a 1978. Sua ação formadora e capacitadora desenvolveu o entendimento de que a formação de educadora era uma estratégia de melhoria da educação infantil do Rio de Janeiro.
O Colégio Bennett, a Universidade de Chicago e o Instituto de Educação do Rio de Janeiro foram os espaços por onde a professora Heloísa Marinho circulou. A partir de 1934, Heloísa Marinho passou a exercer o cargo de Assistente de Psicologia Educacional na Escola de Professores do Instituto de educação –IERJ- cujo diretor da cadeira era o professor Lourenço Filho.
Durante dois anos, Heloísa Marinho trabalhou junto com Lourenço Filho, que a encarregou de dirigir os grupos de discussão e trabalhos práticos no curso de Formação de Professores Primários do Estado do Rio de Janeiro. Ainda nesse mesmo período, o