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Cadernos... Marcas de uma época

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 40-46)

Figura 12 – Caderno de enxoval de casamento, Petrópolis, 1937. Arquivo pessoal de Astrogildes.

A escrita tem seu lugar privilegiado, pois possibilita tecer a memória da família, numa determinada época. Os cadernos, bilhetes, que foram guardados por pessoas comuns, significam, segundo Mignot (2003) “iluminar a escrita ordinária”. Artesanalmente confeccionados ou vendidos em livrarias, esses cadernos marcam ritos de passagem, nos quais o universo doméstico é palco de encenações. Para autora, olhar papéis guardados por pessoas comuns, neste caso folhear o caderno, é um convite para leituras diversas. Trata-se de fios que tecem a memória de uma família, uma instituição, uma época (MIGNOT, 2003, p. 21).

Para os pesquisadores, manuseá-los significa iluminar a escrita ordinária dos incontáveis atores que se utilizam de suas folhas, linhas ou margens. São papéis que fornecem algumas pistas passíveis de investigação sobre a escrita íntima, despertando relações entre memória, escrita, sociabilidades, redes de poder, cotidianos, cultura escrita e arquivamento. A mesma autora discute a historicidade desse suporte de escrita e a necessidade de preservar esses materiais como importantes objetos e fontes de pesquisa (MIGNOT, 2008) e, segundo Maria Teresa Cunha (2013), sem dúvida seu trabalho pioneiro na área criou as condições para discutir esse objeto em situação de história.

Nos quatro cadernos referentes aos retiros vivenciados por Didinha, percebemos indícios de sua fé, oriunda de sua formação católica, iniciada no seio da família e aprofundada durante os anos vividos como aluna do Colégio Santa Isabel. Neles, encontramos reflexões e orações manuscritas. Sua experiência como participante de retiros espirituais registrados nos cadernos já era um indicativo de uma identidade católica

consolidada. Nos retiros, eram transmitidos valores, normas morais e regras de conduta, o que serviu de alicerce para a sua formação religiosa, deixando marcas em sua vida pessoal e profissional.

Figura 13 - Caderno retiro espiritual das mães cristãs, 1953. Arquivo pessoal de Astrogildes.

No caderno de retiro espiritual das mães cristãs, no colégio Notre Dame de Sion, em 1953, podemos perceber o cuidado que Didinha teve ao elaborar uma singela capa de pano com bordado de flores, que dá impressão de ter sido confeccionado por ela (Figura 8).

A partir do ano de 1955, seus cadernos passam a registrar os cursos de jardim de infância que fez no Rio de Janeiro, sua prática docente, as metodologias de ensino voltadas para a pré-escola, assim como cursos sobre Montessori, sobre a Alfabetização Natural de Heloisa Marinho e sobre a educação do homem consciente, ministrado por Helena Lubiesnka de Lenval. Percebi, em suas anotações, a preocupação em desenvolver na criança a consciência do seu “eu” espiritual que tende para Deus. Ela relata que

nós não somos materialistas ou mesmo socialistas que visam somente ao corpo da criança. Também não somos “angelistas”, aqueles que somente visam à alma. Nós não negamos o fator corpo e acreditamos na alma porque ela é composta de alma e corpo. O intelecto também não é absoluto porque a pessoa humana é corpo, alma e intelecto. (CARVALHO, 1955)

No curso que participou sobre Maria Montessori em 1955, no Colégio Jacobina,

ficaram os registros em seu caderno, relacionados aos conteúdos matemáticos e, em especial, à proposta de metodologia de alfabetização. Marcas como essas nos permite perceber a sua preocupação em ampliar o conhecimento sobre as questões relacionadas à cultura escrita, o que, mais tarde, se revelaria como um importante destaque de sua prática como alfabetizadora. Outros temas presentes no curso sobre Montessori (1955), também registrados por Didinha, relacionavam-se com o estímulo à independência e responsabilidade na rotina, os exercícios musculares, os conhecimentos gerais, as ciências, as atividades plásticas e as artes aplicadas às crianças pequenas. Essas anotações contribuíram para o embasamento das práticas pedagógicas de Didinha como diretora e professora de escola e também como formadora de educadoras. No entanto, esses saberes nunca deixaram de se conjugar com a dimensão religiosa.

No caderno do curso de Alfabetização Natural6, ministrado por Heloisa Marinho e Maria de Lourdes Pereira, em 1959, Didinha copiou desenhos, atividades, sugestões e orientações sobre o trabalho com a alfabetização natural, que iria ser desenvolvido em sua escola nas décadas de 1950/1960 e, mais tarde, nas décadas de 1970/1980, nos cursos da OMEP, para as educadoras de pré-escola dos Centros de Educação Pré-escolar da OMEP/Brasil. Em cada página, anotava o trabalho que deveria ser desenvolvido para a aprendizagem da leitura e escrita. É importante dizer que a professora Heloisa Marinho se destacou no cenário educacional, pelo trabalho desenvolvido em diferentes instituições de ensino responsáveis pela formação de professoras e por sua produção bibliográfica sobre educação pré-escolar e alfabetização. Em seus livros7, evidenciou suas preocupações com a aprendizagem da leitura e escrita e a aplicabilidade das investigações às práticas pedagógicas da pré-escola (CUNHA, 2006).

6 O livro de Heloisa Marinho - Vida e educação no jardim de infância; Método natural de alfabetização - mostra os resultados de pesquisas científicas, realizadas pelo Centro de Estudos da Criança do Instituto de Educação do Rio de Janeiro. O Método Natural de Aprendizagem da Leitura e da Escrita aproveita a

potencialidade espiritual do sistema alfabético, relacionando-o à vida natural da criança. A proposta desse método, como diz Heloisa Marinho, “tem a sua alma no conhecimento da criança e nas condições psicológicas e sociais necessárias ao relacionamento da experiência e linguagem oral da criança com a aprendizagem da leitura e da escrita” (1976, p.8).

7 Vida e educação no jardim de infância (1952),Vida educação e leitura(1976), currículo por atividades(1978) e Estímulo essencial(1978)

Figura 14 – Capa do caderno de Didinha sobre o Método Natural de Aprendizagem da leitura e da escrita, 1959. Arquivo pessoal de Astrogildes.

Figura 15 – Registro de Didinha sobre o Método Natural de Aprendizagem da leitura e da escrita, 1959. Arquivo pessoal de Astrogildes.

As práticas pedagógicas desenvolvidas durante a experiência profissional em suas escolas, nas décadas de 1940/1960, aliadas à reflexão teórica a que se dedicou através dos diversos cursos que frequentou, credenciaram-na para atuar como formadora de educadoras para educação infantil.

Os cursos em que Didinha participou como aluna, no Jacobina, coordenados pela OMEP, no Rio de Janeiro, nas décadas de 1950/1960, permitiram-na aproximar-se de algumas personalidades do campo da educação, entre elas, Laura Jacobina Lacombe.

Quando retornou para o Rio, foi convidada para ministrar outros cursos de formação de professores do jardim de infância, em variados espaços, no município do Rio de Janeiro e em outros estados do Brasil, promovidos pela OMEP/BRASIL. Assim, foram encontrados em meio aos seus materiais, as transparências que elaborava para ministrar os cursos, em especial, os planos utilizados, nas décadas de 1970/1980 (Anexo 1). Esses materiais relativos às questões educacionais apresentavam temas como o desenvolvimento da criança, o papel do educador e a organização de um ambiente para o jardim de infância. Tais materiais permitiram perceber a sua preocupação com o desenvolvimento da criança, no âmbito social, psicológico e cognitivo.

Para melhor compreensão dos temas por ela desenvolvidos nos cursos da OMEP/1970, elaboramos uma listagem88 com os conteúdos abordados. Os temas trabalhados por Didinha, por meio desses materiais didáticos, revelavam marcas de sua trajetória profissional e religiosa, também possíveis de serem observadas através dos certificados e da linguagem registrada nos cadernos. Além disso, percebe-se que a educadora buscava conhecer as principais referências para o campo educacional da época, em relação ao desenvolvimento emocional e psicológico da criança, por exemplo, as teorias de Piaget. Ao mesmo tempo, os cursos abordavam temáticas concernentes às relações entre a mulher e os papéis de educadora e de mãe, aspecto ainda muito presente na época em questão, quando era comum a veiculação e o compartilhamento de representações que ligavam a mulher à maternidade.

8 Listagem com temas abordados em cursos de formação para educadoras de jardim de infância e pré-escola encontra-se no apêndice B.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 40-46)